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sábado, 11 de abril de 2026

Luis de Góngora: Enquanto, a competir com teu cabelo, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Delson Tarlé]

Enquanto, a competir com teu cabelo,
o ouro brunido ao Sol reluz em vão
e, pálido de inveja, quedo ao chão,
perde-se a contemplar-se o lírio belo,

e o rubro de teus lábios deixa em zelo
mais olhos do que o cravo temporão,
e o colo altivo traz um ar loução
como o cristal luzente aspira tê-lo;

goza lábios, cabelo, colo albente,
antes que tudo, em tua idade alada
ouro, lírio, cristal, cravo rubente

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora

Mientras por competir con tu cabello, . . .

13 — 1582

      Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

      mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén Lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

      goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

      no sólo en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra, Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado, ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida, o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX foram baseadas no “manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”, feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167 sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 1645) e Lope de Vega (1562 — 1635).

terça-feira, 10 de março de 2026

Góngora: Ora que a competir com teu cabelo . . . [soneto]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos *]

13 – 1582

Ora que a competir com teu cabelo
ouro brunhido ao sol reluz em vão,
e com desprezo, no relvoso chão,
vê tua branca fronte o lírio belo;

ora que ao lábio teu, para colhê-lo,
se olha mais do que ao cravo temporão,
e ora que triunfa com desdém loução
teu colo do cristal, que luz com zelo;

colo, cabelo, fronte, lábio ardente
goza, enquanto o que foi na hora dourada
ouro, lírio, cristal, cravo luzente

não só em prata ou víola cortada
se torna, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora

13 – 1582

      Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

      mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

      goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

      no sólo en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: Assinala D. A. [Dámaso Alonso, filólogo, 1898 —1990] que sobre este soneto se tem apontado influência do de Bernardo Tasso com anáforas de mentre nos três primeiros versos ímpares, mas as imagens variam, diz o ensaísta, dentro do habitual nos sonetos do tema do Carpe diem. Os versos 9 e 11 são correlativos: o colo é cristal, o cabelo é ouro, a fronte é lírio e o lábio é cravo. V. 12: A acentuação de víola na 6ª sílaba parece indicar observância por G. [Góngora], neste caso, da quantidade latina.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra, Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado, ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida, o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX foram baseadas no "manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”, feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167 sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 1645) e Lope de Vega (1562 1635).

segunda-feira, 28 de março de 2022

Góngora: A uma casa de campo onde estava uma dama a quem celebrava* . . . [soneto]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

42 1594

Se a vista já, de prantear cansada,
de coisa pode prometer certeza,
belíssima é aquela fortaleza
e generosamente edificada.

Paço é de minha bela celebrada,
templo do Amor, alcáçar da nobreza,
ninho da fênix de maior beleza
que hoje se vê bater pluma dourada.

Muro que subjugais o verde plano,
torres que defendeis o nobre muro,
ameias que das torres sois coroa:

quando de vosso dono soberano
mereçais ver a celestial pessoa,
representai-lhe o meu desterro duros.


A una casa de campo donde estaba una dama a quien celebrada

42 — 1594

Si ya la vista, de llorar cansada,
de cosa puede prometer certeza,
bellísima es aquella fortaleza
y generosamente edificada.

Palacio es de mi bella celebrada,
templo de Amor, alcázar de nobleza,
nido del Fénix de mayor belleza
que bate en nuestra edad pluma dorada.

Muro que sojuzgáis el verde llano,
torres que defendéis el noble muro,
almenas que a las torres sois corona:

Cuando de vuestro dueño soberano,
merezcáis ver la celestial persona,
representadle mi destierro duro.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O título consta em López de Vicuña (1627).
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Góngora: Acredita a esperança com histórias sagradas

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

165 1623

Quantos mais ferros me forjar o fado
a esta esperança, tantos oprimido
arrastarei cantando, e seu ruído
instrumento a esta voz será ajustado.

Jovem mal pela inveja perdoado,
e tarde da corrente redimido,
por quem, não adorado, foi vendido,
por havê-lo vendido, foi adorado.

Que pedra foi oposta ao soberano
poder, mesmo marcada de real selo,
que o remédio frustrasse do que espera?

Conduzido alimenta, de um cabelo,
um a outro profeta. Nunca insano
foi o esperar, mesmo entre tanta fera.


Acredita la esperanza com historias sagradas

165 — 1623

Cuantos forjare más hierros el hado
a mi esperanza, tantos oprimido
arrastraré cantando, y su ruido
instrumento a mi voz será acordado.

Joven mal de la invidia perdonado,
de la cadena tarde redimido,
de quien por no adorarle fué vendido,
por haberle vendido fué adorado.

¿Qué piedra se le opuso al soberano
poder, calificada aun de real sello,
que el remedio frustrase del que espera?

Conducido alimenta, de un cabello,
uno a otro profeta. Nunca en vano
fué el esperar, aun entre tanta fiera.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Há no soneto alusões às histórias, no mínimo, de José e Daniel.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Góngora: Flores no verde campo recolhia* . . . [soneto]

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

4 1582

Flores no verde campo recolhia
ao pôr-do-sol a minha ninfa: então
quantas truncava sua bela mão,
tantas o branco pé crescer fazia.

Ondeava-lhe o vento que corria
o ouro fino com erro1 cortesão,
qual verde folha de álamo loução
se move ao rubro despontar do dia;

mas logo que cingiu as fontes belas
com os variados despojos de sua falda2
(remate posto ao ouro e posto à neve3),

jurarei que luziu mais sua grinalda,
com ser de flores, a outra ser de estrelas,
do que a que em luzes nove o céu conscreve.


4 1582

       Al tramontar del Sol, la ninfa mía,
de flores despojando el verde lano,
cuantas troncaba la hermosa mano,
tantas el blanco pie crecer hacía.

       Ondeábale el viento que corría
el oro fino con error galano,
cual verde hoja de álamo lozano
se mueve al rojo despuntar del día;

       mas luego que ciñó sus sienes bellas
de los varios despojos de su falda
(término puesto al oro y a la nieve),

       juraré que lució más su guirnalda
con ser de flores, la otra ser de estrellas,
que la que ilustra el cielo en luces nueve.

Notas do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* O soneto, segundo Salcedo Coronel, tem reminiscências do de Torquato Tasso que começa: “Colei che sopra ogni altro amo et onoro”;
1. [verso] 6: erro: porque mexia no cabelo;
2. [verso] 10: despojos de sua falda: as flores recolhidas em dobra da saia;
3. [verso] 11: ouro e neve: flores amarelas e brancas.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Góngora: A doce boca que a provar convida* . . . [soneto]

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

23 1584

A doce boca que a provar convida
um humor entre perlas destilado1,
sem dar inveja do licor sagrado2
que a Júpiter ministra o jovem do Ida,

amantes, não toqueis, se quereis vida,
porque entre um lábio e outro acarminado,
Amor está, com seu veneno armado,
qual entre flor e flor serpe escondida.

Não vos burlem as rosas que, na aurora,
direis que aljofaradas e olorosas
lhe despencaram do purpúreo seio.

São as maçãs de Tântalo3, e não rosas,
que logo fogem do que incitam agora;
e, veneno do amor, só fica o anseio.


23 1584

       La dulce boca que a gustar convida
un humor entre perlas destilado,
y a no invidiar aquel licor sagrado
que a Júpiter ministra el garzón de Ida,

       amantes, no toquéis, si queréis vida,
porque entre un labio y outro colorado
Amor está, de su veneno armado,
cual entre flor y flor sierpe escondida.

       No os engañen las rosas que, a la Aurora,
diréis que aljofaradas y olorosas
se le cayeron del purpúreo seno:

       manzanas son de Tántalo, y no rosas,
que después huyen del que incitan ahora;
y sólo del amor queda el veneno.

Notas do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* Imitação muito próxima de um soneto de Torquato Tasso (Salcedo Coronel) ou versão livre desse soneto (Millé e Henríquez Ureña) [ . . . ], segundo D. A. [Damaso Alonso, Góngora y el “Polifermo”];
1. [versos] 1-2: com o beijo;
2. [verso] 3: a ambrosia, servida por Ganimedes;
3. [verso] 12: Tântalo não conseguia atingir a fruta e a água que sempre lhe fugiam, quando ia tocá-las.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Góngora: Não destroçada nave em rocha dura* . . . [soneto]

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

24 1584

Não destroçada nave em rocha dura
tocou a praia mais arrependida,
nem passarinho da rede estendida
mais temeroso voou para a espessura;

bela ninfa, uma planta mal segura,
nem tão alvoroçada nem doída,
furtou do verde prado, que escondida
víbora regalava em sua verdura,

como eu, Amor, da condição irada,
das ruivas tranças e da vista bela
fugindo vou, com pé já desatado,

dessa inimiga minha em vão louvada.
Adeus, ninfa cruel; ficai com ela,
rocha dura, áurea rede, alegre prado.


24 1584

       No destrozada nave en roca dura
tocó la playa más arrepentida,
ni pajarillo de la red tendida
voló más temeroso a la espesura;

       bella ninfa la planta mal segura,
no tan alborotada ni afligida,
hurtó de verde prado, que escondida
víbora regalaba en su verdura,

       como yo, Amor, la condición airada,
las rubias trenzas y la vista bella
huyendo voy, con pie ya desatado,

       de mi enemiga en vano celebrada.
adiós, Ninfa cruel; quedáos con ella,
dura roca, red de oro, alegre prado.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O soneto observa a técnica da semeadura e colheita: a primeira e a segunda estrofes são arrecadadas no verso final. Salcedo Coronel aponta reminiscências de Petrarca e de Monsenhor de la Casa.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Góngora: De uma dama que, tirando um anel, se picou com um alfinete*

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

142 1620

Prisão de nácar era articulado,
de minha decisão rival luzente,
um diamante ultra-engenhosamente
em ouro ele também aprisionado.

Clóri, pois, que seu dedo molestado
por metal, mesmo caro, não consente,
galharda um dia, além de impaciente,
o redimiu do vínculo dourado.

Mais ai! que insidioso latão breve
nesses cristais de sai bela mão
bebe sacrílego sangue divino;

púrpura ornou não índico, mas fino
marfim; cheia de inveja, sobre neve
a Aurora desfolhou cravos em vão.

Góngora

De una dama que, quitándose la sortija,
se picó con un alfiler

142 1620

Prisión del nácar era articulado
de mi firmeza un émulo luciente,
un dïamante, ingenïosamente
en oro también él aprisionado.

Clori, pues, que a su dedo apremïado
de metal aun precioso, no consiente,
gallarda un día, sobre impacïente,
lo redimió del vínculo dorado.

Mas ay, que insidïoso latón breve
en los cristales de su bella mano
sacrílego divina sangre bebe:

púrpura ilustró menos indïano
marfil; invidïosa sobre nieve,
claveles deshojó la Aurora en vano.

* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: [versos] 1-4: o anel; [verso] 8: vínculo dourado: o anel; [verso] 9: latão breve: o alfinete; [verso] 10: cristais: brancura; [versos] 12-14: púrpura, cravos, marfim, neve: o sangue e a pele. Assinala Millé que em poucas poesias, como nesta, G. [Góngora] se deixou levar tanto pelas diéreses.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Góngora: Da brevidade enganosa da vida

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Menos solicitou rápida seta
destinado sinal, que morde aguda;
agonal carro pela arena muda
não coroou com mais silêncio meta,

que pressurosa corre, que secreta,
a seu fim nossa idade. A quem o esmiúda,
fera que seja de razão desnuda,
cada Sol repetido é um cometa.

Se Cartago o confessa, tu o ignoras?
Perigo corres, Lício, se porfias
em seguir sombras e abraçar enganos.

Não te perdoarão a ti as horas;
as que limando estão os dias,
os dias que roendo estão os anos.

Góngora

De la brevedad engañosa de la vida

159 1623

        Menos solicitó veloz saeta
destinada señal, que mordió aguda;
agonal carro por la arena muda
no coronó con más silencio meta,

        que presurosa corre, que secreta,
a su fin nuestra edad. A quien lo duda,
fiera que sea de razón desnuda,
cada Sol repetido es un cometa.

        ¿Confiésalo Cartago, y tú lo ignoras?
Peligro corres, Licio, si porfías
en seguir sombras y abrazar engaños.

        Mal te perdonarán a ti las horas;
las horas que limando están los días,
los días que royendo están los años.

* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: [verso] 8: Cada dia que nasce agoura tantos males como um cometa, D. A. [Dámaso Alonso]
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Góngora: De honestidade templo o mais sagrado*, . . . [soneto]

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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

2 1582

De honestidade templo o mais sagrado
cujo alicerce belo e gentil muro,
de branco nácar e alabastro duro
foi por divinos dedos fabricado;

pequena porta de coral prezado,
claras lumeeiras de mirar seguro,
que à mais fina esmeralda o verde puro
para redomas tendes usurpado;

soberbo teto, que filetes de ouro,
enquanto em seu redor gira o sol louro,
ornam de luz, coroam de beleza;

humilde adoro-te, ídolo formoso:
a quem por ti suspira ouve piedoso,
a quem te ergue hinos e as virtudes reza.

Góngora

2 1582

De pura honestidad templo sagrado,
cuyo bello cimiento y gentil muro,
de blanco nácar y alabastro duro
fué por divinas manos fabricado;

Pequeña puerta de coral preciado,
claras lumbreras de mirar seguro,
que a la esmeralda fina el verde puro
habéis para viriles usurpado;

soberbio techo, cuyas cimbrias de oro
Al claro Sol, en cuanto en torno gira,
ornan de luz, coronan de belleza;

ídolo bello, a quien humilde adoro,
oye piadoso al que por ti suspira,
tus himnos canta, y tus virtudes reza.


* Nota de Péricles Eugênio da Silva Ramos: Já no século XVII se assinalou que este soneto tinha recordações de Minturno (“In si bel templo di memorie adorno”). Mas o son. [soneto], segundo D. A. [Dámaso Alonso], é como uma espécie de marchetaria de lugares de Petrarca; é provável que G. [Góngora] conhecesse tanto o texto de Minturno como o de Petraca, de quem lhe parece ter chegado algo diretamente. D. A. remata dizendo que este soneto, apesar de ser imitação, é um dos mais ternos e emocionados de G.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, edição bilíngue, 1988, Art Editora, São Paulo — SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; obras: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Góngora: Se, entre as plumas do ninho seu, Cupido . . . [soneto]



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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

59 — 1603

A uma dama, tendo-a visto menina, e depois moça feita

Se, entre as plumas do ninho seu, Cupido
o arbítrio me prendeu, que fará agora
que em teus olhos, dulcíssima senhora,
armado voa, já que não vestido?

Eu entre as violetas fui ferido
pela áspide que hoje entre os lírios mora:
igual força mostravas, sendo aurora,
à que tens como sol já bem nascido.

Saudarei tua luz com voz dolente,
qual terno rouxinol em prisão dura
despede queixas, mas bem docemente.

De raios vi, direi, tua fronte ardente
coroada; e que te faz a formosura
cantar as aves e chorar a gente.

Góngora

A una dama, habiéndola visto niña,
 y después muy dama

59  1603

Si Amor entre las plumas de su nido
prendió mi libertad, ¿qué hará ahora,
que en tus ojos, dulcísima señora,
armado vuela, ya que no vestido?

Entre las vïoletas fui herido
del áspid que hoy entre los lilios mora:
Igual fuerza tenías siendo Aurora,
que ya como Sol tienes bien nacido.

Saludaré tu luz con voz doliente,
cual tierno ruiseñor en prisión dura
despide quejas, pero dulcemente.

Diré cómo de rayos vi tu frente
coronada, y que hace tu hermosura
cantar las aves, y llorar la gente.
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Poemas de Góngora — Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1988, Art Editora, São Paulo SP; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol de Córdoba, foi poeta do período barroco, considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca e ordenou-se sacerdote; sabia latim, italiano e português; bibliografia: Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais.