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Walter Benjamin, com seus estudos parisienses, conferiu celebridade ao personagem do flâneur, muito distante do passeador galante das Tulherias. Ele o analisou, descreveu, captou relendo Baudelaire. Seu O Spleen de Paris, seus “Quadros Parisienses” em As Flores do Mal, suas pinturas da Vida Moderna. Perambular, “flanar”, pressupõe três elementos, ou a superposição de três condições: a cidade, a multidão, o capitalismo.
A experiência do passear é, sim, a da caminhada, mas fica-se bem longe de Nietzsche ou de Thoreau. Sem falar que caminhar na cidade reverte-se num sofrimento para o amante das longas caminhadas naturais porque dá a entender, como veremos, que o ritmo será entrecortado, irregular. Seja como for, o flâneur caminha, o que não acontece com o simples curioso, que enquanto passa vai parando continuamente e estanca diante das atrações, ou fica fascinado pelo apelo dos mostruários. O flâneur caminha, ele se esgueira até no meio de um mundaréu de gente.
Uma flânerie subentende essas concentrações urbanas que se desenvolvem no século XIX, concentrações tamanhas que se pode caminhar horas a fio sem avistar o menor pedaço de campina. Caminhando assim nessas novas megalópoles (Berlim, Londres, Paris), atravessa-se vários bairros que constituem mundos diferentes, à parte, separados. Tudo pode mudar de um distrito ao outro: a dimensão das casas, a arquitetura geral, o ambiente, o ar que se respira, o modo de vida, a luz, as categorias sociais. O flâneur subentende o momento em que a cidade tomou proporções tais que vira paisagem. Pode-se percorrê-la como se percorre uma montanha com suas travessias de desfiladeiros, reviravoltas de perspectiva, perigos também, e surpresas. Virou uma floresta, uma selva.
O segundo elemento característico do despontar do perambulador é a multidão. O flâneur caminha dentro da multidão, através dela. Essa multidão em meio à qual ele progride já são as massas: laboriosas, anônimas, atarefadas. Nas grandes cidades industriais, essas pessoas que voltam do trabalho ou então que estão indo para o trabalho ou a encontros de negócios, que se apressam para entregar um pacote ou chegar na hora marcada, são os representantes da nova civilização. Essa multidão é hostil, hostil com cada um daqueles que a compõem. Cada um quer ir depressa, e o outro se torna um obstáculo no caminho. A multidão transforma imediatamente o outro em concorrente. Não é a multidão em marcha, a das manifestações, greves, reivindicações unitárias, a multidão épica, o formidável bloco de energia. Pelo contrário, nessa multidão cada um descobre para si interesses contraditórios, na própria base concreta de seu deslocamento. Não se encontra ninguém lá. Caras desconhecidas, na maior parte do tempo fechadas, e que estatisticamente se tem pouca chance de conhecer. A experiência comum, nos séculos anteriores, era a surpresa de um forasteiro na cidade: um rosto desconhecido. De onde vem, o que vem fazer aqui? Mas hoje em dia o anonimato é a regra. O choque é reconhecer. Na multidão, os códigos básicos do encontro desaparecem totalmente. Fica impossível cumprimentar, parar, trocar três palavras a respeito do tempo que está fazendo.
Terceiro elemento: O capitalismo ou, mais precisamente, segundo Walter Benjamin, o reinado da mercadoria. O capitalismo vai designar esse momento em que a mercadoria expande seu modo de ser para muito além dos produtos industriais: até a obra de arte e as pessoas. Mercadorização do mundo: tudo se torna objeto de consumo, tudo se vende e se compra, tudo está ofertado no grande mercado da demanda indefinida. Reinado da prostituição generalizada: trata se de vender e de vender-se.
Walter Benjamin, com seus estudos parisienses, conferiu celebridade ao personagem do flâneur, muito distante do passeador galante das Tulherias. Ele o analisou, descreveu, captou relendo Baudelaire. Seu O Spleen de Paris, seus “Quadros Parisienses” em As Flores do Mal, suas pinturas da Vida Moderna. Perambular, “flanar”, pressupõe três elementos, ou a superposição de três condições: a cidade, a multidão, o capitalismo.
A experiência do passear é, sim, a da caminhada, mas fica-se bem longe de Nietzsche ou de Thoreau. Sem falar que caminhar na cidade reverte-se num sofrimento para o amante das longas caminhadas naturais porque dá a entender, como veremos, que o ritmo será entrecortado, irregular. Seja como for, o flâneur caminha, o que não acontece com o simples curioso, que enquanto passa vai parando continuamente e estanca diante das atrações, ou fica fascinado pelo apelo dos mostruários. O flâneur caminha, ele se esgueira até no meio de um mundaréu de gente.
Uma flânerie subentende essas concentrações urbanas que se desenvolvem no século XIX, concentrações tamanhas que se pode caminhar horas a fio sem avistar o menor pedaço de campina. Caminhando assim nessas novas megalópoles (Berlim, Londres, Paris), atravessa-se vários bairros que constituem mundos diferentes, à parte, separados. Tudo pode mudar de um distrito ao outro: a dimensão das casas, a arquitetura geral, o ambiente, o ar que se respira, o modo de vida, a luz, as categorias sociais. O flâneur subentende o momento em que a cidade tomou proporções tais que vira paisagem. Pode-se percorrê-la como se percorre uma montanha com suas travessias de desfiladeiros, reviravoltas de perspectiva, perigos também, e surpresas. Virou uma floresta, uma selva.
O segundo elemento característico do despontar do perambulador é a multidão. O flâneur caminha dentro da multidão, através dela. Essa multidão em meio à qual ele progride já são as massas: laboriosas, anônimas, atarefadas. Nas grandes cidades industriais, essas pessoas que voltam do trabalho ou então que estão indo para o trabalho ou a encontros de negócios, que se apressam para entregar um pacote ou chegar na hora marcada, são os representantes da nova civilização. Essa multidão é hostil, hostil com cada um daqueles que a compõem. Cada um quer ir depressa, e o outro se torna um obstáculo no caminho. A multidão transforma imediatamente o outro em concorrente. Não é a multidão em marcha, a das manifestações, greves, reivindicações unitárias, a multidão épica, o formidável bloco de energia. Pelo contrário, nessa multidão cada um descobre para si interesses contraditórios, na própria base concreta de seu deslocamento. Não se encontra ninguém lá. Caras desconhecidas, na maior parte do tempo fechadas, e que estatisticamente se tem pouca chance de conhecer. A experiência comum, nos séculos anteriores, era a surpresa de um forasteiro na cidade: um rosto desconhecido. De onde vem, o que vem fazer aqui? Mas hoje em dia o anonimato é a regra. O choque é reconhecer. Na multidão, os códigos básicos do encontro desaparecem totalmente. Fica impossível cumprimentar, parar, trocar três palavras a respeito do tempo que está fazendo.
Terceiro elemento: O capitalismo ou, mais precisamente, segundo Walter Benjamin, o reinado da mercadoria. O capitalismo vai designar esse momento em que a mercadoria expande seu modo de ser para muito além dos produtos industriais: até a obra de arte e as pessoas. Mercadorização do mundo: tudo se torna objeto de consumo, tudo se vende e se compra, tudo está ofertado no grande mercado da demanda indefinida. Reinado da prostituição generalizada: trata se de vender e de vender-se.
*
O flâneur é subversivo. Ele subverte a
multidão, a mercadoria e a cidade, bem como seus valores. O caminhador dos
vastos espaços, excursionando com sua mochila às costas, opõe à civilização o
impacto vívido de uma ruptura, o gesto cortante de uma negação (Jack Kerouac,
Gary Snyder...). O ato de caminhar do flâneur é mais ambíguo, sua
resistência à modernidade, ambivalente. Subversão não é opor-se, mas contornar,
desviar, exagerar até deturpar, aceitar até ultrapassar.
O flâneur desvirtua a solidão, a
velocidade, o atarefamento e o consumo.
Subversão da solidão. Discorreu-se
muito sobre o efeito do isolamento das massas. Sequência indefinida de rostos
estranhos, grossa camada de indiferença em que a solidão moral fica mais
profunda. Cada um sente-se um estranho para o outro e o desdobramento desse
sentimento produz uma hostilidade espessa que faz de cada um a presa de todo
mundo. O flâneur busca
esse anonimato, pois nele esconde-se. Ele se dissolve, de
fato, na massa mecânica, mas a partir de um movimento voluntário, para
dissimular-se ali. Sendo assim, o anonimato não é para ele uma pressão a
esmagá-lo, mas uma oportunidade de regozijo: passa a se sentir tanto mais ele
mesmo, a partir de suas reservas interiores. E já que está se escondendo, não
sentirá o anonimato como uma imposição, mas como uma sorte. No interior da
solidão pesada, espessa da multidão, ele escava a do observador e do poeta:
ninguém vê que ele está olhando! Ele é como uma dobra na massa. O flâneur está
defasado, e esse desnivelamento decisivo, sem excluí-lo nem mantê-lo afastado,
o distrai da massa anônima, o singulariza para si mesmo.
Subversão da rapidez. Na multidão
cada um está apressado, em duplo sentido: quer andar
rápido e sofre pressão em contrário. * Já o flâneur não
está obrigado a ir aqui ou acolá. Então ele pára diante de brilhos de luz,
rostos o detêm, ele diminui o passo nos cruzamentos. Mas, resistindo à
velocidade do sistema da sobrecarga de afazeres, sua lentidão se transforma na
condição para uma agilidade superior: a do espírito. Pois ele vai captando no
ar, imagens. O transeunte precipitado alia o ritmo rápido do corpo ao
embrutecimento do espírito. Ele só quer saber de andar depressa e seu espírito
é como uma máquina girando à toa, ocupado simplesmente em contabilizar o vazio.
O caminhante desacelera o corpo, mas seus olhos continuam a deslocar-se e seu
espírito é atraído por mil coisas ao mesmo tempo.
Subversão do ocupacionismo. O flâneur
resiste terminantemente ao produtivismo circundante, ao utilitarismo que o
cerca. Ele é um inútil perfeito e sua ociosidade o condena a permanecer à
margem. Mas nem por isso ele se mantém inteira e constantemente passivo. Não
faz nada, mas está com todas as coisas encurraladas, observa, seu espírito
conserva-se incessantemente atento. E agarrando no ar os choques e os
encontros, ele não pára de criar imagens poéticas. E se não houvesse um flâneur, cada
qual seguiria seu próprio caminho, produziria sua própria sequência de
fenômenos, sem que ninguém pudesse testemunhar daquilo que ocorre nos
cruzamentos. O flâneur nota as faíscas, as
aproximações, os encontros.
Subversão do consumo. A multidão é
vivenciar a experiência de um virar-mercadoria. Empurrado, arrastado por ela,
fico reduzido a não ser nada além de um produto entregue a movimentos anônimos.
Ofereço-me, largo-me ao tráfego. Na multidão, sempre me sinto como que
consumido: pelos movimentos que se impõem ao meu corpo, os arrebatamentos que
me tragam. Sou consumido pelas ruas, pelas alamedas. As placas de lojas e as
vitrines existem tão só para intensificar a circulação, a troca de mercadorias.
O flâneur não
consome, tampouco é consumido. Ele garimpa ou até furta. Não recebe, como o
caminhante das planícies ou das montanhas, a paisagem em paga de seus esforços.
Mas ele apreende, intercepta no ar encontros improváveis, instantes furtivos,
coincidências fugitivas. Não consome, muito embora não pare de apanhar
vinhetas, de chamar a si um chuvisco de imagens roubadas, no improvável
instante dos encontros.
Essa criatividade poética do
caminhante se conserva, entretanto, ambígua: como dizia Walter Benjamin, ela é
uma “fantasmagoria”. Ultrapassa a atrocidade das cidades para resgatar suas
maravilhas passageiras, explora a poesia das coisas, mas sem se deter para
denunciar a alienação do trabalho e das massas. Esse flâneur tem
coisa melhor para fazer: remitologizar a cidade, inventar novas divindades,
explorar a superfície poética do espetáculo urbano.
As posteridades da flânerie
baudelariana são numerosas. Encontraremos a errância surrealista que
enriquecerá a arte de deambular introduzindo duas novas dimensões: o acaso e a
noite (Aragon no bairro das Buttes-Chaumont em O Camponês de Paris,
Breton à procura alucinada do amor em Nadja). Encontraremos ainda a
derivação situacionista que tem Guy Debord por teorizador: exploração sensitiva
das diferenças (deixar-se transformar pelos ambientes). Fica a pergunta de
saber se, na época atual, a padronização das placas com marcas comerciais (as
“cadeias” como se diz sem ironia: elos por igual, que se fecham prendendo você)
e o alastramento agressivo dos automóveis não teriam deixado a flânerie mais
complicada, menos agradável e surpreendente. Criam-se, é fato, espaços para uma
flânerie
programada, mas vinculados à obrigatoriedade de comprar.
O grande caminhador romântico, o
eterno Wanderer,
estava em comunhão com o Ser. A caminhada era uma grande cerimônia de união
mística, o caminhante fazendo-se presente à Presença, aninhando-se junto ao
seio puro de uma Natureza maternal. Em Rousseau, em Wordsworth, encontra-se
essa celebração da caminhada como atestação da presença e fusão mística. E o
que fica registrado no verso cadenciado de Wordsworth ou na prosa musical de
Rousseau, é sem dúvida a profundidade dessa respiração, a brandura do ritmo.
O caminhante das cidades não está
presente a uma plenitude de Ser, está apenas disponível a impactos visuais
esparsos. O caminhante se realiza no abismo de uma fusão, o flâneur na
explosão de uma dispersão indefinida de estilhaços.

* A etimologia de “apressar” remete a “oprimir”, o que possibilita o paralelo com o duplo significado do termo francês pressé, apressado e pressionado, muito embora em português sofra-se pressão para acelerar, ao passo que no contexto francês ela bloqueia. (Nota da Tradutora)
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Caminhar,
uma filosofia — Frédéric Gros, Tradução de Lília Ledon da Silva, 2010,
É Realizações Editora, São Paulo — SP; Frédéric Gros, nascido em
1965, francês de Saint-Cyr-l’École, formado pela École Normale
Supérieure de Paris e com doutorado em Filosofia pela Université Paris-Est
Créteil, Val de Marne, com o trabalho/tema Théorie de la connaissance et
histoire des savoirs: de L’histoire de la folie à L’archéologie du savoir (Teoria
do Conhecimento e da História do Conhecimento: A história da loucura na arqueologia do saber), é professor, filósofo, ensaísta e conferencista;
escreveu e publicou Foucault et la folie (1997), Et sera
justice. Punir en démocratie (avec Antoine Garapon et Thierry Pech,
2001), États de violence — Essai sur la fin de la guerre (2006), Caminhar,
uma filosofia (Marcher, une philosophie, 2010), Le Principe sécurité (2012) e
outros títulos, além de artigos em revistas especializadas; participou também
de palestras do Ciclo Mutações realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e outras
capitais, com mais uma vintena de pensadores, as quais resultaram nas
coletâneas Mutações: ensaios sobre as novas configurações do mundo (2009), Mutações:
a experiência do pensamento (2011), Mutações: elogio à preguiça (2012), Mutações:
o futuro não é mais o que era (2013), Mutações: o silêncio e a prosa
do mundo (2014), Mutações: fontes passionais da violência (2015), Mutações: o novo espírito utópico (2016) e outros.

