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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Pierre Ronsard: À Cassandra

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vejamos, meu bem, se a tal rosa
Que de manhã abriu, formosa,
Ao sol o vestido vermelho,
Já perdeu à tarde o esplendor
As pregas de encarnada cor,
E o tom ao vosso tão parelho.

Ai! Vede como em pouco tempo,
Meu bem, veio-lhe o tombamento,
Ai! E o viço deixou morrer!
É mesmo madrasta a Natura,
Pois semelhante flor só dura
Da manhã ao entardecer!

Assim, meu bem, eis a verdade,
Enquanto estais na flor da idade,
Nos primeiríssimos verdores,
Colhei, colhei a juventude:
Pois como à flor a senectude
Há-de ofuscar vossos primores.

Pierre de Ronsard

Mignonne, allons voir si la rose . . .

A Cassandre

Mignonne, allons voir si la rose
Qui ce matin avoit déclose
Sa robe pourpre au soleil,
A point perdu cette vesprée
Les plis de sa robe pourprée,
Et son teint au votre pareil.

Las! voyez comme en peu d'espace,
Mignonne, elle a dessus la place
Las! las! ses beautés laissé choir!
Ô vraiment marâtre Nature,
Puisqu'une telle fleur ne dure
Que du matin jusques au soir!

Donc, si vous me croyez, mignonne,
Tandis que votre âge fleuronne
En sa plus verte nouveauté,
Cueillez, cueillez votre jeunesse:
Comme à cette fleur la vieillesse
Fera ternir votre beauté.

(Les Odes, I, 17 — 1550)
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Pierre de Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, teve “educação confiada a um tutor”, por alguns meses estudou no Collège de Navarre, tomou contato com textos de autores latinos, foi poeta, participou das guerras italianas e, invariavelmente, prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois ainda, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, interrompeu seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; Pierre Ronsard fez parte da Plêiade, grupo literário que, à época, atuando pela renovação da língua francesa, produziu textos “inspirados pelos poetas da Grécia e Roma antigos”, “buscaram criar uma poesia mais rica e complexa, tanto em termos de forma quanto de conteúdo” e contribuíram para trazer modernidade à língua; teve vários poemas musicados por compositores de diversas épocas.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Agrippa d’Aubigné: Vamos fazer, Diana, o jardim cultivado: . . . [soneto]

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vamos fazer, Diana, o jardim cultivado:
Vós sereis guardiã e dama, eu, lavrador.
Fornecereis o campo, e darei o labor,
Para sermos por ele os dois dignificados.

Nossos olhos serão por flores deleitados,
De um verde-flóreo, sendo o canteiro senhor
Das sementes, e só meus olhos, regador,
E seus zéfiros, meus suspiros inflamados;

Nele, podereis ver lindezas mil, floridas:
Lis, cravos, rosas, sem espinhos, margaridas,
A ancólia e o amor-perfeito, e mais tarde escolher

Depois da flor da espera, as frutas adoçadas
Pelo tempo, e deixar a renda partilhada:
A mim todo o labor, a vós todo o prazer.

Agrippa d'Aubigné

Nous ferons, ma Diane, un jardin fructueux

Nous ferons, ma Diane, un jardin fructueux:
J'en serai laboureur, vous dame et gardienne.
Vous donnerez le champ, je fournirai de peine,
Afin que son honneur soit commun à nous deux.

Les fleurs dont ce parterre éjouira nos yeux
Seront vert-florissant, leurs sujets sont la graine,
Mes yeux l'arroseront et seront sa fontaine,
Il aura pour zéphyrs mes soupirs amoureux;

Vous y verrez mêlés mille beautés écloses,
Soucis, oeillets et lys, sans épines les roses,
Ancolie et pensée, et pourrez y choisir

Fruits sucrés de durée, après des fleurs d'attente,
Et puis nous partirons à votre choix la rente:
A moi toute la peine, et à vous le plaisir.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Theodore Agrippa D’Aubigné (1552 1630), francês de Saint-Maury de Saintonge, comuna de Pons, teve educação “esmerada”, desde criança já lia o francês e também o latim, o grego e o hebraico, foi poeta satírico, soldado e cronista; após a morte do pai em 1563, estudou em Paris e em Genebra; consta de sua biografia ter mostrado seu valor tanto na guerra quanto nos conselhos da política; com a coroação de Henrique de Navarra como rei da França, Agrippa D’Aubigné foi nomeado governador em Maillezais Vendéia e, “não podendo mais empunhar as armas, empunhou a pena e escreveu suas duas obras capitais”: História Universal e Os Trágicos, duas criações que “foram condenadas a ser queimadas”, o que fez com que o poeta não mais se sentisse seguro na França [Paris] e voltasse para Genebra; após seu segundo casamento, em 1623, “levou uma vida reservada, ocupando-se em revisar e completar as suas obras e publicar novos poemas.”; escreveu e publicou Os Trágicos (Les Tragiques, poema épico satírico composto por sete livros, 1616), A Primavera do Senhor d’Aubigné ou Hecatombe a Diana, 1568 — 1575 (Printemps, L'Hécatombe à Diane, uma centena de sonetos, mais estrofes e odes, publicação póstuma, 1874), História Universal de 1550 a 1601 (Histoire Universsele, 1616 1618), Confissão do Muito Católico Senhor de Sancy (Confession du Sieur de Sancy, publicação póstuma, 1660), As Aventuras do Barão de Faeneste (Les Aventures du baron de Faeneste, publicado entre 1617 e1630), Pequenas obras mistas do Senhor de Aubigné (Petites Oeuvres Mêlées du sieur d’Aubigné — Meditações sobre os Salmos, poesia religiosa, epigramas, 1630), Sua Vida aos Filhos (Sa Vie à ses enfants, obras da velhice, póstumo, 1729); Agrippa D’Aubigné é tido como um dos maiores autores barrocos da França, sua obra “foi redescoberta no século XIX, período do Romantismo, notadamente por Victor Hugo e Sainte-Beuve.”

domingo, 8 de março de 2026

Paul Verlaine: Luar

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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vossa alma é paisagem escolhida
Que encantam bergamascos com folia,
Laúde, dança e quase entristecida
Máscara, em fantasiosas fantasias.

No modo menor, cantam a harmonia
Do vitorioso amor, da azada vida,
Porém, não se convencem da alegria,
E é no luar a música envolvida,

No luar calmo, triste, mas formoso,
Que dá sonhos aos pássaros das árvores,
E mais suspiros de êxtase aos grandiosos
Jatos d’água, elegantes, entre os mármores.

Paul Verlaine

Clair de lune *

Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth, et dansant, et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur
L’amour vainqueur et la vie opportune,
Ils n’ont pas l’air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d’extase les jets d’eau,
Les grands jets d’eau sveltes parmi les marbres.

(Fêtes galantes — 1869)

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página pesquisou e deixa registrado que Clair de lune é um dos poemas de Verlaine que foram musicados pelo compositor clássico Claude Debussy (1862  1918).
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (Lycée Condorcet, atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público, bacharelou-se em Literatura, foi professor, escritor e poeta; desde cedo escrevia poemas, inicialmente influenciado pelo parnasianismo; em 1866, estreou em livros com Poèmes Saturniens, teve sete de seus poemas publicados no Parnasse Contemporain; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão 'poètes maudits' (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889), Hombres (poemas eróticos [escritos até 1891], publicação clandestina, 1903) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; em 1875, no Reino Unido, Verlaine lecionou “latim, grego, desenho e francês” no Stickney Grammar School Boston; participou da Comuna de Paris sem ter sido atuante nas ruas, teve poemas musicados pelo compositor Claude Debussy em Ariettes oubliées [‘Canções esquecidas, ciclo de seis melodias para voz e piano’]; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sábado, 7 de março de 2026

Jules Laforgue: Apoteose

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[traduzido por Renata Cordeiro]

Aqui e além, eterno, o silêncio fervilha
De cachos de astros d’ouro e multivoltejantes.
Parecem ser jardins com muitos diamantes,
Porém, cada qual, triste e solitário, brilha.

Embaixo, nesse canto ignorado, cintilha
Com rastro de rubis e melancolizante,
Uma centelha, doce e trêmula e piscante:
Patriarca que guarda e conduz a família.

A família: tropel de globos floreados.
Num, a Terra, e Paris, um ponto amarelado,
De onde pende uma luz em que um louco vigia:

Única maravilha em meio ao Universo.
Servindo-lhe de espelho, o conhece num dia,
Sonha muito, e depois lhe consagra os seus versos.

Jules Laforgue

Apothéose

En tous sens, à jamais, le silence fourmille
De grappes d’astres d’or mêlant leurs tournoiements.
On dirait des jardins sablés de diamants,
Mais, chacun, morne et très solitaire, scintille.

Or, là-bas, dans ce coin inconnu, qui pétille
D’un sillon de rubis mélancoliquement,
Tremblotte une étincelle au doux clignotement:
Patriarche éclaireur conduisant sa famille,

Sa famille: un essaim de globes lourds fleuris.
Et sur l’un, c’est la terre, un point jaune, Paris,
Où, pendue, une lampe, un pauvre fou qui veille:

Dans l’ordre universel, frêle, unique merveille.
Il en est le miroir d’un jour et le connaît,
Il y rêve longtemps, puis en fait un sonnet.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Julio Laforgue ou Jules Laforgue (1860 1887), nascido em Montevidéu Uruguai, mas desde os seis anos de idade residindo na França, terra de seus pais, fez os estudos iniciais em Tarbes, no Lycée Théophile Gautier  concluindo-os em Paris, no Lycée Fontanes (atual Lycée Condorcet), depois passou pela École des beaux-arts (Escola de Belas Artes), também em Paris, foi poeta, romancista, ensaísta, contista e tradutor; o poeta franco-uruguaio teve sua vida literária associada ao Decadentismo e ao Simbolismo francês; em 1879, produziu resenhas, críticas e desenhos legendados em sete edições da revista La Guêpe, em Toulouse, editada por ex-alunos de Tarbes, também contribuiu para a primeira edição da L’Enfer [revue], de curta duração; em 1880 publicou seus três primeiros poemas na revue La Vie moderne; escreveu cerca de duas centenas de poemas, além de prosa criativa e prosa crítica; de sua biografia consta que sua poética influenciou fortemente T. S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp; traduziu Walt Whitman; Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever em versos livres, sendo o primeiro a fazê-lo sistematicamente; suas obras: publicou em vida apenas quatro livros, Les Complaintes (1885), L’Imitation de Notre Dame de la Lune, Le Concile Féerique (ambos em 1886) e Moralités légendaires (1887); postumamente vieram à luz Derniers Vers (1890), Mélanges Posthumes (1903), a maior parte de sua obra só foi publicada após a morte do autor; na fase final de sua curta vida, desde 1881, Jules Laforgue exerceu ofício em Berlim, Alemanha foi ledor/professor da Imperatriz Augusta [von Sachsen-Weimar-Eisenach], casada com Guilherme I, “lia, em francês, páginas de romances franceses e artigos de jornais como os da Revue des deux Mondes“; durante o período em Berlim, escreveu textos sobre a cidade e a corte imperial os quais foram publicados na Gazette des Beaux-Arts e na revista Lutèce, francesas; adoecido, o poeta deixou o cargo de professor em 1886; no Brasil, sua poética “fertilizou” Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; morreu aos 27 anos, de tuberculose.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

André Chénier: Penso: Ela estava ali


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[traduzido por Renata Cordeiro]

Penso: Ela estava ali. Diziam: ”Como é bela!”
Oh! Mas que olhar aquele, e que elegância aquela,
E que roupas, que voz, e que termos formosos.
Sentada nessa grama, e dominando o prado
Do Sena meandrado,
Sonhando, ela seguia os seus desvios sinuosos.

Nas florestas, eu erro assim com tua imagem:
Qual cabrito montês, no deserto selvagem,
Que, atingido por chumbo em vôo, estuga os passos.
Ele leva, ao fugir, a ferida mortal;
E na água de cristal,
Palpitando, ofegante, espera o seu trespasso.

André Chénier

Je pense: Elle était là. . . .*

Je pense: Elle était là. Tous disaient: «Qu’elle est belle!»
Tels furent ses regards, sa démarche fut telle,
Et tels ses vêtemens, sa voix et ces discours.
Sur ce gazon assise, et dominant la plaine,
Des Méandres de Seine,
Rêveuse, elle suivait les obliques détours.

Ainsi dans les forêts j’erre avec ton image:
Ainsi le jeune faon, dans son désert sauvage,
D’un plomb volant percé, précipite ses pas.
Il emporte en fuyant sa mortelle blessure ;
Couché près d’une eau pure,
palpitant, hors d’haleine, il attend le trépas.

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que esta tradução de Renata Cordeiro trata-se das duas últimas estrofes de Ode VII, conforme Œuvres completes [Idylles, Élégies, Épitres, Odes, Poésies diverses, Mélanges de proses] de André Chénier, 1819.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; André-Marie Chénier (1762 1794), nascido em Constantinopla, hoje Istambul — Turquia), aos três anos de idade levado para a França, estudou no Collége de Navarre, foi poeta e escritor; de mãe [que se dizia] grega e pai francês e diplomata, André Chénier, por relações de amizade, passou a frequentar a aristocracia parisiense, viajou pela Suíça e Itália, tornou-se secretário da embaixada em Londres; participante da revolução francesa, escreveu artigos e panfletos contra os jacobinos, contestou a competência da Assembléia no processo do rei Luís XVI em 1793, tornou-se suspeito, esteve fugido da França e, no retorno a Paris, foi preso no cárcere de Saint-Lazare e, após 141 dias, guilhotinado em 25 de julho de 1794; suas obras: Bucólicas (1785-1787), Elegias (1785-1789); sua poesia só se tornou conhecida e respeitada mais de duas décadas após sua morte; escreveu poemas na prisão, La Jeune Captive entre os quais.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Leconte de Lisle: As rosas de Ispaã

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[traduzido por Renata Cordeiro]

As rosas de Ispaã na bainha musgosa,
Os jasmins de Mossul*, a flor da laranjeira
Ah, fragrância não têm suave e tão ditosa,
Ó branca Leila, como a tua aura ligeira!

Lábios corais, soando a risada ligeira
Bem melhor que a água viva, e com voz mais ditosa,
Bem melhor que o ar feliz que embala a laranjeira,
Que a ave que canta ao lar na bainha musgosa...

Mas desde que fugiu, com sua asa ligeira,
O beijo dessa boca encarnada e ditosa,
Perfume já não há na tênue laranjeira,
E nem celeste odor nas bainhas musgosas...

Que o teu jovem amor, borboleta ligeira,
Volte ao meu coração, com sua asa ditosa,
E que perfume ainda a flor da laranjeira,
As rosas do Ispaã na bainha musgosa!

Leconte de Lisle

Les roses d’Ispahan

Les roses d'Ispahan dans leur gaine de mousse,
Les jasmins de Mossoul, les fleurs de l'oranger
Ont un parfum moins frais, ont une odeur moins douce,
Ô blanche Leïlah! que ton souffle léger.

Ta lèvre de corail, et ton rire léger
Sonne mieux que l'eau vive et d'une voix plus douce,
Mieux que le vent joyeux qui berce l'oranger,
Mieux que l'oiseau qui chante au bord d’un nid de mousse

[ . . . ]

Ô Leïlah! depuis que de leur vol léger
Tous les baisers ont fui de ta lèvre si douce,
Il n'est plus parfum dans le pâle oranger,
Plus de céleste arôme aux roses dans leur mousse.

[ . . . ]

Oh! que ton jeune amour, ce papillon léger,
Revienne vers mon coeur d'une aile prompte et douce,
Et qu'il parfume encor les fleurs de l'oranger,
Les roses d'Ispahan dans leur gaîne de mousse!

* Nota da tradutora Renata Cordeiro e acréscimo deste Verso e Conversa: Ispaã se situa no atual Irã e Mossul no Iraque; o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página ousa acrescentar que o poema Les roses d’Ispahan é composto de seis estrofes, das quais a tradutora verteu para o português as 1ª, 2ª, 4ª e 6ª estrofes, que integram a música Les Roses d’Ispahan Op.39-4, de Gabriel Fauré (1810 — 1885), compositor, organista e pianista.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Voltaire: À Senhora du Châtelet

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Se desejais que eu ame ainda,
Devolvei-me a era do amor;
A estes meus dias de sol-pôr
Dai, se possível a alva linda.

De onde o Amor tem real mansão,
Com o deus do vinho, e alindada,
O Tempo, que me enlaça a mão,
Aconselha-me a retirada.

Mas nos inflexíveis rigores
Nós achamos utilidade,
Quem nada aprende com a idade,
Recebe da idade só dores.

Pois deixemos à adolescência
Os loucos arrebatamentos.
Nós só vivemos dois momentos:
Que um seja dado à sapiência.

Quê! Para sempre me escapais,
Doidice, ilusão e ternura,
Dons do céu, que me consolais
Da vida cheia de amarguras!

Duas vezes devo morrer;
Deixar de ser amado e amante,
Frente à morte tão degradante
É nada deixar de viver.

Assim, a falta deplorava
Dos erros dos primeiros anos;
E, desejosa, lamentava
A minha alma os seus desenganos,

Então, vem do céu, generosa,
A Amizade e me dá guarida;
Ela era talvez tão maviosa
Quanto o Amor, mas com menos vida.

Tocado por coisa tão bela,
Sob a sua luz me abriguei,
E a segui; mas depois chorei
Por só poder seguir a ela.

Voltaire

À Madame du Châtelet

Si vous voulez que j’aime encore,
Rendez-moi l’âge des amours;
Au crépuscule de mes jours
Rejoignez, s’il se peut, l’aurore.

Des beaux lieux où le dieu du vin
Avec l’Amour tient son empire,
Le Temps, qui me prend par la main,
M’avertit que je me retire.

De son inflexible rigueur
Tirons au moins quelque avantage.
Qui n’a pas l’esprit de son âge,
De son âge a tout le malheur.

Laissons à la belle jeunesse
Ses folâtres emportements.
Nous ne vivons que deux moments:
Qu’il en soit un pour la sagesse.

Quoi! pour toujours vous me fuyez,
Tendresse, illusion, folie,
Dons du ciel, qui me consoliez
Des amertumes de la vie!

On meurt deux fois, je le vois bien:
Cesser d’aimer et d’être aimable,
C’est une mort insupportable;
Cesser de vivre, ce n’est rien.

Ainsi je déplorais la perte
Des erreurs de mes premiers ans;
Et mon âme, aux désirs ouverte,
Regrettait ses égarements.

Du ciel alors daignant descendre,
L’Amitié vint à mon secours;
Elle était peut-être aussi tendre,
Mais moins vive que les Amours.

Touché de sa beauté nouvelle,
Et de sa lumière éclairé,
Je la suivis; mais je pleurai
De ne pouvoir plus suivre qu’elle.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Voltaire (1694 1778), ou François Marie Arouet, francês e parisiense, estudou com os jesuítas, foi escritor, ensaísta, polemista satírico e filósofo do Iluminismo francês; tornou-se conhecido literária e filosoficamente pelo seu pseudônimo; escritor prolífico, Voltaire produziu algumas dezenas de obras nas mais diversas formas literárias peças de teatro, poemas, romances, ensaios, textos científicos e históricos, milhares de cartas e panfletos; alguns de seus escritos: Édipo (peça teatral, 1715), La Henríade (poema épico, 1728), Cartas Filosóficas (Lettres philosophiques, 1734), Zadig ou la Destinée (1747), Poème Sur Le Désastre De Lisbonne (1756), Cândido ou o Otimismo (Candide, novela satírica, 1759), Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la Tolérance, 1763), Dictionnaire philosofhique portatif (1764) etc.; por usar suas obras para criticar a Igreja Católica e o Absolutismo, os privilégios do clero e da nobreza, foi duas vezes preso.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Tristan Corbière: Rondel

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!
Noites, dias se foram para sempre,
Dorme... na atenta espera dos rumores
Das que diziam: Nunca! Eternamente!

Ouves seus passos? Pisam levemente:
Oh! Pés leves!  Têm asas os Amores…
Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!

E as vozes?... Mas as covas são silentes.
Dorme: sob leves e perpétuas flores:
Amigos-ursos não estão presentes
Para prestar-te, às moças, maus favores:
Que breu, rapaz, ladrão dos esplendores!

Tristan Corbière

Rondel

Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!
Il n'est plus de nuits, il n'est plus de jours,
Dors... en attendant venir toutes celles
Qui disaient: Jamais! Qui disaient: Toujours!

Entends-tu leurs pas?... Ils ne sont pas lourds:
Oh! les pieds légers! l'Amour a des ailes...
Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!

Entends-tu leurs voix?... Les caveaux sont sourds.
Dors: il pèse peu, ton faix d'immortelles;
Ils ne viendront pas, tes amis les ours,
Jeter leur pavé sur tes demoiselles:
Il fait noir, enfant, voleur d'étincelles!
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845  1875), francês de Morlaix Finisterre, foi poeta simbolista; teve seu trabalho reconhecido após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; escreveu e publicou um único livro em vida, Les amours jaunes (1873); morreu aos 29 anos de idade, de tuberculose.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Arthur Rimbaud: Ofélia*

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Na onda calma e negra** em que repousa o céu
Vagueia Ofélia, qual imensa e alva açucena,
Vagueia lenta, sobre os seus compridos véus...
E lá na mata, ao longe, assobios apenas.

Faz mil anos ou mais que Ofélia, entristecida,
Passa, alvo espectro, ao léu, por esse rio fusco,
Faz mil anos ou mais que Ofélia, enlouquecida,
Doce, entoa a romança ao ar do lusco-fusco.

Ventos beijam-lhe o peito e então despetaleiam
Os seus véus que esse rio embala docemente;
Os trêmulos chorões no seu ombro pranteiam,
E no grão rosto em sonho os juncos vão pendentes.

Perto dela alguns ais a ninféia extravasa;
Num salgueiro, ela tem, às vezes, despertado
Um ninho de onde sai o frêmito das asas;
E um canto raro cai dos planetas dourados.

II

Ó tênue Ofélia, qual a neve tão formosa!
Sim, morreste, criança, e o rio te levou!
Pois lá da Noruega a aragem montanhosa,
Baixo, da liberdade amarga te falou;

Pois a aura quando os teus cabelos enrolava,
Trazia-te à alma em sonho esquisitos rumores;
E o canto da Natura o teu peito escutava
Nos suspiros da noite e nas queixas das flores;

Pois a voz da água insana, estertor infinito,
Quebrava o peito humano, infantil, delicado;
Pois em abril um louco e pálido e bonito
Cavaleiro sentou-te aos joelhos, calado!***

Céu! Liberdade! Amor! Que visões, ó Demente!?
Que te fundiam qual à neve o fogo ardendo:
Esganavam-te a voz os teus sonhos ingentes
E o olho azul te assombram o Infinito tremendo!

III

E o tal Poeta diz que aos fulgores do céu
Vens buscar teus botões, à noite, mui serena,
E que viu na água, sobre os seus compridos véus,
Vagar Ofélia, qual imensa e alva açucena.

Arthur Rimbaud

Ophélie

I

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile:
Un chant mystérieux tombe des astres d’or.

II

Ô pâle Ophélia! belle comme la neige!
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
C’est que les vents tombant des grands monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
A ton esprit rêveur portait d’étranges bruits;
Que ton cœur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre Folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu:
Tes grandes visions étranglaient ta parole
Et l’infini terrible effara ton oeil bleu!

III

Et le poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis,
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys.

Notas da tradutora Renata Cordeiro:
* Personagem da tragédia Hamlet de William Shakespeare. Filha de Polônio e irmã de Laertes, é confidente e apaixonada por Hamlet, mas com quem promete ao pai não se casar. A morte e o enterro secreto de Polônio levam Ofélia à loucura. Então, coroada de flores, lança-se ao rio e morte.
** “Sur l’onde calme et noire”, no original. “Passer (ou traverser) l’onde noire” significa “atravessar o rio dos Infernos”.
*** Hamlet, III, 2: “Senhorita, posso recostar-me em vosso regaço?”
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.