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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Juvenal Galeno: A Moda

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O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
 Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: 
Eis a minha opinião!

               Mas, vestir-se o brasileiro
               Como lhe ordena o francês...
               Não acho isto direito!
               Viver o povo sujeito
               Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

               Devemos ter nossa moda,
               Tenha a sua o japonês;
               Vista o prusso à prussiana,
               Ande o russo à russiana,
               Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

               Mas, ornar-se quem tirita
               Como quem sopra... é demais!
               Se trajarmos nos estios
               Como a França nos seus frios,
               Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Às damas puseram rabo! 
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? 

               Ou caudas... que varrem tudo,
               Cuspo, cisco e seus iguais;
               Onde passam fica enxuto...
               Não há ponta de charuto
               Que não levem... rabos tais!

E do triste ganha-pouco
Limpa a bolsa o lucifer...
Quanta vez pobre empregado
Não dá um mês de ordenado
Para... a cauda da mulher!

               Que o figurino do rico
               É do pobre o mesmo, sim;
               Ricos e pobres vestidos
               Não podem ser distinguidos...
               Quis os meios?  Eis o fim.

E as outras extravagâncias
Da moda que vem de lá?!
Ora frouxa, ora apertada,
As saias de alma penada,
Cabelos de arapoá!

               Botinas e polonaise,
               Hoje, bico — amanhã, não;
               Muitas trouxas, muitos regos,
               Babados e repolegos,
               Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Naquele horrendo pastel!

               E algumas... que medo ao vê-las...
               À gente fazem correr:
               Cobertas das trapalhadas,
               Com suas caras caiadas,
               São bichos, querem morder!

Oh, senhoras de bom senso,
Pensai um pouco... e vereis
Que das modas na loucura
Não é bonita a figura
Que, infelizmente, fazeis.

               E ver-se que a tal mania
               Domina tudo entre nós...
               Que o pobre do brasileiro
               Geme nesse cativeiro,
               De todos o mais atroz!

E dizem que somos livres...
Nós?! Escravos de Paris!
Cativos do figurino,
De um capricho libertino,
Que assim governa o país!

               Que transtorno as cabecinhas
               Dos anjos de nosso amor!
               Que nos arranca sem pena
               A economia pequena...
               Basta chegar o vapor!

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte, ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

               Já disse o suficiente...
               Às damas peço perdão!
               Apenas bato o abuso...
               Cada terra com seu uso...
               Essa é minha opinião!

Folhetins de Silvanus  1891

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Juvenal Galeno — Poesia — Coleção Nossos Clássicos nº 34, por João Clímaco Bezerra, 1959, Editora Agir, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, estudou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, para ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, leva impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872) Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II.