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O praciano e o roceiro
já sabem Miguel quem é
este grande caixãozeiro
do mercado de Assaré,
sua língua é uma mola
fala mais do que vitrola
é amigo muito exato
seu nome é Miguel de Souza
mas devido tanta causa
lhe chamam Miguel Boato.
Miguel é negociante
É um grande caixãozeiro,
mas também banca o marchante
comprando bode e carneiro
só compra para ganhar
porque sabe avaliar
o peso da criação;
mas desta vez se lascou
com um bode que comprou
no sítio do Boqueirão
Totonho de Zé Candinha
que anda atrás de melhora
vendendo um bode que tinha
fez grande recurso agora
Miguel foi o preferente
E o Totonho, inteligente
fingindo ser bem fiel
chegou de cara risonha
e um cigarro de maconha
fumou perto de Miguel
Totonho, por um capricho
vendo Miguel maconhado
disse: vamos ver o bicho
que está ali no cercado
e na vista do marchante
era um bode extravagante
do tamanho de um camelo,
Miguel com gosto sorria,
coitado! inda não sabia
do seu grande desmantelo
Perguntou achando graça:
Totonho responda a mim
onde encontrou esta raça
de bode tão grande assim?
Este é pra mais do contrato
por cento e oitenta é barato
o seu bonito animal,
o monstro parece um boi
faço de conta que foi
um presente de Natal
Para realizar seu sonho,
cheio de vida e contente
se despediu de Totonho,
tocando o bode na frente,
alegre, pelo caminho,
dizia mesmo sozinho:
agora eu ganho pacote,
desta vez eu dei um bolo
e a custa daquele tolo
eu vou aprumar o chote
Porém quando se sumiu
o efeito da maconha,
o bode diminuiu
de fazer raiva e vergonha,
o marchante encabulado
dizia impressionado:
o bode que era um sendeiro
se transformou de repente!
Foi quando ficou ciente
que o Totonho é maconheiro
Com uma raiva medonha
dizia: o bode mudou
com certeza foi maconha
que aquele diabo fumou,
pensando em sua caipora
seguindo de estrada a fora
sem prazer, sem alegria
na frente o bode tocava
e quando mais reparava
mais ele diminuía
Já quase desiludido
quando chegou na rodagem
achou que tinha perdido
o dinheiro e a viagem,
olhava e naquilo tudo
via um bodete pançudo
pequeno e muito esquisito,
o povo que o encontrava
reparava e perguntava:
cadê a mãe do cabrito?
Quando ele chegou na rua
enfadado e sem coragem
foi grande a vergonha sua
pra fazer a matutagem
e assim que o bode esfolou,
o povo se alvoroçou
tudo queria comprar
com algazarra e pagode
porém o diabo do bode
não deu nem pra começar
Lojas, bancas e bodegas
Todos queriam quinhão
e os marchantes seus colegas
fazendo chateação
chegava um e dizia
com a maior anarquia:
só negocia quem pode
e Miguel encabulado
calado, muito calado
pesava a carne do bode
Depois que a carne apurou
somou tudo e dividiu
com jeito multiplicou
e depois diminuiu.
Com a sua grande prática
abalou a matemática
sem perder operação.
E sabe o que aconteceu?
Oitenta contos perdeu
no bode do Boqueirão
A matutagem foi louca
Que o Miguel perdeu a feira
E além da carne ser pouca
A pele não deu primeira
ficou sem jeito o marchante.
Com a droga embriagante
Totonho lhe tapeou,
com tal negócio horroroso.
Miguel ficou desgostoso
E nunca mais boatou
Não quer negócio fazer
com gente do Boqueirão
o seu negócio é vender
farinha, milho e feijão
assim mesmo no mercado;
viver quieto e sossegado
o caixãozeiro não pode
por onde ele vai passando
vai o povo anarquizando:
seu Miguel, me compre um bode.

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Patativa
do Assaré — Cordéis , Coleção Nordestina, Organização e Apresentação de Gilmar
de Carvalho e Prefácio de Luíz Tavares Júnior, 2ª edição ampliada, 2012,
Edições UFC, Fortaleza — CE; Patativa do Assaré (1909 — 2002), ou
Antônio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor,
cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e
livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança,
mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a
ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se
nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz
Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e
foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal;
obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina —
Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto
Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13
folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa (1994), Ao Pé da
Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia
Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como
poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em
discografia: Poemas e Canções (1979), A Terra é Naturá (1981),
Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto
Nordestino — 80 Anos de Luz (1989), Patativa do
Assaré — 88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD
incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de
Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de
cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos
pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos,
tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em
universidades daqueles estados.











