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Epístola familiar
Depois de penosa ausência,
Minha querida Maria,
Devo dar-te novas minhas,
Feriadas de alegria.
O beijo que tu me deste
Inda nos lábios o sinto,
Que nos meus lábios revivem
Dos teus o beijo faminto.
Aquele apertado abraço,
Que entre soluços me deste,
Há de ser o eterno laço
Do nosso encanto celeste.
Sinto por ti tais saudades,
Pulsa-me o peito tão forte,
Que meditando silente,
Vem-me a lembrança da morte!
Reina em minh’alma o segredo,
Da nossa antiga alegria...
Minh’alma é toda um mistério,
Trajando a melancolia.
Quando em sonhos me aparece,
És qual formoso botão,
De mimosa Guanabara,
A rosa do coração.
Aqui no céu azulado,
Dos olhos teus tenho a cor,
E das estrelas na luz.
Rebrilha o casto fulgor.
Nas alvas conchas da praia,
Orladas de carmesim,
Rubros lábios de coral,
Sobre dentes de marfim.
Nas folhas estioladas,
Da ramagem do salgueiro,
As longas áureas madeixas
Pelo colo feiticeiro.
As ondas mugem n’areia,
Palpita o meu coração;
Minh’alma triste vagueia,
É meu peito a solidão.
Tu, Maria, és o emblema
Dos lindos amores meus;
Do meu Serafim que alou-se,
Tenho os encantos nos teus.
Um teu sorriso[,] Maria,
Os dele traz-me à memória
E recorda-me pungente
E afetos idos a história...
Triste vivo no presente,
Mirando o tempo passado;
Tenho o pranto por consolo,
É meu consolo o cuidado.
Nas lides acerba d’alma,
O pensamento se cansa,
O sono enlanguesce o corpo,
Alma, porém, não descansa.
Vela constante no sonho
O pensamento atilado,
Corre mundos num instante,
Atido ao corpo pesado.
Como a bomba que murcha,
Dos raios do sol ao lume,
E lega nas brandas alas
Dos euros, brandos perfumes.
Do pensamento nas chamas,
Vai est’alma entristecida
Dar-te um beijo, minha amiga,
Beijo de flor ressequida...
Guarda-o, pois, no ebúrneo colo,
Sacro tesouro de amor,
O beijo da flor sem viço,
No caule da linda flor.
Luiza [pseudônimo]
* Nota de
Ligia Fonseca Ferreira, organizadora deste Primeiras Trovas Burlescas: Publicado
na seção “Literatura” d’O Polichinello nº 19, 20 de agosto de 1876, sob o
pseudônimo Luiza.
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Primeiras
Trovas Burlescas & outros poemas: Luiz Gama, Organização e Introdução de
Ligia Fonseca Ferreira, 1ª edição, 2000, Coleção Poetas do Brasil, Editora Martins
Fontes, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 — 1882), baiano de Salvador,
foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos
e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como
escravo aos dez anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu
as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras
ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição,
1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou
intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga,
redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinello — primeiro periódico político
e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de
São Paulo, Diabo Coxo (1864 — 1865) e Cabrião (1866 — 1867); tendo sofrido
apagamento histórico por mais de um século, o poeta abolicionista, defensor dos
escravos e dos pobres foi reconhecido como advogado pela Ordem dos Advogados do
Brasil, em 2015, corrigindo-se assim uma injustiça; em 2021 deu-se o lançamento
do filme Doutor Gama, no qual é contada a história do personagem desde a
infância até sua consagração como advogado abolicionista e ter conseguido a
libertação de mais de 700 escravos, segundo pesquisas recentes; sua única obra
publicada veio a lume como Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, um
pseudônimo do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama.