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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Hans Magnus Enzensberger: A Faca real


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Havia, porém, milhares num porão
ou um sozinho consigo ou dois
e lutavam entre si um contra o outro

Um era quem dizia A Mais-Valia
e não pensava em si e não queria saber
nada de nós recitava A Doutrina
O Proletariado e a Revolução
Palavras cultas na sua boca como pedras
E também levantava as pedras
e as jogava E tinha razão

Não é verdade E era o outro
que o dizia Amo apenas a ti
e não a todas Que fria está minha mão
E a dor devoradora no teu fígado
não consta nas senhas Não
morremos ao mesmo tempo Quem
terá razão quando estamos contentes? E tinha razão

Mas E assim continuava o outro Doravante
não posso por atrás o teu
pé Quem sabe tanto quanto nós
não se ajudará tão facilmente a si mesmo e Eu
não conto mais Por isso
entre no partido etc. Mesmo se
não tivermos razão E tinha razão

Desde sempre sabia que aquilo
que tu mesmo não crês
Dizia o outro Diante de nós
Como uma faca levas Porém aqui
já está cravada até o cabo
na tua carne A faca
A faca real E tinha razão

E então morreram um e outro
também Mas não ao mesmo tempo
E morreram todos E então
gritavam e lutavam uns contra os outros
e se amavam e se alegravam
e oprimiam-se uns aos outros
Milhares num porão

Ou um sozinho consigo mesmo ou dois
E se ajudavam E tinham razão
Não se podiam ajudar um ao outro

Hans Magnus Enzensberger

Das wirkliche Messer

Es waren aber Abertausend in einem Zimmer
oder einer allein mit sich oder zwei
und sie kämpften gegen sich miteinander

Der eine war der der Der Mehrwert sagte
und dachte an sich nicht und wollte von uns
nichts wissen Die Lehre sagte er her
Das Proletariat und Die Revolution
Fremdwörter waren in seinem Mund wie Steine
Und auch die Steine hob er auf
und warf sie Und er hatte recht

Das ist nicht wahr Und es war der andere
der dies sagte Ich liebe nur dich
und nicht alle Wie kalt meine Hand ist
Und der fressende Schmerz in deiner Leber
kommt nicht vor in den Losungen Wir
sterben nicht gleichzeitig Wer erst
hat wenn wir uns freuen recht? Und er hatte recht

Aber Und so fuhr der andere fort Fortan
kann ich deinen Fuss nicht zurück
setzen Wer soviel wie wir weiss
hilft sich so leicht nicht und Ich
komme nicht mehr in Betracht Also komm
in die Partei und so fort Auch wenn
wir nicht recht haben Und er hatte recht

Das wusste ich immer schon dass du das
was du selber nicht glaubst
Das sagte der andere Vor uns hin
Wie ein Messer schleppst Doch hier.
steckt es schon bis zum Heft
in deinem Fleisch Das Messer
Das wirkliche Messer Und er hatte recht

Und dann starb der eine und der andere
auch Aber nicht gleichzeitig
Und sie starben alle Und dann
schrieen sie und kämpften gegeneinander
mit sich und liebten und freuten
und unterdrückten sich
Abertausend in einem Zimmer

Oder einer mit sich allein oder zwei
Und sie halfen sich Und sie hatten recht
Und sie konnten einander nicht helfen

(Gedichte 1955 — 1970: Davor)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Hans Magnus Enzensberger: As Indulgências

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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Vocês não sabem do que falo. Claro.
Vocês acham que isso tem que ver com prestações,
com o Vestibular ou o Imposto de Renda.
Não é de estranhar. Nos postos de gasolina e na cadeia
e na discoteca não se concedem indulgências.
Se me perguntarem, antes também
não era grande coisa, nos leitos dos hospitais,
campos de batalha e calvários.
Nenhuma maravilha, só uma daquelas armadilhas sujas
com as quais o homem ilude o homem: cruz da humanidade
desde que há memória humana. Uma expressão arcaica,
mais nada. E, mesmo assim, gostaria
de transmiti-la a vocês, simplesmente, essa fórmula mágica,
pois é de uma perfeição quase total: indulgência total,
de todas as penas temporais e eternas.
Aliás, se me coubesse concedê-la a vocês,
ó pobres diabos, vocês a teriam garantida.

Hans Magnus Enzensberger

Der Ablass

Ihr wisst nicht, wovon ich rede. Klar.
Ihr glaubt, es hätte etwas mit Raten zu tun,
mit dem Numerus clausus oder mit dem Finanzamt.
Kein Wunder. An den Tankstellen und im Knast
und in der Diskothek wird kein Ablass gewährt.
Wenn ihr mich fragt, war es auch früher
nicht weit mit ihm her, auf Spitalbetten,
Schlachtfeldern und Kalvarienbergen.
Kein Wunder, nur einer jener schäbigen Tricks,
mit denen der Mensch den Menschen aufs Kreuz legt
seit Menschengedenken. Eine veraltete Redensart,
weiter nichts. Und dennoch möchte ich sie
euch gern überliefern, nur so, diese Zauberformel,
weil sie beinah vollkommen ist: Vollkommener Ablass
aller zeitlichen und ewigen Strafen.
Übrigens, wenn es an mir wäre, ihn zu gewähren,
Ihr armen Schweine, er wäre euch sicher.

(Die Furie des Verschwindens — 1980)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 8 de setembro de 2024

Hans Magnus Enzensberger: Sombra


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Pinto a neve.
Pinto com teimosia
pinto verticalmente
com um grande pincel
nesta página branca
e neve.

Pinto a terra
Pinto a sombra
da terra, a noite.
Não durmo.
Pinto durante
toda a noite.

A neve cai
verticalmente, com teimosia
sobre o que pinto.
Uma sombra grande
cai
sobre a minha sombra.

Nesta sombra
eu pinto
com o pincel grande
da noite
com teimosia
minha sombra miúda.

Hans Magnus Enzensberger

Schattenbild

Ich male den Schnee.
Ich male beharrlich
ich male lotrecht
mit einem grossen Pinsel
auf diese weisse Seite
den Schnee.

Ich male die erde.
Ich male den Schatten
der Erde, die Nacht.
Ich schlafe nicht.
Ich male
die ganze Nacht.

Der Schnee fällt
lotrecht, beharrlich
auf das, was ich male.
Ein grosser Schatten
fällt
auf mein Schattenbild.

In diesen Schatten
male ich
mit dem grossen Pinsel
der Nacht
beharrlich
meinen winzigen Schatten.

(Blindenschrift — 1964)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Hans Magnus Enzensberger: Identificação policial


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Este não é Dante.
Esta é uma fotografia de Dante.
Este é um filme, no qual figura um ator, que pretende ser Dante.
Este é um filme, no qual Dante faz o papel de Dante.
Este é um homem que sonha com Dante.
Este é um homem que se chama Dante, mas não é Dante.
Este é um homem que imita Dante.
Este é um homem que se faz passar por Dante.
Este é um homem que sonha ser Dante.
Este é um homem que se parece tanto com Dante que parece ele
mesmo.
Esta é uma figura de cera de Dante.
Esta é uma criança substituída, um gêmeo, um sósia.
Este é um homem que se toma por Dante.
Este é um homem que todos, salvo Dante, tomam por Dante.
Este é um homem que todos tomam por Dante, só ele mesmo não
acredita.
Este é um homem que ninguém, salvo Dante, toma por Dante.
Este é Dante.

Hans Magnus Enzensberger

Erkennungsdienstliche Behandlung

Das is nicht Dante.
Das ist eine Photographie von Dante.
Das ist ein Film, in dem ein Schauspieler suftritt, der vogibt, Dante zu
sein.
Das ist ein Film, in dem Dante Dante spielt.
Das ist ein Mann, der von Dante träumt.
Das ist ein Mann, der Dante heisst, aber nicht Dante ist.
Das ist ein Mann, der Dante nachäfft.
Das ist ein Mann, der sich für Dante ausgibt.
Das ist ein Mann, der träumt, er sei Dante.
Das ist ein Mann, der Dante zum Verwechsein ähnlich sieht.
Das ist eine Wachsfigur von Dante.
Das ist ein Wechselbalg, ein Zwilling, ein Doppelgänger.
Das ist ein Mann, der sich für Dante hält.
Das ist ein Mann, den alle, ausser Dante, für Dante halten.
Das ist ein Mann, den alle für Dante halten, nur er selber glaubt nicht
daran.
Das ist ein Mann, den niemand für Dante hält ausser Dante.
Das ist Dante.

(Der Untergang der Titanic — 1978)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 29 de junho de 2024

Hans Magnus Enzensberger: O fim das corujas


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Não falo do seu…
Eu falo do fim das corujas.
Eu falo do linguado, da baleia,
na sua casa escura,
o séptuplo mar,
dos glaciares,
que hão de parir cedo demais,
de corvos e pombos, testemunhas emplumadas,
de tudo o que vive nos ares,
nas florestas, dos líquens no cascalho,
do eu sem caminho, do pântano cinzento,
e das montanhas vazias:

luzindo na tela do radar
pela última vez  avaliado
nas mesas de registro  por antenas
mortíferas são tocados os pântanos da Flórida
e o gelo da Sibéria; animais
e canaviais e lousas, estrangulados
por correntes detectoras, cercados
pela última manobra, inocentes
sob calotas de fogo que pairam no ar,
no tique-taque do caso fatal.

Já estamos esquecidos.
Não se preocupem com os órfãos,
desterrem de suas mentes
os sentimentos garantidos pelo Estado,
a glória, os salmos inoxidáveis.
Não falo mais de vocês,
planejadores da ação sem vestígio,
nem de mim, nem de ninguém.
Falo do que não fala,
das testemunhas sem língua,
das lontras e focas,
das velhas corujas da terra.

Hans Magnus Enzensberger

Das Ende der Eulen

Ich spreche von euerm nicht,
ich spreche vom Ende der Eulen.
Ich spreche von Butt und Wal
in ihrem dunkeln Haus,
dem siebenfältigen Meer,
von den Gletschern,
sie werden kalben zu früh,
Rab und Taube, gefiederten Zeugen,
von allem was lebt in Lüften
und Wäldern, und den Flechten im Kies,
vom Weglosen selbst, und vom grauen Moor
und den leeren Gebirgen:

Auf Radarschirmen leuchtend
zum letzten Mal, ausgewertet
auf Meldetischen, von Antennen
tödlich befingert Floridas Sümpfe
und das sibirische Eis, Tier
und Schilf und Schiefer erwürgt
von Warnketten, umzingelt
vom letzten Manöver, arglos
unter schwebenden Feuerglocken,
im Ticken des Ernstfalls.

Wir sind schon vergessen.
Sorgt euch nicht um die Waisen,
aus dem Sinn schlagt euch
die mündelsichern Gefühle,
den Ruhm, die rostfreien Psalmen.
Ich spreche nicht mehr von euch,
Planern der spurlosen Tat,
und von mir nicht, und keinem.
Ich spreche von dem was nicht spricht,
von den sprachlosen Zeugen,
von Ottern und Robben,
von den alten Eulen der Erde.
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Hans Magnus Enzensberger: Os Parasitas


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

A gente se pergunta, que tipo de gente é,
pois parecem conhecer-se uns aos outros,
aqui, nesta longa mesa, conhecidos,
numa palavra, e a rigor,
a gente se pergunta a si mesmo, se há aqui
alguém indispensável. Pergunta-se. ninguém sabe.
Só um funcionário público com estabilidade vitalícia que à esquerda
e sem vontade remexe teorias amareladas
sobre a mais-valia, responde arrogante.

Tudo errado. Admite-se, sem mais,
que sempre houve ladrões, padrecos,
cortesãs; também curandeiros
e adivinhos que apodrecem aos poucos, e
descontraídos batem papo no fim da mesa,
igualmente sonhadores estroinas ali no canto,
nos seus colchões. Aquele lá, nos fundos, por exemplo,
é um escultor que se crê Brancusi.

Mas todos esses burlões casamenteiros e pugilistas,
reis, punks, equilibristas, mesmo os assassinos
e corretores estão, há muito, na minoria.
Vê-se como o Estado filho da puta cresce,
como nascem, pretos, seus piolhos,
seus operários da morte, guias de cães
e declamadores. Cedo, de manhã,
quando se enchem as prateleiras nos supermercados,
não se descobrem cadáveres.

Em toda parte a gente encontra conhecidos e se admira.
Tropeçam, emaranhados uns aos outros.
Necessários, supérfluos: quem
poderia distingui-los! Produtivos, improdutivos:
não é mais tão fácil como antes.
E a gente se pergunta muitas vezes
se aqui faz falta ainda alguém, seja quem for, por exemplo,
o parasita que lá, quase em frente, está
pichando com letras grandes na parede: parasitas fora!

Hans Magnus Enzensberger

Die Parasiten

Man fragt sich, was das für Leute sind,
die sich, die einander bekannt vorkommen,
hier, an diesem langen Tisch, Bekannte,
mit einem Wort, und streng genommen
fragt man sich selber, ob einer hier ist,
der nötig wäre. Man fragt. Niemand weiss es.
Nur ein Beamter auf Lebenszeit, der links
und lustlos stochert in gelblichen Theorien
über den Mehrwert, gibt patzig Auskunft.

Alles daneben. Oh, man gibt gerne zu.
Diebe, Pfaffen und Kurtisanen, die
hat es immer gegeben; auch die allmählich
verfaulenden Medizinmänner und Auguren,
die locker am Tischende quasselnd essen,
auch dort im Winkel die wüsten Träumer
auf ihren Matratzen. Der da hintem z. B.;
ein Bildhauer, der Brancusi zu sein glaubt,
man glaubt es kaum, ist möglicherweise Brancusi.

Aber all diese Heirtsschwindler und Boxer,
Könige, Punks, Jongleure, ja selbst die Mörder
und Makler sind längst in der Minderheit.
Man sieht, wie der Staste-Scheisskerl wächst,
wie schwarz seine Mitesser spriessen,
seine Todesarbeiter, Hunderführer
und Deklamatoren. Am frühen Morgen,
wenn die Regale sich füllen im Supermarkt,
sind keinerlei Leichen zu sehen.

Überall trifft man Bekannte, wundert sich.
Strauchelnde sind es, ineinander verwickelt.
Notwendig, überflüssig; já, wer das
unterscheiden könnte! Produktiv, unproduktiv:
nicht mehr so einfach wie früher.
Und selber fragt man sich oft, ob hier
noch einer nötig ist, irgendeiner, z. B.
der Parasit, der schräg gegenüber
gross an die Wand malt: Fort mit den Parasiten!

(Die Furie des Verschwindens — 1980)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Hans Magnus Enzensberger: Hotel Fraternité


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Quem não tem dinheiro para comprar uma ilha
quem aguarda diante do cinema a rainha de Sabá
quem rasga a sua última camisa por raiva e tristeza
quem esconde um dobrão no sapato furado,
quem se enxerga no olho polido do extorsionista
quem range os dentes no carrossel
quem derrama vinho tinto sobre a cama dura
quem acende uma fogueira de cartas e fotografias
quem senta no cais debaixo dos guinchos
quem dá de comer ao esquilo
quem não tem dinheiro
quem se enxerga
quem bate nas paredes
quem grita
quem bebe
quem não faz nada

Meu inimigo
se agacha nas sacadas
na cama do armário
em todas as partes no chão
os olhos fixos em mim
meu irmão.

Hans Magnus Enzensberger

Hôtel Fraternité

Der kein Geld hat um sich eine Insel zu kaufen
der vor dem Kino wartet auf die Königin von Saba
der sein letztes Hemd zerreisst vor Zorn und Trauer
der eine Dublone verbirgt im zerfetzten Schuh
der sich im polierten Aug des Erpressers erblickt
der auf dem Karussell mit den Zähnen knirscht
der den Rotwein verschüttet über das harte Bett
der ein Feuer macht aus Briefen und Fotografien
der am Kai sitzt unter den Kränen
der das Eichhorn füttert
der kein Geld hat
der sich erblickt
der an die Wände pocht
der schreit
der trinkt
der nichts tut

mein Feind
hockt auf den Simsen
auf dem Bett auf dem Schrank
überall auf dem Fussboden
hockt
die augen auf mich gerichtet
mein Bruder.

(Verteidingung der Wölfe — 1957)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Hans Magnus Enzensberger: A Alegria


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Ela não quer que fale dela
Ela não está no papel
Ela não tolera nenhum profeta

Ela derruba tudo o que está firme
Ela não mente
Ela se rebela

Apenas ela me justifica
Ela é minha razão
Ela não me pertence

Ela é alheia e persistente
Eu a escondo
como uma vergonha

Ela é fugaz
Ninguém pode compartilhá-la
Ninguém pode guardá-la para si

Não guardo nada
Compartilho tudo com ela
Ela irá embora

Outrem a esconderá
na sua fuga vitoriosa
através da noite muito longa

Hans Magnus Enzensberger

Die Freude

Sie will nicht dass ich von ihr rede
Sie steht nicht auf dem Papier
Sie duldet kelnen Propheten

Sie wirft alles um was fest steht
Sie lügt nicht
Sie meutert

Sie allen rechtfertigt mich
Sie ist meine Vermunft
Sie gehört mir nicht

Sie ist fremd und beharrlich
Ich verberge sie
wie eine Schande

Sie ist flüchtig
Niemand kann sie teilen
Niemand kann sie für sich behalten

Ich behalte nichts
Ich telle alles mit ihr
Sie wird fortgehen

Ein anderer wird sie verbergen
auf ihrer siegreichen Flucht
durch die sehr lange Nacht

(Gedichte 1955 — 1970: Danach)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.