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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Gilberto Mendonça Teles: O Funcionário

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Entre papéis e letras
na rotina do ofício
(e telegrama), assisto
à fossilização
de meus dedos na mesa.

(Morreu o tempo aqui.
Aqui se justificam
as mais absurdas lendas
de eternidade e tédio:
as horas se despiram
do suave segredo
de seu encantamento,
e já não há mais ponto
para a conversa lírica
dos atores, no palco
da vida funcionária.)

As mãos passeiam gordas
seus cachorros na mesa
de plástico ou verniz.
Que pássaro se oculta
nesta paisagem erma?
que vento acaso tímido
brincará nestas árvores
rasteiras? que distância,
que horizonte sem éter
devolverá meu grito?

Uivam unhas-de-fome
nos processos possessos
de despachos rotundos
à consideração
de olhares silenciosos.
Mas flor alguma (ou flora)
considera a atonia
da máquina dinâmica,
(Que imprevisto rodeia
o telefone?)

Os dedos continuam
a caça sem acaso.
São cabos de tormenta,
adamastores, simples
traços esferográficos
em rubricas inúteis.
Potros que se desligam
de seu mister sereno
de garanhões enxutos
amando nas pastagens.

Pálidos polvos plásticos
nas cavernas da mesa,
moluscos que se encolhem
nas esponjas de nylon
e distendem molhados
gestos vagos de angústia.

Meus dedos se cansaram
dos contatos de sempre.
Já não desenham plantas
nas páginas desertas,
nem cavalgam no dorso
das frases mais rebeldes,
apenas, conformados,
se trancam sonolentos
nas grades dos chavões
que, neste ensejo, parto
em mil pequenas partes
de protestos de estima
e consideração
à vida que se perde.

(Pássaro de Pedra — 1962)

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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, (1931 — 2024), goiano de Bela Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário; lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal, França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias: Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra (1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados, gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), ensaios e críticas: Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996), Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL Academia Brasileira de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac (da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis (da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra, 1989), Troféu Juca Pato (da UBE União Brasileira dos Escritores [patrocinado pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem2002), etc., e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e publicadas no exterior.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Gilberto Mendonça Teles: O anzol

 
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Nesse anzol de chumbo
nesse anzol de prata
passeias no fundo
do sono das águas

onde o próprio rio
já não tem mais pressa
de ser rio e é triste
por ser mais secreto.

Nesse anzol surpreso
numa linha larga
afinal espreitas
o fluir das águas

e o sentido obscuro
que rola submerso
te fala de um surdo
existir de objetos.

Fingindo silêncio
e demais astúcia
vais medindo o tempo
na raiz da espuma

e no leito verde
teu olhar de vidro
se embebe no leve
rolar dos resíduos.

No íntimo contato
desse corpo líquido
na ausência de lado
para mais carícia

tens a plenitude
das águas e – dentro –
tua língua é inútil
peixe se escondendo.

Pois nessa água escura
(ou nessa água clara)
não há mais discurso
senão o que fala

pelo som das pedras
pela voz do acaso
pelo sortilégio
de alguma palavra

que vibra surpresa
mas fria e calada
como baioneta
como peixe-espada.

A Raiz da Fala (1972)

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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles (1931 2024), goiano de Bela Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário; lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal, França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias: Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra (1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados, gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), Álibis (2001), ensaios e críticas: Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996), Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL Academia Brasileira de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac (da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis (da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra, 1989), Troféu Juca Pato (da UBE União Brasileira dos Escritores [patrocinado pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem, 2002), etc., e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e publicadas no exterior.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Gilberto Mendonça Teles: Os pós modernos

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A Tereza Callado

Entrar nalgum jardim, ser o que se sabe
granular a romã ou qualquer fruta:
não desistir jamais se o amor não cabe
na forma absoluta.

Percorrer os espaços, na ruptura
da linha só visível quando eterna,
para gozar a estranha arquitetura
da coisa pós-moderna.

Também o cotidiano é velho e novo
e a ponta do prazer tem seus venenos:
é preciso tatear no estilo ab ovo,
as curvas dos terrenos:

O importante é fingir os quiproquós
e transformar o corpo em ready-made:
ser um pinguim descongelando os pós
do tempo na parede.

Mergulhado no tédio ou no intervalo,
sem a continuidade dos infernos,
o vício da poesia dói no calo
de tantos pós modernos.

o pó-de-mico e seu fuxico
o pó-de-traque e seu sotaque
o pó-de-goma e seu idioma
o pó-de-arroz e seu depois
e além do estratagema
a droga do poema.

E sair do jardim, homem que trinca
a pele da palavra numa gruta
sabendo que a beleza mais longínqua
é sempre devoluta.

(Álibis — 2001), em Hora Aberta.
Poemas Reunidos (4ª edição, 2003)

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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles (1931 2024), goiano de Bela Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário; lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal, França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias: Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra (1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados, gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), Álibis (2001), ensaios e críticas: Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996), Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL Academia Brasileira de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac (da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis (da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra, 1989), Troféu Juca Pato (da UBE União Brasileira dos Escritores [patrocinado pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem, 2002), etc., e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e publicadas no exterior.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Carlos Drummond de Andrade: Desligamento do poeta

 
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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.

Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.

Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver

de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.

Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.

Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.

Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.

Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.

A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.

Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.

(As Impurezas do Branco — 1973)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspa  Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas: Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Carlos Drummond de Andrade: Os ombros suportam o mundo

 
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Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Sentimento do Mundo — 1940

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspar Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Carlos Drummond de Andrade: Não se mate

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Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Brejo das Almas (1934)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspar Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Gilberto Mendonça Teles: O animal

 
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O animal a meu lado tem a vaga
suspeita desse sol às avessas.
Nada sabe do tempo que se contrai
no interior de teu signo,
no teu canteiro de sombras,
no remorso de tuas íntimas palavras
cindidas na garganta.

O animal que me pasta docemente
pode perceber o teu número,
a tua partitura dissonante.
Pode conhecer a rigidez de teus músculos,
a suavidade de tua seda,
a paciência de teu repouso.

Mas nada sabe da pronúncia
cujo sopro retorna concluído.
Nada sabe dos aromas gravados
na porosidade de teu mármore
desdenhoso de infinito.

O animal a meu lado tem a forma
de tua distração.

(Plural de Nuvens — 1984)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta obra em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Letra

Melhores Poemas Gilberto Mendonça Teles: seleção e prefácio: Luiz ...
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Desculpa o tanto que te fiz de mal
e esquece tudo o que te fiz de bem.
Desculpa o meu amor tão natural
e que por ser assim foi mais além.

E te deu essa forma de horizon–
te que se abre nas lâminas de abril,
sempre tentando aproveitar o tom
das nuvens roxas para o teu perfil.

E num giro de luz (lua e farol)
anoiteceu teu corpo sem nenhum
sinal que revelasse o girassol
da tua imagem no falar comum.

E da raiz mais limpa da manhã
foi recolhendo a essência até da úl–
tima gota de orvalho, neste afã
de te dar sempre a gota mais azul.

E amou teu nome de silêncio e mel
e amou teu canto de distância e fim.
Esquece agora quem te foi fiel,
desculpa o tanto que te dei de mim.

Arte de Armar (1977)

Gilberto Mendonça Teles lança livro com 111 entrevistas
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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

sábado, 28 de novembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Linha d'água

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Nos ermos e fraturas do projeto,
nos trechos e apetrechos do silêncio,
construo as teorias e os desertos
permeáveis à chuva que te inventa,
artesiana e sutil, fluxo e reflexo,
luz de cristal pelo subsolo, centro
de formas disfarçadas pelo inverso
dos lençóis que te cobrem de argumento.
No sal das erosões, no sol, na pedra,
no som que vai polindo esta palavra
como um fóssil na areia do estuário,
destruo o teu perfil de foz e delta
e te reprimo sob a linha-d'água
como uma sombra impressa no papel.

Arte de Armar (1977)

Gilberto Mendonça Teles - Página inicial | Facebook
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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.