Mostrando postagens com marcador Parnasianismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Parnasianismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Sully-Prudhomme: Se eu fora Deus

____________________
[traduzido por Xavier Marques]

Se eu fora Deus à morte arrancaria as garras,
Faria os homens bons, aboliria o adeus,
Ninguém choraria mais a não ser de alegria,
           Se eu fora Deus.

Se eu fora Deus, somente os frutos saborosos
Deixaria sazonar; para os amantes seus
O trabalho seria um exercício alegre,
           Se eu fora Deus.

Se eu fora Deus, por ti, ó mulher a quem amo,
Eternamente azuis desdobraria os céus;
Mas a mesma, qual és, meu anjo, eu te deixara,
           Se eu fora Deus.

(A poesia de Xavier Marques ‘algumas
páginas das "Insulares, poesias — 1896"’)
(Autores e Livros: suplemento literário
d'A Manhã, n. 17, 7.12.1941)

Sully-Prudhomme

Si j'étais Dieu

Si j'étais Dieu, la mort serait sans proie,
Les hommes seraient bons, j'abolirais l'adieu,
Et nous ne verserions que des larmes de joie,
           Si j'étais Dieu.

Si j'étais Dieu, de beaux fruits sans écorces
Mûriraient, le travail ne serait plus qu'un jeu,
Car nous n'agirions plus que pour sentir nos forces,
           Si j'étais Dieu.

Si j'étais Dieu, pour toi, celle que j'aime,
Je déploierais un ciel toujours frais, toujours bleu,
Mais je te laisserais, ô mon ange, la même,
           Si j'étais Dieu.

(Stances et Poèmes — 1865)
____________________
Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França [111 autorias e vários tradutores], Organização, Seleção e Prefácio por R. Magalhães Jr., e Texto à Guisa de Introdução por Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro nº 12126, sem data, [1985?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sully Prudhomme: O Ideal

____________________
[traduzido por Cruz Filho]

Cheio de astros é o céu, e grande a lua;
A terra toda é só palor estremo
E o espírito do mundo no ar flutua.
— Sonho com a estrela de esplendor supremo,

A que em nosso horizonte ainda não erra,
Mas cuja luz percorre a imensidade
E há de um dia, afinal, chegar à terra,
Para encantar os olhos de outra idade.

Quando luzir, num século remoto,
Essa estrela longínqua e soberana,
Dizei-lhe que ela em mim teve um devoto,
Ó últimas mortais da raça humana!

(Do livro a publicar, Toda a Musa.)
[Toda Musa — poesia completa,
Cruz Filho, publicado em 1965]

Sully Prudhomme

L’Idéal

À Paul Sédille

La lune est grande, le ciel clair
Et plein d’astres, la terre est blême,
Et l’âme du monde est dans l’air.
Je rêve à l’étoile suprême,

À celle qu’on n’aperçoit pas,
Mais dont la lumière voyage
Et doit venir jusqu’ici-bas
Enchanter les yeux d’un autre âge.

Quand luira cette étoile, un jour,
La plus belle et la plus lointaine,
Dites-lui qu’elle eut mon amour,
Ô derniers de la race humaine!

[Stances et Poèmes — 1865]
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

domingo, 23 de agosto de 2026

Augusto de Lima: A Serenata

 
____________________
[A D. Olga de Suckow]

Plenilúnio de maio em montanhas de Minas!
canta, ao longe, uma flauta e o violoncelo chora.
Perfuma-se o luar nas flores das campinas,
Sutiliza-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noites de luz mais belas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afora...

E chora o violoncelo e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a névoa se levanta,
Banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na última porção da névoa transparente
a flauta e o violoncelo expiram lentamente.

(Símbolos — 1892)

____________________
Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Antônio Augusto de Lima (1859 — 1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje Nova Lima), estudou Humanidades no Seminário de Mariana, no Colégio [seminário] do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto, desistiu de ser padre, em 1882 graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo [atual USP — Largo São Francisco], foi poeta, jornalista, magistrado, jurista, professor universitário e político; participou como redator de vários periódicos, entre os quais a Revista de Ciência e Letras, o jornal Comédia, O Imparcial, às vezes sob os pseudônimos I, Lílvio e Lauro; foi professor de Filosofia do Direito na recém fundada Faculdade de Direito de Minas Gerais; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro), Noites de Sábado (crônicas, 1923), São Francisco de Assis (1930), Tiradentes (publicação póstuma, drama lírico em 4 atos, 1937); pertenceu à ABL — Academia Brasileira de Letras.

domingo, 16 de agosto de 2026

Théophile Gautier: Beijo rosa, beijo azul

____________________
[traduzido por Renata Cordeiro]

À mesa, noutro dia, a rede de guipura,
Qual fios brancos sobre o mármore lançados,
Do teu colo, deixando o teu primor vedado,
Mostrava sob a neve, a neve tão mais pura.

Reinavas entre nós, deslumbrante figura,
E o beijo vesperal, levemente azulado,
Como ao redor de um fruto a flor do aveludado,
No teu ombro escorria em esguias ranhuras.

Misturando-se no jogo, a luz incandescente
Dava um beijo rosa ao beijo azul fulgente:
Como brilha ao luar um fogo alabastrino.

Pensava, em sonhos, ante o quadro esplendoroso,
Invejando o reflexo azul e o nacarino:
“Se cada qual soubesse e o quão, como é ditoso!”

Théophile Gautier

Baiser rose, baiser bleu

A table, l’autre jour, un réseau de guipure,
Comme un filet d’argent sur un marbre jeté,
De votre sein, voilant à demi la beauté,
Montrait, sous sa blancheur, une blancheur plus pure.

Vous trôniez parmi nous, radieuse figure,
Et le baiser du soir, d’un faible azur teinté,
Comme au contour d’un fruit la fleur du velouté,
Glissait sur votre épaule en mince découpure.

Mais la lampe allumée et se mêlant au jeu,
Posait un baiser rose auprès du baiser bleu:
Tel brille au clair de lune un feu dans de l’albâtre.

À ce charmant tableau, je me disait, rêveur,
Jaloux du reflet rose et du reflet bleuâtre:
 »Ô trop heureux reflets, s’ils savaient leur bonheur!«

[Dernières poésies]
____________________
Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., SãoPaulo — SP; Théophile Gautier (1811 — 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem [com o título Tras los montes, 1843], e reedição em 1845), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Luís Delfino: Gaivotas

 
____________________
Do crespo mar azul brancas gaivotas
Voam — de leite e neve o céu manchando,
E vão abrindo às regiões remotas
As asas, em silêncio, à tarde, e em bando.

Depois se perdem pelo espaço ignotas,
O ninho das estrelas procurando;
Cerras os cílios, com teu dedo notas
Que elas vêm outra vez o azul furando.

Uma na vaga buliçosa dorme.
Uma revoa em cima, outra mais baixo...
E ronca o abismo do oceano enorme...

Cai o sol, como já queimado facho...
Do lado oposto espia a noite informe...
Tu me perguntas se isto é belo... e eu acho...

____________________
Os Sonetos — Antologia: diversas autorias, Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S. A., L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos (1834 — 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis — SC, fez seus estudos iniciais no colégio de jesuítas em sua cidade natal, formou-se em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e, dedicando-se à literatura, foi e é considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); em 1852 estreou na arte literária com a publicação do conto O Órfão do Templo na revista carioca Beija-Flor; em 1862 publicou seu poema “mais famoso desta fase”, A Filha d’África, na Revista Popular; apesar de conhecido poeticamente, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-Flor, Diário do Rio de Janeiro, Revista Popular, A Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; de sua biografia também consta ter colaborado com o semanário português lisboeta Branco e Negro entre 1896 e 1898; deixou-nos como legado uma vasta obra — “abrange mais de cinco mil poemas” — considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada entre 1926 e 1943: Poemas, Algas e Musgos (1927), Poesias Líricas, Íntimas e Aspásias (1935), Rosas Negras, Imortalidades (1941), poesias ...; foi senador pelo Estado de Santa Catarina.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Théophile Gautier: O pinho de Landes

 
____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

Não se vê, ao passar pelas Landes desertas,
O Saara francês, ao pó da areia branca,
Surgir da relva seca e poços de águas verdes
Outra árvore senão o pinho e fenda ao flanco;

Pois para lhe sugar o pranto da resina,
O ser humano avaro, algoz da criação,
Que às custas vive só daqueles que assassina,
Em seu tronco dorido abre um largo filão!

Sem lamentar seu sangue a descer gota a gota,
Verte o pinho seu bálsamo e a seiva agitada,
Ficando sempre erecto à margem de uma rota,
Qual soldado ferido a morrer aprumado.

O poeta está assim nas Landes deste mundo;
Já que está sem ferida, assume seu tesouro.
Precisa ter no peito um talho bem profundo
Para os versos verter, lindas lágrimas de ouro!

Théophile Gautier

Le pin des Landes

On ne voit, en passant par les Landes désertes,
Vrai Sahara français, poudré de sable blanc,
Surgir de l'herbe sèche et des flaques d'eaux vertes
D'autre arbre que le pin avec sa plaie au flanc,

Car pour lui dérober ses larmes de résine,
L'homme, avare bourreau de la création,
Qui ne vit qu'aux dépens de ceux qu'il assassine,
Dans son tronc douloureux ouvre un large sillon!

Sans regretter son sang qui coule goutte à goutte,
Le pin verse son baume et sa sève qui bout,
Et se tient toujours droit sur le bord de la route,
Comme un soldat blessé qui veut mourir debout.

Le poète est ainsi dans les Landes du monde;
Lorsqu'il est sans blessure, il garde son trésor.
Il faut qu'il ait au coeur une entaille profonde
Pour épancher ses vers, divines larmes d'or!

(journal La Presse, 1940)
(Le Voyage en Espagne — 1845)
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 — 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem [com o título Tras los montes, 1843], e reedição em 1845), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Théophile Gautier: A caravana

 
____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]

A caravana humana ao Saara do mundo,
Nesse trilhar dos anos sem mais retomada
Vai arrastando o pé em fogo solar queimada,
E bebendo nos braços o suor que inunda.

Ruge o grande leão e a tormenta retumba:
No horizonte que foi, nem minarete ou torre;
Só uma sombra lá está, a do abutre que percorre
O céu a procurar a sua presa imunda.

Caminha sempre em frente e eis que ela se defronta
Com um algo de verde para o qual se aponta:
É um bosque de ciprestes de pedras alvéreas.

Deus, pra vos repousar no deserto do tempo,
Assim como os oásis, fez os cemitérios:
Deitai-vos e dormis andantes sem alento.

Théophile Gautier

La Caravane

La caravane humaine au Sahara du monde,
Par ce chemin des ans qui n'a pas de retour,
S'en va traînant le pied, brûlée aux feux du jour,
Et buvant sur ses bras la sueur qui l'inonde.

Le grand lion rugit et la tempête gronde;
A l'horizon fuyard, ni minaret, ni tour;
La seule ombre qu'on ait, c'est l'ombre du vautour,
Qui traverse le ciel cherchant sa proie immonde.

L'on avance toujours, et voici que l'on voit
Quelque chose de vert que l'on se montre au doigt:
C'est un bois de cyprès semé de blanches pierres.

Dieu, pour vous reposer, dans le désert du temps,
Comme des oasis, a mis les cimetières:
Couchez-vous et dormez voyageurs haletants.
____________________
Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 — 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Les Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mor (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sully-Prudhomme: Solitude

____________________
[traduzido por Carlindo Lellis*]

Quando um poema componho em torturados
Hemistíquios, não os mais perfeitos
Pensamentos que tenho: os mais amados
Versos que eu imagino não são feitos.

Como em redor de flores, borboletas
O esplendor de asas lépidas agitam,
Em torno deste ideal, às brandas setas
De um sol de ouro, estival, versos palpitam.

Logo, porém, que os toco, o leve bando
Desfaz-se... à minha dor constante e viva
O pólen de íris fúlgido deixando
Da asa tremendo, delicada, esquiva.

Sully Prudhomme

Au Lecteur

Quand je vous livre mon poème,
Mon cœur ne le reconnaît plus:
Le meilleur demeure en moi-même,
Mes vrais vers ne seront pas lus.

Comme autour des fleurs obsédées
Palpitent les papillons blancs,
Autour de mes chères idées
Se pressent de beaux vers tremblants;

Aussitôt que ma main les touche
Je les vois fuir et voltiger,
N’y laissant que le fard léger
De leur aile frêle et farouche.

(Stances et Poèmes — 1865)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Tradução ou, melhor, paráfrase do poema liminar de Stances et Poèmes, de que abrange apenas as três primeiras estrofes. Texto colhido na Antologia de Poetas Franceses — Do século XV ao século XX —, organizada por [R.] Magalhães Júnior. [Au Lecteur, no original, contém 5 estrofes])
____________________
Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Olavo Bilac: A Velhice

 
____________________
O neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão:
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto;
Tão trêmula a sua voz;
Vovó, qual é seu desgosto;
Por que não ri como nós?

A avó

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!

____________________
Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta, e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 — 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias [que publicou seu primeiro poema, o soneto Nero], e em outros periódicos da época, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916), Tarde (poesias, publicação póstuma, 1919) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Narcisa Amália: O Lago

 
____________________
[I]

Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago
longe, trêmulo, trêmulo, morria...
No seu límpido espelho a ramaria,
curva, de um bosque punha sombra e afago.

Terra e céu, ondulando, eram na fria
tela fundidos! O queixume vago
que a água modula, de ambos parecia,
solto, ululante, intérmino, pressago!

— "Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste"
talvez; mas todo o encanto que o reveste
sentisses; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala,
e sorverias no frescor que o embala
todo o alento vital da Natureza!

(Nebulosas — 1872)

____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Oliveira Campos (1852 — 1924), nascida em São João da Barra — RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende — RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista — cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra —, e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitá “que tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.