____________________
É preciso
ser duro
como a
pedra
como a
pedra que parte
como a
parte da pedra
que
penetra a parede
e a parte
Como a
rede que não vaza
como o
vaso que não quebra
como a
pedra que fende
o paredão
da casa
E é
preciso ser fraco
é preciso
ter siso
e
simulacro É preciso
todos os
dias vencer
os deuses
pigmeus/golias
É preciso
ter cara
e ter
coragem
É cada
vez mais raro
quem
assim reage
É preciso
ser duro
como o
murro
como o
muro
e é
preciso ser doce
como se
anteparo
de vidro
o muro
fosse
É cada
vez mais raro
ser duro
e doce
cada vez
mais torpe
ser
apenas duro
cada vez
mais nulo
ser
apenas doce
cada vez
mais duro
ser o
muro e a nuvem
como se
um só fossem.
(A caça
virtual — 2001)
A caça virtual e outros poemas:
antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio
de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 — 2021), mineiro de Ervália,
formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em
Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje
UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros
para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo
Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.;
como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil
[Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira
versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa — Portugal]; escreveu
e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991),
A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio,
acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos;
o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos,
licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se
após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo,
além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas:
Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações,
Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud),
Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de
Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de
Eliot) ...
