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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

genésio dos santos: tecer a idade (20.12.2013)

tecer a idade sim! e porque não?
existe idade própria pra escrever
sobre idéias, fatos, pensar, fazer
de um já velho andarilho insano ou são?

se for loucura este meu tecer,
quem sabe o escrito se faça razão
dum perambular por qualquer desvão
do sol raiar e até o escurecer.

mas se for razão, o que hei de dizer
dos loucos sonhos que me vêm à mão
e sempre teimam em não acontecer?

enquanto teço construo a ilusão
de um equilíbrio neste meu viver
e aí concluo:  nada foi em vão!

Minha foto
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, prestou serviços em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 a 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: Carta Aberta para Satélio (De um S-3 na berlinda)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 15  Junho e Julho de 1981)

          Satélio, tô com o BIP nº 78 nas mãos. E tô preocupado com o que deve vir por aí, pois na página quatro tem uma matéria que diz que "ser comissionado é uma boa opção".
          De cara, e meio no deboche, os ómis  que cuidam dos recursos humanos do banco começam se lamentando "que a legislação trabalhista atual (que é uma josta!) e as instruções internas do BB (a CIC Funci) não prevêem a obrigatoriedade de o funcionário aceitar a designação para o exercício de cargo comissionado".
          Tamanha ousadia a de nossos patrões! Se marcá bobeira é bem capaz deles querê anulá aquele artigo da CLT que diz que a jornada de trabalho de bancário é de seis horas por dia e nem um minuto a mais. A CIC Funci, por outro lado, é facinho deles alterá e eles já vêm alterando dia após dia.
          Mas, Satélio, esse assunto do BIP nº 78 não tá bem explicado pelos ómis. Acontece que os tais "incentivos" às comissões para os funcionários-ônus vêm condicionados a transferências para as longínquas cidades do norte-nordeste, como Ipu no Ceará ou Piracuruca no Piauí. É o que o BIP vem colocando toda quinzena na página três. A Direção Geral é uma madrasta de boa, ocê não acha?
          Ipuenses e piracuruquenses, a vocês eu me dirijo neste momento, e que fique claro que eu não tenho nada contra vocês. Muito pelo contrário... Fiquem sabendo que eu também sou do nortão, da terra dos raimundos e dos severinos. Só que eu vim pra cidade grande já faz tempo e acabei viciando. Tudo o que não presta vicia. Já tô até gostando dos viadutos; dos prédios e praças pintados de verde, que é pra disfarçá o cinzento da poluição; do barulhão do ronco dos carros que passam de lá pra cá e de cá pra lá. Já tô até me acostumando com o cheiro do Tamanduateí e do Tietê.
          Eu vim pra São Paulo numa época em que o nordeste tava ficando vazio. Era aquele mundão de gente que embarcava nos paus-de-arara, abismado que ficava com as notícias da cidade grande. E vinham pra trabalhá em tudo quanto é serviço, que ninguém tinha instrução alguma. De lá nós viemos só com o diploma do mobral. Foi aqui, e com muito custo, que terminamos o madureza do ginásio e do colégio. Se ocês pensam que foi fácil de chutá aquelas cruizinhas estão enganados. Num foi, mas nós passamos. E quem não passou hoje tá trabalhando na construção civil ou pegou o caminho da Dutra e foi pro Rio trabalhá no metrô. Uns pouquinhos fizeram faculdade e hoje são advogados. Não sei se estão bem, não... Eu fiz teste no Banco, passei e tô aqui até hoje defendendo os meus trocados. Já faz quase vinte anos. O emprego até que não tá ruim. Se não fosse esse absurdo do BIP...
          Satélio, agora é com você... Então ocê acha que eu, hoje que estou bastante sossegado, vou me afundá praqueles mundão  e morrê por lá? Uns vinte anos no meio de mandacaru, bode magro e jegue já foi muito pro meu gosto. Lá, vira-e-mexe os prefeitos andam decretando estado de calamidade pública. Quando não é porque tá com o chão esturricado de seco é porque choveu demais e enlameou tudo. Nunca tem medida. Quem ainda não foi que experimente. Eu não, que não tô bestando. Além do mais ocê acha que eu vô deixá de assisti de pertinho o meu curingão com o dotô de bola? Nem matando...
          Satélio, ipuenses e piracuruquenses, depois de quase vinte anos de Banco, eu quero é que sobre tempo pra mim descansá, pra mim assisti futebol e filme de pornografia. E pra que ocês não pensem que eu sou um machista e um alienadão, que num liga pra tal transformação da sociedade, aqui vai uma diquinha subversiva procêis: Se eu fosse Básico, eu arrumava um jeito de lutá e derrubá esse quadro de carreira que congela o salário de meio mundo. E a tal da isonomia salarial, cumé que fica?
          Sem mais, aqui deposito minhas
          Onerosas saudações.

                                              Um S-3 na berlinda.

PS: Como adido ninguém me manda, né!?

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Satélio, P. da Silva e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (II)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 12  Março de 1981)

(...continuação do número anterior)
          Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!... B.B. Chimite foi rabiscando no papel de anotações, até ver preenchida a última linha. O olho mágico, por sua vez, continuava vomitando informações e mais informações.
          Falava sobre as frequentes invasões de tribos cearasianas que saqueavam vilas de regiões fronteiriças no território prazilandense. E, informando ser iminente a declaração de guerra à Cearásia, convocava todos os cidadãos ativos a se alistarem nas fileiras das Legiões do Povo, que já estavam entrando em regime de prontidão. Informava também que cearasianos muito bem treinados andavam se transferindo clandestinamente para Prazilândia e que tais incursões tinham o evidente propósito de arregimentar forças a se sublevarem contra o Grande Irmão. Por isso, a voz do olho mágico argumentava que a Patrulha do Pensamento encontrava rebeldes em todos os lugares e a qualquer hora do dia e da noite. E foi num lampejo que Chimite percebeu que já podia se considerar como um rebelde.
          Aquelas frases repetidas incansavelmente na folha de anotações eram a certeza de sua rebelião. Elas o denunciavam perante a Patrulha e perante si mesmo. E já não havia a possibilidade de qualquer negativa. O mal, raciocinou, já estava feito. Mais dia menos dia, mais hora menos hora, a Patrulha do Pensamento o interceptaria e aí seria o fim ou o começo de tudo. No entanto Chimite se sentia aliviado.
          Sabia que a Cearásia, já há alguns anos, vinha perdendo todas suas safras devido à seca que assolava aquela região. E, acossados pelo desespero da fome e da sede, os cearasianos invadiam os celeiros nas fronteiras de Prazilândia. Esta notícia Chimite só soubera por acaso. Ouvira em cochichos de encarregados de seu andar que militavam nas Legiões do Povo e que tinham acesso a essas informações. Do olho mágico ele só ouvia o que qualquer prazilandense mal informado já estava sabendo: que rebeldes cearasianos estavam invadindo e saqueando vilas de Prazilândia e que, consequentemente, a guerra entre cearasianos e prazilandenses ia ser decretada pelo Grande Irmão.
          Com mais um pouco de reflexão, Chimite percebeu que antes mesmo de ter rabiscado aquelas frases no papel já poderia ser classificado como rebelde ante a Patrulha do Pensamento. Muito antes até do dia em que casualmente ouvira os cochichos dos militantes das Legiões. Lembrava-se, embora de uma forma um tanto difusa, da última vez em que estivera com seus pais.
          Chimite devia ter seus sete anos quando muito. Recordava de uma confusão nas ruas, dois corpos sendo arrastados à força e uma voz seca que dizia, a alguém seu acompanhante, algo parecido como ser necessário instruir à criança que seus pais haviam morrido honrosamente lutando nas Legiões quando em combate contra forças inimigas. Mas ele não se lembrava bem do rosto da voz que falava aquilo nem a quais inimigos a voz se referia.
          Também não dava para afirmar se aquela criança do passado era ele próprio. Às vezes recordava-se de outras passagens, também difusas, e ouvia vozes que julgava serem de seus pais. Eram marcadas pelo ódio às Legiões do Povo e ao antecessor do Grande Irmão. Era isso o que conseguia captar do seu passado, mas era o suficiente. Chimite começou a sentir que já não acreditava cegamente no Grande Irmão. Só então ele percebeu o passo que havia dado.
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Espelho SP: 1981 (I)

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 11  Fevereiro de 1981) 

          Faltavam mais de dois anos para o sinistro 1984. Era um dia frio e ensolarado do mês de agosto  e os relógios estavam prestes a bater treze horas. B.B. Chimite, o queixo fincado no peito, numa tentativa de fugir ao vento impiedoso e sem estampar nenhum prazer no rosto, esgueirou-se rápido pelas enormes portas do Edifício São João; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero. O saguão cheirava à poluição e no capacho um tanto gasto via-se o emblema da empresa.
          Algumas colunas pareciam sustentar o teto; numa delas, um cartaz colorido, grande demais, mostrava uma cara descomunal de feições rústicas mas atraentes. Era a foto do Grande Irmão, o fundador Número Um da empresa. Mais à frente, noutra coluna, outro cartaz um pouco menor mas também colorido fazia a propaganda e convocava os funcionários e sócios da firma a adquirirem o carnê CBF, nova invenção dos governadores de Prazilândia. Chimite encaminhou-se diretamente para a escada em forma de caracol.
          Inútil esperar o elevador. Dos três existentes, há tempos que somente um funcionava; os outros estavam sempre à espera de conserto. E isso provocava extensas filas, principalmente àquela hora. À boca pequena comentava-se que a empresa estava implantando a nova política de contenção de custos operacionais imposta pelo Grande Irmão que, por sua vez, tinha íntimas ligações com os governadores da "Cidade dos Prazeres". B.B. Chimite foi galgando os degraus.
          Um, dois, três andares... Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Parecia segui-lo por toda parte. O Grande Irmão zela por ti, dizia uma legenda logo abaixo. Mais alguns andares e ele alcançou a sua seção.
          Dirigiu-se à chapeira, bateu o seu cartão e, cumprimentando os encarregados com um gesto de cabeça acompanhado de um pequeno grunhido, caminhou decidido até sua bancada  onde o esperava na troca do turno outro funcionário com o que sobrara da cota da manhã: algumas relações de computador, fichas e mais fichas e alguns carimbos. Era a tarefa a ser cumprida naquele dia. Lá fora, através do vidro fumê, o mundo parecia mais cinzento ainda.
          Saindo à janela, se percebia a Patrulha da Polícia transitando entre o povo, sempre à espreita, sempre à procura de algum contra-revolucionário que se denunciasse por suas atitudes. E apesar da vigilância e das constantes detenções para averiguações de atividades suspeitas, jamais se conseguia exterminar os rebeldes. Eles brotavam da terra e também pareciam estar em toda parte. Todo humano era suspeito em potencial até prova em contrário. Dentro da empresa, a vigilância era exercida pela Patrulha da Inspetoria, que podia aparecer a qualquer momento, em qualquer seção e fazer perguntas a qualquer funcionário ou sócio. Mas Chimite não ligava muito para a Patrulha da Polícia nem para a Patrulha da Inspetoria.
          Terrível mesmo era a Patrulha do Pensamento que vasculhava a todo instante não as ações mas as idéias dos homens. Nas paredes da seção, nos corredores, nos banheiros, nas residências, nos bares, nos postes das ruas mal iluminadas, enfim em toda parte, lá estavam os olhos mágicos da temida patrulha perscrutando a mente de cada indivíduo, sempre em contato direto com o Ministério da Liberdade. Era preciso estar atento, pois ninguém sabia quando os olhos mágicos estavam ligados. E tanto serviam de visor e escuta como para transmitir ordens e instruções de novas invenções adotadas pelo Grande Irmão e pelos governadores. Serviam também para projetar, em telas previamente dispostas nos edifícios e nas ruas, filmes e slides que contavam as vitórias de Prazilândia contra os ataques dos inimigos metalúrgicos e de outros inimigos. B.B.Chimite, sentado em sua banqueta, entregava-se à monotonia do serviço.
          Ao mesmo tempo em que se ocupava com a conferência das fichas que pareciam não ter mais fim ouvia as novas estatísticas transmitidas pelo olho mágico bem à sua frente. Diziam  respeito aos índices de reajuste salarial, negociados pelo Grande Irmão com os seus funcionários, a entrar em vigor a partir do mês de setembro. Justificavam os índices pela baixa margem de lucro da firma no ano anterior, como também pela política de contenção de despesas impostas recentemente pelos governadores de Prazilândia. A expressão facial de B.B.Chimite não denuncia o que se passa em sua mente naquele momento.
          Mas, sem se dar conta do risco que corria, ele viu-se de repente rabiscando repetidas vezes numa folha de anotações em cima da bancada: Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão! Abaixo o Grande Irmão!
(...continua no próximo número)
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Satélio, P. da Silva, B. B. Chimite  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Espelho SP: Leão, patos e tomates

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano III  n° 25  20 de agosto a 20 de setembro de 1982)

Oi, Satélio!

Tô de volta e o leão também. Ele, que em todo o ano passado nos mordeu religiosamente deixando profundas cicatrizes no nosso lombo, prometeu que até junho deste ano nos daria o troco e com correção monetária. Não cumpriu o que devia. Está atrasando as restituições e, de lambuja, nos presenteou com uma nova tabela de descontos na fonte a vigorar a partir de outubro.

O bicho, que é esperto, fingiu que não tinha mais fome e arrotou. Para os menos observadores foi uma pequena boa ação do rei. Mas, a verdade é que, com a inflação a cem por ano, a fera se recusou a nos morder a torto e a direito, pois, o troco que nos cabe no ano que vem será acrescido de noventa e cinco por cento e é evidente que sobre o que ela nos toma nos últimos três meses do ano a inflação não consegue corroer totalmente. Aí a fera teria que desembolsar mais tutu, se não reajustasse a tabela. O que era bom para o bicho, deixaria de ser. Passava a sê-lo para os homens. E já não interessava. Aliás, foi por esse mesmo motivo  que faz algum tempo o monstro proibiu o desconto na fonte sobre o 13° salário.

O certo, Satélio, é que a patéia agradecida, digo, a platéia agradecida e desatenta, aplaudiu a boa nova. E o leão, que nunca foi pato, anda pelas ruas rindo à toa como se tivesse acertado a quina na loto.

O mamífero é vivo! Aproveitou o pleito na Europa para nos passar a perna. Se não fosse o político Paolo Rossi talvez a gente nem tivesse percebido a manobra. Foi preciso o italianíssimo nos dar um pito para que a gente acordasse. E, no que acordamos, vimos que o Delfim já estava acordado de véio. Vimos outros mamíferos, com cédulas em branco, tentando nos empacotar de vez. Vimos o Maluf e o Reinaldão distribuindo rosas e jantares, inaugurando pontes e postes. E nem eram mais governador e prefeito. Vimos também o Afif vendendo laranja. E o pessoal da plurioposição discutia se realmente o Toninho Cerezo, candidato do PDS mineiro, era o culpado pela derrota da eleição na Espanha.

Pra encompridar o papo, fiquei sabendo que o Tejero Molina saiu da toca. Voltando a agir, urrou que, se alguns candidatos da plurioposição fossem votados pelo povo, ele entraria de metralhadora em punho no congresso e acabaria com a festa. Quando ouvi isso, empertiguei-me todo, fiz continência e lasquei um viva ao democrático regime canarinho.

Como patriota foi que resolvi almoçar no Gervásio. Fazia tempo que eu não passava por lá. Estava com saudades. Entrei na fila, peguei o arroz, o feijão. Ia pegar a salada... e surpresa! Vi um CEB no pratinho de verdura. Isso mesmo, um Corpo Estranho Boiando! Um tomate, mais vermelho que comunista assumido.

Fiquei rubro, Satélio! Não por ter encontrado o safado do tomatinho, mas é que, durante o almoço, conversando com outros patriotas, fiquei sabendo que o BB quer implantar o CCQ. O famoso Círculo de Controle de Qualidade da não menos famosa Teoria Z. Dizem que deu certo no Japão e na Conchinchina. O Banco quer trazer isso pra cá, bem nas nossas barbas. Ouvi falar que rende mais que RDB. É aguardar e conferir.

Parece que no tal do CCQ está sendo previsto inclusive representantes de seção. Estamos sendo vaselinados, Satélio!

Que jeito, hein?!

Saudações verde-amarelas,

P.da Silva
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

O Espelho SP: Satélio e a fera

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 13  Abril de 1981)

Com mil dragões! Nestes últimos dias a cidade está em polvorosa. Jornais, rádio e televisão dão ampla cobertura às malvadezas de um tal leão que, escapulido de algum circo, anda solto por aí amedrontando ricos e pobres, gregos e troianos. O caso até fez com que despertasse em mim uma certa onda de saudosismo. E são raras as vezes em que isso me acontece. Foi então que chegando em casa, após o expediente, passei a revirar minha discoteca e encontrei o que queria para aliviar a tal sede saudosística - um elepê do meu ídolo daqueles idos de setenta e um: Roberto Carlos, móóóóóra!!!

Liguei o meu quadrifônico Polyvox e fiquei a me deleitar com a composição "Um leão está solto nas ruas". Naquela época, aproveitando-se do carnaval descontraído que fizemos pela conquista do tricampeonato, com nossos soldados brigando contra soldados italianos em terras mexicanas, um leão andou às soltas pela cidade e se alimentou fartamente do povo. O bicho almoçou, jantou e palitou os dentes. Como os mais velhos devem estar lembrados, acreditávamos tratar-se de um milagre. Religiosos nós éramos e ainda somos. E nisso ninguém põe dúvida. Até somos convictos de que Deus é brasileiro!

Pois é! Mais de dez anos depois a fera está de volta e, ao que tudo indica, pra nos fazer de sobremesa. Isso é o que a gente pode chamar de apetite de leão. Cruzes! Até parece revanchismo!

Desta feita, conforme o publicado em jornais, rádio e tevê, o bicho anda atacando em tudo quanto é lugar, na base do vou-te-abater. Satélio (este vocês conhecem, né!), ele me contou que dia destes abriu a porta de sua casa pra atender a um chamado da campainha e deu de cara com o tal leão. O bicho, após as apresentações e formalidades iniciais, queria saber como Satélio vivia, quanto ganhara no ano passado, se era solteiro ou casado, se pagava aluguel ou residia em casa própria e outras perguntas mais. Satélio respondeu que sim, que graças a Deus e ao suor do seu rosto, tudo ia mais ou menos. Que trabalhava no Banco do Brasil, que era B-2, solteirinho da silva e que ganhara por volta de quatrocentos mil cruzeiros durante o ano de oitenta. Disse mais ainda, que vivia de aluguel pois a poupança que vinha fazendo só ia dar pra comprar uma tevê a cores e sobraria um pouco pra dar de entrada num fiat. Mas que ia ser duro de pagar as prestações.

O leão, com ar de sabido, mexeu na sua Hewlett-Packard, fez cálculos, multiplicou, diminuiu, deduziu, consultou umas tabelas e completou: Você tem sorte, sr. contribuinte (pelo que se apurou até agora, ele chama todo mundo de sr. contribuinte). Dessa vez, você só vai sofrer uns arranhõezinhos. E palavras proferidas, ato realizado. Pegou num braço de Satélio e meteu suas garras afiadas, deixando um sulco formidável. Depois, como vampiro, chupou o sangue que escorria. Satélio sentiu um calafrio. O Leão, dono de si, ainda fez um comentário antes de se despedir. Disse que se Satélio fosse casado e tivesse um filho, possivelmente nem os arranhõezinhos ele sofresse. Que talvez escapasse ileso.

Satélio acha que mesmo sendo solteiro ele teve melhor sorte que outros senhores contribuintes, e cita o caso de um fulano que recebeu mais de um milhão durante o ano passado. Por azar, não paga aluguel. Tem casa própria. É solteiro e não tem família pra tratar. O leão chegou, ouviu, consultou os folhetos e tabelas já com um sorriso meio disfarçado e lambendo os beiços. Calculou, somou, multiplicou e comeu o contribuinte por uma perna. O fulano teve que tratar do leão.

Tem muitos casos mais. O leão anda fazendo e desfazendo por aí. Chega, investiga, calcula, soma, multiplica e come um por uma perna, outro por um braço e outro ainda pela perna e pelo braço. Está deixando muita gente aleijada pra engrossar o rol dos deficientes físicos neste ano internacional.

Fato inusitado porém se deu com outro contribuinte. Comentam que o leão chegou fazendo as perguntas de praxe e obteve a resposta na bucha: Faturei seis milhões no ano passado! O leão nem se deu ao luxo de calcular coisa alguma. De imediato lançou-se num bote fulminante, com a boca escancarada, pronto pra engolir o contribuinte. Em fração de segundos porém, o sicrano complementou que se tratava de rendimentos não tributáveis, e o rei das selvas, entre chocado e envergonhado, parou no ar com a bocarra aberta. E sumiu, querendo subir pelas paredes, de raiva. O contribuinte foi salvo pelo gongo. Cáspite!

Tem outro caso horrível que está sendo muito comentado por aí. Um outro beltrano, ouvindo o tilintar da campainha, abriu a porta da sala e deu de chofre com o tal leão. Apavorado, conseguiu fugir pelos fundos indo direto ao consultório do psicanalista da família. Chegou, ajeitou-se no divã e foi botando pra fora: — Tem um leão lá em casa! Tem um leão lá em casa! E o psicanalista, ouvindo, ouvindo. O beltrano tranquilizou-se e, refeito, voltou pra casa. Foi comido pela fera.

Sossega, leão!
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Espelho SP: A "passeata" do verdinho

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[O Espelho  Informativo dos funcionários do Banco do Brasil AGCEN SP Ano I n° 6 Setembro de 1980]

          Dias destes, quando eu saía da Estação São Bento do Metrô, mais ou menos ao meio-dia-e-meia, deparei com muitas caras que não me eram estranhas. Eram todos bancários, nossos colegas aqui do Banco. Muita gente. Umas trezentas pessoas. Homens e mulheres. E seguiam, decididos, à Florêncio de Abreu.
          Passeata estranha aquela, raciocinei. Sem gritos nem slogans, mas só podia ser passeata. E pra algum ato público. O que mais levaria tantos bancários juntos pelas ruas do centro e numa só direção? Nesta selva de pedra só passeata consegue este milagre.
          Meio-de-semana, meio-dia-e-meia, trezentos bancários e bancárias do BB abandonam suas cadeiras, suas mesas, seus carimbos e seguem em passeata convocada por não sei quem, pro ato público não sei onde e pra protestar contra não sei o quê. Desta vez  a coisa vai, pensei exultante.
          Engraçado. Alguma coisa no entanto estava fora dos eixos. Onde andavam as lideranças, que não vi ninguém ali nem nas imediações? Cadê os megafones, as faixas? E a bandinha, pra arrastar mais gente? Era preciso mais que depressa avisar as lideranças...!
          Ato contínuo, parei na primeira banca de jornal e adquiri uma fichinha de telefone. E, de um orelhão, eu já estava discando: três-meia, meia-três... foi quando vi Satélio, que seguia junto com o povão.
          Assim que ele me viu, fui perguntando:
           Você por aqui também?
           Sim, estou com o pessoal. Respondeu.
           Aonde vai ser o ato?
           Que ato? Retrucou Satélio, com cara de quem não estava entendendo nada.
           O ato público! Então você não está indo pro ato público dos funcionários do Banco do Brasil?
           Eu não estou sabendo de ato público nenhum. Eu e mais esse povão vamos pro verdinho, o vegetariano do setenta-e-sete da Florêncio. Vamos também?
           Não, eu já vim almoçado de casa. Respondi gaguejando e meio sem graça com a tremenda gafe que eu havia dado.
          Após eu ficar sabendo que quase todo dia o pessoal almoçava lá no verdinho, dei qualquer desculpa a Satélio, depositei o fone no gancho, retirei a fichinha devolvida e me despedi. Segui em direção ao Banco, matutando. Então todo esse povão está deixando de almoçar no Gervásio, e o Banco nem tchuns? Quanta safanagem, hein! Depois vêm dizer que a administração é sensível  aos problemas que afligem o funcionalismo da casa! Tudo babozeira. Se o pessoal prefere almoçar fora apesar de ter que desembolsar mais dinheiro, quer dizer que lá no onze a bóia continua aquelas coisas. E os funcionários das locadoras, que são obrigados almoçarem lá? Eles têm os tíquetes carimbados, que são válidos somente para uso interno. Dá dó deles!
          Entrei no elevador, ruminando muitas coisas. Meio sonhando-meio acordado.
          Já era quase uma hora. Mais um dia de serviço me esperava.
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Satélio, P. da Silva  e Genésio dos Santos são uma só pessoa e assumem, em uníssono, a autoria desta crônica.