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[versão em português por Jorge de
Sena]
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XIX
Deitai
fogo à grande hora flamenga!
Embotai
todo o sentido de repouso!
Lançai a
golpes essa alegria mesmo onde eles magoam
As mãos
que brincam de evitá-los!
Levai
para a cama todas as coisas que convidam
A estar nu
qual se quer!
Rasgai,
arrancai, como terra quem tesouro busca
Quando a
argola do cofre espreita.
Os
pensamentos que encobrem pensamentos dos actos do cio,
Que este
grande dia incita!
Agora
parece que todas as mãos espremem seios como
Se
quisessem que o seu suco dêem!
Agora
parece que todas as coisas se emparelham,
A carne
endurecida sufocando a carne suave,
E pernas
peludas e nádegas lançadas para abrir
As
brancas pernas entre que se metem.
Contudo
estes mistos pensamentos em cada espírito só falam
Do dia o
impulso de amor à solta.
Do homem
o anseio por ter sentido a posse,
Da mulher
o homem de ter sobre,
A maré
abstracta da vida claramente inundando
Dos
corpos a praia concreta.
E contudo
algo disto ao real dia é doado.
Agora
saias são levantadas nos quartos das criadas,
E as
baias do ventre prostituído
Abrem-se
ao cavalo que entra num galope,
Quase
tarde, já eminente o jacto.
E mesmo agora
um convidado mais velho enreda
Uma
rapariga corada em escuro canto à parte,
E fá-la
devagar mover a dele carne exposta.
Vede como
ela gosta, e algo no seio lhe palpita,
De sentir
que a própria mão trabalha o dardo que se avança!
[ . . . ]
XIX — Set the great Flemish hour aflame! . . . [Epithalamium]
XIX
Set the great Flemish hour aflame!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even
where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead
ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who
treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of
the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the
paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one
another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled
to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in
each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt
possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly
to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real
day don.
Now are skirts lifted in the
servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a
rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest
emmesh
A flushed young girl in a dark nook
apart,
And leads her slow to move his
produced flesh.
Look how she likes with something
in her heart
To feel her hand work the protruded
dart!
* Nota de
Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes. [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando
Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue,
Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou],
Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também
Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática,
Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português
e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor,
crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl,
na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu
fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu
primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com
revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu
(1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925),
Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa)
entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros
do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos,
dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo
Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English
Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922,
seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea
— revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em
inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets
(1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913],
(ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada
em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português;
o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com
edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.