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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Hans-Curt Flemming: observação na guerra civil

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

quando o bonde
estancou
no meio da passeata
disse um pai de família
entre os populares
“passa por cima”
e vi em seu rosto
esse rosto

não estava
nem um pouco torcido pelo ódio
estava bem normal
com essas palavras
e decidido

Hans-Curt Femming

beobachtung im bürgerkrieg

als die straßenbahn
steckenblieb
im demonstrationszug
sagte ein familienvater
unter den zuschauern
“einfach durchafahren”
und ich sah in sein gesicht
dieses gesicht

es war
keineswegs verzerrt vom zorn
es war ganz normal
hei diesen worten
und entschlossen

Ein zettel an meiner tür — 1982

* Nota dos tradutores: guerra civil — refere-se às manifestações pacíficas contra o estacionamento de mísseis de curto alcance dos EUA equipados com bombas atômicas na Alemanha Ocidental durante os anos 80. Esses protestos — onipresentes nas cidades universitárias, como a Stuttgart do autor — simbolizava para uma parte da sociedade a subversão da ordem do Estado, e, para uma outra, um ato de libertação contra a falsa normalidade da RFA e da Guerra Fria.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Hans-Curt Flemming: proposta para meu epitáfio & teve sorte


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[traduzidos por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

proposta para meu epitáfio

viveu
apenas
o tempo
que tomou
para si

 o  

teve sorte

e no mercado
um tabuleiro
com maçãs

nas quais um verme
ainda sobrevive

Hans-Curt Flemming

vorschlag für meine grabinschrift

gelebt
hat er nur
die zeit
die er sich
genommen hat

 o 

glüch gehabt

und auf dem markt
einen stand gefunden
wo es äpfel gibt

in denen ein wurm
noch überlebt
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Hans-Curt Flemming: contrabando


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

um beijo
por sobre a fronteira

quase
ficava

engatado no
arame farpado



um homem
faz um
avião com motor de gominha
voar

na aterrissagem
se quebra

mas
voou



antes do salto
a gata

baixa a proa
costas curvas
orelhas abruptas

então


Hans-Curt Flemming


konterbande

ein Kuß
über die grenze hinweg

fast
wäre er

hängengeblieben
im stacheldraht



ein mann
läßt ein
flugzeug mit gummimotor
fliegen

bei der landung
zerbricht es

aber
es ist
geflogen


 
vorm sprung
die katze

duckt sich
gebogner rücken
ohren steil

dann
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Kurt Bartsch: Natureza morta com faxineira

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Cresce a grama sobre a via morta
Aqui antes passava o bonde
De oeste a leste leste a oeste
FECHANDO AS PORTAS, PARA TRÁS
Os trilhos enferrujando, as pontes
transpõem ruas mortas, as ruas
fechadas com muros, cimento, pra
eu não cair fora, diz Trude. Nossa,
tudo isso por causa de alguém que não
sabe nada, só lava escada, esfrega o chão
Ela ri, então a gente tem de
ficar aqui, você não acha

Kurt Bartsch

Stilleben mit Putzfrau

Gras wächst über die toten Gleise
Hier fuhr einst die S-Bahn
Von West nach Ost nach West
DIE TÜREN ACHLIESSEN, ZURÜCKBLEIBEN
Die Schienen rosten, die Brücken
Überquern tote Straßen, die Straßen
Mit Mauern verbaut, Beton, damit
Ich nicht sitften gehe, sagt Trude *. Ach
Soviel Aufwand für eine, die nicht
Kann als Treppen wischen, Füßböden scheuern
Sie lächelt, da muß man já
Hierbleiben, finden Sie nicht

* Nota dos tradutores: Apresentada aqui pelo nome “Trude” (apelido de Gertrud), a faxineira Joana é uma personagem recorrente nos textos em que Bartsch ironiza a vida do proletariado de vitrine socialista. As razões dadas pela faxineira para ficar na RDA contrapõem o quotidiano ao “Estado operário-camponês”: quem nada sabe vai fazer o quê do outro lado do muro? Tornou-se piada recorrente na RDA o abastardamento da sigla DDR (correspondente em alemão para RFA) como Der Dumme Rest — “o resto estúpido”.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].

segunda-feira, 24 de março de 2025

Hans-Curt Flemming: desmatado


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

quando finalmente
trouxe uma
nota boa
para casa
minha mãe disse
“sorte”
pra eu
não me gabar nem me
“crescer as árvores
até o céu” *

Hans-Curt Flemming

abgeforstet

wenn ich endlich
einmal eine
gute note
nach hause brachte
sagte meine mutter
“zufall”
damit ich mir
nichts einbilden solte und mir
“die bäume nicht
in den himmel wachsen”

* Nota dos tradutores: desmatado  “crescer as árvores até o céu” — trocadilho com a expressão “que as árvores não cresçam até o céu” [daß die Bäume nicht in den Himmel wachsen], com o sentido de que tudo tem de ter seus limites.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Reiner Kunze: escrivaninha na janela, e neva


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Pássaros vigiam, a ração mais
do que a consomem

E de novo persisto
inerte

Sua desfeita, de que eu perca tempo
eu rejeito

O silêncio se ajunta em torno de mim,
terra para o poema

Na primavera teremos
versos e pássaros

Reiner Kunze

schreibtisch am fenster, und es schneit

Vögel sichern länger als sie
futter alfuchmen

Und wieder verharre ich
reglos

Euren tadel daß ich zeit vergeude
weise ich zurück

Stille häuft sich an um mich,
die erde fürs gedicht

Im frühling werden wir
verse haben und vögel
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Reiner Kunze, nascido em 1933, alemão de Oelsnitz, Erzgebirge, estudou Filosofia e Jornalismo na Karl-Marx-Universität, em Leipzig, é escritor, tradutor literário, professor e poeta; publicou seus primeiros poemas na tradição do realismo socialista, dos quais mais tarde se distancia; desde adolescente militou no Partido Socialista, tendo sido um dos primeiros proletários a ingressar na universidade, em 1951, e, ao abdicar do seu entusiasmo inicial pela construção do socialismo, sofreu pressões políticas e abandonou o doutorado em 1959; viajou pelos Estados Unidos, América Latina e África, foi professor convidado das cátedras de Poesia das universidades de Munique e Würzburg; suas obras: Sensible Wege. Gedichte (Caminhos sensíveis, 1969), Zimmerlautstärke. Gedichte (Sem incomodar os vizinhos, 1972), Brief mit blauem Siegel. Gedichte (1973), Die Wunderbaren Jahre. Prosa (Os anos maravilhosos, prosa, 1976), Auf eigene Hoffnung. Gedichte (À própria esperança, 1981), Eines jeden einziges Leben. Gedichte (A vida singular de cada um, 1986), Selbstgespräche für andere (Monólogos para outros, 1989), Deckname Lyrik (Codinome Poesia, documentos, 1990), Am Sonnenhang. Tagebuch eines Jahres (prosa autobiográfica, 1993), Ein tag auf dieser erde (Um dia nesta terra, 1998), premiações: Großer Literaturpreis der Bayerischen Akademie der Schönen Künste (Grande Prêmio de Literatura da Academia de Belas Artes da Baviera, 1973), Georg-Büchner-Preis (1977), Georg-Trakl-Preis für Lyrik (Prêmio Georg Trakl de Poesia, 1977), Bayerischer Filmpreis für das Drehbuch zum Film Die wunderbaren Jahre (Prêmio de Cinema da Baviera, pelo roteiro do filme Os Anos Maravilhosos, 1979), Friedrich-Hölderlin-Preis der Stadt Bad Hamburg (Prêmio Friedrich Hölderlin da cidade de Bad Hamburg, 1999), Hans-Sahl-Preis (2001), Thüringer Literaturpreis (Prêmio de Literatura da Turíngia, 2009), etc.; em sua homenagem, Oelsnitz, cidade onde nasceu, criou/fundou o Reiner-Kunze-Preis ein Literaturpreis (Prêmio Reiner Kunze de Literatura), que foi concedido pela primeira vez em 2007.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Volker Braun: As Ostras


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

para Alain Lance

Raramente eu vivo de fato, há horas
Na minha cozinha quebras as ostras
Importadas (com um papelório) e, com
A mão doendo no avental de plástico,

Cantas. E os Lobo[s], não pensam em nada
Esses daí, só em se entupir, e, como tudo
O que fazem, fartamente. Ainda são gente.
E eu, com muito limão entorpeço os

Bichinhos nus primeiro e o céu da boca
E engulo sem graça, enquanto às dúzias
Sorves com nojo e luxúria as pequenas
Bucetas do mar. Pronto, eu digo, a

Vida entre ânsia e repulsa,
Deixa descer pela língua, né.

Volker Braun

Die Austern

für Alain Lance

Ich lebe nicht oft wirklich, du seit Stunden
In meiner Küche brichst die eingereisten
(Mit viel Papieren) Austern auf, und mit
Schmerzender Hand in dem Plasteschurz

Singst du. Und die Wolfs, an nichts mehr
Denken die da als ans Fressen, was sie
Wie alles, gründlich tun. Das sind noch Menschen.
Und ich, mit viel Zitrone, betäube

Die nackten Tierchen erst und meinen Gaumen
Und schlucke mutlos, während du zwei Dutzend
Schlürfst mit Wollust und Ekel, diese kleinen
Fotzen der See. So, sage ich nun, das

Leben zwischen Gier und Abscheu
Zergehen lassen auf der Zunge, ja.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, após conclusão do 2º grau, foi operário, maquinista e tipógrafo trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção , estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokationen für mich (Provocações para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Vorläufiges (Provisório, poemas, 1966), Wir und nicht sie (Nós e não eles, poemas, 1970), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poemas, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977), Der große Frieden (teatro, 1979), Die Übergangsgesellschaft (teatro, 1982), Langsamer knirschender Morgen (Lenta manhã rangente, poemas, 1987), Verheerende Folgen mangelnden Anscheins innerbetrieblicher Demokratic (ensaios, 1988), Bodenloser Satz (prosa, 1990), Böhmen am Meer (teatro, 1992), Iphigenie im Freiheit (teatro, 1992) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Kurt Bartsch: Hades

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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

Minha avó, velha massacrada
(O marido, um mineiro, morreu de cachaça)
jaz sepultada no muro entre leste e oeste 1.
Quando vou a ela no verão/inverno
No reino dos mortos (Hera arame farpado
Cresce das sepulturas, cuidado! ZONA DE FRONTEIRA)
Tenho de ter uma senha, que mostro
A pedido de Herr Cérbero 2
Porteiro do Hades, disfarçado de Guarda do Povo

Kurt Bartsch

Hades

Meine Großmutter, vielgeprügelte Alte
(Der Mann, ein Bergarbeiter, starb am Schnaps)
Liegt an der Mauer zwischen Ost und West begraben.
Wenn ich im Sommer/Winter zu ihr gehe
Ins Reich der Toten (Efeu Stacheldraht
Wächst aus den Gräbern, Achtung! GRENZGEBIET)
Muß ich ein Schriftstück haben, dieses zeige
Ich auf Verlangen von Herrn Cerberus
Wächter des Hades, verkleidet als Volkspolizist.

* Notas dos tradutores:
1 O cemitério da Sophienkirchgemeinde está situado exatamente na fronteira entre os dois muros paralelos que formavam o Muro de Berlim. Fica ao lado da Bernauer Straße, frequentemente mencionada por Bartsch. Quem morasse, como Bartsch, em Berlim Oriental, poderia chegar ao cemitério apenas com uma permissão especial provisória  situação análoga à do poema “Rua de Bernau”.
2 Cérbero – o cão de três cabeças da mitologia grega, filho de Typhon, protege o acesso ao Hades, reino dos mortos.
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Kurt Bartsch (1937 2010), alemão de Berlim, frequentou uma escola primária berlinense na [rua] Friedrichstraße, não concluiu o ginásio, começou a labutar cedo, trabalhou como vendedor de caixões, coveiro e, depois, como redator publicitário e assistente editorial na Aufbau-Verlag, foi poeta, dramaturgo e crítico literário; embora tenha sido aprovado preliminarmente na Weißensee Kunsthochschule Berlin [Escola de Artes Weißensee, Berlim], não pôde iniciar seus estudos por não possuir diploma do ensino médio; publicou seus primeiros textos, fragmentos satíricos, no início da década de 60; o poeta e dramaturgo, devido a suas publicações, paródias e peças cômicas de teatro frequentemente não saírem a gosto da cultura oficial e dos padrões da RDA (ex-Alemanha Oriental, socialista), o real socialismo, teve obras não publicadas no país e raramente suas peças foram ali encenadas; em 1980, de posse de um visto permanente de emigração, Kurt Bartsch mudou-se para Berlim (Ocidental), na então RFA (ex-Alemanha Ocidental, capitalista, hoje Alemanha), continuou escrevendo e publicando, inclusive livros infantis e peças radiofônicas; suas obras: Zugluft. Gedichte, Sprüche, Parodien (coletânea de poemas, 1968), Die Lachmaschine. Gedichte, Songs und ein Prosafragment (poemas, canções e fragmento em prosa, 1971), Kalte Küche. Parodien (1974), Der Bauch und andere Songspiele (peça, 1974), Kaderakte. Gedichte und Prosa (1979), Wadzeck. Roman (romance, 1980), Die Hölderlinie. Parodien (1983), Fanny Holzbein [romance autobiográfico, conta a infância do autor poeta, 2004) e outros títulos; é considerado, hoje, um dos principais representantes do círculo da Sächsischen Dichterschule [Escola de Poetas da Saxônia].

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Helmut Heissenbüttel: dizer o dizível

 
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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

dizer o dizível
experienciar o experienciável
decidir o decisível
alcançar o alcançável
repetir o repetível
terminar o terminável

o não-dizível
o não-experienciável
o não-decisível
o não-alcançável
o não–repetível
o não-terminável

não terminar o interminável

Helmut Heissenbüttel

das Sagbare sagen

das Sagbare sagen
das Erfahrbare erfahren
das Entscheidbare entscheiden
das Erreichbare erreichen
das Wiederholbare wiederholen
das Beendbare beenden

das nicht Sagbare
das nicht Erfahrbare
das nicht Entscheidbare
das nicht Erreichbare
das nicht Wiederholbare
das nicht Beendbare

das nicht Beendbare nicht beenden

[Topographien. Gedichte, 1954/55 — 1956]
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Helmut Heissenbüttel (1921 1996), alemão de Rüstringen, cresceu em Wilhelmshaven, sede de uma base naval do norte da Alemanha, e em Papenburg, foi soldado na Segunda Guerra Mundial, em 1941 feriu-se gravemente, teve o braço esquerdo amputado e foi dispensado como inválido; ainda em 1941 e em plena guerra, iniciou os estudos de Arquitetura, Germanística e História da Arte, em Dresden, Leipzig e Hamburgo; trabalhou como consultor editorial, foi redator do programa literário “Rádio Essay” da Süddeutscher Rundfunk em Stuttgart (de 1959 a 1981), editou a revista literária Hartmanntrße 14, a partir de 1981, viveu como escritor freelance em Borsfleth; participou do Grupo 47, círculo de literatos de língua alemã que, entre 1947 e 1967, se reunia com o objetivo de reconstruir a literatura de língua alemã no pós-guerra; foi membro da Academia Alemã de Língua e Poesia, em Darmstadt, Academia Livre de Artes de Hamburgo e Academia de Artes de Berlim (Ocidental); suas obras: Kombinationen. Gedichte 1951-1954 (1954), Topographien. Gedichte 1954-1955 (1956), Das Textbuch (Livro didático 1, 2, 3, 4 e 5, entre 1960-1965), Über Literatur (1966), Zwei oder drei Porträts (peça radiofônica, 1970), Marlowes Ende (peça radiofônica, 1971), Das Durchhauen des Kohlhaupts. Gelegenheitsgedichte und Klappentexte. Projekt Nr. 2. (Projeto nº 2. O Decepar o Repolho, 1973) e muitos outros títulos; premiações: Lessing-Preis der Freien und Hansestadt Hamburg (1956), Georg-Büchner-Preis (Prêmio Georg Büchner, 1969), Bundesverdienstkreuz Erster Klasse (1979), Österreichischer Staatspreis für europäische Literatur (Prêmio do Estado Austríaco para a Literatura Européia, 1990)...

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Hans-Curt Flemming: um bilhete na minha porta:


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[traduzido por Rui Rothe-Neves & Georg Wink]

estou
em busca de
mim
daí que não
me encontrem por enquanto

até lá
o que se parece comigo é
só a embalagem

Hans-Curt Flemming

ein zettel an meiner tür:

ich bin
auf der suche nach
mir
daher bin ich
verübergehend nicht anzutreffen

bis dahin ist
was aussieht wie ich
nur die verpackung
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entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada — cinco poetas alemães, Seleção, Tradução, Apresentação e Notas de Rui Rothe-Neves & Georg Wink, Introdução de Georg Wink e Posfácio de Rui Rothe-Neves, 2007, Tessitura Editora, Belo Horizonte — MG; Hans-Curt Flemming, nascido em 1947, alemão de Friedrichshafen, diplomado em Química e Microbiologia, pela Universität Stuttgart e pelo Max-Planck-Institut für Immunbiologie (Instituto Max Planck de Imunobiologia) de Freiburg, é/foi microbiologista, professor universitário, escritor e poeta; como cientista de ciências da natureza, tem centenas de artigos publicados em jornais e revistas especializadas e 9 obras editadas na área de química e microbiologia, foi professor de microbiologia na Universität Duisburg-Essen e presidente da International Biodeterioration and Biodegradation Society; obras litero-poéticas: Annäherungen (Aproximações, poesias, 1980, 2ª edição em 1993), Ein zettel an meiner tür (Um bilhete na minha porta, poesias, 1982, 2ª edição em 1993), Blätter vom fliegenden Märchenbuch (1984), Sprünge (Saltos, poesias, 1986), Eckart weiß nicht, daß er schön ist (1986), Suchbilder (Imagens de busca, poesias, 1989)...; aposentado desde 2014, o poeta ainda exerce trabalhos como autor, revisor e consultor; vive entre Frankfurt e Friedrichshafen.