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[traduzido por Jorge Wanderley]
Eu fisguei um peixe enorme
e o mantive ao lado do barco
metade fora d'água, com meu anzol
que lhe cravara o canto da boca.
Ele não lutou.
Ele não lutara mesmo nada.
Ele era um peso pendente
derrotado e venerável
e simples. De vez em quando
seu corpo marrom aparecia em listras
como antigo papel de parede,
e seus desenhos de marrom mais escuro
eram como o papel de parede:
formas de rosa desabrochadas a pleno,
manchadas e gastas pelo tempo.
Ele estava salpicado do óleo dos navios,
de finas rosetas visgosas
e infestado
por pequenos e brancos piolhos marinhos
e por baixo dele pendiam
dois ou três farrapos de algas verdes.
Enquanto suas guelras estavam respirando o
terrível oxigênio
— as assustadoras guelras
frescas e eriçadas, com sangue,
e que podem cortar tão cruelmente —
pensei em sua rude carne branca
enfeixada como plumas,
os grandes e pequenos ossos
os dramáticos vermelhos e negros
de suas entranhas luzidias
e a bexiga avermelhada
como uma grande peônia.
Olhei dentro dos seus olhos
que eram bem maiores que os meus
porém mais rasos e amarelados,
a íris retraída e envolvida
em folha de estanho embaçada,
vista através de lentes
de um velho, arranhado esturjão.
Seu olhar se desviou um pouco porém não o bastante
para devolver o meu.
— Era mais como se
recobrisse
um objeto contra a luz.
Admirei-lhe a face sombria,
o mecanismo de sua mandíbula
e então vi
que de seu lábio inferior
— se é possível falar de
lábio —
severo, úmido, agressivo
pendiam cinco antigas linhas de pescar
ou quatro, talvez, e um guia de metal
ainda com a argola
e com todos os cinco grandes anzóis
cravados firmes em sua boca.
E uma linha verde, desgastada na extremidade
em que ele a havia partido, e duas outras mais fortes
além de um fio preto e fino
ainda encrespado pelo esforço e pelo golpe
do momento em que ele escapou.
Eram como condecorações, como suas faixas
esfrangalhadas e oscilantes,
uma barba de sabedoria com cinco filamentos
que ele arrastava em sua mandíbula dorida.
Eu olhei e olhei
e a vitória encheu
o pequeno barco alugado
surgida da água que havia entrado
e onde o óleo difundia um arco-íris
junto ao motor enferrujado
e o rosa enferrujado da água baldeada
e o meu banco, que estalava ao sol,
e os remos, nos seus encaixes,
e o interior do barco — e
tudo, enfim,
era o arco-íris agora, era o arco-íris agora!
E eu deixei o peixe ir embora.
 |
| Elizabeth Bishop |
The
Fish
I caught a tremendous fish
and held him beside the boat
half out of water, with my
hook
fast in a corner of his
mouth.
He didn’t fight.
He hadn’t fought at all.
He hung a grunting weight,
battered and venerable
and homely. Here and there
his brown skin hung in
strips
like ancient wallpaper,
and its pattern of darker
brown
was like wallpaper:
shapes like full-blown roses
stained and lost through
age.
He was speckled with barnacles,
fine rosettes of lime,
and infested
with tiny white sea-lice,
and underneath two or three
rags of green weed hung
down.
While his gills were
breathing in
the terrible oxygen
— the frightening gills,
fresh and crisp with blood,
that can cut so badly —
I thought of the coarse
white flesh
packed in like feathers,
the big bones and the little
bones,
the dramatic reds and blacks
of his shiny entrails,
and the pink swim-bladder
like a big peony.
I looked into his eyes
which were far larger than
mine
but shallower, and yellowed,
the irises backed and packed
with tarnished tinfoil
seen through lenses
of old scratched isinglass.
They shifted a little, but
not
to return my stare.
— It was more like the tipping
of an object toward the
light.
I admired his sullen face,
the mechanism of his jaw,
and then I saw
that from his lower lip
— if you could call it a lip —
grim, wet, and weaponlike,
hung five old pieces of
fish-line,
or four and a wire leader
with the swivel still
attached,
with all their five big hooks
grown firmly in his mouth.
A green line, frayed at the
end
where he broke it, two
heavier lines,
and a fine black thread
still crimped from the
strain and snap
when it broke and he got
away.
Like medals with their
ribbons
frayed and wavering,
a five-haired beard of
wisdom
trailing from his aching
jaw.
I stared and stared
and victory filled up
the little rented boat,
from the pool of bilge
where oil had spread a
rainbow
around the rusted engine
to the bailer rusted orange
and sun-cracked thwarts,
the oarlocks on their
strings,
the gunnels — until
everything
was rainbow, rainbow,
rainbow!
And I let the fish go.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana
— Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização
Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth
Bishop (1911 — 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora;
viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e,
depois, em Ouro Preto, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista
Time-Life, reunidas na obra Brasil; bibliografia: North & South (1946),
A Cold Spring Poems: North & South — A Cold Spring (1955), Questions of Travel
(com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography
III (1976), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and
Fragments (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para
o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira,
João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por
ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria
com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua obra, entre os quais o Pulitzer e o
National Book Award; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se
amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria
Carlota), com quem passou a conviver, e cuja história é mostrada no filme Flores
Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires
como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.