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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Adrienne Rich: À Beira

 
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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Quando o gelo começa a trincar
por todo o espelho d’água
ou quando folhas de vitória-régia
dissecam uma simples superfície
a palavra ‘afogar’ corre através de mim.
Você construiu um piso vítreo
que me segurou
enquanto eu me inclinava para pescar velhos
anzóis e latas de ferro dentadas,
caules açoitando como cintos de
roupões de seda
arcanjos do lago-luz
presos na lama.

Agora você me entrega uma carta rasgada.
De joelhos, nas cinzas, eu nunca conseguiria
juntar estes flocos despedaçados.
No táxi ainda estou tentando
montar as sílabas
traduzindo a todo vapor como uma máquina pensante
que digita ‘monstro’ por ‘inútil’
e “abajur’ por ‘história’.
Cruzando a ponte, preciso de toda a coragem
para confiar em cabos produzidos por homens.

As lâminas daquela máquina
poderiam cortar você em tirinhas
mas a função dela é humana.
Será que isso é tudo o que posso dizer sobre esses
delicados anzóis, intenções curvas feito foices
com as quais eu e você lidamos? Eu preferiria
provar sangue, o seu ou o meu, correndo
de um rasgo repentino, a recortar o dia todo
com tesouras cegas em linhas pontilhadas
como mandou o professor.

1968

Adrienne Rich

On Edges

When the ice starts to shiver
all across the refflecting basin
at water-lily leaves
dissect a simple surface
the word ‘drowning’ flows through me,
You built a glassy floor
that held me
as I leaned to fish for old
hooks and toothed tin cans,
stems lashing out like lies of
silk dressing-gowns
archangels of lake-light
gripped in mud.

Now you hand me a torn letter.
On my knees, in the ashes, I could never
fit these ripped-up flakes together.
In the taxi I am still plecing
what syllables I can
translating al top speed like a thinking machine
that types out ‘useless’ as ‘monster’
and ‘history’ as ‘lampshade’.
Crossing the bridge I need all my nerve
to trust to the man-made cables.

The blades on that machine
could cut you to ribbons
but its function is humane.
Is this all I can say of these
delicate hooks, scythe-curved intentions
you and I handle? l’d rather
taste blood, yours or mine, flowing
from a sudden slash, than cut all day
with blunt scissors on dotted lines
like the teacher told.

1968

(Leaflets — 1969)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012), estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou no Radcliffe College — bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), Leaflets (1969), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas 1971-1972, 1973), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Adrienne Rich: Da Casa de Detenção

 
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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Sob minhas pálpebras se abriu outro olho
ele encara nuamente
a luz

que satura vinda do mundo da dor
mesmo quando durmo

Fixo, o olho observa
tudo aquilo pelo que estou passando

e mais

vê os porretes e as coronhas
subindo e caindo
vê

detalhe ausente na TV

os dedos da mulhar policial
vasculhando a buceta da jovem prostituta
vê

as baratas caírem na panela
onde as bistecas são cozidas
na Casa de D

vê
a violência
incrustrada no silêncio

Esse olho
não é para chorar
a sua visão
precisa ser límpida

embora haja lágrimas no meu rosto

sua intenção é a clareza
não pode esquecer
nada

Setembro de 1971

Adrienne Rich

From the Prison House

Underneath my lids another eye has opened
it looks nakedly
at the light

that soaks in from the world of pain
even when i sleep

Steadily it regards
everything i am going through

and more

it sees the clubs and rifles-butts
rising and falling
it sees

detail not on TV

the fingers of the policewoman
searching the cunt of the young prostitute
it sees

the roaches dropping into the pan
where they cook the pork
in the House of D

it sees
the violence
embedded in silence

This eye
is not for weeping
its vision
must be unblurred

though tears are on my face

its intent is clarity
it must forget
nothing

September 1971

(Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 — 1973)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012), estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou no Radcliffe College — bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas 1971-1972, 1973), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Adrienne Rich: Que tempos são estes

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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Há um lugar entre duas fileiras de árvores onde a grama cresce colina
acima
e a velha estrada revolucionária acaba em sombras
perto da assembleia abandonada pelos perseguidos
que desapareceram nessas sombras.

Caminhei por lá colhendo cogumelos no limite do temor; mas não se
deixe enganar
este não é um poema russo, isto não é em algum outro lugar, mas
aqui;
nosso país aproximando-se da sua própria verdade e temor,
da sua própria maneira de fazer pessoas desaparecerem.

Eu não vou dizer onde fica este lugar, a trama escura da floresta
encontrando o feixe de luz não assinalado —
encruzilhadas possuídas por fantasmas, paraíso em decomposição:
eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazer com que desapareça.

E eu não lhe direi onde fica; então por que eu lhe conto essa e outras
coisas? Porque você ainda me escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um pouco, é preciso
falar das árvores.

1991

Adrienne Rich

What Kind of Times Are These

There's a place between two stands of trees where the grass grows
uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be
fooled,
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light —
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

1991

(Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995, 1995)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 — 2012), estadunidense de Baltimore — Maryland, estudou no Radcliffe College — bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1979-1985, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.