Mostrando postagens com marcador Rodrigo Breunig. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rodrigo Breunig. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de março de 2026

Charles Bukowski: aposentado

____________________
(traduzido por Rodrigo Breunig)

costeletas de porco, dizia o meu pai, eu adoro
costeletas de porco!

e eu o via enfiar a gordura
na boca.

panquecas, ele dizia, panquecas com
calda, manteiga e bacon!

eu via seus lábios encharcados com
tudo aquilo.

café, ele dizia, eu gosto de café bem quente,
queimando a garganta!

às vezes estava tão quente que ele cuspia o café
na mesa toda.

purê de batatas com molho, ele dizia, eu
adoro purê de batatas com molho!

ele abocanhava aquilo, suas bochechas inchadas
como se tivesse caxumba.

feijão com chili, ele dizia, eu adoro feijão com
chili!

e engolia tudo e peidava por horas
bem alto, sorrindo após cada peido.

bolinho de morango, ele dizia, com sorvete
de baunilha, é assim que se termina uma refeição!

ele sempre falava sobre aposentadoria, sobre
o que faria quando se
aposentasse.
quando não estava falando sobre comida ele falava
sem parar sobre
aposentadoria.

ele não chegou à aposentadoria, ele morreu certo dia
de pé junto à pia
enchendo um copo de água.
esticou o corpo como se tivesse levado
um tiro.
o copo caiu de sua mão
e ele tombou para trás
pousando na horizontal
sua gravata escorregando pela
esquerda.

depois
as pessoas disseram que não conseguiam
acreditar.
ele parecia
ótimo.
distintas suíças
brancas, maço de cigarro no
bolso da camisa, sempre soltando
piadas, talvez um pouco
espalhafatoso e talvez com certo mau
humor
mas no geral
um indivíduo aparentemente
sadio

jamais perdendo um dia
de trabalho.

Charles Bukowski

retired

pork chops, said my father, I love
pork chops!

and I watched him slide the grease
into his mouth.

pancakes, he said, pancakes with
syrup, butter and bacon!

I watched his lips heavy wetted with
all that.

coffee, he said, I like coffee so hot
it burns my throat!

sometimes it was too hot and he spit it
out across the table.

mashed potatoes and gravy, he said, I
love mashed potatoes and gravy!

he jowled that in, his cheeks puffed as
if he had the mumps.

chili and beans, he said, I love chili and
beans!

and he gulped it down and farted for hours
loudly, grinning after each fart.

strawberry shortcake, he said, with vanilla
ice cream, that's the way to end a meal!

he always talked about retirement, about
what he was going to do when he
retired.
when he wasn't talking about food he talked
on and on about
retirement.

he never made it to retirement, he died one day while
standing at the sink
filling a glass of water.
he straightened like he'd been
shot.
the glass fell from his hand
and he dropped backwards
landing flat
his necktie slipping to the
left.

afterwards
people said they couldn't believe
it.
he looked
great.
distinguished white
sideburns, pack of smokes in his
shirt pocket, always cracking
jokes, maybe a little
loud and maybe with a bit of bad
temper
but all in all
a seemingly sound
individual

never missing a day
of work.
____________________
Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido: Charles Bukowski, Tradução de Rodrigo Breunig, edição em 2018, Coleção L&PM Pocket, volume 1345, reimpressão em 2025, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, iniciou o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; pôs-se a escrever, foi expulso de casa, passou a morar em pensões e, sem emprego, desistiu da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; adquiriu alguma notoriedade com publicações de contos nos jornais alternativos Open City e Nola Express; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; suas obras: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (Notas de um velho safado, 1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido, poemas, 1986) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passou a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanhou na quase totalidade de seus romances.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Charles Bukowski: implacável como a tarântula

 
____________________
(traduzido por Rodrigo Breunig)

não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.

não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.

os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.

enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).

tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.

algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.

Charles Bukowski

relentless as the tarantula

they're not going to let you
sit at a front table
at some cafe in Europe
in the mid-afternoon sun.
if you do, somebody's going to
drive by and
spray your guts with a
submachine gun.

they're not going to let you
feel good
for very long
anywhere.
the forces aren't going to
let you sit around
fucking-off and
relaxing.
you've got to do it
their way.

the unhappy, the bitter and
the vengeful
need their
fix which is
you or somebody
anybody
in agony, or
better yet
dead, dropped into some
hole.

as long as there are
human beings about
there is never going to be
any peace
for any individual
upon this earth (or
anywhere else
they might
escape to).

all you can do
is maybe grab
ten lucky minutes
here
or maybe an hour
there.

something
is working toward you
right now, and
I mean you
and nobody but
you.
____________________
Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido: Charles Bukowski, Tradução de Rodrigo Breunig, edição em 2018, Coleção L&PM Pocket, volume 1345, reimpressão em 2025, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, iniciou o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; pôs-se a escrever, foi expulso de casa, passou a morar em pensões e, sem emprego, desistiu da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; adquiriu alguma notoriedade com publicações de contos nos jornais alternativos Open City e Nola Express; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; suas obras: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (Notas de um velho safado, 1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido, poemas, 1986) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passou a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanhou na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Charles Bukowski: putrefação

 
____________________
(traduzido por Rodrigo Breunig)

nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.

temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.

estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.

desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.

temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.

agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.

Charles Bukowski

putrefaction

of late
I’ve had this thought
that this country
has gone backwards
4 or 5 decades
and that all the
social advancement
the good feeling of
person toward
person
has been washed
away
and replaced by the same
old
bigotries.

we have
more than ever
the selfish wants of power
the disregard for the
weak
the old
the impoverished
the
helpless.

we are replacing want with
war
salvation with
slavery.

we have wasted the
gains
we have become
rapidly
less.

we have our Bomb
it is our fear
our damnation
and our
shame.

now
something so sad
has hold of us
that
the breath
leaves
and we can’t even
cry.
____________________
Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido: Charles Bukowski, Tradução de Rodrigo Breunig, edição em 2018, Coleção L&PM Pocket, volume 1345, reimpressão em 2025, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, iniciou o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; pôs-se a escrever, foi expulso de casa, passou a morar em pensões e, sem emprego, desistiu da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; adquiriu alguma notoriedade com publicações de contos nos jornais alternativos Open City e Nola Express; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; suas obras: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (Notas de um velho safado, 1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido, poemas, 1986) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passou a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

terça-feira, 22 de março de 2022

Bukowski: cometi um erro*

____________________
[traduzido por Rodrigo Breunig]

me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”

e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.

ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço  em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.

sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.

dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.

um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.

Charles Bukowski

I made a mistake

I reached up into the top of the closet
and took out a pair of blue panties
and showed them to her and
asked "are these yours?"
and she looked and said,
"no, those belong to a dog."

she left after that and I haven't seen
her since. she's not at her place.
I keep going there, leaving notes stuck
into the door. I go back and the notes
are still there. I take the Maltese cross
cut it down from my car mirror, tie it
to her doorknob with a shoelace, leave
a book of poems.
when I go back the next night everything
is still there.

I keep searching the streets for that
blood-wine battleship she drives
with a weak battery, and the doors
hanging from broken hinges.

I drive around the streets
an inch away from weeping,
ashamed of my sentimentality and
possible love.

a confused old man driving in the rain
wondering where the good luck
went.

* Nota do editor Abel Debritto: "cometi um erro", Scarlet, abril de 1976; coletado em O amor é um cão[dos diabos]...
____________________
Bukowski — Sobre o amor, Tradução de Roberto Breunig, Anotação de fontes e edição de Abel Debritto, 2019, Coleção L&PM Pocket volume 1300, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Bukowski: Nesta noite

____________________
[traduzido por Rodrigo Breunig]

“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiveram desaparecido”,
meu editor me telefona.

caro editor:
parece que as garotas já
se foram.

entendo o que você quer dizer

mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
esta noite
atravessando o assoalho na minha direção

e você pode ficar com todos os poemas

os bons
os maus
ou qualquer outro que eu porventura escreva
depois deste.

entendo o que você quer dizer.

você entende o que eu quero dizer?

Charles Bukowski

tonight

“your poems about the girls will still be around
50 years from now when the girls are gone,”
my editor phones me.

dear editor:
the girls appear to be gone
already.

I know what you mean.

but give me one truly alive woman
tonight
walking across the floor toward me

and you can have all the poems.

the good ones
the bad ones
or any that I might write
after this one.

I know what you mean.

do you know what I mean?
____________________
Bukowski — Sobre o amor, Tradução de Roberto Breunig, Anotação de fontes e edição de Abel Debritto, 2019, Coleção L&PM Pocket volume 1300, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Bukowski: para a puta que levou meus poemas*

 
____________________
[traduzido por Rodrigo Breunig]

alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.

da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.

Charles Bukowski

to the whore who took my poems

some say we should keep personal remorse from the
poem,
stay abstract, and there is some reason in this,
but jezus;
twelve poems gone and I don't keep carbons and you have
my
paintings too, my best ones; its stifling:
are you trying to crush me out like the rest of them?
why didn't you take my money? they usually do
from the sleeping drunken pants sick in the corner.
next time take my left arm or a fifty
but not my poems:
I'm not Shakespeare
but sometime simply
there won't be any more, abstract or otherwise;
there'll always be money and whores and drunkards
down to the last bomb,
but as God said,
crossing his legs,
I see where I have made plenty of poets
but not so very much
poetry.

* Nota do editor Abel Debritto: "para a puta que levou meus poemas". Quagga 1.3, setembro de 1960, coletado em Queimando na água, afogando-se na chama, 1974.
____________________
Bukowski — Sobre o amor, Tradução de Rodrigo Breunig, Anotação de fontes e edição de Abel Debritto, 2019, Coleção L&PM Pocket volume 1300, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Bukowski: um para a dente-acavalado*

 
____________________
[traduzido por Rodrigo Breunig]

conheço uma mulher
que fica comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que afinal se encaixam
numa espécie de ordem.
ela monta tudo
matematicamente
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive junto ao mar
deixa açúcar fora para as formigas
e acredita
fundamentalmente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
ela raras vezes o penteia
seus dentes são acavalados
e ela usa macacões frouxos e disformes
sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
por vários anos ela me irritou
com aquilo que eu considerava como sendo
suas excentricidades 
tipo mergulhar cascas de ovo na água
(alimentando as plantas para que
absorvessem cálcio).
mas afinal quando penso em sua
vida
e a comparo com outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela teve alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
pois ela é a mãe da minha única
filha
e outrora fomos grandes amantes,
mas ela superou os obstáculos
como eu disse
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.

Frances, este poema é pra
você.

Charles Bukowski

one for old snaggle-tooth

I know a woman
who keeps buying puzzles
chinese
puzzles
blocks
wires
pieces that finally fit
into some order.
she works it out
mathematically
she solves all her
puzzles
lives down by the sea
puts sugar out for the ants
and believes
ultimately
in a better world.
her hair is white
she seldom combs it
her teeth are snaggled
and she wears loose shapeless
coveralls over a body most
women would wish they had.
for many years she irritated me
with what I consider her
eccentricities —
like soaking eggshells in water
(to feed the plants so that
they’d get calcium).
but finally when I think of her
life
and compare it to other lives
more dazzling, original
and beautiful
I realize that she has hurt fewer
people than anybody I know
(and by hurt I simply mean hurt).
she has had some terrible times,
times when maybe I should have
helped her more
for she is the mother of my only
child
and we were once great lovers,
but she has come through
like I said
she has hurt fewer people than
anybody I know,
and if you look at it like that,
well,
she has created a better world.
she has won.

Frances, this poem is for
you.

* Nota do editor Abel Debritto: "um para a dente-acavalado", 23 de janeiro de 1976; manuscrito; coletado em O amor é um cão [dos diabos]...
____________________
Bukowski — Sobre o amor, Tradução de Roberto Breunig, Anotação de fontes e edição de Abel Debritto, 2019, Coleção L&PM Pocket volume 1300, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920 1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, romancista e contista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.