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sábado, 16 de setembro de 2023

Débora Garcia: Trajetórias


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Quando nasci, um homem branco me segurou pelos pés
Bateu em minha bunda e disse:
— Vai, mulher negra, sofrer na vida!
Pela primeira vez, chorei sentida
Só assim ele se convenceu de que eu estava viva

Desde então, muitos foram os tapas
Das mãos que me apalparam
Dos olhos que me despiram
Das bocas que em mim cuspiram
Dos ferros que me alisaram

Tapas atrás de tapas
Diariamente sovada
Assim me fizeram carne barata
Assim me fizeram mulher calejada
Assim me fizeram dor!

A dor doía e, só, sofria
A dor doía e, só, sofria
A dor doía e, só, sofria
Só sofria...
...Só!

Os tapas não cessaram
As dores me acompanharam
Múltiplas formas de violência
Anularam minha negra essência

Estereotipada, me fizeram objeto
Retocado, clareado, purpurinado
Transmitido em resolução HD
Para que o mundo pudesse ver
Nas telas do grande irmão
A mulata exportação!

“...Na tela da TV, no meio desse povo
A gente vai morrendo aos poucos...”
E, aos poucos, essa dor invisibilizada
Fez do banzo minha morada.

— Deixa de ser vitimista!
Diziam-me sobre a dor incompreendida
— Seja forte!
Diziam-me aquelas que partilhavam a mesma ferida

Deixei de gritar
Para muitos, sucumbida
Mas sabiam meus algozes
Que, como Fênix, renasceria!

Conheci a literatura negra
E suas mulheres fortalezas
Sensíveis como o afago
Resistentes como aço

Narrativas de dor e afeto
Onde não mais éramos objetos
E, sim, sujeitos determinados

No seio da mãe preta me acalmei
No seio da mãe preta me fortaleci
No seio da mãe preta me refiz
Mulher preta e escrevi!

Empunhei minha caneta
Bebi, nestas fontes, águas
Compreendi que a minha história
Também deveria ser contada

Uma mão branca levanta-se violenta
Arrancou-me o papel e a caneta

Desde então muitos foram os tapas
Das mãos que rasuraram meus escritos
Dos olhos que censuraram minhas palavras
Dos círculos estritamente masculinos
De literatura branca, elitizada

Tapas atrás de tapas
Diariamente sovada
E os círculos egrégios dos escribas
Desqualificavam minha escrita
A dor doía...
Não mais só
Revidei!

Tomei o papel e a caneta
Escrevi e publiquei um livro
Oxalá, outros virão!
Escrevo e reescrevo diariamente
Em todas as páginas desse livro-vida:
Vai, mulher negra, ser feliz!

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera Zona Leste, formada assistente social pela UNESP — Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela paulicéia e, em 2016, criou o Sarau das Pretas, um sarau cenopoético que conta com o protagonismo de cinco mulheres negras periféricas.

domingo, 27 de agosto de 2023

Débora Garcia: Ópera das pedras


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          A luz amarela da televisão iluminava o rosto daquelas duas criaturas, sentadas uma ao lado da outra, mas separadas por um imenso e silencioso abismo.
          No sofá, João como sempre, estava roncando. Sua rotina de trabalho na obra era pesada, exaustiva. Distraída, Dona Jurema lembrou-se de seus meninos, do tempo em que aquele barraco era pequeno para tanta gente. No fundo dos seus pensamentos, ouvia ao longe, o barulho dos meninos aprontando, e o velho atrás, brigando com os coitadinhos.
          Suspirou profundamente de tristeza A vida foi tão dura comigo pensava. Mas religiosa que era, logo buscava conforto para a revolta que parecia jorra-lhe garganta fora como um vômito incontrolável Deus não dá um fardo maior do que a gente pode carregar Dizia a si mesma num processo de autoconvencimento. O casal teve seis filhos. Desses, quatro não vingaram, morreram ainda pequeninos, vítimas das precárias condições de moradia, alimentação e saneamento básico. O mais velho morreu assassinado aos treze anos devido às más companhias. E Josenildo, o único que vingou, sumiu no mundo, ninguém sabia de seu paradeiro há anos. Ao se lembrar de seu filho, o coração de Dona Jurema se enchia de ódio, ódio de João, de sua brutalidade e ignorância que a afastou de seu menino.
           Acorda, acorda bicha, acorda pra cuspí que a vida num tá fácil não. Cê num qué ficá locona? Fumô várias pedra minha ontem? Agora ti vira, dá teus pulos, dá o cu, faz o que tu quisé, mas ti vira! Ti vira que num sô santa pra fazê caridade tá me entendendo?
          Sem saber ao certo onde estava, abriu os olhos com dificuldade, em meio ao lixo, à sujeira, e àquele exército de zumbis do qual era um soldado.
           Já vô porra! Já vô! Disse levantando com dificuldade.
           Como é mesmo teu nome bicha?
           Geni.
          Que nome de guerra é esse heim? Que nome de guerra de merda é esse heim, bicha? É por isso que tu num arranja nem boquete a um real! Todo o grupo caiu na risada.
           Vê se num fode! Já não basta essa porra desses policial vim acabá com a nossa paz, agora você vai ficar me tirando? Só porque tô chegando agora?
           É, a vida num é fácil... Quem disse que ia sê fácil!? Tem que sê batizada pra entrá pro grupo! Agora abre o jogo, que porra é essa de Geni?
           É a Geni do Chico Buarque.
           Xiiiii gente, num é que a bicha é culta? Há, há, há...
          A líder do grupo deu seguimento ao ritual de batismo de Geni, que a todo o momento era ridicularizada, não somente por seu nome, mas por suas formas esqueléticas. Risadas medonhas cortavam o silêncio das ruas abandonadas da Luz.
          Em meio à confusão de lembranças, Josenildo ouviu distante a voz de sua mãe, que vivia cantarolando as músicas de Chico Buarque enquanto cuidava da casa. Dona Jurema conheceu o cantor na casa de uma granfina, onde trabalhava como diarista. Era apaixonada pelo coroa de olhos azuis, de voz feia mas afinada. Sempre ouvia a música Geni e o Zepelim, gostava da historinha, que não entendia direito, mas achava bonitinha.
          Desnorteado, lentamente Josenildo levou a mão à cabeça. Meteu os dedos entre os cabelos embaraçados e tocou no couro, uma grande cicatriz. A marca de um dia inesquecível, o dia em que virou Geni. Tinha então dezesseis anos, e com tão pouca idade já carregava o fardo de ser gay, nordestino e favelado. Todos os dias eram gozações no colégio e repressão em casa. Seu João era violento e impiedoso. Vô te dá uma coça pra tu aprendê a sê homi, cabra sem vergonha! Dizia seu João com a cinta em punho, todas as vezes que Josenildo em algum momento de descontração esboçava qualquer trejeito que indicasse um comportamento homossexual, ou quando ouvia nos bares, nas rodas de amigos, alguma insinuação sobre a orientação sexual de seu filho. Por vezes Josenildo teve vontade de se matar, por vezes tentou, mas não teve sucesso. Por isso, morria aos poucos, a cada dia, a cada humilhação sofrida.
          Certa noite, quando voltava da escola, foi surpreendido por um grupo de meninos encapuzados. Ficou parado, apavorado, sem saber o que fazer.
           E então, bichinha, onde você pensa que vai? Tentou correr num corre não, agora você vai ter o que gosta. Vai ser nossa mulherzinha, como sempre quis. É... A gente sabe o que você quer..., quer uma pica no meio do seu cu. Agora você vai ter várias... E riram, riram do desespero de Josenildo.
          Quando tentou correr levou uma forte pancada na cabeça e desmaiou. Acordou com a dor de um corpo violentado. Um após o outro, noite adentro, eles se divertiram até cansar. Por diversas vezes perdeu o sentido, saiu do corpo como uma forma de não presenciar aquela cena, na qual era protagonista. Deixaram-no nos fundos do seu barraco, amordaçado, imobilizado. O sol nascia, o cheiro do esgoto que sempre o incomodara não fazia qualquer diferença. Tudo parecia sem sentido, somente uma imensa dor, no corpo e na alma. Por quê? Por quê? No barraco, Dona Jurema, como de costume, ouvia Chico Buarque e cantarolava Geni e o Zepelim, sua música predileta. Encolhido e amordaçado, reduzido à sua impotência diante da situação em que estava, Josenildo passou a ouvir aquela cantiga melancólica. Passou a prestar atenção na letra da música, e se sentiu dentro da história. Ele era Geni, feita pra apanhar, boa de cuspir, apedrejada desde sempre. Resignou-se e assumiu a sua identidade, a sua condição de estar no mundo. Decidida, Geni partiu numa nuvem fria, em seu Zepelim, ora prateado, ora negro, como a escuridão. Não disse uma palavra à mãe ou ao pai , Dizer o que? Pra que? Pra quem?...
           Hei! Tá onde heim? Anda, anda bicha, faz teus corre se não quiser que eu estrague a sua cara! Disse a líder do grupo, encostando uma navalha no rosto de Geni, que saiu correndo para buscar uma forma de quitar sua dívida.
          No local, uma emissora de televisão transmitia uma reportagem sobre a situação dos dependentes de crack. Geni passou em frente a uma das câmeras. Imediatamente Dona Jurema reconheceu seu filho, aliás, o que sobrou dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, o coração, disparou.
           João! João, acorda homi! Vi Josenildo... É ele! Ele tá lá... Lá na cracolândia!
          Sem esboçar nenhum sentimento, João abriu os olhos lentamente Não conheço nenhum Josenildo. Fechou os olhos. A televisão continuou a tagarelar. Dona Jurema sangrou por dentro, pediu a Deus pela vida de seu filho. O silêncio voltou a imperar, e as pedras, continuaram a atingir Geni enquanto fugia em seu Zepelim.

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Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012, Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera — Zona Leste, formada assistente social pela UNESP Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas (2014) é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela paulicéia e é idealizadora do Sarau das Pretas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Débora Garcia: Carolina de Jesus *

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Carolina de Jesus
De fraqueza, foi ao chão
Acudiram-na seus filhos
Todos com prato nas mãos.

Levantou-se Carolina
Foi vender o papelão
Retornou com três pãezinhos
E os ofertou de coração.

Seus filhos alimentou
Foi deitar-se em seu quarto
Despejou suas angústias
Nas folhas de um diário.

Carolina de Jesus
Mulher negra, favelada
Foi ferida pela vida
E feriu com as palavras.

Débora Garcia na esquete
 "Carolina - a joia da favela"

* Em homenagem ao ano centenário do nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus (1914  1977), mulher negra, favelada , escritora e autora de Quarto de Despejo  Diário de Uma Favelada.
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Coroações — Aurora de poemas, Prefácio de Sacolinha (Ademiro Alves de Sousa), 2014, Edição do Autor, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera Zona Leste, formada assistente social pela UNESP Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz e gestora cultural; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicadaMarginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina — a joia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora de poemas é seu primeiro livro publicado.

domingo, 9 de novembro de 2014

Débora Garcia: Strip Tease

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Hoje tem strip tease
Não precisa espiar
Eis-me aqui, à tua espera
Pode vir me folhear.

Se quiser, recorra à língua
Sou difícil de virar
Lambuze a ponta dos dedos
Isso irá te ajudar.

Penetre em minha trama
Pelo começo ou pelo fim
Também venha pelo meio
Pode ser, está bom pra mim.

A ordem não importa
Quero ser tua leitura
Ser um verbo conjugado
Na tua boca carnuda.

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Coroações  Aurora de poemas, Prefácio de Sacolinha (Ademiro Alves de Sousa), 2014, Edição do Autor, São Paulo SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana do Bairro de Itaquera Zona Leste, formada assistente social pela UNESP Universidade Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz e gestora cultural; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano  SP, um canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros, números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje, 2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010), DVD CenoPoesiaMusicadaMarginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc.Cultural Literatura no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro e audiovisual, 2014), Carolina  a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações  Aurora de poemas é seu primeiro livro publicado.