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domingo, 6 de julho de 2025

Vladímir Maiakóvski: Socorro!

 
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[traduzido por Letícia Mei]

Pare, almofada!
                          Esforço inútil.
Remo com minha pata
                                      péssima pá.
A ponte encolhe.
                          A correnteza do Nevá
me leva para lá,
                          lá, lá.
Estou longe já.
                       Um dia de viagem talvez.
Há um dia
                  vi minha sombra na ponte.
Mas o ruído de sua voz está no meu encalço.
Na perseguição estirou as velas da ameaça.
Está tramando esquecer o brilho do Nevá?!
Substituí-la?!
                       Não dá!
Lembre-se do marulho até a morte te levar,
marulhando o “Homem”.
Começou a gritar.
                          Será que conseguem sair dessa?!
A tempestade retumba
                                          não sairá nunca.
Socorro! Socorro! Socorro! Socorro!
   na ponte
                 sobre o Nevá,
                                        há um homem!

Maiakóvski

Спасите!

Стой, подушка!
                          Напрасное тщенье.
Лапой гребу
                          плохое весло.
Мост сжимается.
                             Невским течением
меня несло,
                     несло и несло.
Уже я далёко.
                          Я, может быть, за́ день.
За де́нь
              от тени моей с моста.
Но гром его голоса гонится сзади.
В погоне угроз паруса распластал.
Забыть задумал невский блеск?!
Ее заменишь?!
                          Некем!
По гроб запомни переплеск,
плескавший в «Человеке».
Начал кричать.
                          Разве это осилите?!
Буря басит
                          не осилить вовек.
Спасите! Спасите! Спасите! Спасите!
Там
         на мосту
                          на Неве
                                          человек!
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Sobre Isto — Vladímir Maiakóvski, Tradução, Apresentação, Posfácio e Notas de Letícia Mei, Fotomontagens de Aleksandr Ródtchenko e orelha do livro por Mário Ramos, Coleção Leste, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2020, Editora 34, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Vladímir Maiakóvski: Não há o que fazer [fragmento do longo poema 'Sobre isto']

 
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[traduzido por Letícia Mei]

Como é possível
sermos tão parecidos?
Que horror!
É incrível!
Vai pra poça!
A jaqueta ensanguentada despir.
Bem, camarada!
A situação daquele é pior
sete anos na ponte, sem poder sair.
A jaqueta mal cabe
calibre errado.
Não consegue se ensaboar
os dentes não param de bater.
Patas e focinhos pelados,
O gelo como espelho...
A luz como lâmina...
Somos quase,
quase iguais.
Corro.
Os miolos processam endereços.
Primeiro,
pra Présnia, *
pra lá,
pelos quintais.
Pro covil familiar, por instinto, me arrasto aos tropeços.
Atrás de mim,
em longa fila,
os filhos,
e filhas
de toda a Rússia.

Vladímir Maiakóvski

Ничего не поделаешь

До чего ж
на меня похож!
Ужас.
Но надо ж!
Дёрнулся к луже.
Залитую курточку стягивать стал.
Ну что ж, товарищ!
Тому ещё хуже —
семь лет он вот в это же смотрит с моста.
Напялил еле —
другого калибра.
Никак не намылишься —
зубы стучат.
Шерстищу с лапищ и с мордищи выбрил.
Гляделся в льдину…
бритвой луча…
Почти,
почти такой же самый.
Бегу.
Мозги шевелят адресами.
Во-первых,
на Пресню,
туда,
по задворкам.
Тянет инстинктом семейная норка.
За мной
всероссийские,
теряясь точкой,
сын за сыном,
дочка за дочкой.

* Nota da tradutora Letícia Mei: Rua onde moravam a mãe e as irmãs de Maiakóvski, situada em um bairro popular de mesmo nome perto do centro da capital.
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Sobre Isto — Vladímir Maiakóvski, Tradução, Apresentação, Posfácio e Notas de Letícia Mei, Fotomontagens de Aleksandr Ródtchenko e orelha do livro por Mário Ramos, Coleção Leste, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2020, Editora 34, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões, (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.