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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Emily Dickinson: O céu vai baixo, as nuvens mesquinhas

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

O céu vai baixo, as nuvens mesquinhas...
Um floco de neve, errante,
Entre celeiros, estradas,
Não sabe se segue adiante.

Por todo o dia, uma brisa franzina
Que alguém feriu, se lastima;
Às vezes, como nós, a natureza
É flagrada sem seu diadema.

Emily Dickinson

The sky is low, the clouds are mean

The sky is low, the clouds are mean,
A travelling flake of snow
Across a barn or through a rut
Debates if it will go.

A narrow wind complains all day
How some one treated him;
Nature, like us, is sometimes caught
Without her diadem.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Emily Elizabeth Dickinson (1830 1886), nascida em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, foi poeta; cursou durante um ano o South Hadley Female Seminary e o abandonou após recusa pública em declarar sua fé, daí passou a viver reclusa em sua própria casa, por mais de vinte anos; nada publicou em vida; após sua morte, uma sua irmã, Lavínia, encontrou todos seus textos, uma grande quantidade de poemas inéditos, em cadernos e folhas soltas [ao todo, 1.775 poemas], e dispôs-se a publicá-los; editou-se, assim, Poems by Emily Dickinson (1890); Emily Dickinson, que ao tornar-se reclusa havia optado por um “suicídio em vida”, teve publicado seus poemas em edição completa e ordenada somente em 1954.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Denise Levertov: O Segredo

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Duas meninas descobrem
o segredo da vida
numa linha súbita
de poesia.

Eu, que não sei o
segredo, escrevi
este verso. Elas
me dizem:

(através de outra pessoa)
que descobriram,
mas não dizem o que era
nem tampouco

qual o verso. Agora,
que já faz uma semana,
certamente esqueceram
o segredo,

qual era o verso ou o nome
do poema. E eu amo as duas
por descobrirem aquilo
que não posso descobrir

e por me amarem
e ao verso que escrevi
e porque o esqueceram,
de modo

que mil vezes até que a morte
as encontre, elas poderão
fazer a descoberta de novo, em outros
versos.

em outros
acontecimentos. Amo-as por desejarem
descobrir,
por

admitirem que exista
um tal segredo; sim, amo-as
principalmente
por isto.

Denise Levertov

The Secret

Two girls discover
the secret of life
in a sudden line of
poetry.

I, who don't know the
secret wrote
the line. They
told me

(through a third person)
they had found it
but not what it was
not even

what line it was. No doubt
by now, more than a week
later, they have forgotten
the secret,

the line, the name of
the poem. I love them
for finding what
I can't find,

and for loving me
for the line I wrote,
and for forgetting it
so that

a thousand times, till death
finds them, they may
discover it again, in other
lines

in other
happenings. And for
wanting to know it,
for

assuming there is
such a secret, yes,
for that
most of all.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Denise Levertov (1923 1997) ou Priscilla Denise Levertoff, inglesa de Ilford, Essex, tendo recebido educação em casa, “demonstrou entusiasmo pela escrita desde cedo e estudou balé, arte, piano e francês, além de disciplinas básicas”, foi poeta, ativista política e feminista; aos 12 anos, remeteu alguns de seus poemas a T. S. Eliot, poeta já consagrado, e obteve como resposta uma “carta de duas páginas” incentivando-a; aos 17 anos, publicou seu primeiro poema, nesta mesma época atuou como enfermeira civil em Londres por ocasião do bombardeio aéreo ao sul da cidade, atacado por aviões alemães nazistas; seu primeiro livro de poesia, The Double Image, foi publicado em 1946; em 1947, por ter se casado com o escritor americano Mitchell Goodman, foi morar nos Estados Unidos, passou a viver principalmente em Nova York, vindo a naturalizar-se cidadã estadunidense em 1955; obras poéticas: The Double Image (1946), Here and Now (1956), With Eyes at the Back of our Heads (1959), O Taste and See: New Poems (1964) ...; consta de sua biografia que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se “muito mais politicamente ativa em sua vida e obra”, como editora de poesia do The Nation, apoiou e publicou trabalhos de poetas feministas e de outros ativistas de esquerda, juntou-se ao War Resisters League, em oposição à participação na Guerra do Vietnam, tendo sido membro fundadora do coletivo anti-guerra, ao lado de Noam Chomsky, Mitchell Goodman e outros; a poeta também atuou na educação, lecionando na Brandeis University, no MIT, na Tufts University, na University of Massachusetts Boston, na Stanford University (professora de inglês [emérita]), na University of Washington; em 1984, recebeu o diploma de Doutora em Literatura pelo Bates College e, de 1982 a 1993, foi professora titular na Stanford University; Denise Levertov foi biografada por Dana Greene [Denise Levertov: A Poet’s Life, pela University of Illinois Press, 2012] e por Donna Krolik Hollenberg [A Poet's Revolution: The Life of Denise Levertov, pela University of California Press, 2013]; o reconhecimento de sua importância nos meios literários estadunidenses das décadas de 1950 e 1960 “não veio de seus pares da mesma geração, mas de poetas vanguardistas, mais velhos e consagrados", Keneth Rexroth e William Carlos Williams entre os quais.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Edith Sitwell: Canção de Rua

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

“Ama-me o coração por uma hora, mas meu osso por um dia...
O esqueleto pelo menos sorri, pois tem um amanhã:
Mas os corações dos jovens são agora o tesouro sombrio da morte
E o verão é solitário.

Conforta a luz sozinha e o sol na sua mágoa,
Vem como a noite pois o sol é terrível
Como a verdade e a luz moribunda mostra apenas a Fome do
esqueleto
Tem pela paz, por sob a carne como a rosa de verão.

Vem através da sombra da morte como antes por entre ramos
De juventude vieste, através da escuridão como um portal florido
Que leva ao paraíso, longe da rua  tu, cidade
Não nascida, entrevista pelos sem-lar, noite do pobre.

Caminhas pelas ruas onde a sombra ameaçadora do homem,
De margens rubras marcadas pelo sol como Caim, tem forma variável,
Elegante como o Esqueleto, agachada como o Tigre,
Com a velha sabedoria e a eficiência do Macaco.

O pulso que bate no coração se transmuda em martelo
Que ressoa em Potters-Field onde erguem um novo mundo
Desde o nosso Osso e dos dias de urubus com mal-cheirosos restos e
clamores...
Mas tu és minha noite e minha paz.

A noite sagrada da concepção, do repouso, da escuridão
Consoladora em que os homens se igualam: o justo e o injusto.
O rico e o pobre; já não sendo nações separadas,
Eles são irmãos na noite.”

Esta foi a canção que eu ouvi; mas o Osso cala!
Quem sabe se o som era o da luz morta chamando,
Ou se era de César rolando sobre seu coração  aquela pedra 
Ou se era o peso de Atlas caindo?...

Edith Sitwell

Street Song

"Love my heart for an hour, but my bone for a day
At least the skeleton smiles, for it has a morrow:
But the hearts of the young are now the dark treasure of Death
And summer is lonely.

Comfort the lonely light and the sun in its sorrow,
Come like the night, for terrible is the sun
As truth, and the dying light shows only the skeleton's hum
For peace, under the flesh like the summer rose.

Come through the darkness of death, as once through the branches
Of youth you came, through the shade like the flowering door
That leads into Paradise, far from the street, you, the unborn
City seen by the homeless, the night of the poor.

You walk in the city ways, where Man's threatening shadow
Red-edged by the sun like Cain, has a changing shape
Elegant like the Skeleton, crouched like the Tiger,
With the age-old wisdom and aptness of the Ape.

The pulse that beats in the heart is changed to the hammer,
That sounds in the Potter's Field. Where they build a new world
From’ our Bone, and the carrion-bird days' foul droppings and
clamour 
But you are my night, and my peace 

The holy night of conception, of rest, the consoling
Darkness when all men are equal,  the wrong and the right,
And the rich and the poor are no longer separate nations,
They are brothers in night."

This was the song I heard; but the Bone is silent!
Who knows if the sound was that of the dead light calling,
Of Ceasar rolling onward his heart, that stone,
Or the burden of Atlas falling.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Edith Louisa Sitwell (1887 1964), ou Dame Edith Sitwell, britânica de Scarborough, North Riding of Yorkshire, Inglaterra, “a mais velha dos três Sitwells literários [ela, Osbert e Sacheverell, seus irmãos]”, pertencente à família da aristocracia rural e patrona de artes [davam suporte financeiro a alguns artistas privados de recursos], foi poetisa, crítica e biógrafa; suas obras: Façade (18 poemas compostos para um espetáculo musical, 1922), Wheels [The Sitwells] (antologias, várias edições publicadas entre 1916 e 1921), Poetry and Criticism (Poesia e Crítica, 1925), Gold Coast Customs (poemas, 1929), Alexander Pope (biografia, 1930), The English Eccentrics (Excêntricos Ingleses, crítica, 1933), Aspects of Modern Poetry (Aspectos da Poesia Moderna, 1934), Victoria of England (biografia, 1936), I Live Under a Black Sun (Vivo sob um Sol Negro, romance, 1937), Street Songs (Canções de Rua, poemas, 1942), The Poet’s Notebook (coletânea, 1943), Green Song (1944), Song of Cold (Canção do Frio, 1945), Fanfare for Elizabeth (Fanfarra para Elizabeth, biografia, 1946), Still Fals the Rai (Street Songs), Three Poems of the Atomic Age, The Canticle of the Rose: Poems 1917-1949 (O Cântico da Rosa: Poemas 1917-1949, 1949), The Queens and the Hive (As Rainhas e a Colméia, crítica, 1962), Taken Care of The Autobiography of Edit Sitwell, publicação póstuma, autobiografia, 1965); Edith Sitwell, por sua vez, foi biografada por Rodolphe L. Megroz (The Three Sitwells: A Biographycal and Critical Study, 1927), Cecil M. Bowra (Edith Sitwell, 1947) e John Lehman (A Nest of Tigers: The Sitwells in Their Times, 1968); de sua biografia, consta ter frequentado os salões de arte [e festas] de Gertrude Stein (romancista, poetisa, dramaturga e colecionadora de arte), em Paris, ter sido laureada com doutorados honorários das universidades de Leeds, Durham, Oxford e Sheffield, ter recebido a comenda de Dama do Império Britânico [daí, passou a constar da lista de honra do aniversário da rainha], ter se convertido ao catolicismo, ter sido patronesse do poeta Dylan Thomas e “muito próxima de H. D. (Hilda Doolittle, [poeta, romancista e memorialista]) e de Denton Welch [escritor e pintor]”.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Patricia Hooper: Deserto

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Onde existe um rio,
aí se tem um sabor de direção.

Onde existe um pomar,
isto diz sobrevida.

Onde existe um deserto,
isto muda tudo,

como se a terra não tivesse desejado
suprir apenas suas próprias carências.

Patricia Hooper

Desert

Where there’s a river,
that tostes of direction.

Where there’s an orchard,
that says survival.

Where there’s a desert,
that changes everything,

as if earth hadn’t wanted
to fill only her own need.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa [várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro, Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Patricia Hooper, nascida em 1941, estadunidense de Saginaw, Michigan, formada pela University of Michigan (bacharelado e mestrado), é poeta e escritora dedicada à juventude e infanto-juvenis; suas obras: Other Lives (poems, 1984), A Bundle of Beasts (obra juvenil, 1987), The Flowering Trees (1995), How the Sky's Housekeeper Wore Her Scarves (obra juvenil, 1995), At the Corner of the Eye (poems, 1997) A Stormy Ride on Noah's Ark (obra juvenil, 2001), Where Do You Sleep, Little One? (obra juvenil, 2001), Aristotle's Garden (2004), Separate Flights (poems, 2016), além de participação em antologias e colaborações nas revistas The American Scholar, Orion, The New Criterion, American Poetry Rewiew, The Atlantic Monthly, The Hudson Review, Iowa Review, The Southem Review, Poetry; Patricia Hooper recebeu várias premiações por seus livros: Norma Farber First Book Award Poetry Society of America (por Other Lives — poems, 1984), Anita Claire Sharf Award from the University of Tampa Press (por Separate Flights — poems, 2016) ...

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Geraldo Eduardo Carneiro: Sobre a verdura

 
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os insetos voavam estranhamente
sobre a verdura e a barraca de peixe
permanecia um momento intocada
em seus reflexos de luz e de prata
e você a ver navios percorria
o tormentoso labirinto da feira
se imaginava um conquistador espanhol
que se perdeu no rumo das Índias
e construiu um castelo à beira-mar
vendedores vendedoras ficções sonoras
verdes vegetais como se houvesse
uma deusa sonhadora em cada alface
e os dragões cuspissem fogo e silêncio
emaranhados numa réstia de cebola

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); mais obras literárias: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro é acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Geraldo Eduardo Carneiro: Olhos de ressaca

 
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minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

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26 Poetas Hoje — Antologia: Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); mais obras literárias: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro é acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Geraldo Carneiro: advertência

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este livro contém ideologias exóticas
idiossincrasias eróticas selvageria
sintática sexo & violência semântica
trailers thrillers copulação imaginária
sendo recomendável somente aos sicofantas
aos sátrapas e aos sacripantas;
não traz ao leitor qualquer benefício
social ou cultural ou paranormal;
pode incitá-lo ao sadomasoquismo
ou despertar o insofreável
desejo de dançar um foxtrote;
pode favorecer estados de melancolia
e, à semelhança dos Sofrimentos de Werther,
induzir o leitor ao suicídio.

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Pandemônio  Geraldo Carneiro, Apresentação de Silviano Santiago, Coleção Toda Poesia 12, 1993, Art Editora, São Paulo  SP; Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) e Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) e O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira); bibliografia literária: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974), Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias Metafísicas, Por mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) e Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro á acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Geraldo Carneiro: juízo final

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amou três ou quatro sereias, sempre
marinheiro de primeiro naufrágio;
jurou em falso, disse meias verdades;
perambulou em busca do sublime,
sem nunca descobrir o Santo Graal;
andou a trás de um deus que fosse cômodo;
como esse deus não se desencantasse,
cantou a lua e outras deusas inconstantes;
refratário às ciências, desconfia
que o Sol gira ao redor da Terra
e o homem é um animal fadado à extravagância;
às vezes sofre acesso de grandeza
supõe-se demiurgo e pandemônio,
mas o mundo sempre se rebela
contra suas mal fundadas esperanças
e o reduz à sua insigne insignificância.

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Pandemônio — Geraldo Carneiro, Apresentação de Silviano Santiago, Coleção Toda Poesia 12, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Geraldo  Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis  (encenada em 1986) e Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira);  bibliografia literária: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974),  Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias MetafísicasPor mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro á acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Geraldo Carneiro: urbe et orbas

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por nome de pluma Glauceste Satúrnio
natural da Vila de Mariana
sonhou com ninfas aventurosas praias
achou exílio na arcádia e entre cautelas
a própria terra feita de escrituras
penhas & palavras
amou com parcimônia quase usura
nas horas vagas cultivou o hábito
de emprestar dinheiro a juros
acumulou escravos e sonetos
e mais pudesse mais acumulara
como desconfiasse da posteridade
e de outras deusas menos inconstantes
fez imprimir os versos num volume
de esplêndida fatura e frontispício
onde o tipógrafo lavrou assim:
OBRAS COMPLETAS de C. M. da Costa

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Pandemônio — Geraldo Carneiro, Apresentação de Silviano Santiago, Coleção Toda Poesia 12, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Geraldo  Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis  (encenada em 1986) Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira);  bibliografia literária: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974),  Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias MetafísicasPor mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro á acadêmico da Academia Brasileira de Letras.