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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Autoria desconhecida *: Menino da rua

Fotógrafo: João Machado
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Menino da rua, que pinta e que esbanja, 
Que foge de casa, que furta laranja,
Do nosso quintal...
Que atiça cachorro, que joga bolinha,
Que engraxa sapatos, que xinga a vizinha.
Que vende jornal...

Menino da rua, moleque vadio,
Que fuma bagana, que nada no rio
Em dias de sol...
Que grita, que briga, que faz arruaças,
Que estraga os telhados, que quebra as vidraças
Com o seu futebol...

Menino da rua, que foge da escola
Que forma seu bando de gente gabola
Nos becos sem luz...
Que diz nome feio, que cospe e esconjura,
Que segue o palhaço, que mente, que jura
Com os dedos em cruz...

Menino da rua que pisa a enxurrada,
Que senta no chão, que suja a calçada,
Que é bamba dos bravos...
Que põe apelidos, que apanha foguetes,
Que busca recados, que leva bilhetes...
Por vinte centavos...

Menino da rua, magrinho e briguento,
Que quase não come, que dorme ao relento,
Sem nada queixar...
Que vai ao cinema, que banca o mocinho,
Que canta e assobia, que sofre sozinho.
Que vive sem lar...

Menino da rua, de brecha na testa,
De calça rasgada, que em dia de festa
A gente não vê...
Que joga baralho, que pula, que salta,
Que briga de pique... menino peralta,
Invejo você!
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Este poema, de autoria desconhecida por enquanto, fez parte da minha pré-adolescência em Iperó SP. Tomei contato com o texto em 1965, quando eu tinha doze anos e cursava a primeira série do antigo ginásio em Boituva, uma cidade próxima de Iperó. Constava do livro didático à época, e do qual também não retive o nome do autor. Quanto esquecimento! Já bem recentemente, nas minhas pesquisas googleanas e que tais, consegui recuperar tão somente o texto do poema, mas nada nem sinal do nome do ou da poeta. Nas visitas que ainda faço em sebos, sinto-me como que procurando agulha em palheiro. Outra informação: o poema 'Menino da Rua' foi publicado no jornal O Agudense, número 17, de 16.06.1960  direção de Édio Sormani, de Agudos — SP. Descobri isso recentemente e, claro, ali também não consta a autoria.

Fica a dica, para quem quiser colaborar: Que tal continuarmos a pesquisa? Grato, desde já.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces

["Vai, Carlos! ser gauche na vida."]

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A Mário de Andrade, meu amigo

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Alguma Poesia, 1930

Carlos Drummond De Andrade - Reunião
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Reunião — 10 Livros de Poesia — Drummond, Introdução de Antônio Houaiss, Quinta edição, Livraria José Olympio Editora, 1973, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952) Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...