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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Tristan Corbière: Duelo das camélias

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

Eu vi o sol duro de encontrar aos tufos
Esgrimir.  Vi a esgrima ensolarar,
Fazendo paradas em lances bufos;
Melros de negro assistiam brilhar.

Um senhor em camisa se aprontava;
Parecia uma camélia, todo branco;
No ramo outra flor rosa vicejava
Como… E o florete vergou num flanco.

 Raiva, estou roxo!… Ah! ele me degola –
… Camélia branca  lá  como Sua gola…
Camélia amarela,  aqui  mastigada…

Meu amor morto, da lapela caiu.
 Eu, chaga aberta, flor primaveril!
Camélia viva, de sangue matizada!

Tristan Corbière

Dueul aux camélias

J'ai vu le soleil dur contre les touffes
Ferrailler. J'ai vu deux fers soleiller1,
Deux fers qui faisaient des parades bouffes;
Des merles en noir regardaient briller.

Un monsieur en ligne arrangeait sa manche;
Blanc, il me semblait un gros camélia;
Une autre fleur rose était sur la branche,
Rose comme... Et puis un fleuret plia.

Je vois rouge... Ah oui! c'est juste: on s'égorge
... Un camélia blanc comme Sa gorge...
Un camélia jaune, ici tout mâché...

Amour mort, tombé de ma boutonnière2.
A moi, plaie ouverte et fleur printanière!
Camélia vivant, de sang panaché!

Veneris Dies 13 ***

Notas do tradutor Marcos Antônio SiscarRetoma o tema baudelairiano do duelo amoroso (por exemplo, em “Duellum”). O título remete também ao romance de Alexandre Dumas Filho, A Dama das camélias, de 1849.
1. verso 2 — “Soleiller” é um neologismo, de origem provençal, construído a partir de “soleil”;
2. verso 12 — “Bouttonière” significa também a incisão fina e comprida que pode fazer um florete;
*** “Veneris Dies 13 — joga com a etimologia de “vendredi”, dia de Vênus e sexta-feira 13, dia fatídico.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.