domingo, 31 de janeiro de 2021

Pablo Neruda: Quando de novo vejo o mar o mar me viu ou não me viu? *

 
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[traduzido por Olga Savary]

XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vaga-lumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?

XLIX

Quando de novo vejo o mar
o mar me viu ou não me viu?

Por que me perguntam as ondas
o mesmo que lhes pergunto?

E por que golpeiam a rocha
com tanto entusiasmo perdido?

Não se cansam de repetir
sua declaração à areia?

L

Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?

De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?

E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?

Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?

Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?

Pablo Neruda

XLVIII

¿Son los senos de las sirenas
las redondescas caracolas?

¿O son olas petrificadas
o juego inmóvil de la espuma?

¿No se ha incendiado la pradera
con las luciérnagas salvajes?

¿Los peluqueros del otoño
despeinaron los crisantemos?

XLIX

¿Cuando veo de nuevo el mar
el mar me ha visto o no me ha visto?

¿Por qué me preguntan las olas
lo mismo que yo les pregunto?

¿Y por qué golpean la roca
con tanto entusiasmo perdido?

¿No se cansan de repetir
su declaración a la arena?

L

¿Quién puede convencer al mar
para que sea razonable?

¿De qué le sirve demoler
ámbar azul, granito verde?

¿Y para qué tantas arrugas
y tanto agujero en la roca?

¿Yo llegué de detrás del mar
y dónde voy cuando me ataja?

¿Por qué me he cerrado el caminho
cayendo en la trampa del mar?

Libro de las preguntas (1974)

Nota do blogue Verso e Conversa: Este atrevido aprendiz de blogueiro expõe que o Livro das perguntas (Libro de las preguntas) é composto de 74 poemas, sendo todos seus versos feitos em forma de perguntas.
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Livro das Perguntas — Pablo Neruda, edição bilíngüe, Tradução e Introdução de Olga Savary, volume 360 da Coleção L&PM Pocket (1ª edição na coleção: maio de 2004), reimpressão de 2019, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Libro de las preguntas (1974), Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Júlio Dantas: Demóstenes

 
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Em casa de Laís, Demóstenes entrara:
como Atenas inteira, o supremo orador
vinha comprar também, nuns minutos de amor,
o corpo escultural dessa beleza rara.

Quase a possuíra já, de tanto que a sonhara:
e ao ver, gloriosa e nua, em todo o seu esplendor,
cingido o strophion* de ouro aos dois seios em flor,
essa linda mulher que se vendeu tão cara,

tímido perguntou:  "Um só beijo fugaz,
por quanto o vendes, grega?" E ela, num gesto lento:
 "Conta mil dracmas, velho, e tu me possuirás!”

 "Quê? Pagar por tanto ouro o beijo de um momento?
Dar mil dracmas por ti? Não, mulher; fica em paz:
eu não compro tão caro um arrependimento".


* Nota do organizador Sergio Faraco: Em latim, strophion, faixa usada pelas mulheres para segurar os seios.
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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Júlio Dantas (1876 1962), português de Lagos Algarve, formado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, foi médico, político, diplomata, jornalista, dramaturgo, escritor polígrafo, tradutor e poeta; colaborou em inúmeros periódicos portugueses e estrangeiros, dentre os quais Diário Ilustrado, Novidades, Correio da Manhã e Renascença, nas revistas Branco e Negro, Serões, Azulejos Atlântida, todos de Portugal, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro e no La Nación, de Buenos Aires; bibliografia: em poesia, Nada (1896), Sonetos (1916), em prosa, Outros Tempos (1909), Figuras de Ontem e de Hoje (1914), O Amor em Portugal no Século XVIII (1915), Mulheres (1916), Arte de Amar (1922), O Heroísmo, a Elegância, o Amor (conferência, 1923) etc., em dramaturgia, O Que Morreu de Amor (1899), A Severa (1901), A Ceia dos Cardeais (1902), Crucificados (1902), Rosas de Todo Ano (1907), O Reposteiro Verde (1921) e outros; traduziu Shakespeare (Rei Lear), Edmond Rostand (Cyrano de Bergerac), Paul Saunière (O Azougue), Jean Richepin (O Caminheiro).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Hilda Hilst: Balada do festival

 
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XIV

Na verdade apareceu
vindo de terras distantes
um homem quase poeta
que me amou e que se deu
a mim e a outras também.
E dizia ao telefone
coisas tão ternas, tão tudo
que só de ouvi-lo e esperá-lo
muita mulher se perdeu.
Muita mulher… também eu.
Amei-o naquela pressa
de horas marcadas e hotéis…
dentro de mim a promessa
de amá-lo ainda que fosse
na velha China, nos mares,
dentro de algum avião.
E quando ele me chamava
eu toda vagotonia
ia e vinha e pressentia
o homem que me fugia
de passaporte na mão.
Agora estou cansada
perdi-me na confusão
de ser amante e amada.
Se ainda vou procurá-lo
Em Paris ou Viena
não me perguntem, amigos,
que eu faço um olhar tão triste
tão triste de fazer pena…
Na verdade apareceu
vindo de terras distantes
um homem asas e Orfeu.

Balada do Festival — 1955

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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora, 2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 — 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Antonio Machado: Arte poética

 
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[traduzido por Wilton José Marques]

    Há em toda alma uma festa somente,
tu vais sabê-lo, Amor, sombra florida,
sonho de aroma, e logo... nada: andrajos,
rancor, filosofia.
Roto no espelho o teu melhor idílio,
e de costas voltadas já à vida,
será tua oração cada manhã:
Para ser enforcado, belo dia!

Antonio Machado

Arte poética

    Y en toda el alma hay una sola fiesta
tú lo sabrás, Amor sombra florida,
sueño de aroma, y luego... nada; andrajos,
rencor, filosofía.
Roto en tu espejo tu mejor idilio,
y vuelto ya de espaldas a la vida,
ha de ser tu oración de la mañana:
¡Oh, para ser ahorcado, hermoso día!

(De ‘Primeiras poesias’,
in Antonio Machado: poesía,
Antologia de Jorge Campos.
Madrid, Alianza Editorial, 1978, 2ª ed.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875 1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerias y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se vá a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de un profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Wallace Stevens: O homem do violão azul * [trechos I, II e III]

 

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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.

Disseram: “É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são”.

E o homem disse: “As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão”.

E eles disseram: “Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,

No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são”.

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.

Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.

Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.

Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,

Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.

III

Ah, poder tocar o homem primeiro,
Cravar-lhe o punhal no coração,

Abrir-lhe o cérebro sobre uma mesa,
E dele retirar as cores ácidas,

Pregar-lhe o pensamento sobre a porta,
De asas abertas para a neve e a chuva,

Atingir-lhe o lá-ri-lá da vida,
Vará-lo, vazá-lo, virá-lo verdade,

Sacá-lo de um azul selvagem,
Desafinando o metal das cordas...

. . .

Wallace Stevens

The man with the blue guitar [excerpts]

I

The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. The day was green.

They said, “You have a blue guitar,
You do not play things as they are.”

The man replied, “Things as they are
Are changed upon the blue guitar.”

And they said then, “But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are.”

II

I cannot bring a world quite round,
Although I patch it as I can.

I sing a hero’s head, large eye
And bearded bronze, but not a man,

Although I patch him as I can
And reach through him almost to man.

If to serenade almost to man
Is to miss, by that, things as they are,

Say that it is the serenade
Of a man that plays a blue guitar.

III

Ah, but to play man number one,
To drive the dagger in his heart,

To lay his brain upon the board
And pick the acrid colors out,

To nail his thought across the door,
Its wings spread wide to rain and snow,

To strike his living hi and ho,
To tick it, tock it, turn it true,

To bang if form a savage blue,
Jangling the metal of the strings…

. . .

The Man With the Blue Guitar (1937)

* Nota do blogue Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro anota que o poema O homem do violão azul (The man with the blue guitar) é composto de 33 estrofes.
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Castro Alves: Diálogo dos ecos

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E chegou-se pra a vivenda
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas só ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’endê-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o lábio seu,
Que a dormir nada prevê..."

E o eco responde: Vê!...

"Como a casa está tão triste!
Que aperto no coração!...
Maria!... Ninguém responde!
Maria, não ouves, não?...
Aqui vejo uma saudade
Nos braços de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os braços de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mistério
Me rasga o sombrio véu?...”

E o eco responde: Eu!...

E chegou-se para o leito
Da casta flor do sertão...
Apertou co’a mão convulsa
O punhal e o coração!...
‘Stava inda tépido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar,
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como relíquia no altar!...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil soluços, mil desvelos,
Que ela deu-lhes pra guardar!...
E o pranto em baga a rolar...

"Onde a pomba foi perder-se?
Que céu minha estrela encerra?
Maria, pobre criança,
Que fazes tu sobre a terra?"

E o eco responde: Erra!

"Partiste! Nem te lembraste
Deste martírio sem fim!...
Não! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um braço estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que pôde esmagar-te assim?...

E o eco responde: Sim!

E rugiu: "Vingança! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
Vê como este braço é forte!
Vê como é rijo este ferro!
Meu golpe é certo... não erro.
Onde há sangue, sangue escorre!...
Vilão! Deste ferro e braço,
Nem a terra, nem o espaço,
Nem mesmo Deus te socorre!!..."

E o eco responde: Corre!
Como o cão ele em tomo o ar aspira,
Depois se orientou.
Fareja as ervas... descobriu a pista
E rápido marchou.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto sobre as águas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista ao sol poente
Esses ninhos, que o vento lança às águas,
E que na enchente vão boiando à toa!...

[A Cachoeira de Paulo Afonso]

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Konstantinos Kaváfis: O primeiro degrau

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Lamúrias de Êumenes, um neopoeta,
a Teócrito: ”escrevo há dois anos
e o resultado é pífio: um solitário
idílio. Ai de mim! Eu fiquei nisso!
A escada da Poesia é alta, altíssima,
galgá-la  vejo  é sobredifícil.
Empaquei no degrau do início, e nunca
subirei outro. É um fel a minha sina!”
Teócrito lhe disse: "logorreia
sem sentido! Não passas de um blasfemo!
O primeiro degrau, se aí te encontras,
merece teu orgulho. Rejubila-te!
O posto a que chegaste tem valor,
teu feito glorifica. O degrau
das primícias, incluindo ele, dista
do que o mais das gentes pisa. Só
se posiciona ali quem por seu mérito
reside na urbe das ideias. Raro
é concederem a cidadania
nessa cidade. Seus Legisladores,
dos cimos da ágora, detectam fácil
o autor do embuste. Aventureiro algum
os enganou, nem haverá que engane.
O primeiro degrau, se aí te encontras,
merece teu orgulho. Rejubila-te!”

[1899]

Konstantinos Kaváfis

ΤΟ ΠΡΩΤΟ ΣΚΑΛΙ

Εις τον Θεόκριτο παραπονιούνταν
μιά μέρα ο νέος ποιητής Ευμένης•
«Τώρα δυό χρόνια πέρασαν που γράφω
κ' ένα ειδύλιο έκαμα μονάχα.
Το μόνον άρτιόν μου έργον είναι.
Αλλοίμονον, είν' υψηλή το βλέπω,
πολύ υψηλή της Ποιήσεως η σκάλα•
και απ' το σκαλί το πρώτο εδώ που είμαι
ποτέ δεν θ' αναιβώ ο δυστυχισμένος».
Ειπ' ο Θεόκριτος• «Αυτά τα λόγια
ανάρμοστα και βλασφημίες είναι.
Κι αν είσαι στο σκαλί το πρώτο, πρέπει
νάσαι υπερήφανος κ' ευτυχισμένος.
Εδώ που έφθασες, λίγο δεν είναι•
τόσο που έκαμες, μεγάλη δόξα.
Κι αυτό ακόμη το σκαλί το πρώτο
πολύ από τον κοινό τον κόσμο απέχει.
Εις το σκαλί για να πατήσεις τούτο
πρέπει με το δικαίωμά σου νάσαι
πολίτης εις των ιδεών την πόλι.
Και δύσκολο στην πόλι εκείνην είναι
και σπάνιο να σε πολιτογραφήσουν.
Στην αγορά της βρίσκεις Νομοθέτας
που δεν γελά κανένας τυχοδιώκτης.
Εδώ που έφθασες, λίγο δεν είναι•
τόσο που έκαμες, μεγάλη δόξα»

[1899]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

domingo, 24 de janeiro de 2021

genésio dos santos: fazer sonetos! *

 
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metrificar não é estranha lida
pra este cujo ofício é escrever
sem nem ao dicionário recorrer
pois busco o metro e a rima pela vida.

se a frase já vier pronta, de saída
tudo fica mais simples, reconheço,
e mesmo que ocorra algum tropeço,
confesso, não desisto da investida.

assim vou rabiscando os meus versos
que vêm aos borbotões ou bem dispersos
mas plenos de armadilhas e segredos.

palavras são tão dóceis de domar,
nem bem as acomodo no lugar
silabo uma a uma com os dedos.


* Notas deste aprendiz de blogueiro: este ‘fazer sonetos!’, gestado em 12 de janeiro de 2007, recebeu alteração deste atrevido poeta neste janeiro de 2021  o primeiro verso da primeira estrofe, ‘metrificar não é inglória lida’, passa para ‘metrificar não é estranha lida’; já o ‘Apartheid soneto’, poema visual que ilustra esta página, é de autoria do poeta concreto Avelino de Araújo (* 1963); é isso...
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983  1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

Gottfried Benn: Bela juventude

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[traduzido por Mario Luiz Frungillo em parceria com Luís Gonçales Bueno de Camargo]

A boca de uma moça que há muito jazia em meio aos juncos
parecia toda roída.
Quando abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando num recanto embaixo do diafragma
um ninho de ratos jovens.
Uma das irmãzinhas pequenas morrera.
Os outros viviam do fígado e dos rins,
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
Foram jogados todos juntos na água.
Ah, como os focinhinhos guinchavam!

Gottfried Benn

Schöne Jugend

Der Mund des Mädchens, das lange im Schilf gelegen hatte,
sah so angeknabbert aus.
Als man die Brust aufbrach, war die Speiseröhre so löcherig.
Schliesslich in einer Laube unter dem Zwerchfell
fand man ein Nest von jungen Ratten.
Ein kleines Schwesterchen lag tot.
Die andern lebten von Leber und Niere,
tranken das kalte Blut und hatten
hier eine schöne Jugend verlebt.
Und schön und schnell kam auch ihr Tod:
Man warf sie allesamt ins Wasser.
Ach, wie die kleinen Schnauzen quietschten!

(Gesammelte Werke, ed. por Dieter Wellerhoff,
4 vols., 3º vol.  Gedichte,
Limes Verlag, Wiesbaden, 1963.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Gottfried Benn (1886 1956), alemão de Mansfeld, estudou Teologia, Filologia e Medicina, tendo exercido sempre o ofício de médico, e foi poeta, sempre escrevendo e publicando seus livros; em 1933, inicialmente se alinhou com o nacional-socialismo, fato jamais esquecido, embora em seguida tenha se afastado; desde 1936 viveu um longo período no ostracismo, tendo seus textos sido rejeitados tanto pelos que combatiam o nazismo, como também pelos próprios nazistas; no pós-guerra, continuou relegado ao silêncio até 1948, ano em que tal situação foi revertida e o poeta reabilitado com a publicação de seus Poemas Estáticos (Statische Gedichte) e, a partir de então, houve a edição de outros trabalhos, em verso e prosa; bibliografia: Morgue und andere Gedichte (1912), Söhne. Neue Gedichte (1913), Gehirne. Novellen (1916), Gesammelte Gedichte (1927), Gesammelte Prosa (1928), Statische Gedichte (1948), Probleme der Lyryk (1951), Essays (1951), Destillationen. Neue Gedichte (1953), etc. etc. etc.; como médico, esteve alistado na Primeira Guerra.