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domingo, 26 de abril de 2020

Sosígenes Costa: O rio e o poeta

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(Fábula)

Despi o manto de bardo,
vesti a pele do rio.
Vou correndo e vou falando
encantado neste rio.
Vou passando nos lugares
atrasados deste rio.
Vou falando na pobreza
dos lugares deste rio.
Não me calo na viagem.
Falo pelos cotovelos.
Mas ponho calor na fala
para exprimir simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Não é fala de poeta.
É prosa. Não é poesia.
Mas o povo não se importa
com a falta de melodia,
pois quem está assim falando
é a minha simpatia.
Vou falando, vou falando.
Não calo porque não posso
calar esta simpatia
e ao chegar ao mar, ainda
fala minha simpatia.
Acabando-me no mar,
desencanto-me em poeta.
E cessado todo o encanto,
calou-se a minha simpatia.
Falo agora como poeta.
Minha fala agora é canto
que se apaga e que se esfria,
para conservar calada
toda a minha simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Procuro imitar o canto
da viola e da cotovia.
Imito o canto do povo.
Mas calada a simpatia,
minha fala de poeta
perdeu toda a poesia.

(7/12/1953)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 18 de abril de 2020

Sosígenes Costa: Tornou-me o pôr do sol um nobre entre os rapazes

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Queima sândalo e incenso o poente amarelo
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa, os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr do sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

(1924)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sosígenes Costa: O tédio

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O tédio tem um coração de hiena,
Vem durante os crepúsculos tristonhos
descer sobre o teu leito de açucena
e amargurar o arcanjo dos meus sonhos.

Sombra sinistra, de ninguém tem pena.
Entristecendo os querubins risonhos
faz sofrer essa alma tão serena
que derrama a harmonia nos meus sonhos.

E agora a hiena o meu jardim devasta.
Destrói a flor das ilusões da aurora,
emudecendo os pássaros, nefasta.

E o anjo ferido se revolta e chora.
E a hiena a rir entre os rosais se arrasta
e o coração do alado amor devora.

(1935  1959)

Sosígenes Costa
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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Sosígenes Costa: O pôr do sol do papagaio

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O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar, já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.

Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.

Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.

Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.

(1928—1959)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Sosígenes Costa: Obsessão do amarelo

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A areia é fulva, o monte é flavo e a flora,
de bronze e de ouro. Sideral capela
adorna o bosque que dourado agora
mais lindo esplende entre os topázios dela.

De um ruivo estranho o lírio se colora
e o trevo exibe de um jalde de aquarela.
O áureo matiz até na passiflora
dominadoramente se revela.

Chinês pincel esse esplendor dirige,
lançando agora em cima da folhagem
tanto amarelo que a pupila aflige.

E na paixão mongólica e selvagem
pelos tons de ouro a natureza exige
que os próprios troncos amarelo trajem.

(1927)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 30 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: O triunfo do amarelo

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Luta o amarelo contra o verde, agora,
no esforço de vencê-lo e confundi-lo.
E assim derrama, esdrúxulo, na flora
sépia, topázio, abóbora, berilo.

Transforma o bronze e anula o jade: e aquilo
que é verde-negro, aurífero, colora.
No esforço de vencê-lo e confundi-lo
luta o amarelo contra o verde agora.

Aves azuis se pintam chinesmente
de jalde. E a própria flor da rubra amora
toda se pinta de âmbar louro, ardente.

E a luz do sol, sinfônica e sonora,
dos céus rolando, em mágica torrente,
a gama inteira do amarelo explora.

(1928)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: Pavão azul

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No jardim do castelo desse bruxo
d'asas d'ouro e olhos verdes de dragão,
tú és à beira de um lilás repuxo
um grande lírio de ouro e de açafrão.

Transformado em pavão por esse bruxo,
vivo te amando em tardes de verão,
dentre as rosas e os pássaros de luxo
do jardim desse bruxo castelão.

Tenho medo que um dia o jardineiro...
Mas nunca, estou bem certo, do canteiro
há de colher-te, ó minha flor taful.

Porque ele sabe que em manhã serena,
não suportando a ausência da açucena,
há de morrer esse pavão azul.

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: Poeta da Bahia

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Dizem que sou poeta da Bahia...
Eu não sei porque isto!
Eu não como efó,
nunca vi o acarajé,
eu não sei o que é obi,
nem ebó nem vatapá.
Nunca vi bejerecum
Nem uru nem orobó.
Não vendo cocada.
Não vendo jiló.
Não sei quem é Jubiabá,
não sei quem é dona Loló.
Não compro na biboca
ierê mais atarê.
Não vivo labutando
com a baronesa de Passé.
Nunca fui a Itaparica,
Não vou a festa de bagunça
onde tem faca e fuzuê.
Não pesco de puçá,
nunca fui pegar siri.
Se se come caruru
com farinha ou com acaçá
não sei.
Não moro em casa velha
que levantou o vice-rei.
Não faço feitiço,
não ando em candomblé.
Não acompanho procissão
de opa velha lá da Sé.
Não toco pandeiro,
não toco ganzá.
Não planto guiné
nem croto dois-de-julho.
Não rezo santo-antônio
nem são-cosme-são-damião.
Não sou seabrista
nem farrista
ou civilista
nem cruz-vermelha nem fantoche.
Minha noiva não tem coche
que pertencesse a Dom Juão.
Nunca fiz um soneto
ao casamento da raposa.
Minha vó não é Moema
nem meu pai Tomé de Sousa.

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Sosígenes Costa: Soneto encantado

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Onde buscar agora o fino aroma,
o beija-flor gigante e a rara opala
e a recendente e preciosa goma
que vence a mirra e os ares ensandala?

Onde buscar as penas da paloma,
metal cerúleo para a cerofala?
Onde se encher de cânfora a redoma
e a cantimplora de água que trescala?

Onde buscar aquele odor fagueiro,
pavões de jade, lírios de cerusa
e o velocino e o grifo feiticeiro?

Onde buscar marfim que nos seduza,
se Ofir fechou seu porto ao mundo inteiro
e a receber os Tírios se recusa?

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sosigenes Costa: O primeiro soneto pavônico

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Foge a tarde entre o bando de gazelas.
A noite agora vem do precipício.
Sóis poentes, douradas aquarelas!
Mirabolantes fogos de artifício!

Maravilhado assisto das janelas.
Os coqueiros, pavões de um rei fictício,
abrem as caudas verdes e amarelas,
ante da tarde o rútilo suplício.

Cai uma chuva de oiro sobre os cravos.
O grifo sai do mar com a lua cheia
e as pombas choram pelos pombos bravos.

Um suspiro de amor do peito arranco.
A luz desmaia. E o céu todo se arreia
Em vez de estrela de narciso branco.

(1923)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca,  Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sosígenes Costa: A magnificência da tarde

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Voa ao poente a túnica da brisa
se desmanchando em chuva de lilases.
A tarde, ante essa mágica, se irisa
e exibe cores francamente audazes.

A natureza, certo, romantiza…
Há nos jardins fascinações de oásis
e os encantos do olhar de Mona Lisa
estão nas rosas e nos grous lilases.

De súbito, o crepúsculo termina.
O céu agora todo se reveste
de uma capa de príncipe da China.

E na ponta de um cônico cipreste,
a lua nova paira, curva e fina,
como o chifre de um búfalo celeste.

(Obra Poética I)

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O Triunfo de Sosígenes Costa (Estudos, Depoimentos e Antologia), Seleção, Organização e Notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, 2004, Editus — editora da UESC, Ilhéus — BA e UEFS Editora, Feira de Santana — BA; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, a partir de 1923 passou a viveu em Ilhéus BA, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sosígenes Costa: Dudu Calunga

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Ora vejam só!
Dia de Xangô,
festa de Xangô.
Dia de Iemanjá.
festa de Iemanjá.
Dia de Nanã,
samba na macumba
com qualiquaquá.
Dia de matança
para Oxum-marê,
vamos saravá,
vamos dar okê.

Dia de preceito,
bodas eucarísticas:
caruru no almoço,
vatapá na janta
e de noite samba
lá no ganzuá.
Ora vejam só!
festa todo dia
lá no candomblé.

Uma vez que as cousas
vão correndo mal,
só existe um jeito:
é cair no santo
lá no candomblé.

O babalaô,
quando é consultado
diz que aí vem cousa.
O babalaô,
adorador de Ifá,
diz que aí vem cousa.
É de Exu a cousa
ou então a cousa
vem de um encantado.
Que vem cousa grossa,
diz, olhando os buzos,
o babaluxá.

Se é de Exu a cousa,
é melhor não vir,
antes não chegar.
Se é Dudu Calunga,
apareça já.

Se é Dudu Calunga
venha em seu cavalo.
Venha na galinga.
Venha com a viola
pra animar as festas.
Venha tocar cora.
Venha achar brilhantes,
venha achar anéis.

Venha achar as cousas
que ninguém encontra.
Venha na galinga
que é sua malunga
e só tem dois pés.
Você vem, Dudu?
Sim, já vou, Calunga.
Gente de Aroanda,
vamos saravá
que Dudu Calunga
vem pro ganzuá.
Vem tocando cora,
vem achar brilhantes,
vem nos dar anéis.

Gente de Aroanda,
vamos saravá
que Dudu Calunga,
vem tocando cora,
vem achar corá.

Ora vejam só!
Foi um acalô
que isso me contou.

(Obra Poética II)

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O Triunfo de Sosígenes Costa (Estudos, Depoimentos e Antologia), Seleção, Organização e Notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, 2004, Editus editora da UESC, Ilhéus BA e  UEFS Editora, Feira de Santana BA; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, a partir de 1923 passou a viver em Ilhéus BA, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.