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sábado, 22 de julho de 2017

Frédéric Gros: O 'flâneur' das cidades

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          Walter Benjamin, com seus estudos parisienses, conferiu celebridade ao personagem do flâneur, muito distante do passeador galante das Tulherias. Ele o analisou, descreveu, captou relendo Baudelaire. Seu O Spleen de Paris, seus “Quadros Parisienses” em As Flores do Mal, suas pinturas da Vida Moderna. Perambular, “flanar”, pressupõe três elementos, ou a superposição de três condições: a cidade, a multidão, o capitalismo.

          A experiência do passear é, sim, a da caminhada, mas fica-se bem longe de Nietzsche ou de Thoreau. Sem falar que caminhar na cidade reverte-se num sofrimento para o amante das longas caminhadas naturais porque dá a entender, como veremos, que o ritmo será entrecortado, irregular. Seja como for, o flâneur caminha, o que não acontece com o simples curioso, que enquanto passa vai parando continuamente e estanca diante das atrações, ou fica fascinado pelo apelo dos mostruários. O flâneur caminha, ele se esgueira até no meio de um mundaréu de gente.

          Uma flânerie subentende essas concentrações urbanas que se desenvolvem no século XIX, concentrações tamanhas que se pode caminhar horas a fio sem avistar o menor pedaço de campina. Caminhando assim nessas novas megalópoles (Berlim, Londres, Paris), atravessa-se vários bairros que constituem mundos diferentes, à parte, separados. Tudo pode mudar de um distrito ao outro: a dimensão das casas, a arquitetura geral, o ambiente, o ar que se respira, o modo de vida, a luz, as categorias sociais. O flâneur subentende o momento em que a cidade tomou proporções tais que vira paisagem. Pode-se percorrê-la como se percorre uma montanha com suas travessias de desfiladeiros, reviravoltas de perspectiva, perigos também, e surpresas. Virou uma floresta, uma selva.

          O segundo elemento característico do despontar do perambulador é a multidão. O flâneur caminha dentro da multidão, através dela. Essa multidão em meio à qual ele progride já são as massas: laboriosas, anônimas, atarefadas. Nas grandes cidades industriais, essas pessoas que voltam do trabalho ou então que estão indo para o trabalho ou a encontros de negócios, que se apressam para entregar um pacote ou chegar na hora marcada, são os representantes da nova civilização. Essa multidão é hostil, hostil com cada um daqueles que a compõem. Cada um quer ir depressa, e o outro se torna um obstáculo no caminho. A multidão transforma imediatamente o outro em concorrente. Não é a multidão em marcha, a das manifestações, greves, reivindicações unitárias, a multidão épica, o formidável bloco de energia. Pelo contrário, nessa multidão cada um descobre para si interesses contraditórios, na própria base concreta de seu deslocamento. Não se encontra ninguém lá. Caras desconhecidas, na maior parte do tempo fechadas, e que estatisticamente se tem pouca chance de conhecer. A experiência comum, nos séculos anteriores, era a surpresa de um forasteiro na cidade: um rosto desconhecido. De onde vem, o que vem fazer aqui? Mas hoje em dia o anonimato é a regra. O choque é reconhecer. Na multidão, os códigos básicos do encontro desaparecem totalmente. Fica impossível cumprimentar, parar, trocar três palavras a respeito do tempo que está fazendo.

          Terceiro elemento: O capitalismo ou, mais precisamente, segundo Walter Benjamin, o reinado da mercadoria. O capitalismo vai designar esse momento em que a mercadoria expande seu modo de ser para muito além dos produtos industriais: até a obra de arte e as pessoas. Mercadorização do mundo: tudo se torna objeto de consumo, tudo se vende e se compra, tudo está ofertado no grande mercado da demanda indefinida. Reinado da prostituição generalizada: trata se de vender e de vender-se.


          *

          O flâneur é subversivo. Ele subverte a multidão, a mercadoria e a cidade, bem como seus valores. O caminhador dos vastos espaços, excursionando com sua mochila às costas, opõe à civilização o impacto vívido de uma ruptura, o gesto cortante de uma negação (Jack Kerouac, Gary Snyder...). O ato de caminhar do flâneur é mais ambíguo, sua resistência à modernidade, ambivalente. Subversão não é opor-se, mas contornar, desviar, exagerar até deturpar, aceitar até ultrapassar.

          O flâneur desvirtua a solidão, a velocidade, o atarefamento e o consumo.

          Subversão da solidão. Discorreu-se muito sobre o efeito do isolamento das massas. Sequência indefinida de rostos estranhos, grossa camada de indiferença em que a solidão moral fica mais profunda. Cada um sente-se um estranho para o outro e o desdobramento desse sentimento produz uma hostilidade espessa que faz de cada um a presa de todo mundo. O flâneur busca esse anonimato, pois nele esconde-se. Ele se dissolve, de fato, na massa mecânica, mas a partir de um movimento voluntário, para dissimular-se ali. Sendo assim, o anonimato não é para ele uma pressão a esmagá-lo, mas uma oportunidade de regozijo: passa a se sentir tanto mais ele mesmo, a partir de suas reservas interiores. E já que está se escondendo, não sentirá o anonimato como uma imposição, mas como uma sorte. No interior da solidão pesada, espessa da multidão, ele escava a do observador e do poeta: ninguém vê que ele está olhando! Ele é como uma dobra na massa. O flâneur está defasado, e esse desnivelamento decisivo, sem excluí-lo nem mantê-lo afastado, o distrai da massa anônima, o singulariza para si mesmo.

          Subversão da rapidez. Na multidão cada um está apressado, em duplo sentido: quer andar rápido e sofre pressão em contrário. * Já o flâneur não está obrigado a ir aqui ou acolá. Então ele pára diante de brilhos de luz, rostos o detêm, ele diminui o passo nos cruzamentos. Mas, resistindo à velocidade do sistema da sobrecarga de afazeres, sua lentidão se transforma na condição para uma agilidade superior: a do espírito. Pois ele vai captando no ar, imagens. O transeunte precipitado alia o ritmo rápido do corpo ao embrutecimento do espírito. Ele só quer saber de andar depressa e seu espírito é como uma máquina girando à toa, ocupado simplesmente em contabilizar o vazio. O caminhante desacelera o corpo, mas seus olhos continuam a deslocar-se e seu espírito é atraído por mil coisas ao mesmo tempo.

          Subversão do ocupacionismo. O flâneur resiste terminantemente ao produtivismo circundante, ao utilitarismo que o cerca. Ele é um inútil perfeito e sua ociosidade o condena a permanecer à margem. Mas nem por isso ele se mantém inteira e constantemente passivo. Não faz nada, mas está com todas as coisas encurraladas, observa, seu espírito conserva-se incessantemente atento. E agarrando no ar os choques e os encontros, ele não pára de criar imagens poéticas. E se não houvesse um flâneur, cada qual seguiria seu próprio caminho, produziria sua própria sequência de fenômenos, sem que ninguém pudesse testemunhar daquilo que ocorre nos cruzamentos. O flâneur nota as faíscas, as aproximações, os encontros.

          Subversão do consumo. A multidão é vivenciar a experiência de um virar-mercadoria. Empurrado, arrastado por ela, fico reduzido a não ser nada além de um produto entregue a movimentos anônimos. Ofereço-me, largo-me ao tráfego. Na multidão, sempre me sinto como que consumido: pelos movimentos que se impõem ao meu corpo, os arrebatamentos que me tragam. Sou consumido pelas ruas, pelas alamedas. As placas de lojas e as vitrines existem tão só para intensificar a circulação, a troca de mercadorias. O flâneur não consome, tampouco é consumido. Ele garimpa ou até furta. Não recebe, como o caminhante das planícies ou das montanhas, a paisagem em paga de seus esforços. Mas ele apreende, intercepta no ar encontros improváveis, instantes furtivos, coincidências fugitivas. Não consome, muito embora não pare de apanhar vinhetas, de chamar a si um chuvisco de imagens roubadas, no improvável instante dos encontros.

          Essa criatividade poética do caminhante se conserva, entretanto, ambígua: como dizia Walter Benjamin, ela é uma “fantasmagoria”. Ultrapassa a atrocidade das cidades para resgatar suas maravilhas passageiras, explora a poesia das coisas, mas sem se deter para denunciar a alienação do trabalho e das massas. Esse flâneur tem coisa melhor para fazer: remitologizar a cidade, inventar novas divindades, explorar a superfície poética do espetáculo urbano.

          As posteridades da flânerie baudelariana são numerosas. Encontraremos a errância surrealista que enriquecerá a arte de deambular introduzindo duas novas dimensões: o acaso e a noite (Aragon no bairro das Buttes-Chaumont em O Camponês de Paris, Breton à procura alucinada do amor em Nadja). Encontraremos ainda a derivação situacionista que tem Guy Debord por teorizador: exploração sensitiva das diferenças (deixar-se transformar pelos ambientes). Fica a pergunta de saber se, na época atual, a padronização das placas com marcas comerciais (as “cadeias” como se diz sem ironia: elos por igual, que se fecham prendendo você) e o alastramento agressivo dos automóveis não teriam deixado a flânerie mais complicada, menos agradável e surpreendente. Criam-se, é fato, espaços para uma flânerie programada, mas vinculados à obrigatoriedade de comprar.

          O grande caminhador romântico, o eterno Wanderer, estava em comunhão com o Ser. A caminhada era uma grande cerimônia de união mística, o caminhante fazendo-se presente à Presença, aninhando-se junto ao seio puro de uma Natureza maternal. Em Rousseau, em Wordsworth, encontra-se essa celebração da caminhada como atestação da presença e fusão mística. E o que fica registrado no verso cadenciado de Wordsworth ou na prosa musical de Rousseau, é sem dúvida a profundidade dessa respiração, a brandura do ritmo.

          O caminhante das cidades não está presente a uma plenitude de Ser, está apenas disponível a impactos visuais esparsos. O caminhante se realiza no abismo de uma fusão, o flâneur na explosão de uma dispersão indefinida de estilhaços.

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* A etimologia de “apressar” remete a “oprimir”, o que possibilita o paralelo com o duplo significado do termo francês pressé, apressado e pressionado, muito embora em português sofra-se pressão para acelerar, ao passo que no contexto francês ela bloqueia. (Nota da Tradutora)
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Caminhar, uma filosofia — Frédéric Gros, Tradução de Lília Ledon da Silva, 2010, É Realizações Editora, São Paulo — SP; Frédéric Gros, nascido em 1965, francês de Saint-Cyr-l’École, formado pela École Normale Supérieure de Paris e com doutorado em Filosofia pela Université Paris-Est Créteil, Val de Marne, com o trabalho/tema Théorie de la connaissance et histoire des savoirs: de L’histoire de la folie à L’archéologie du savoir (Teoria do Conhecimento e da História do Conhecimento: A história da loucura na arqueologia do saber), é professor, filósofo, ensaísta e conferencista; escreveu e publicou Foucault et la folie (1997), Et sera justice. Punir en démocratie (avec Antoine Garapon et Thierry Pech, 2001), États de violence — Essai sur la fin de la guerre (2006), Caminhar, uma filosofia (Marcher, une philosophie, 2010), Le Principe sécurité (2012) e outros títulos, além de artigos em revistas especializadas; participou também de palestras do Ciclo Mutações realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, com mais uma vintena de pensadores, as quais resultaram nas coletâneas Mutações: ensaios sobre as novas configurações do mundo (2009), Mutações: a experiência do pensamento (2011), Mutações: elogio à preguiça (2012), Mutações: o futuro não é mais o que era (2013), Mutações: o silêncio e a prosa do mundo (2014), Mutações: fontes passionais da violência (2015), Mutações: o novo espírito utópico (2016) e outros.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Frédéric Gros: Solidões

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Agora vejamos, para ser devidamente apreciada, uma excursão
a pé deve ser feita a sós. Se optarem por realizá-la em grupo, ou
mesmo a dois, ela só manterá, da excursão pedestre, a denominação;
é algo diverso que se aproximaria bem mais do piquenique. Uma
excursão a pé deve ser feita sozinho, pois a liberdade é essencial;
pois se deve estar livre para parar e para prosseguir, e para tomar
esse caminho ou aquele outro, segundo seus próprios caprichos,
e porque se deve caminhar no seu próprio ritmo.*


          Deve-se realmente caminhar sozinho? Não faltam exemplos nesse sentido: Nietzsche, Thoreau, Rousseau...

          Quando acompanhado, esbarra-se, atravanca-se, perde-se o compasso. Porque é disso que se trata, ao caminhar, de encontrar seu ritmo básico e de mantê-lo. O ritmo básico é aquele que melhor convém a cada um, a tal ponto que não se sente cansaço e pode se caminhar por mais de dez horas sem entrar em choque. Mas ele é de uma precisão matemática. Então, quando a questão é pautar-se pelas passadas do outro, para acelerar ou diminuir o ritmo, o corpo não reage tão bem.

          Nem por isso é absolutamente necessária uma solidão completa. Sendo-se só uns três ou quatro... Sendo-se só uns três ou quatro, ainda dá para caminhar sem falar. Cada um acerta o seu passo, ficando-se ligeiramente distante, e o primeiro à frente se vira de vez em quando, dá uma parada, fala “Está tudo bem?” de rotina, automático, quase indiferente. Faz-se um sinal com a mão como resposta. Com as mãos na cintura, espera-se pelo último, retoma-se a marcha e as posições se alteram. Os ritmos vão, vêm, se cruzam. Porque seguir seu próprio ritmo não é andar de maneira absolutamente uniforme, inteiramente regular: o corpo não é uma máquina. Ele se permite algumas leves tréguas ou momentos de assumida alegria. Sendo-se só uns três ou quatro, a caminhada dá margem a esses momentos de solidão compartilhada. Porque também se divide a solidão, tanto quanto o pão e o dia.

          Mais de quatro é uma colônia, um exército em marcha. Gritarias, assobios, um tal de ir de um ao outro, de se esperar uns aos outros, de formar grupos que logo viram grupinhos. Cada um se gaba de seu material. Até mesmo na hora de comer, quer-se que todos experimentem, preparou-se surpresas que vale a pena provar, e a moda pega. É um inferno. Não sobra nada que seja simples, nem sóbrio. Uma fração da sociedade enxertada na montanha, Aí se chega às competições. É preciso estar sozinho para caminhar. Acima de cinco, fica impossível compartilhar a solidão.

          Mas, então, melhor estar sozinho, literalmente sozinho dessa vez: um. Só que nunca se está inteiramente só. Como escrevia Thoreau: “Fiquei a manhã toda em boa companhia, até que alguém veio me visitar” ** (era a companhia das árvores, do sol, dos pedregulhos). No fundo, é encontrar o outro o que na maioria das vezes, nos restitui à solidão. Conversar leva a falar de si e devagarzinho o outro nos encaminha de volta a nós próprios dentro da nossa história e nossa identidade, o que significa dentro das incompreensões e mentiras. Como se isso existisse.

          Ao passo que o fato de estar mergulhado na Natureza é uma solicitação permanente. Tudo fala conosco, nos cumprimenta, chama a nossa atenção: as árvores, as flores, a cor dos caminhos. O sopro do vento, o zumbido dos insetos, o curso do riacho, o impacto das pisadas sobre a terra: é todo um rumorejar que responde à nossa presença. Até mesmo a chuva. Uma chuva leve e suave é um acompanhamento permanente, um murmúrio que se escuta, com suas entonações, estalos, espaçamentos: pancadinhas distintas da água ricocheteando na pedra, ou o longo tecer melodioso das cortinas de chuva caindo com uma velocidade regular. É impossível estar só quando caminhamos, de tanto que dispomos de coisas ao alcance dos olhos, que nos são dadas, que são nossas pela tomada de posse inalienável da contemplação. É preciso conhecer a embriaguez do monte, quando num último esforço conseguimos nos elevar sobre a ponta do rochedo, lá sentamos e descortina-se finalmente para nós a perspectiva, a paisagem. Todos esses terrenos cultivados, essas casas, essas florestas, essas trilhas, tudo é nosso, para nós. Tornamo-nos dominadores pela ascensão, agora só nos resta usufruir esse domínio. Quem poderia sentir-se só quando tomou posse do mundo? Ver, dominar, olhar, é possuir. Mas sem os inconvenientes da propriedade: aproveita-se o espetáculo do mundo quase à maneira de um ladrão. Não, ladrão não: pois foi necessário trabalhar para escalar. Tudo isso que vejo, que se estende sob meu olhar, me pertence. Tão longe quanto me é possível enxergar é o quão longe vai o que possuo. Não eu sozinho: o mundo pertence a mim, existe para mim, está comigo.

          Conta-se essa história acerca de um sábio peregrino. Ele caminhava havia muito tempo sob um céu escuro anunciando tempestade, por uma longa estrada que lhe oferecia o espetáculo, no fundo de um valezinho, de um pequeno campo de trigo maduro. E esse terreno bem desenhado era, no meio das ervas daninhas e sob o céu sombrio, um perfeito quadrado de luz que o vento fazia suavemente ondular. Era belo, e o andarilho, durante sua lenta caminhada, aproveitou o espetáculo ao máximo. Ao adiantar-se, viu o camponês voltando para casa de olhos baixos, depois de sua jornada. O peregrino deteve-o e, apertando-lhe o braço, murmurou, emocionado: “Obrigado”. O camponês franziu o cenho: “Não tenho nada para dar-lhe, pobre homem”. Então o peregrino respondeu com doçura: “Não lhe agradeço para que me dê, mas por ter-me já dado tudo. Fez desse campo de trigo um objeto de preocupação, e é de seu trabalho que ele tira hoje sua beleza. O senhor está interessado daqui por diante no preço dos grãos. Quanto a mim, caminhei, e ao longo da marcha pude alimentar-me do amarelo de sua coloração”. E o velho homem continuou sorrindo. O camponês deu as costas, e retomou seu caminho, enquanto meneava a cabeça e o tratava de louco.

          Não se está portanto sozinho porque ao caminhar conquista-se a simpatia de tudo que, estando vivo, nos cerca: as árvores e as flores. A tal ponto que às vezes se sai para caminhar simplesmente na intenção de fazer uma visita: fazer uma visita a certos recantos da vegetação, punhados de árvores, vales violetas. Ao cabo de alguns dias, algumas semanas, alguns anos, pensa-se já faz muito tempo mesmo que não fui mais lá. Aquilo lá está me aguardando, tenho que ir a pé. E o caminho, devagarzinho, a consistência por baixo das passadas, a disposição das colinas, a altura das florestas, tudo é reencontrado: são velhos conhecidos.

          Última coisa: não se está só finalmente porque, assim que se caminha, é-se imediatamente dois. Sobretudo depois de ter caminhado por muito tempo. Quero dizer que sempre há, mesmo quando sozinho, esse diálogo entre o corpo e a alma. Em marcha regular, encorajo, elogio, felicito: pernas corajosas que me carregam tão bem... Chegando quase a dar tapinhas nas coxas como no pescoço do cavalo. Durante os longos momentos de esforço, quando o corpo está sofrendo, aqui estou para dar-lhe meu apoio: Vamos, mais um bocadinho, é claro que você consegue. Assim que me ponho a caminhar, imediatamente torno-me dois. Meu corpo e eu: um par, um refrão. Verdadeiramente, a alma é a testemunha do corpo. Testemunha ativa, vigilante. É preciso seguir seu ritmo, acompanhar seu esforço: quando se força o apoio da perna nas subidas íngremes, quando se sente o peso do corpo todo colocado no joelho. Dá-se mais uma forçada, e a mente vai pontuando “vai, vai, vai...”. A alma, então, é o orgulho do corpo. Assim que me ponho a andar, viro dois. E essa conversa indefinidamente retomada pode se prolongar até o anoitecer sem sinal de chateação. Não se pode caminhar sem que esse desdobramento se opere em nós, e nos faça sentir que estamos avançando. Mas sempre, ao caminhar, eu me vejo, eu me incentivo.

          Às vezes acontece, é óbvio, quando, por exemplo, estamos presos demais no mineral, envoltos pelos rochedos, sem o menor vestígio de vegetação — alto demais, duro demais, caminhos de cascalhos —, que se comece a entrar em desespero, que haja uma sensação de grande isolamento, isto é, no fundo, de marginalidade. Basta até mesmo um pouco de atmosfera cinzenta para que essa impressão se torne depressa insuportável, insuperável. A garganta fica apertada, e a gente resvala trilha abaixo pisando o chão duro com uma pressa angustiada. É impossível caminhar demoradamente sozinho assim, no silêncio esmagador dos imensos blocos de pedra: nosso próprio passo ressoa com uma violência inacreditável. Nosso corpo que respira, que se desloca, aqui é um escândalo de vida em plena mineralidade fria, altiva, definitiva, eterna, que nos rejeita. Ou então em dias de chuva ou cerração, quando não enxergamos mais e nada e já não passamos, no meio de lugar nenhum, de um corpo embotado de frio, que avança.

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* Robert-Louis Stevenson, Viagem com um Burro nas Cevenas.
** Henry David Thoreau, Walden ou a Vida nos Bosques.
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Caminhar, uma filosofia Frédéric Gros, Tradução de Lília Ledon da Silva, 2010, É Realizações Editora, São Paulo SP; Frédéric Gros, nascido em 1965, francês de Saint-Cyr-l’École, formado pela École Normale Supérieure de Paris e com doutorado em Filosofia pela Université Paris-Est Créteil, Val de Marne, com o trabalho/tema Théorie de la connaissance et histoire des savoirs: de L’histoire de la folie à L’archéologie du savoir (Teoria do Conhecimento e da História do Conhecimento: A história da loucura na arqueologia do saber), é professor, filósofo, ensaísta e conferencista; escreveu e publicou Foucault et la folie (1997), Et sera justice. Punir en démocratie (avec Antoine Garapon et Thierry Pech, 2001), États de violence — Essai sur la fin de la guerre (2006), Caminhar, uma filosofia (Marcher, une philosophie, 2010), Le Principe sécurité (2012) e outros títulos, além de artigos em revistas especializadas; participou também de palestras do Ciclo Mutações realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, com mais uma vintena de pensadores, as quais resultaram nas coletâneas Mutações: ensaios sobre as novas configurações do mundo (2009), Mutações: a experiência do pensamento (2011), Mutações: elogio à preguiça (2012), Mutações: o futuro não é mais o que era (2013), Mutações: o silêncio e a prosa do mundo (2014), Mutações: fontes passionais da violência (2015), Mutações: o novo espírito utópico (2016) e outros.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Sessentão de Bacaetava: O Andarilho


Minas e Manos,

Fim-de-semana passada encontrei o Sessentão de Bacaetava caminhando no Parque da Aclimação aqui em Sampa. Inicialmente eu o observei acompanhando-o um tanto à distância. Depois me aproximei. Só o fiz após ele e eu já termos completado alguns "8" nas duas pistas locais: a asfaltada, que rodeia o lago, e a de terra e saibro, inclinada, que serpenteia por debaixo das árvores no interior do bosque.

Aproximação feita, saudações de praxe, e ele me contou estar ultimando preparativos para uma caminhada de onze dias a iniciar-se em Santana do Parnaíba e a ser concluída 243 quilômetros além, em Águas de São Pedro. É o tal do Caminho do Sol.

No começo duvidei da prosa e da proeza. Achei que ele estivesse brincando. No fim, acreditei. Que disposição!

Comecei especulando pra sentir até onde ia sua firmeza de propósito. Argumentei:  Será que suas pernas aguentariam!? É muito tempo andando; estradas e caminhos são irregulares, com pirambeiras e subidas, barrancos e trancos, trilhas tortuosas... Tudo isso tenderia a atrapalhar seus planos.

Sem pestanejar ele informou que já vinha se preparando há mais de seis meses, desde outubro último, quando decidiu ir. De lá pra cá percorrera muito mais que os 240 quilômetros da caminhada, isso aqui na Aclimação e no Parque Ibirapuera além de por ruas e avenidas. Afinal, nem carro tinha. Garantiu-me que já rodara a pé mais de 600 km nestes percursos todos. Como exemplo, citou que só nos "8" aqui do Parque tinha andado mais de 100 km nas últimas cinco semanas.

Ouvi e continuei com meus poréns  e contudos:  E se chover, a probabilidade disso ocorrer não é pequena?! E se pegar uma gripe?! E se o pé sofrer um corte e inchar?! E se surgirem bolhas?! E se...?! Sem socorro ou conforto rápidos, longe da civilização da urbanicéia?!

Ele retrucou:  Nada que uma capucha não resolva. O que poderá ocorrer é que a marcha fique mais lenta, só isso. Se porventura gripar, não faltará um chazinho caseiro à base de plantas que na certa encontrará e saberá recolher nos caminhos por onde for. Pra curar uma bolha ou um possível corte no pé, rubim, manjericão ou alecrim darão um jeito. Homem da roça que foi, entende que tais plantinhas, bem amassadas, reduzem a chance de inflamação e facilitam a cicatrização, tudo conforme o caso.

Insisti:   E o coração, aguenta? Ele respondeu citando Pascal: — "O coração tem razões que a própria razão desconhece".  É, ele me pareceu bem decidido e com respostas na ponta da língua.

Mas o que deu no velhote que resolveu fazer isso agora? Promessa? Prescrição médica? Simples aventura? — Não é bem assim, emendou o Sessentão.

Se bem entendi do que ouvi, o fato é que desde criança ele andava muito por trilhos e trilhas: ora levando almoço pro pai no serviço; ora catando lenha no mato; ora dirigindo-se à cidade, rumo à missa, à escola e aos passeios. Todos esses trajetos eram feitos a pé.

E prosseguiu: ainda adolescente, enquanto a gurizada jogava bola e brilhava no futebol de campo e de salão, ele, que só se arriscava num futebol de botão, se entretia correndo seguidas vezes em torno do campo ou da quadra. 

Já adulto e cidadão urbano, quando em férias, muito caminhou pelas praias. Certa vez, em viagem de cinco dias à Chapada Diamantina no interior baiano, percorreu mais de 70 km por trilhas, escalou rochas, varou rios e cachoeiras, subiu e desceu morros, inclusive andou centenas de metros por cavernas e grutas.

Eu acreditei e lhe desejei boa sorte na caminhada. O Sessentão, que não se considera um andarilho de alta performance, agradeceu com um sorriso e arrematou:  Na volta nos encontraremos, e já fica combinado um relato da proeza. 

Só me resta aguardar o prometido. 

P. da Silva,
aprendiz de andarilho.

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P. da Silva, O Sessentão de Bacaetava, Genésio dos Santos, etecétera, etecétera, etecétera, aprendiz de andarilho e de blogueiro, são uma só pessoa.