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[traduzido por Marcelo Lotufo]
Quando o gelo começa a trincar
por todo o espelho d’água
ou quando folhas de vitória-régia
dissecam uma simples superfície
a palavra ‘afogar’ corre através de
mim.
Você construiu um piso vítreo
que me segurou
enquanto eu me inclinava para
pescar velhos
anzóis e latas de ferro dentadas,
caules açoitando como cintos de
roupões de seda
arcanjos do lago-luz
presos na lama.
Agora você me entrega uma carta
rasgada.
De joelhos, nas cinzas, eu nunca conseguiria
juntar estes flocos despedaçados.
No táxi ainda estou tentando
montar as sílabas
traduzindo a todo vapor como uma
máquina pensante
que digita ‘monstro’ por ‘inútil’
e “abajur’ por ‘história’.
Cruzando a ponte, preciso de toda a
coragem
para confiar em cabos produzidos
por homens.
As lâminas daquela máquina
poderiam cortar você em tirinhas
mas a função dela é humana.
Será que isso é tudo o que posso
dizer sobre esses
delicados anzóis, intenções curvas
feito foices
com as quais eu e você lidamos? Eu
preferiria
provar sangue, o seu ou o meu, correndo
de um rasgo repentino, a recortar o
dia todo
com tesouras cegas em linhas
pontilhadas
como mandou o professor.
1968
On Edges
When the ice starts to shiver
all across the refflecting basin
at water-lily leaves
dissect a simple surface
the word ‘drowning’ flows through
me,
You built a glassy floor
that held me
as I leaned to fish for old
hooks and toothed tin cans,
stems lashing out like lies of
silk dressing-gowns
archangels of lake-light
gripped in mud.
Now you hand me a torn letter.
On my knees, in the ashes, I could
never
fit these ripped-up flakes together.
In the taxi I am still plecing
what syllables I can
translating al top speed like a
thinking machine
that types out ‘useless’ as
‘monster’
and ‘history’ as ‘lampshade’.
Crossing the bridge I need all my
nerve
to trust to the man-made cables.
The blades on that machine
could cut you to ribbons
but its function is humane.
Is this all I can say of these
delicate hooks, scythe-curved
intentions
you and I handle? l’d rather
taste blood, yours or mine, flowing
from a sudden slash, than cut all
day
with blunt scissors on dotted lines
like the teacher told.
1968
(Leaflets —
1969)
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Que tempos são estes e outros poemas
— edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização
e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012), estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou no Radcliffe College — bacharelou-se em Artes, foi
poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a
infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai
e incentivador nos estudos [leu Ibsen,
Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a
partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo
contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como
professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis
University, Stanford University e várias outras; suas obras: A
Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and
Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems,
1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities
of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), Leaflets
(1969), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970,
1971), Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas
1971-1972, 1973), Of Woman Born:
Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como
Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978
(Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood,
Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa
selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que
se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the
Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995,
1995), Adrienne Rich — Collected
Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta,
ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976
iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle
Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich];
premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens
Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace
Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a
recusar a National Medal of Arts
(Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo
‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill
Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio
oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do
dinheiro”.