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quarta-feira, 11 de março de 2026

Ivo Barroso: É preciso

 
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É preciso ser duro
como a pedra
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias
É preciso ter cara
e ter coragem
É cada vez mais raro
quem assim reage
É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse

É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.

(A caça virtual — 2001)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ivo Barroso: Exórdio

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À memória de Dona Leonor de Almeida Portugal
Lorena  e Lencastre* no sesquicentenário da sua morte

Porque falar-vos quero, a cabeleira,
Marquesa, empôo, como usava outrora
fazer-se não de talco, mas de tempo
que já cuidou de ma tornar grisalha.

Antes haja uma pátina no timbre
das palavras triviais que vos dirijo
qual vós mesma fazíeis ao fingir-vos
de improvável pastora num palácio.

Aqui sob este teto onde algum dia
o peito vos sangrou, mas onde o riso
também vos alvejou a flor da boca,
evoco a vossa imagem como alguém
que desejasse celebrar um rito:

ao mesmo tempo um desafio à sombra
que vos envolve e a crença que permite
imaginar transpormos o limite.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que a portuguesa e lisboeta Dona Leonor de Almeida Portugal, ou Marquesa de Alorna (1750 — 1839), ou ainda Alcipe [seu pseudônimo literário], pertenceu à nobreza e foi poetisa; com a família perseguida e alguns tendo sido executados pelo Marquês de Pombal, desde a infância viveu parte de sua vida encarcerada no convento São Félix, Chelas, Lisboa, com sua mãe e irmã, enquanto o pai esteve preso na Torre de Belém e no Forte de Junqueira; na reclusão, tomou contato com obras de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, conheceu a Enciclopédia D’Alembert e Diderot, tornou-se estudiosa, dedicou-se à poesia, aprendeu outras línguas e também traduziu; deixou publicado vários livros e é tida como um dos nomes femininos mais importante da literatura e das artes em Portugal; parte de sua vida também passou no exílio.
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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (quatro tocatas para clavicórdio e sintetizador, poesias, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Ivo Barroso: Balzaquiana

 
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Vous êtes trop belle pour être
une honnête femme
Balzac (Les Chouans)

Uma ânfora copiou-lhe as curvas da cintura
E a arrogância do seio o côncavo da taça.
Seu olhar de mistério inebria e procura
Absorver para sempre o momento que passa.

Uma graça outonal em seu porte, uma graça
De crepúsculos vem beijando-lhe a figura.
Na finura do riso a ironia perpassa;
Na firmeza do passo a elegância perdura.

Entre o sol que se eleva aos alvores do dia
E a noite que vem longe, é a tarde azul que empresta
À branda luz do poente as cores que irradia.

Essa, a quem o Tempo a graça derradeira,
É bonita demais para mulher honesta
Sendo mulher demais para mulher solteira!

(Nau dos Náufragos — poesia, 1981)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Ivo Barroso: Acalanto

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Hoje dormirás a noite dos rios silenciosos
fluindo no tempo
as mornas águas do verão desfiando
os cabelos noturnos
por entre os velhos paredões da ponte.

A noite descerá dos eucaliptos
prenunciada pelas primeiras folhas
devolvidas ao solo.

Mas não haverá serenatas:
isso implicaria o passado
e a voz que tece aos teus ouvidos
vem mais da certeza do amanhã
que de murmúrios confundidos
em tramas de luar e vozes tristes.

Onde estarei em tua noite,
morta que foi a última estrela?
Onde estarei depois dos longos caminhos,
se me obstino em ter o rosto voltado para a frente?

A rua da província corre com o vento
para os altos descampados;
e este poste que fura um túmulo de luz
na noite sem mistérios
devolve a minha sombra aos teus domínios lentos
quase desfeitos na névoa do sono
que te cobre.

(Nau dos Náufragos — poesia, 1981)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Ivo Barroso: O céu dos velhos

 
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No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá embaixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.

(A caça virtual — 2001)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ivo Barroso: Valsa Triste

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Toda tarde — namorado,
era noivo, era marido,
era um príncipe encantado,

entre os homens que passavam
distraídos pela rua — 
Hermengarda procurava.

Sua mãe bordou cortinas,
botou vasos na janela,
penteou bem a menina...

Hermengarda já beirava
a casa triste dos trinta
debruçada na janela.

Cada vez o olhar mais vago
já não buscava na rua,
buscava no céu e na lua

— e o seu destino não vinha.

Pobrezinha de Hermengarda,
era insípida como o nome,
tinha um nariz tão gozado!

Nem amor nem casamento,
sequer logrou encontrar
o seu príncipe encantado.

Persistente toda a vida,
não se cansa de esperar
mesmo deitada e dormida.

A mãe tirou as cortinas,
quebrou os vasos de flor,
penteou bem a menina,

pôs-lhe uma vela na mão,
na cabeça o véu mais branco
de gaze noturna e fria...

Tudo faz falta no mundo:
como está muito mais triste
a janela de Hermengarda

— que se foi sem ter destino!

(Nau dos Náufragos — 1981)

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A caça virtual e outros poemas, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, já traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, 2000) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres, Estocolmo e de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; em Lisboa, licenciado do BB, foi redator da revista Seleções do Reader’s Digest.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Ivo Barroso: Condição

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Na mão fechada
o homem segura
uma granada.

Dura presença
tensão amarga
que não o larga.

Ah se pudesse
deixar cair
esse projétil,

abrir os dedos
e decidido
no chão deixá-la

ou esquecê-la
(há quem esqueça
a própria face)

ou acordado:
seria um sonho
essa granada?

acostumar-se
com seu defeito
e (luva) usá-la

ou vantajoso
utilizar-se
de seu relógio;

no punho do ódio
hirto — escondê-la.

Mas ele sabe
que não o pode,
que um dia explode

na mão fechada,
sem estilhaços
rompendo os dedos

quebrando o braço,
mas lentamente
como as raízes

que se alimentam
de sua força,
desse impossível

que é soltá-la,
desse consolo
que é esquecê-la

e dessa angústia
que é transportá-la.

Nau dos Náufragos

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A caça virtual e outros poemas, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, já traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, 2000) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres, Estocolmo e de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; em Lisboa, licenciado do BB, foi redator da revista Seleções do Reader’s Digest.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ivo Barroso: Os Poetas de Setenta Anos

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Ao Sr. A. Rimbaud

E o Velho, então, fechando o livro do dever,
Exausto e satisfeito ia dormir, sem ver
Que à força de se impor prorrogações horárias
De trabalho, arriscava as frágeis coronárias.

O dia inteiro esteve a traduzir-te; faz-se
Incansável; no entanto, a azulidez da face
Deixa ver claramente acres hipocondrias!
Em meio ao corredor, seguro às esquadrias
Da porta, já sentiu tonteiras, quase a perda
Do equilíbrio, e essa mosca em sua vista esquerda.
A noite no escritório é sempre igual: um foco
De luz dicróica sobre o micro, o mouse, um bloco
De anotações e a tela acesa a piscar… Tarde,
Extenuado, a zumbir o ouvido, a vista que arde,
Antes de se deitar, contudo se demora
No banheiro, onde fica a ler por mais uma hora.

Quando, em plena manhã, na varanda que esplende
Ao sol, por um momento em seu sofá se estende
Olhando para a verde aba das altas palmas,
Tentando refrescar a mente das incalmas
Preocupações da noite, o drama recomeça.

Coitado! Ergue-se e vai correndo a toda pressa
Para o computador, achando que encontrara
A rima que buscou o dia inteiro, a rara,
E se acaso, afinal, a solução lhe brota,
Põe-se a falar sozinho e a rir como um idiota!
Já ninguém o visita: os amigos só pelo
Telefone, receando acaso interrompê-lo,
Chamam pela mulher; perguntam pelo “ausente”;
Ela diz que vai bem, que está dormindo — e mente!

Aos setenta sonhava imprimir em off set
Os versos que escreveste em teu caderno, aos sete,
Cheios de rios, sóis, savanas! — Recorria
A todas edições anotadas que havia
Bem como a traduções inglesas, italianas.
Quando, avançada a noite, exausta das poltronas
— Às duas da manhã — a mulher reclamava
Que assim era demais, ele ainda teimava
Em ficar mais um pouco olhando para a tela
Do micro, a salvar tudo e a sair, enquanto ela
Cansada de esperar, apaga a luz do quarto.
— E o pobre, sem saber que escapara do enfarto,
Dormia com teu livro aberto sobre o peito.

Temia essas manhãs de domingo, o suspeito
Passeio pela praia, o olhar discricionário,
Enquanto abandonava o Livro e o dicionário,
Embora em sua mente, ao caminhar, os visse.
Já não amava o mar, achava uma tolice
A exposição ao sol, aqueles corpos nus
Banhando-se na densa e xaroposa luz
De um êxtase vital que já não compreendia.
— Amava a noite que trocara pelo dia,
As vigílias sem fim, os encontros furtivos
De palavras que não se encontram nos arquivos!

E como preferisse as coisas mais herméticas
Buscando penetrar as alquimias poéticas
Dos versos em que os sons têm cores de aquarelas,
Metia-se no quarto e fechava as janelas
E assim, nesse escafandro em fundas culminâncias,
Via os peixes azuis das rimas e assonâncias,
Das métricas sem par, dos ritmos em conflito!
De volta do mergulho, entre alumbrado e aflito,
Um momento se punha a descansar na cama
De lona, a pressentir longinquamente a fama.


26 de maio de 1991

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A caça virtual e outros poemas, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, já traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, 2000) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres, Estocolmo e de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; em Lisboa, licenciado do BB, foi redator da revista Seleções do Reader’s Digest.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ivo Barroso: Dizer que vem de fora um crepitar . . . [soneto]

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[dez sonetos de Abraxas]

IV

Dizer que vem de fora um crepitar
de antenas, a mão que bate sem nódulos,
não o digo  mas alheamento e espera,
procuras e catarses e exorcismos,
que vem de um mim mais que eu, de um supramim,
de uma geléia informe à carne nácar
arrebentando a concha de si mesma
para afirmar-se no que havia dentro 
isso deixo sem mais, como o sentir-se
no espaço que separa a flor e o imã,
a vida mínima entre o tiro e a morte.
De que entranhas simbólicas domino
estas chaves do mundo, não o digo:
sei que abrem portas mas não sei quais são.

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A caça virtual e outros poemas, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso, mineiro de Ervália, nascido em 1929, já traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot, Ítalo Calvino, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, 2000) e outros títulos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ivo Barroso: O ser é ser porque já não se explica. . . . [soneto]

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[dez sonetos de Abraxas]

II

O ser é ser porque já não se explica.
Se pudesse aclarar-me, que diria?
que palavras de linho, que translúcida
bandeira plantaria no meu crânio!
Mas se existo em meandros, galerias
de alguma permanência e cogumelos
do sou me crescem púberes, nos ombros
carrego o teto de meu mundo em águas.
Não é penso que existo, mas decifra-te.
Delfos, dorso de esfinge sem pergunta,
ó Édipo de mim que me devoro.
Na fala não me digo, mas sonhando,
e te disperso e ordálio me adivinho,
menos sei do meu ser e do meu sendo.

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