(O Espelho SP — Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A — Agcen-SP — Ano II — n° 13 — Abril de 1981)
Com mil dragões! Nestes últimos dias a cidade está em polvorosa. Jornais, rádio e televisão dão ampla cobertura às malvadezas de um tal leão que, escapulido de algum circo, anda solto por aí amedrontando ricos e pobres, gregos e troianos. O caso até fez com que despertasse em mim uma certa onda de saudosismo. E são raras as vezes em que isso me acontece. Foi então que chegando em casa, após o expediente, passei a revirar minha discoteca e encontrei o que queria para aliviar a tal sede saudosística - um elepê do meu ídolo daqueles idos de setenta e um: Roberto Carlos, móóóóóra!!!
Liguei o meu quadrifônico Polyvox e fiquei a me deleitar com a composição "Um leão está solto nas ruas". Naquela época, aproveitando-se do carnaval descontraído que fizemos pela conquista do tricampeonato, com nossos soldados brigando contra soldados italianos em terras mexicanas, um leão andou às soltas pela cidade e se alimentou fartamente do povo. O bicho almoçou, jantou e palitou os dentes. Como os mais velhos devem estar lembrados, acreditávamos tratar-se de um milagre. Religiosos nós éramos e ainda somos. E nisso ninguém põe dúvida. Até somos convictos de que Deus é brasileiro!
Pois é! Mais de dez anos depois a fera está de volta e, ao que tudo indica, pra nos fazer de sobremesa. Isso é o que a gente pode chamar de apetite de leão. Cruzes! Até parece revanchismo!
Desta feita, conforme o publicado em jornais, rádio e tevê, o bicho anda atacando em tudo quanto é lugar, na base do vou-te-abater. Satélio (este vocês conhecem, né!), ele me contou que dia destes abriu a porta de sua casa pra atender a um chamado da campainha e deu de cara com o tal leão. O bicho, após as apresentações e formalidades iniciais, queria saber como Satélio vivia, quanto ganhara no ano passado, se era solteiro ou casado, se pagava aluguel ou residia em casa própria e outras perguntas mais. Satélio respondeu que sim, que graças a Deus e ao suor do seu rosto, tudo ia mais ou menos. Que trabalhava no Banco do Brasil, que era B-2, solteirinho da silva e que ganhara por volta de quatrocentos mil cruzeiros durante o ano de oitenta. Disse mais ainda, que vivia de aluguel pois a poupança que vinha fazendo só ia dar pra comprar uma tevê a cores e sobraria um pouco pra dar de entrada num fiat. Mas que ia ser duro de pagar as prestações.
O leão, com ar de sabido, mexeu na sua Hewlett-Packard, fez cálculos, multiplicou, diminuiu, deduziu, consultou umas tabelas e completou: Você tem sorte, sr. contribuinte (pelo que se apurou até agora, ele chama todo mundo de sr. contribuinte). Dessa vez, você só vai sofrer uns arranhõezinhos. E palavras proferidas, ato realizado. Pegou num braço de Satélio e meteu suas garras afiadas, deixando um sulco formidável. Depois, como vampiro, chupou o sangue que escorria. Satélio sentiu um calafrio. O Leão, dono de si, ainda fez um comentário antes de se despedir. Disse que se Satélio fosse casado e tivesse um filho, possivelmente nem os arranhõezinhos ele sofresse. Que talvez escapasse ileso.
Satélio acha que mesmo sendo solteiro ele teve melhor sorte que outros senhores contribuintes, e cita o caso de um fulano que recebeu mais de um milhão durante o ano passado. Por azar, não paga aluguel. Tem casa própria. É solteiro e não tem família pra tratar. O leão chegou, ouviu, consultou os folhetos e tabelas já com um sorriso meio disfarçado e lambendo os beiços. Calculou, somou, multiplicou e comeu o contribuinte por uma perna. O fulano teve que tratar do leão.
Tem muitos casos mais. O leão anda fazendo e desfazendo por aí. Chega, investiga, calcula, soma, multiplica e come um por uma perna, outro por um braço e outro ainda pela perna e pelo braço. Está deixando muita gente aleijada pra engrossar o rol dos deficientes físicos neste ano internacional.
Fato inusitado porém se deu com outro contribuinte. Comentam que o leão chegou fazendo as perguntas de praxe e obteve a resposta na bucha: — Faturei seis milhões no ano passado! O leão nem se deu ao luxo de calcular coisa alguma. De imediato lançou-se num bote fulminante, com a boca escancarada, pronto pra engolir o contribuinte. Em fração de segundos porém, o sicrano complementou que se tratava de rendimentos não tributáveis, e o rei das selvas, entre chocado e envergonhado, parou no ar com a bocarra aberta. E sumiu, querendo subir pelas paredes, de raiva. O contribuinte foi salvo pelo gongo. Cáspite!
Tem outro caso horrível que está sendo muito comentado por aí. Um outro beltrano, ouvindo o tilintar da campainha, abriu a porta da sala e deu de chofre com o tal leão. Apavorado, conseguiu fugir pelos fundos indo direto ao consultório do psicanalista da família. Chegou, ajeitou-se no divã e foi botando pra fora: — Tem um leão lá em casa! Tem um leão lá em casa! E o psicanalista, ouvindo, ouvindo. O beltrano tranquilizou-se e, refeito, voltou pra casa. Foi comido pela fera.
Sossega, leão!
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.