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domingo, 9 de junho de 2024

Velimir Khlébnikov: Os números


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[traduzido por Trajano Vieira]

Eu vos esc [ . . . ]
E o vosso surto assume vestes quadrúpedes.
Com a mão apoiada sobre entulho de carvalho.
Ofereceis a unidade entre o móvel serpentiforme
Da coluna cósmica e a canga-dança,
Além do aval de seculamentar como os dentes
De um gargalhar relâmpago.
Minhas pupilas abrem-se videntes,
Saber o que Eu será, quando seu dividendo uni-
Ficar.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.10.81]

Velimir Khlébnikov

ЧИСЛА

Я всматриваюсь в вас, о, числа,
И вы мне видитесь одетыми в звери, в их шкурах,
Рукой опирающимися на вырванные дубы.
Вы даруете единство между змееобразным движением
Хребта вселенной и пляской коромысла,
Вы позволяете понимать века, как быстрого хохота зубы.
Мои сейчас вещеобразно разверзлися зеницы
Узнать, что будет [Я], когда делимое его единица.

[1912]

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Vielimir Khlébnikov: Herdades noturnas, gengiscantem! . . .

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[traduzido por Augusto de Campos]

Herdades noturnas, gengiscantem!
Crepitai, bétulas azuis!
Albas da noite, zaraturvem
Ao céu cerúleo mozarteante!
Goyam trevas como nuvens!
Roops* é um cirro soturno!
Voa uma tromba de risos,
Enfrento firme o verdugo,
Gargalham garras de gritos,
E em torno o silêncio escuro.
A mim convoco os valentes,
Saem dos rios os afogados,
O miosótis, estridente,
Declama a velames pardos,
Gira o eixo cotidiano,
Move-se a massa vespertina,
Nas águas da noite vogando
(Sonho) uma carpa-menina.
Mamáj**  pinhos ao vento!
Nuvens nômades de Báti!***
Como cains do silêncio
Palavras santas se abatem.
Passo tardo, cercado de tropas,
Asdrúbal azul vai ao baile das rochas.

1916


Усадьба ночью, чингисхань!
Шумите, синие березы.
Заря ночная, заратустрь!
А небо синее, моцарть!
И, сумрак облака, будь Гойя!
Ты ночью, облако, роопсь!
Но смерч улыбок пролетел лишь,
Когтями криков хохоча,
Тогда я видел палача
И озирал ночную, смел, тишь.
И вас я вызвал, смелоликих,
Вернул утопленниц из рек.
"Их незабудка громче крика",
Ночному парусу изрек.
Еще плеснула сутки ось,
Идет вечерняя громада.
Мне снилась девушка-лосось
В волнах ночного водопада.
Пусть сосны бурей омамаены
И тучи движутся Батыя,
Идут слова, молчаний Каины,
И эти падают святые.
И тяжкой походкой на каменный бал
С дружиною шел голубой Газдрубал.

[1916]

Notas do tradutor Augusto de Campos:
* O pintor e gravador belga Félicien Roops.
** O cã tártaro Mamáj (ou Mamai), cujo exército foi derrotado pelos russos no campo de Kulikovo. Essa batalha marcou o início da libertação da Rússia do jugo tártaro.
*** Cã mongólico, fundador da Horda de Ouro; invadiu a Rússia em 1236.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Vielimir Khlébnikov: O Grilo


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[traduzido por Augusto de Campos e Boris Schnaiderman]

Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos de ribeira.
Pin, pin, pin! taramela o zinziber*.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!

1908 ou 1909

Vielimir Khlébnikov

Кузнечик

Крылышкуя золотописьмом
Тончайших жил,
Кузнечик в кузов пуза уложил
Прибрежных много трав и вер.
"Пинь, пинь, пинь!"  тарарахнул зинзивер.
О, лебедиво!
О, озари!

[1908-1909]

* Nota dos tradutores: zinziver. Segundo nota do autor, passarinho que habita margens de rio.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Vielimir Khlébnikov: Uma vez mais, uma vez mais . . .


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[traduzido por Augusto de Campos]

Uma vez mais, uma vez mais
Sou para você
Uma estrela. Ai do marujo que tomar
O ângulo errado de marear
Por uma estrela:
Ele se despedaçará nas rochas,
Nos bancos sob o mar.
Ai de você, por tomar
O ângulo errado de amar
Comigo: você
Vai se despedaçar nas rochas
E as rochas hão de rir
Por fim
Como você riu
De mim.

1919-1921

Vielimir Khlébnikov

Еще раз, еще раз,
Я для вас
Звезда.
Горе моряку, взявшему
Неверный угол своей ладьи
И звезды:
Он разобьется о камни,
О подводные мели.
Горе и вам, взявшим
Неверный угол сердца ко мне:
Вы разобьетесь о камни,
И камни будут надсмехаться
Над вами,
Как вы надсмехались
Надо мной.

[1919-1921]
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей — 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Vielimir Khlébnikov: Encantação pelo Riso

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[traduzido por Haroldo de Campos]

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

1910

Vielimir Khlébnikov

Заклятие смехом
                              Op. 2.

О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!
Что смеются смехами, что смеянствуют смеяльно,
О, засмейтесь усмеяльно!
О, рассмешищ надсмеяльных смех усмейных смехачей!
О, иссмейся рассмеяльно, смех надсмейных смеячей!
Смейево, смейево!
Усмей, осмей, смешики, смешики!
        Смеюнчики, смеюнчики.
О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!

[1910]

* Nota do tradutor Haroldo de Campos: Primeira impressão Zakliátie Smékon (Encantação pelo Riso) na revista Estúdio dos Impressionistas (1910). A ortografia da época lhe enriquece a visualidade tipográfica.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Vielimir Khlébnikov: O Único Livro


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
como as mulheres calmucas todas as manhãs
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
o Volga, onde á noite celebram Rázin;
o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
e o fogoso Óbi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
lições de uma lei divina
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

1920

Vielimir Khlébnikov

ЕДИНАЯ КНИГА

Я видел, что черные Веды,
Коран и Евангелие
И в шелковых досках
Книги монголов
Сами из праха степей,
Из кизяка благовонного,
Как это делают
Калмычки каждое утро,
Сложили костер
И сами легли на него,
Белые вдовы,
В облаке дыма закрыты,
Чтобы ускорить приход
Книги единой.
Эту единую книгу
Скоро вы, скоро прочтете.
Белым блещут моря
В мертвых ребрах китов.
Священное пение, дикий, но правильный голос.
А синие реки закладки,
Где читает читатель,
Где остановка читающих глаз.
Это реки великие
Волга, где Разину ночью поют,
И зажигают на лодках огни,
Желтый Нил, где молятся солнцу,
Янтцекиянг, где жижа густая людей,
И Сена, где продаются темноглазые жены,
И Дунай, где ночами блестят
Белые люди на волнах, на лодках
В белых рубахах,
Темза, где серая скука и здания боги для толп,
Хмурая Обь, где бога секут по вечерам
И пляшут перед медведем с железным кольцом на белой шее,
Раньше чем сьесть целым племенем,
И Миссисипи, где люди одели штанами звездное небо
И носят лоскут его на палках.
Род человечества книги читатель,
И на обложке надпись творца,
Имя мое, письмена голубые.
Да, ты небрежно читаешь,
Больше внимания!
Слишком рассеян и смотришь лентяем.
Точно урок Закона Божьего,
Эти снежные горные цепи и большие моря.
Эту единую книгу
Скоро ты, скоро прочтешь.
В этих страницах прыгает кит,
И орел, огибая страницу угла,
Садится на волны морские,
Чтоб отдохнуть на постели орлана

1920
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Vielimir Khliébnikov: Números

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[traduzido por Marco Lucchesi]

Eu vos contemplo, ó números!,
vestidos de animais, em suas peles,
as mãos sobre carvalhos destroçados.
Mostrais a união entre o serpear
da espinha dorsal do universo e o bailado da balança.
Permitis a compreensão dos séculos, como os dentes numa breve
gargalhada.
Meus olhos se arregalam intensamente.
Aprender o destino do Eu, se a unidade é seu dividendo.

[1912]

Vielimir Khliébnikov

ЧИСЛА

Я всматриваюсь в вас, о, числа,
И вы мне видитесь одетыми в звери, в их шкурах,
Рукой опирающимися на вырванные дубы.
Вы даруете единство между змееобразным движением
Хребта вселенной и пляской коромысла,
Вы позволяете понимать века, как быстрого хохота зубы.
Мои сейчас вещеобразно разверзлися зеницы
Узнать, что будет [Я], когда делимое его единица.

[1912]
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções bilíngue de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Vielimir Khliébnikov: Meninas, aquelas que passam, . . . [Versos a Blok*]


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[traduzido por Marco Lucchesi]

Meninas, aquelas que passam,
calçando botas de olhos negros,
nas flores de meu coração.
Meninas que pousam as lanças
no lago de suas pupilas
Meninas que lavam as pernas
no lago de minhas palavras.

[1921]

Vielimir Khliébnikov

Девушки, те, что шагают
Сапогами черных глаз
По цветам моего сердца.
Девушки, опустившие копья
На озера своих ресниц.
Девушки, моющие ноги
В озере моих слов.

[1921]

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em Bizâncio [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], o poema ora postado está registrado com ausência do nome Versos a Blok.
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções bilíngue de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Vielimir Khlébnikov: Neste dia de ursos cerúleos . . .

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[traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

Neste dia de ursos cerúleos
a correr sobre cílios tranquilos
transvejo para além da água azul
o acordar na taça das pupilas.

Na colher de prata de olhos latos
vejo a procelária em mar sonoro
e ao largo vai a Rússia dos pássaros
transvoando entrecílios ignotos.

Marventoso em celamor soçobra
a vela de alguém na azul esfera,
e eis que o desespero tudo engolfa
trovão e porvir de primavera.

1918

Vielimir Khlébnikov

В этот день голубых медведей,
Пробежавших по тихим ресницам,
Я провижу за синей водой
В чаше глаз приказанье проснуться.

На серебряной ложке протянутых глаз
Мне протянуто море и на нем буревестник;
И к шумящему морю, вижу, птичая Русь
Меж ресниц пролетит неизвестных.

Но моряной любес опрокинут
Чей-то парус в воде кругло-синей,
Но зато в безнадежное канут
Первый гром и путь дальше весенний.

[1918]

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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей — 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Vielimir Khlébnikov: Eis-me levado em dorso elefantino, . . .

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[traduzido por Haroldo de Campos]

Eis-me levado em dorso elefantino
Palanquim no elefante virgem-fúmeo.
Todas-me-amando, novo Vixnu,
Tramam, miragem nívea, o palanquim.

Músculos de elefante, balançai,
Armadilhas de caça, magníficas,
Para que sobre a terra a que descai
Agora tombe em tromba de carícias.

Brancas miragens, vós, com manchas negras,
Mais brancas do que a flor da cerejeira.
Vossas formas fremindo estão retesas
E flexíveis como plantas da treva.


Eu, no elefante branco, Bodhisattva,
Vou como antes, tenro, pensativo.
A virgem que me vê responde grata
Com flamas que são feitas de sorrisos.

Sabei que ser o peso elefantino
Jamais, em parte alguma, foi vergonha.
Trançai-vos em cerrado palanquim,
Ó vós, enfeitiçadas pelo sonho.

Difícil imitar a pata larga.
Difícil ser o dente no seu curvo.
Cantos, coroas, santo som da flauta:
Conosco, sobre nós, o Olhiazul.

1913 (?) *

Vielimir Khlébnikov

Меня проносят <на> <слоно>вых
Носилках слон девицедымный.
Меня все любят Вишну новый,
Сплетя носилок призрак зимний.

Вы, мышцы слона, не затем ли
Повиснули в сказочных ловах,
Чтобы ласково лилась на земли,
Та падала, ласковый хобот.

Вы, белые призраки с черным,
Белее, белее вишенья,
Трепещ<е>те станом упорным,
Гибки, как ночные растения.

А я, Бодисатва на белом слоне,
Как раньше, задумчив и гибок.
Увидев то, дева ответ<ила> мне
Огнем благодарных улыбок.

Узнайте, что быть <тяжелым> слоном
Нигде, никогда не бесчестно.
И вы, зачарован<ы> сном,
Сплетайтесь носилками тесно.

Волну клыка как трудно повторить,
Как трудно стать ногой широкой.
Песен с венками, свирелей завет,
Он с нами, на нас, синеокий.

* Nota do tradutor Haroldo de Campos: Texto encontrado entre os rascunhos do poeta e estabelecido por N. Khárdjiev. Escrito provavelmente em 1913, sob a inspiração de uma miniatura indiana antiga, foi publicado somente em 1940, num livro de inéditos do poeta. O cineasta S. M. Eisenstein, que não poderia ter conhecido esses versos, impressionado com a mesma miniatura, reproduziu-a, com um comentário, em seu ensaio Montagem 1937, editado postumamente em 1964.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей,1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.