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(Fábula)
Despi o manto de bardo,
vesti a pele do rio.
Vou correndo e vou falando
encantado neste rio.
Vou passando nos lugares
atrasados deste rio.
Vou falando na pobreza
dos lugares deste rio.
Não me calo na viagem.
Falo pelos cotovelos.
Mas ponho calor na fala
para exprimir simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Não é fala de poeta.
É prosa. Não é poesia.
Mas o povo não se importa
com a falta de melodia,
pois quem está assim falando
é a minha simpatia.
Vou falando, vou falando.
Não calo porque não posso
calar esta simpatia
e ao chegar ao mar, ainda
fala minha simpatia.
Acabando-me no mar,
desencanto-me em poeta.
E cessado todo o encanto,
calou-se a minha simpatia.
Falo agora como poeta.
Minha fala agora é canto
que se apaga e que se esfria,
para conservar calada
toda a minha simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Procuro imitar o canto
da viola e da cotovia.
Imito o canto do povo.
Mas calada a simpatia,
minha fala de poeta
perdeu toda a poesia.
(7/12/1953)
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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton
Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 — 1968), baiano
de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta;
colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes',
grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época;
o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de
1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT
— Departamento de Correios e Telégrafos.








