segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Antero de Quental: Metempsicose

 
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Ausentes filhas do prazer: dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes, em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, onde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas de amor um corpo exangue...

Mordei pois esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! leoas! sim, bebei meu sangue!

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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

domingo, 29 de novembro de 2020

Bernardo Guimarães: Desalento

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Nestes mares sem bonança,
Boiando sem esperança,
Meu baixel em vão se cansa
Por ganhar o amigo porto;
Em sinistro negro véu
Minha estrela se escondeu;
Não vejo luzir no céu
Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,
Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me
Sobre o elemento infiel;
Ouço já o bramir tredo
Das vagas contra o penedo
Onde irá talvez bem cedo
Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo
Nem praia, nem lenho amigo,
Que me salve do perigo,
Nem fanal que me esclareça;
Só vejo as vagas rolando,
Pelas rochas soluçando,
E mil coriscos sulcando
A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,
Pela túrbida planura,
Através da sombra escura,
Voga sem leme e sem norte;
Sem velas, fendido o mastro,
Nas vagas lançado o lastro,
E sem ver nos céus um astro,
Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,
Às vagas eu te abandono,
Como cavalo sem dono
Pelos campos a vagar;
Voga nesse pego insano,
Que nos roncos do oceano
Ouço a voz do desengano
Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,
Voga sem rumo perdido,
Pelas tormentas batido,
Sobre o elemento infiel;
Para ti não há bonança;
À toa, sem leme avança
Neste mar sem esperança,
Voga, voga, meu baixel!

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Poesias Completas de Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, magistrado e professor; bibliografia: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Poesias diversas (1865), Evocações (1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

sábado, 28 de novembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Linha d'água

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Nos ermos e fraturas do projeto,
nos trechos e apetrechos do silêncio,
construo as teorias e os desertos
permeáveis à chuva que te inventa,
artesiana e sutil, fluxo e reflexo,
luz de cristal pelo subsolo, centro
de formas disfarçadas pelo inverso
dos lençóis que te cobrem de argumento.
No sal das erosões, no sol, na pedra,
no som que vai polindo esta palavra
como um fóssil na areia do estuário,
destruo o teu perfil de foz e delta
e te reprimo sob a linha-d'água
como uma sombra impressa no papel.

Arte de Armar (1977)

Gilberto Mendonça Teles - Página inicial | Facebook
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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Pablo Neruda: Testamento

Neruda para Jovens - Pablo Neruda
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[traduzido por José Eduardo Degrazia]

Deixo meus velhos livros, recolhidos
pelos rincões do mundo, venerados
na sua tipografia majestosa,
para os novos poetas da América,
para aqueles que um dia
fiarão no rouco tear interrompido
e que serão os signos do amanhã.

Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos e mineiros,
tiver dado uma vida inumerável
pra limpar a catedral distorcida,
o grão desengonçado, o filamento
que enredou nossas ávidas planícies.
Toquem eles infernos, o passado
que esmagou os diamantes,e defendam
os mundos cereais do seu próprio canto,
o que nasceu na árvore do martírio.

Sobre os ossuários dos caciques, longe
da nossa herança traída, em pleno
ar dos povos que caminham sozinhos,
eles vão povoar a constituição
de um grande sofrimento vitorioso.

Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora,
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram titânicos guardiães, com armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
no meu Lautréamont velhos lamentos
por entre as pestilências da agonia.
Em Maiakóvski vejam como se ergueu a estrela
e como de seus raios nasceram espigas.

(Canto Geral — 1950)

Pablo Neruda - Página inicial | Facebook
Pablo Neruda

Testamento

Dejo mis viejos libros, recogidos
en rincones del mundo, venerados
en su tipografía majestuosa,
a los nuevos poetas de América,
a los que un día
hilarán en el ronco telar interrumpido
las significaciones de mañana.

Ellos habrán nacido cuando el agreste puño
de leñadores muertos y mineros
haya dado una vida innumerable
para limpiar la catedral torcida,
el grano desquiciado, el filamento
que enredó nuestras ávidas llanuras.
Toquen ellos infiernos, este pasado
que aplastó los diamantes, y defiendan
los mundos cereales de su canto,
lo que nació en el árbol del martirio.

Sobre los huesos de caciques, lejos
de nuestra herencia traicionada, en pleno
aire de pueblos que caminan solos,
ellos van a poblar el estatuto
de un largo sufrimiento victorioso.

Que amen como yo amé mi Manrique, mi Góngora,
mi Garcilaso, mi Quevedo:
fueron titánicos guardianes, armaduras
de platino y nevada transparencia,
que me enseñaron el rigor, y busquen
en mi Lautréamont viejos lamentos
entre pestilenciales agonías.
Que en Maiakovsky vean cómo ascendió la estrella
y cómo de sus rayos nacieron las espigas.

(Canto general — 1950)
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Neruda para jovens — Antologia poética, Edição bilíngüe, Organização de Isabel Córdova Rosas e Tradução de José Eduardo Degrazia, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del dia (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Abílio Victor (Nhô Bentico): Nunca vi:

 
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Chuva braba sem trovão,
gaiola sem arçapão,
casa véia sem fogão,
padaria sem tê pão,
mamãoêro sem mamão,
quintá sujo sem picão,
nem festa sem tê rojão.
Orquestra sem rabecão,
São Pedro sem tê balão,
nem camisa sem botão.
Mulata no riberão,
lavá  rôpa sem sabão,
nem bespa sem tê ferrão.
Manguêra sem tê portão,
sobrado sem tê porão,
nem cavalo redomão
cumê mío em garrafão.
Trem de ferro sem vagão,
nem sáia sem tê cordão,
espingarda sem tê cão,
bengala com dois gastão,
tomóve sem direção,
carne assada sem limão,
guardamento sem quentão,
nem cama sem tê corchão.
Burro véio sem senão,
escola sem decurião,
nem reza sem capelão.
Casamento sem função,
u banda sem tê pistão.
Defunto de pé no chão,
nem negócio sem barcão,
u guerra sem tê canhão.
Moça linda sem batão,
i sogra cum coração...

Folhas do Mato (1938 e 1940)

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Poemas Sertanejos — Apresentação de Juvenal Paiva Pereira (reedição de Folhas do Mato — Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, e Favas de Ingá), 1984 — Gráfica Itapetininga, Itapetininga — SP; Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato (1938, 2ª edição em 1940), Versos Humorísticos, Favas de Ingá (1950) e Poemas Sertanejos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Paulo Bomfim: Soneto da transfiguração

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Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha,
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes.
   Venho de longe a contornar a esmo
   O cabo das tormentas de mim mesmo.


Sonnet de la transfiguration

Je viens de loin, j’apporte la pensée
Em vieux sels et odeur de mer, baignée;
Je trâine des voiles rompues par le vent
Et des mâts chargés d’agonie.
J’arrive de ces mers oubliées
Dans les itinéraires abondonnés il y a longtemps.
Et j’apporte dans la rétine dilués
Les ports mystérieux jamais touchés.
Je retiens dans mon âme, accroché à la quille,
Toute une mer d’algues et de voix,
Et je cherche encore à l’horizon l’île
Où des albatros rêvent d’aller mourir.
   Je viens de loin au hazard faisant le tour
   Du cap des tempêtes de moi-même.
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista e poeta; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo, colaborando também com o Diário de Notícias, do Rio; sua obra poética de estréia, Antônio Triste (com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada, no ano seguinte, com o prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; depois, vieram Transfiguração (1951), Relógio de sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), O colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004) etc.; atuou na Fundação Cásper Líbero, produziu e participou de programações para rádio e televisão.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Lindolf Bell: Livra o nome de inúteis sons

 
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Livra o nome
de inúteis sons
de letras a mais
ou a menos

Livra o destino
do nome gravado
Do nome escrito
em areia do tempo,
no imutável tempo
do nome

Livra a alma
de escudos, estrelas demais
De tudo supérfluo,
de toda superfície,
do aluamento do ser.

Livra a liberdade
de todo lastro
De qualquer lustro
De qualquer lustro
De vocábulos insólitos, grandiloquentes,
feitos de nada,
vocábulos de enfeite, confeitos

Livra-te do palmo de terra
que te cabe
De panfletos do sentimentalismo
Dos improvisos da paixão

Livra-te de ti
antes de tudo
Livra-te a fio de navalha
Livra-te a fio de idéia
que da dor faz palha

Livra-te das idéias fixas
Porque a dor alheia
também é nossa

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Fontoura Xavier: Estudo anatômico

 
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Entrei no anfiteatro da ciência,
conduzido por mera fantasia,
e aprouve-me estudar anatomia,
por dar um novo pasto à inteligência.

Discorria com toda a sapiência
um lente, numa mesa em que jazia
uma imóvel matéria muda e fria,
a que outrora animara humana essência.

Fora uma meretriz. Seu rosto belo
pude, tímido, olhá-lo com respeito,
por entre negras ondas de cabelo...

A um gesto do lente, contrafeito,
rasguei-a com a ponta do escalpelo
e não vi o coração dentro do peito!...

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª. Edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

domingo, 22 de novembro de 2020

Afonso Henriques Neto: Em Heráclito, com Borges

Afonso Henriques Neto - Coleção Ciranda da Poesia - 9788575112601 ...
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Heráclito desliza na manhã
em Nova York. O músculo do tráfego
(para dizer assim, vento prosaico)
no seu sonho relê sentença eterna
de que o mesmo rio duas vezes
nenhuma imagem verá
em suas águas. E esta gema de absoluto
(verdade, ficção da ironia?)
reverdescendo velhos poemas
é diadema urdido no poeta, flama e
destino, sangue do espírito, delírio
à mesa de Borges (negra Genebra),
punhal de um floral agosto,
irrevogável. Oh tigre cintilante
do sol-posto! Heráclito, nada
mas já espelho, Borges, infinito,
máscara a mastigar o próprio rosto.

SIP (Ser infinitas palavras 2001) [Avenida Eros], p. 133

Afonso Herinques Neto dialoga com heterônimo de Fernando Pessoa em ...
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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

sábado, 21 de novembro de 2020

Maria Firmina dos Reis: Dedicação

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Tributo de amizade

Je t’aime! je t’aime!
Oh ma vie.
(Byron)

Amo a donzela mimosa,
Com suas graças infantis,
Com seus lábios cor de rosa,
Com seus meneios gentis,
Como a garça vaporosa,
Como uns gestos senhoris.

Amo vê-la reclinada
Sobre a margem dum ribeiro,
Docemente acalentada,
Por um sonhar lisonjeiro,
Com a mente toda enlevada,
Em seu cismar feiticeiro.

Amo vê-la na arvorada,
Vagando por entre flores.
Ela flor mais bem-fadada,
Mais recamada de odores,
Colhendo a flor delicada,
Que meiga fala de amores.

Mas, melhor que todas elas,
Amo o ver-te, em teus fulgores,
Amo-te mais que as mais belas,
Amo-te mais do que as flores,
Que tanto atraem as donzelas,
Que tanto falam de amores,

Eu amo ouvir-te um suspiro
Um só, fugindo medroso,
Como em longínquo retiro,
Amo um som terno queixoso,
O qual com ânsia eu aspiro,
Repetir-se, melindroso.

Eu amo ver-te ligeira
Como a corça fugitiva,
Casta, mimosa, e esquiva:
Cada vez mais feiticeira,
Cada vez mais casta, e diva.

Amo ver-te, fresca rosa,
Com sua doce formosura,
Com sua fragrância odorosa,
Com seu encanto e doçura,
Entre as outras mais mimosa,
Cobrando amor, e ternura.

Eu amo ver-te entre as belas,
Vagando como senhora,
Como o mimo das donzelas,
Como fada sedutora:
Amo-te mais do que a elas,
Casto perfume da aurora.

Amo em ti, quanto há na vida,
Que inspira melancolia,
Quanto pode ser querida
D’uma harpa a doce harmonia,
D’uma virgem a voz sentida,
Dos anjos, a melodia.

Guimarães, 20 de setembro de 1861.

(transcrita por José Nascimento Morais Filho)
A Verdadeira Marmota, ano [?], n. [?], Maranhão:
 Tip. Temperança. [?] set. 1861, p. [?].

Mulheres Escritoras #1: Maria Firmina dos Reis
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917, maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e Diário do Maranhão; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães  MA, onde viveu.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Elizabeth Bishop: O peixe

Antologia da Nova Poesia Norte-Americana | Livro Editora ...
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Eu fisguei um peixe enorme
e o mantive ao lado do barco
metade fora d'água, com meu anzol
que lhe cravara o canto da boca.
Ele não lutou.
Ele não lutara mesmo nada.
Ele era um peso pendente
derrotado e venerável
e simples. De vez em quando
seu corpo marrom aparecia em listras
como antigo papel de parede,
e seus desenhos de marrom mais escuro
eram como o papel de parede:
formas de rosa desabrochadas a pleno,
manchadas e gastas pelo tempo.
Ele estava salpicado do óleo dos navios,
de finas rosetas visgosas
e infestado
por pequenos e brancos piolhos marinhos
e por baixo dele pendiam
dois ou três farrapos de algas verdes.
Enquanto suas guelras estavam respirando o
terrível oxigênio
as assustadoras guelras
frescas e eriçadas, com sangue,
e que podem cortar tão cruelmente
pensei em sua rude carne branca
enfeixada como plumas,
os grandes e pequenos ossos
os dramáticos vermelhos e negros
de suas entranhas luzidias
e a bexiga avermelhada
como uma grande peônia.
Olhei dentro dos seus olhos
que eram bem maiores que os meus
porém mais rasos e amarelados,
a íris retraída e envolvida
em folha de estanho embaçada,
vista através de lentes
de um velho, arranhado esturjão.
Seu olhar se desviou um pouco porém não o bastante
para devolver o meu.
Era mais como se recobrisse
um objeto contra a luz.
Admirei-lhe a face sombria,
o mecanismo de sua mandíbula
e então vi
que de seu lábio inferior
se é possível falar de lábio
severo, úmido, agressivo
pendiam cinco antigas linhas de pescar
ou quatro, talvez, e um guia de metal
ainda com a argola
e com todos os cinco grandes anzóis
cravados firmes em sua boca.
E uma linha verde, desgastada na extremidade
em que ele a havia partido, e duas outras mais fortes
além de um fio preto e fino
ainda encrespado pelo esforço e pelo golpe
do momento em que ele escapou.
Eram como condecorações, como suas faixas
esfrangalhadas e oscilantes,
uma barba de sabedoria com cinco filamentos
que ele arrastava em sua mandíbula dorida.
Eu olhei e olhei
e a vitória encheu
o pequeno barco alugado
surgida da água que havia entrado
e onde o óleo difundia um arco-íris
junto ao motor enferrujado
e o rosa enferrujado da água baldeada
e o meu banco, que estalava ao sol,
e os remos, nos seus encaixes,
e o interior do barco e tudo, enfim,
era o arco-íris agora, era o arco-íris agora!
E eu deixei o peixe ir embora.

Bishop não era uma escritora politizada', diz tradutor da poeta ...
Elizabeth Bishop

The Fish

I caught a tremendous fish
and held him beside the boat
half out of water, with my hook
fast in a corner of his mouth.
He didn’t fight.
He hadn’t fought at all.
He hung a grunting weight,
battered and venerable
and homely. Here and there
his brown skin hung in strips
like ancient wallpaper,
and its pattern of darker brown
was like wallpaper:
shapes like full-blown roses
stained and lost through age.
He was speckled with barnacles,
fine rosettes of lime,
and infested
with tiny white sea-lice,
and underneath two or three
rags of green weed hung down.
While his gills were breathing in
the terrible oxygen
the frightening gills,
fresh and crisp with blood,
that can cut so badly
I thought of the coarse white flesh
packed in like feathers,
the big bones and the little bones,
the dramatic reds and blacks
of his shiny entrails,
and the pink swim-bladder
like a big peony.
I looked into his eyes
which were far larger than mine
but shallower, and yellowed,
the irises backed and packed
with tarnished tinfoil
seen through lenses
of old scratched isinglass.
They shifted a little, but not
to return my stare.
It was more like the tipping
of an object toward the light.
I admired his sullen face,
the mechanism of his jaw,
and then I saw
that from his lower lip
if you could call it a lip 
grim, wet, and weaponlike,
hung five old pieces of fish-line,
or four and a wire leader
with the swivel still attached,
with all their five big hooks
grown firmly in his mouth.
A green line, frayed at the end
where he broke it, two heavier lines,
and a fine black thread
still crimped from the strain and snap
when it broke and he got away.
Like medals with their ribbons
frayed and wavering,
a five-haired beard of wisdom
trailing from his aching jaw.
I stared and stared
and victory filled up
the little rented boat,
from the pool of bilge
where oil had spread a rainbow
around the rusted engine
to the bailer rusted orange
and sun-cracked thwarts,
the oarlocks on their strings,
the gunnels until everything
was rainbow, rainbow, rainbow!
And I let the fish go.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, foi poeta e escritora; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo no Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brasil; bibliografia: North & South (1946), A Cold Spring Poems: North & South — A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu prêmios por sua obra, entre os quais o Pulitzer e o National Book Award; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver, e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.