sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Patativa do Assaré: O Bode de Miguel Boato

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O praciano e o roceiro
já sabem Miguel quem é
este grande caixãozeiro
do mercado de Assaré,
sua língua é uma mola
fala mais do que vitrola
é amigo muito exato
seu nome é Miguel de Souza
mas devido tanta causa
lhe chamam Miguel Boato.

Miguel é negociante
É um grande caixãozeiro,
mas também banca o marchante
comprando bode e carneiro
só compra para ganhar
porque sabe avaliar
o peso da criação;
mas desta vez se lascou
com um bode que comprou
no sítio do Boqueirão

Totonho de Zé Candinha
que anda atrás de melhora
vendendo um bode que tinha
fez grande recurso agora
Miguel foi o preferente
E o Totonho, inteligente
fingindo ser bem fiel
chegou de cara risonha
e um cigarro de maconha
fumou perto de Miguel

Totonho, por um capricho
vendo Miguel maconhado
disse: vamos ver o bicho
que está ali no cercado
e na vista do marchante
era um bode extravagante
do tamanho de um camelo,
Miguel com gosto sorria,
coitado! inda não sabia
do seu grande desmantelo

Perguntou achando graça:
Totonho responda a mim
onde encontrou esta raça
de bode tão grande assim?
Este é pra mais do contrato
por cento e oitenta é barato
o seu bonito animal,
o monstro parece um boi
faço de conta que foi
um presente de Natal

Para realizar seu sonho,
cheio de vida e contente
se despediu de Totonho,
tocando o bode na frente,
alegre, pelo caminho,
dizia mesmo sozinho:
agora eu ganho pacote,
desta vez eu dei um bolo
e a custa daquele tolo
eu vou aprumar o chote

Porém quando se sumiu
o efeito da maconha,
o bode diminuiu
de fazer raiva e vergonha,
o marchante encabulado
dizia impressionado:
o bode que era um sendeiro
se transformou de repente!
Foi quando ficou ciente
que o Totonho é maconheiro

Com uma raiva medonha
dizia: o bode mudou
com certeza foi maconha
que aquele diabo fumou,
pensando em sua caipora
seguindo de estrada a fora
sem prazer, sem alegria
na frente o bode tocava
e quando mais reparava
mais ele diminuía

Já quase desiludido
quando chegou na rodagem
achou que tinha perdido
o dinheiro e a viagem,
olhava e naquilo tudo
via um bodete pançudo
pequeno e muito esquisito,
o povo que o encontrava
reparava e perguntava:
cadê a mãe do cabrito?

Quando ele chegou na rua
enfadado e sem coragem
foi grande a vergonha sua
pra fazer a matutagem
e assim que o bode esfolou,
o povo se alvoroçou
tudo queria comprar
com algazarra e pagode
porém o diabo do bode
não deu nem pra começar

Lojas, bancas e bodegas
Todos queriam quinhão
e os marchantes seus colegas
fazendo chateação
chegava um e dizia
com a maior anarquia:
só negocia quem pode
e Miguel encabulado
calado, muito calado
pesava a carne do bode

Depois que a carne apurou
somou tudo e dividiu
com jeito multiplicou
e depois diminuiu.
Com a sua grande prática
abalou a matemática
sem perder operação.
E sabe o que aconteceu?
Oitenta contos perdeu
no bode do Boqueirão

A matutagem foi louca
Que o Miguel perdeu a feira
E além da carne ser pouca
A pele não deu primeira
ficou sem jeito o marchante.
Com a droga embriagante
Totonho lhe tapeou,
com tal negócio horroroso.
Miguel ficou desgostoso
E nunca mais boatou

Não quer negócio fazer
com gente do Boqueirão
o seu negócio é vender
farinha, milho e feijão
assim mesmo no mercado;
viver quieto e sossegado
o caixãozeiro não pode
por onde ele vai passando
vai o povo anarquizando:
seu Miguel, me compre um bode.

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Patativa do Assaré  Cordéis , Coleção Nordestina, Organização e Apresentação de Gilmar de Carvalho e Prefácio de Luíz Tavares Júnior, 2ª edição ampliada, 2012, Edições UFC, Fortaleza   CE; Patativa do Assaré (1909  2002), ou Antônio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina — Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa  (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino — 80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré — 88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.

Elizabeth Bishop: O Banho de Xampu*

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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Os líquens  silenciosas explosões
nas pedras  crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas? 
 Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

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Elizabeth Bishop

The Shampoo

The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading, gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you’ve been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens. For Time is
nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
 Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.

* Nota deste aprendiz de blogueiro: Clique no título lá em cima e acesse o filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto. 
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Elizabeth Bishop — Poemas do Brasil, Seleção, Introdução e Tradução de Paulo Henriques Britto, 1999, Companhia das Letras, São Paulo — SP;  Elizabeth Bishop (1911  1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brasil; bibliografia: North & South (1946), A Cold Spring Poems: North &South — A Cold Spring  (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua obra, entre os quais o Pulitzer e o National Book Award; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver, e cuja história é mostrada no filme  Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

José Oiticica: Os Canaviais

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Verdes, no alto ou no vale, ao sol das Alagoas,
Do norte da Bahia e além de Pernambuco,
Os vastos canaviais, viçando em terras boas,
Renovam, para a moenda, o açúcar do seu suco.

Neles cruzam-se, em faina, animais e pessoas:
O cafuzo, o caboclo, o negro, o mameluco,
Bois carreando, quartaus no cambito, canoas
Pelos rios, vagões, vigias de trabuco.

E ao clarão tropical das manhãs purpurinas,
Rociados, abrem no ar as folhas verde-gaio...
Canas que vão dar vida aos banguês e às usinas!

E eu vejo que esse enorme esforço, essa riqueza,
Esse mundo é criação, é o labor sem desmaio
De uma raça de heróis, doente, escrava e indefesa!

(Sonetos  2ª série, 1919)

José Rodrigues Leite e Oiticica
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Nova Antologia Brasileira da Árvore — Maria Thereza Cavalheiro, Prefácio de Guilherme de Almeida, e Organização e Apresentação de Maria Thereza Cavalheiro, 1974, 1ª edição, Livraria Editora Iracema, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882  1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió  AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho  (jornal clandestino, 1929)Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A LanternaSpartacusLivre PensadorA Plebe,  e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série  (1911), Ode ao Sol  (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas  (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rainer Maria Rilke: Deixa todo adeus para trás, como se avançado . . . [soneto]

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[Traduzido por José Paulo Paes]

II: 13

Deixa todo adeus para trás, como se avançado
estivesses, inverno já no fim. Há contudo
um inverno quase eterno que teu hibernado
coração, sobrepujando-o, sobrevive a tudo.

Sê morto sempre em Eurídice  alça-te, mais hinos
e mais louvores cantando, à pura relação.
Aqui, entre os efêmeros, no reino do declínio,
sê um cristal vibrante que se rompe à vibração.

Sê  mas da condição do não-ser bem a par,
dessa base infinda do teu íntimo vibrar,
para nessa única vez por inteiro cumpri-la.

Às reservas em uso, bem como às inaudíveis
da Natureza plena, a tais somas indizíveis
soma-te com júbilo e ao número aniquila.

(Sonetos a Orfeu, Parte II: 13  1923)

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Rainer Maria Rilke

II: 13.

Sei allem Abschied voran, als wäre er hinter
dir, wie der Winter, der eben geht.
Denn unter Wintern ist einer so endlos Winter,
dass, überwinternd, dein Herz überhaupt übersteht.

Sei immer tot in Eurydike , singender steige,
preisender steige zurück in den reinen Bezug.
Hier, unter Schwindenden, sei, im Reiche der Neige,
sei ein klingendes Glas, das sich im Klang schon zerschlug.

Sei – und wisse zugleich des Nicht-Seins Bedingung,
den unendlichen Grund deiner innigen Schwingung,
dass du sie völlig vollziehst dieses einzige Mal.

Zu dem gebrauchten sowohl, wie zum dumpfen und stummen
Vorrat der vollen Natur, den unsäglichen Summen,
zähle dich jubelnd hinzu und vernichte die Zahl.

(Die Sonette an Orpheus, Zweiter Teil: 13  1923)
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Poemas R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras São Paulo SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Geditche (Novos Poemas I e II, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Francisco Carvalho: Desta esperança incauta que se eriça . . . [soneto]

Francisco Carvalho
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Soneto XXXV

Desta esperança incauta que se eriça
como se fosse o pelo de uma fera;
desta vaga que dorme e se espreguiça,
deste vento que afaga e que incinera...

Do momento que passa e do que fica,
da razão que se indaga e que pondera;
do tijolo, da rosa e da caliça,
do breve adeus e da infinita espera...

Do bagaço do vinho que beberes
do lenho desse instante em que partires
do umbigo azul de todas as mulheres

ceifadas pelo alfanje do arco-íris...
Do espinho da saudade e do acalanto
farei meus versos e cantarei meu canto.

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Quadrante solar — poesia, Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira,  1982, L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Francisco de Oliveira Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966),  Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969),  Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Lili Leitão: Pau para toda a obra*

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Nunca ninguém me viu, jamais, sisudo;
Sou sempre a mesma cara entusiasmada.
Quer bebendo um refresco num canudo,
Quer tomando, na esquina, uma lambada**.

Dou, com todo prazer, beijo ou cascudo
Sou sempre o mesmo amigo e camarada;
Tenho grande apetite para tudo,
Não me falta vontade para nada.

Tanto como feijão como presunto,
Tanto danço o maxixe brasileiro
Como choro na cova de um defunto.

Contem comigo; a todo gosto afronto,
Pois mesmo até para emprestar dinheiro,
Sem juros, juro que estou sempre pronto***...

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Notas de Luiz Antonio Barros:
* Pau para toda a obra: pessoa ou coisa que serve para tudo. (Lili)
** Lambada: dose de bebida alcoólica que se toma de uma só vez. (idem)
*** Pronto: sem dinheiro. (ibidem)

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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização, Apresentação e Introdução de Luiz Antonio Barros, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua  (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo  (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas  (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

domingo, 26 de agosto de 2018

Bastos Tigre: Envelhecendo

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Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Seleção e Organização de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Manuel Bastos Tigre (1882  1957), pernambucano de Recife, foi poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento. 

sábado, 25 de agosto de 2018

Vinicius de Moraes: Soneto de intimidade

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Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

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Sonnet of intimacy

[translated by Elizabeth Bishop]

Farm afternoons, there’s much too much blue air.
I go out sometimes, follow the pasture track,
Chewing a blade of sticky grass, chest bare,
In threadbare pajamas of three summers back,

To the little rivulets in the river-bed
For a drink of water, cold and musical,
And if I spot in the brush a glow of red,
A raspberry, spit its blood at the corral.

The smell of cow manure is delicious.
The cattle look at me unenviously
And when there comes a sudden stream and hiss

Accompanied by a look not unmalicious,
All of us, animals, unemotionally
Partake together of a pleasant piss.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry  Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut  USA; Vinicius de Moraes (1913  1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford  Inglaterra; além de poeta, foi crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para Orfeu Negro, e que se tornaria um filme premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; obra poética: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.