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quarta-feira, 4 de março de 2026

Théophile Gautier: A caravana

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

A caravana humana ao Saara do mundo,
Nesse trilhar dos anos sem mais retomada
Vai arrastando o pé em fogo solar queimada,
E bebendo nos braços o suor que inunda.

Ruge o grande leão e a tormenta retumba:
No horizonte que foi, nem minarete ou torre;
Só uma sombra lá está, a do abutre que percorre
O céu a procurar a sua presa imunda.

Caminha sempre em frente e eis que ela se defronta
Com um algo de verde para o qual se aponta:
É um bosque de ciprestes de pedras alvéreas.

Deus, pra vos repousar no deserto do tempo,
Assim como os oásis, fez os cemitérios:
Deitai-vos e dormis andantes sem alento.

Théophile Gautier

La Caravane

La caravane humaine au Sahara du monde,
Par ce chemin des ans qui n'a pas de retour,
S'en va traînant le pied, brûlée aux feux du jour,
Et buvant sur ses bras la sueur qui l'inonde.

Le grand lion rugit et la tempête gronde;
A l'horizon fuyard, ni minaret, ni tour;
La seule ombre qu'on ait, c'est l'ombre du vautour,
Qui traverse le ciel cherchant sa proie immonde.

L'on avance toujours, et voici que l'on voit
Quelque chose de vert que l'on se montre au doigt:
C'est un bois de cyprès semé de blanches pierres.

Dieu, pour vous reposer, dans le désert du temps,
Comme des oasis, a mis les cimetières:
Couchez-vous et dormez voyageurs haletants.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Les Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mor (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sully-Prudhomme: Solitude

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[traduzido por Carlindo Lellis*]

Quando um poema componho em torturados
Hemistíquios, não os mais perfeitos
Pensamentos que tenho: os mais amados
Versos que eu imagino não são feitos.

Como em redor de flores, borboletas
O esplendor de asas lépidas agitam,
Em torno deste ideal, às brandas setas
De um sol de ouro, estival, versos palpitam.

Logo, porém, que os toco, o leve bando
Desfaz-se... à minha dor constante e viva
O pólen de íris fúlgido deixando
Da asa tremendo, delicada, esquiva.

Sully Prudhomme

Au Lecteur

Quand je vous livre mon poème,
Mon cœur ne le reconnaît plus:
Le meilleur demeure en moi-même,
Mes vrais vers ne seront pas lus.

Comme autour des fleurs obsédées
Palpitent les papillons blancs,
Autour de mes chères idées
Se pressent de beaux vers tremblants;

Aussitôt que ma main les touche
Je les vois fuir et voltiger,
N’y laissant que le fard léger
De leur aile frêle et farouche.

(Stances et Poèmes — 1865)

* Nota de Mello Nóbrega, tradutor de Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme...:
(Tradução ou, melhor, paráfrase do poema liminar de Stances et Poèmes, de que abrange apenas as três primeiras estrofes. Texto colhido na Antologia de Poetas Franceses — Do século XV ao século XX —, organizada por [R.] Magalhães Júnior. [Au Lecteur, no original, contém 5 estrofes])
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Olavo Bilac: A Velhice

 
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O neto

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão:
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto;
Tão trêmula a sua voz;
Vovó, qual é seu desgosto;
Por que não ri como nós?

A avó

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta, e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias [que publicou seu primeiro poema, o soneto Nero], e em outros periódicos da época, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916), Tarde (poesias, publicação póstuma, 1919) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Narcisa Amália: O Lago

 
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[I]

Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago
longe, trêmulo, trêmulo, morria...
No seu límpido espelho a ramaria,
curva, de um bosque punha sombra e afago.

Terra e céu, ondulando, eram na fria
tela fundidos! O queixume vago
que a água modula, de ambos parecia,
solto, ululante, intérmino, pressago!

"Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste"
talvez; mas todo o encanto que o reveste
sentisses; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala,
e sorverias no frescor que o embala
todo o alento vital da Natureza!

(Nebulosas — 1872)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Oliveira Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitá “que tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

domingo, 12 de outubro de 2025

Olavo Bilac: O Tempo

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Sou o tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm....
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

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Poesias Selectas (várias autorias) — Apresentação de Alvaro Reis e Compilação de Odette F. Pitta e Daniel L. A. César, sem data [com dedicatória manuscrita à tinta e data de 16.2.923], Imprensa Methodista, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em jornais, como a Gazeta de Notícias [que publicou seu primeiro poema, o soneto Nero], e em outros periódicos da época, como as revistas A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil—Portugal e Atlântida; suas obras: Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916), Tarde (poesias, publicação póstuma, 1919) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira; juntamente com os poetas Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, veio a formar o que ficou conhecido como a Tríade Parnasiana; no Rio de Janeiro e em São Paulo, estudou Medicina e Direito sem no entanto concluir nenhum dos cursos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Sully Prudhomme: O vaso partido

 
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[traduzido por Guilherme de Almeida]

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

Sully Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette verveine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut effleurer à peine.
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime,
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

[Stances et poèmes — 1865]
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Poetas de França [vários autores]: Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

domingo, 30 de março de 2025

Sully Prudhomme: Prece

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Ah! se soubesses como eu choro
Por viver só meus pobres dias,
Muitas vezes por onde eu moro
Tu passarias.

Se soubesses o que revela
Ao triste o olhar de uma alma boa,
Olharias minha janela
Assim, à toa.

Se soubesses como conforta
Uma presença amiga e sã,
Ficarias à minha porta
Como uma irmã.

Se soubesses, se adivinhasses
Como eu te amo, principalmente,
É possível até que entrasses
Bem simplesmente.

Sully-Prudhomme

Prière

Ah! si vous saviez comme on pleure
De vivre seul et sans foyers,
Quelquefois devant ma demeure
Vous passeriez.

Si vous saviez ce que fait naitre
Dans l´âme triste un pur regard,
Vous regarderiez ma fenêtre
Comme au hasard.

Si vous saviez quel baume apporte
Au coeur la présence d´un coeur,
Vous vous assoiriez sous ma porte
Comme une soeur.

Si vous saviez que je vous aime,
Surtout si vous saviez comment,
Vous entreriez peut-être même
Tout simplement.

[Les Vaines tendresses — 1875]
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Poetas de França [vários autores]: Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Sully Prudhomme: La Grande Ourse

 
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[traduzido por Dom Pedro II]

Soneto

A Ursa arquipélago de mar sem praias
Muito antes de ser vista cintilava;
Inda o pastor caldeu não vagueava
E alma ansiosa, o corpo não ensaias

Inúmeros veem, por tempo que não tem raias
Sua remota luz, que já os deslumbrava
Indiferente às vista que a escrutava
Brilhará a ursa quando último morto caias

Não tens feição cristã, espanto és do crente
Fatal figura de rigor algente
Sete áureos cravos em pano enfeitado

Teu medido vagar, frígida luz
Vem turbar minha fé, e isto m’induz
A ver porque eu à noite tenha orado

(Poesias — originais e traduções — de S. M.
o Senhor D. Pedro II. Homenagem de seus Netos.
Petrópolis, 1889.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

La Grande Ourse

La Grande Ourse, archipel de l’océan sans bords,
Scintillait bien avant qu’elle fût regardée,
Bien avant qu’il errât des pâtres en Chaldée
Et que l’âme anxieuse eût habité les corps;

D’innombrables vivants contemplent depuis lors
Sa lointaine lueur aveuglément dardée;
Indifférente aux yeux qui l’auront obsédée,
La Grande Ourse luira sur le dernier des morts.

Tu n’as pas l’air chrétien, le croyant s’en étonne,
O figure fatale, exacte et monotone,
Pareille à sept clous d’or plantés sur un drap noir.

Ta précise lenteur et ta froide lumière
Déconcertent la foi: c’est toi qui la première
M’as fait examiner mes prières du soir.

(Les Épreuves — 1866)
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

François Coppée: Ruínas do coração

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Era meu coração um palácio romano,
de mármore construído e pedrarias caras;
muito cedo as paixões invadiram-no, ignaras,
num confuso tropel de bárbaros, insano.

E tudo desabou... Nenhum rumor humano;
só mochos e reptis; flores sem viço e raras;
partidos pelo chão, porfírios e carraras,
e a encobrir o caminho o matagal profano.

Diante desse desastre eu fiquei muitos dias;
manhãs, tardes sem sol e noites sem fulgores
passaram; lá vivi horas longas, sombrias...

Mas surgiste, afinal, numa luz soberana!
E audaz, para abrigar nossos doces amores,
das ruínas do palácio ergui minha choupana.

François Coppée

Ruines du coeur

Mon coeur était jadis comme un palais romain,
Tout construit de granits choisis, de marbres rares.
Bientôt les passions, comme un flot de barbares,
L’envahirent, la hache ou la torche à la main.

Ce fut une ruine alors. Nul bruit humain.
Vipères et hiboux. Terrains de fleurs avares.
Partout gisaient, brisés, porphyres et carrares;
Et les ronces avaient effacé le chemin.

Je suis resté longtemps, seul, devant mon désastre.
Des midis sans soleil, des minuits sans un astre,
Passèrent, et j’ai, là, vécu d’horribles jours;

Mais tu parus enfin, blanche dans la lumière,
Et, bravement, afin de loger nos amours,
Des débris du palais j’ai bâti ma chaumière.

[Arrière-saison; poésies — 1887]
(Le Livre des sonnets — 1893)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 — 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Sully Prudhomme: Première solitude

 
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[traduzido por Valentim Magalhães]

No colégio

Há meninos nas escolas,
Sempre banhados em pranto;
Os outros às cabriolas,
Eles quietinhos num canto.

As blusas sempre decentes
As calças em bom estado.
Os sapatos reluzentes,
Um ar sério e delicado.

Os colegas mais idosos
Os chamam, rindo meninas!
E os perseguem, maliciosos
Com suas troças ferinas.

Se os seus brinquedos lhes pedem,
Aos seus pedidos instantes
Bolas, piões, tudo cedem:
Não hão de ser negociantes.

Se o mestre os olha estremecem:
Temem-lhe a sombra, assustados...
Melhor fôra não nascessem:
A infância os faz desgraçados.

Verdadeiro inferno a classe;
E a lição? duro inimigo!
E se o mestre lhes ralhasse?!
E a vergonha do castigo?!

Quantos martírios! De dia,
É o sino rouco, medonho!
E à noite a mudez sombria
Do dormitório tristonho.

Nos lençóis bate e esmorece
O baço clarão das lampas;
Todos ressonam: parece
O vento a gemer nas campas.

E todos dormem, afeitos
A esse dormir de caserna;
Porém eles, nos seus leitos,
Pensam na casa paterna.

E no domingo, coitados!
Lembram o tempo saudoso
Em que dormiam, deitados
Em fofo berço amoroso.

Sob os maternos carinhos,
E as mães, que o sono velavam,
Iam tirá-los dos ninhos:
Pra suas camas os passavam.

Oh! Mães, culpadas ausentes!
Em um desterro infinito
Lhes pareceis. A estes entes
Falta o vosso olhar bendito.

Ingratas! Eles, chorando,
Pensam em vós. E, de bruços,
O travesseiro abraçando,
Abafam nele os soluços.

(Esta tradução, datada de 188,. consta do livro Rimário,
Paris, 1900.), em Nota do tradutor Mello Nóbrega.

Sully Prudhomme

Première solitude

On voit dans les sombres écoles
Des petits qui pleurent toujours;
Les autres font leurs cabrioles,
Eux, ils restent au fond des cours.

Leurs blouses sont très bien tirées,
Leurs pantalons en bon état,
Leurs chaussures toujours cirées;
Ils ont l’air sage et délicat.

Les forts les appellent des filles,
Et les malins des innocents:
Ils sont doux, ils donnent leurs billes,
Ils ne seront pas commerçants.

Les plus poltrons leur font des niches,
Et les gourmands sont leurs copains;
Leurs camarades les croient riches,
Parce qu’ils se lavent les mains.

Ils frissonnent sous l’œil du maître,
Son ombre les rend malheureux.
Ces enfants n’auraient pas dû naître,
L’enfance est trop dure pour eux!

Oh! La leçon qui n’est pas sue,
Le devoir qui n’est pas fini!
Une réprimande reçue,
Le déshonneur d’être puni!

Tout leur est terreur et martyre:
Le jour, c’est la cloche, et, le soir,
Quand le maître enfin se retire,
C’est le désert du grand dortoir;

La lueur des lampes y tremble
Sur les linceuls des lits de fer;
Le sifflet des dormeurs ressemble
Au vent sur les tombes, l’hiver.

Pendant que les autres sommeillent,
Faits au coucher de la prison,
Ils pensent au dimanche, ils veillent
Pour se rappeler la maison;

Ils songent qu’ils dormaient naguères
Douillettement ensevelis
Dans les berceaux, et que les mères
Les prenaient parfois dans leurs lits.

Ô mères, coupables absentes,
Qu’alors vous leur paraissez loin!
À ces créatures naissantes
Il manque un indicible soin;

On leur a donné les chemises,
Les couvertures qu’il leur faut:
D’autres que vous les leur ont mises,
Elles ne leur tiennent pas chaud.

Mais, tout ingrates que vous êtes,
Ils ne peuvent vous oublier,
Et cachent leurs petites têtes,
En sanglotant, sous l’oreiller.

(Les Solitudes — 1869)
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].