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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Frederico Trotta: Meus tiranos

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(Aos meus sete netos)

Oh!  filhos de meus filhos, meus tiranos,
que a casa me invadis, alacremente,
na expansão natural dos tenros anos,
como um bando de pássaros, contente!

Não deixais sossegados móveis, panos,
em tudo remexeis alegremente.
Sois meigos, vivos, bons, não causais danos
e a tristeza espantais, jocosamente!

E junto da avó, em grupo tagarela,
à larga expandis os corações,
formando um cromo, cândida aquarela,
tal qual Branca de Neve e os sete anões!

Adoro essa balbúrdia domingueira,
de brincos infantis e risos castos,
de suave sabor patriarcal!

Vós me tornais feliz de tal maneira
que, praza aos céus, na hora derradeira,
ao fechar para sempre os olhos gastos,
cerrando sobre a vida espesso véu,
ouça invadir a casa toda inteira,
vosso clamor;
fanfarra triunfal,
a conduzir-me à porta azul do céu!

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Poetas Cariocas em 400 Anos  Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro RJ; Frederico Trotta (1899  1980), carioca, formado em Direito, foi militar, político, escritor e poeta; colaborou nos periódicos O Jornal, Manhã e Diário do Povo, do Rio de Janeiro, e em A Tarde, de Curitiba  PR; escreveu e publicou Mãe antologia sentimental (1957), O Talismã do Cabo Pierre (contos, 1957), Um roseiral para alegras a vista (poesias, 1957), Poetas Cariocas em 400 Anos (1966) etc.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Luís Guimarães Júnior: O Filho

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A vida dele era uma gargalhada,
A vida dela um pranto. Ela chorava
Sob o cruel trabalho que a matava,
Ele ria na tasca enfumaçada.

Jamais nos lábios dela a asa doirada
De um sorriso passou; jamais na cava
E horrenda face dele resvalava
Sequer de um pranto a pérola nevada.

Mas Deus, que deu à entranha de Maria
O redentor dos homens, Deus lhes fez
Uma esmola: — Deus fê-los pais um dia;

E, enfim, beijando ao filho os níveos pés,
Pela primeira vez ela sorria
E ele chorou pela primeira vez.

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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845 ?  1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata; escreveu e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Mário Cockrane de Alencar: Não chegarei talvez ao termo do caminho . . . [soneto]

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Não chegarei talvez ao termo do caminho
O desânimo atarda o meu trêmulo passo,
Outros foram além; venceram pedra e espinho;
E eu só fiquei atrás vencido de cansaço.

Já não me guia o céu; quero voltar, refaço
As jornadas, e em toda a parte é o descaminho.
Assim a ave que errou longe, longe no espaço,
Não sabe mais voltar à terra do seu ninho.

Bate as asas, retorna, avança, volta, aflita,
E aspira o ar buscando os perfumes da terra,
E não sentindo mais, na amplidão infinita,

Nada que a leve ao ninho, exausta, desvairada,
Descai o vôo ao mar e sobre as ondas erra
Das ondas ao vaivém, sem esperar mais nada.

MÁRIO DE ALENCAR
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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Mário Cochrane de Alencar (1872 1925), nascido no Rio de Janeiro, formado em Ciências e Letras no Colégio Pedro II (Rio) e em Direito (São Paulo, atual USP Largo São Francisco), foi advogado, poeta, jornalista, contista e romancista; colaborou na imprensa do Rio Almanaque Brasileiro Garnier, Brasilea, Correio do Povo, Gazeta de Notícias, O Imparcial, A Imprensa, Jornal do Commercio, O Mundo Literário, Renascença, Revista Brasileira, Revista da ABL, Revista da Língua Portuguesa e em periódicos paulistas; escreveu e publicou Lágrimas (poesia, 1888), Versos (1902), Ode cívica ao Brasil (poesia, 1903), Dicionário de Rimas (1906), Alguns escritos (ensaio, 1910), O que tinha de ser (romance, 1912), Se eu fosse político (1913), Catulo da Paixão Cearense: Sertão em flor (1919) e outros títulos, além de textos esparsos por diversos jornais e revistas; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 8 de março de 2016

Carlos Fernandes Góes: Um louco

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Lia-se a história de um padecimento
No seu olhar incerto, alucinado...
Traço por traço, incógnito tormento
Tinha-lhe o rosto aos poucos macerado...

Tarde da noite, ao frígido relento,
Dobrava as ruas tácito, isolado,
Nos céus disperso o olhar frouxo e nublado,
Versos à lua soletrando e ao vento!

Dizem que amou... Detesta a companhia
Onde a mulher o vulto airoso apruma
Numa atitude às praxes acurvada...

Quando escancela a boca alvar e fria,
Parece que numa lágrima reçuma
A convulsão da estulta gargalhada!

Brazilian poet and writer. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 10 de outubro de 1881. Formado em direito e professor do Ginasio Mineiro em Belo Horizonte. Membro da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico Mineiro. Poeta e Prosador. Bibliog. - Crótalos, 1898; Cithara; Espelhos.
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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Fernandes Góes (1881  1934), nascido no Rio de Janeiro, bacharel em Direito, foi promotor, professor de Português, filólogo, gramático, dramaturgo, prosador e poeta; além de inúmeras obras didáticas — Dicionário de Raízes e CognatosDicionário de GalicismosDicionário de Afixos e Desinências, Método de Análise, Sintaxe da Regência, Gramática Expositiva Primária, Pontos de Língua Pátria ...  escreveu e publicou Crótalos (poesia, 1898), Cítara (poesia, 1904), O Governador das Esmeraldas (conto, 1911), História da terra mineira (1913), Teatro das crianças (teatro, 1917), Espelhos (poesia, 1924), A Boa Estrela (teatro) e outros títulos em verso e prosa, comédias e dramas. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Henrique Guimarães Lagden: A Vida

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Só o Passado é real; o Futuro, fantasma
Com que a mente dá forma à coisa inexistente.
E o minuto, que voa, e chamamos Presente
Já ficou para trás tão depressa entusiasma.

Toda a vaga ilusão que a humana ambição plasma
E supõe realizar hoje mesmo, fremente,
Lembra a sorte cruel da gota intercadente
Que mal tomba e já abriga o infusório e o miasma.

Toda vida é um Passado. O Presente subsiste
Como ideal concepção de um desejo, que insiste
Nesta glória de abrir ao sonho novas portas.

Mas a vida, em si mesma, a existência, afinal,
No Presente, fugaz, falaciosa, irreal,
Essa existe, direi, mas são as coisas mortas.
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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Henrique Guimarães Lagden (1888 1953), foi advogado, professor, filólogo, jornalista e fotógrafo; deixou quase todos os seus escritos esparsos em jornais e revistas da época; escreveu Vetusta Carmina; pertenceu às Academias Fluminense e Carioca de Letras e à Academia Brasileira de Filologia.