
____________________
A luz amarela da televisão iluminava o rosto daquelas
duas criaturas, sentadas uma ao lado da outra, mas separadas por um imenso e
silencioso abismo.
No sofá, João como sempre, estava roncando. Sua rotina de
trabalho na obra era pesada, exaustiva. Distraída, Dona Jurema lembrou-se de
seus meninos, do tempo em que aquele barraco era pequeno para tanta gente. No
fundo dos seus pensamentos, ouvia ao longe, o barulho dos meninos aprontando, e
o velho atrás, brigando com os coitadinhos.
Suspirou profundamente de tristeza — A vida foi tão dura comigo — pensava. Mas religiosa que era,
logo buscava conforto para a revolta que parecia jorra-lhe garganta fora como
um vômito incontrolável — Deus
não dá um fardo maior do que a gente pode carregar — Dizia a si mesma num processo de
autoconvencimento. O casal teve seis filhos. Desses, quatro não vingaram,
morreram ainda pequeninos, vítimas das precárias condições de moradia,
alimentação e saneamento básico. O mais velho morreu assassinado aos treze anos
devido às más companhias. E Josenildo, o único que vingou, sumiu no mundo,
ninguém sabia de seu paradeiro há anos. Ao se lembrar de seu filho, o coração
de Dona Jurema se enchia de ódio, ódio de João, de sua brutalidade e ignorância
que a afastou de seu menino.
— Acorda, acorda bicha, acorda pra cuspí que a vida num
tá fácil não. Cê num qué ficá locona? Fumô várias pedra minha ontem? Agora ti
vira, dá teus pulos, dá o cu, faz o que tu quisé, mas ti vira! Ti vira que num
sô santa pra fazê caridade tá me entendendo?
Sem saber ao certo onde estava, abriu os olhos com
dificuldade, em meio ao lixo, à sujeira, e àquele exército de zumbis do qual
era um soldado.
— Já vô porra! Já vô! — Disse levantando com dificuldade.
— Como é mesmo teu nome bicha?
— Geni.
Que nome de guerra é esse heim? Que nome de guerra de
merda é esse heim, bicha? É por isso que tu num arranja nem boquete a um real! —
Todo o grupo caiu na risada.
— Vê se num fode! Já não basta essa porra desses policial
vim acabá com a nossa paz, agora você vai ficar me tirando? Só porque tô
chegando agora?
— É, a vida num é fácil... Quem disse que ia sê fácil!?
Tem que sê batizada pra entrá pro grupo! Agora abre o jogo, que porra é essa de
Geni?
— É a Geni do Chico Buarque.
— Xiiiii gente, num é que a bicha é culta? Há, há, há...
A líder do grupo deu seguimento ao ritual de batismo de
Geni, que a todo o momento era ridicularizada, não somente por seu nome, mas por
suas formas esqueléticas. Risadas medonhas cortavam o silêncio das ruas
abandonadas da Luz.
Em meio à confusão de lembranças, Josenildo ouviu
distante a voz de sua mãe, que vivia cantarolando as músicas de Chico Buarque
enquanto cuidava da casa. Dona Jurema conheceu o cantor na casa de uma
granfina, onde trabalhava como diarista. Era apaixonada pelo coroa de olhos
azuis, de voz feia mas afinada. Sempre ouvia a música Geni e o Zepelim, gostava da historinha, que não
entendia direito, mas achava bonitinha.
Desnorteado, lentamente Josenildo levou a mão à cabeça.
Meteu os dedos entre os cabelos embaraçados e tocou no couro, uma grande
cicatriz. A marca de um dia inesquecível, o dia em que virou Geni. Tinha então
dezesseis anos, e com tão pouca idade já carregava o fardo de ser gay,
nordestino e favelado. Todos os dias eram gozações no colégio e repressão em
casa. Seu João era violento e impiedoso. — Vô te dá uma coça pra tu aprendê a sê homi, cabra sem
vergonha! — Dizia seu
João com a cinta em punho, todas as vezes que Josenildo em algum momento de
descontração esboçava qualquer trejeito que indicasse um comportamento
homossexual, ou quando ouvia nos bares, nas rodas de amigos, alguma insinuação
sobre a orientação sexual de seu filho. Por vezes Josenildo teve vontade de se
matar, por vezes tentou, mas não teve sucesso. Por isso, morria aos poucos, a
cada dia, a cada humilhação sofrida.
Certa noite, quando voltava da escola, foi surpreendido
por um grupo de meninos encapuzados. Ficou parado, apavorado, sem saber o que
fazer.
— E então, bichinha, onde você pensa que vai? — Tentou
correr — num corre não, agora você vai ter o que gosta. Vai ser nossa
mulherzinha, como sempre quis. É... A gente sabe o que você quer..., quer uma
pica no meio do seu cu. Agora você vai ter várias... E riram, riram do
desespero de Josenildo.
Quando tentou correr levou uma forte pancada na cabeça e
desmaiou. Acordou com a dor de um corpo violentado. Um após o outro, noite
adentro, eles se divertiram até cansar. Por diversas vezes perdeu o sentido,
saiu do corpo como uma forma de não presenciar aquela cena, na qual era
protagonista. Deixaram-no nos fundos do seu barraco, amordaçado, imobilizado. O
sol nascia, o cheiro do esgoto que sempre o incomodara não fazia qualquer
diferença. Tudo parecia sem sentido, somente uma imensa dor, no corpo e na
alma. — Por quê? Por quê? No barraco, Dona Jurema, como de
costume, ouvia Chico Buarque e cantarolava Geni e o Zepelim, sua música predileta. Encolhido e amordaçado, reduzido
à sua impotência diante da situação em que estava, Josenildo passou a ouvir
aquela cantiga melancólica. Passou a prestar atenção na letra da música, e se
sentiu dentro da história. Ele era Geni, feita pra apanhar, boa de cuspir,
apedrejada desde sempre. Resignou-se e assumiu a sua identidade, a sua condição
de estar no mundo. Decidida, Geni partiu numa nuvem fria, em seu Zepelim, ora
prateado, ora negro, como a escuridão. Não disse uma palavra à mãe ou ao pai —,
Dizer o que? Pra que? Pra quem?...
— Hei! Tá onde heim? Anda, anda bicha, faz teus corre se
não quiser que eu estrague a sua cara! — Disse a líder do grupo, encostando uma
navalha no rosto de Geni, que saiu correndo para buscar uma forma de quitar sua
dívida.
No local, uma emissora de televisão transmitia uma
reportagem sobre a situação dos dependentes de crack. Geni passou em frente a
uma das câmeras. Imediatamente Dona Jurema reconheceu seu filho, aliás, o que
sobrou dele. Seus olhos se encheram de lágrimas, o coração, disparou.
— João! João, acorda homi! Vi Josenildo... É ele! Ele tá
lá... Lá na cracolândia!
Sem esboçar nenhum sentimento, João abriu os olhos
lentamente — Não conheço nenhum Josenildo. Fechou os olhos. A televisão
continuou a tagarelar. Dona Jurema sangrou por dentro, pediu a Deus pela vida
de seu filho. O silêncio voltou a imperar, e as pedras, continuaram a atingir
Geni enquanto fugia em seu Zepelim.
____________________
Antologia volume IV — Coletivo Cultural Poesia na Brasa [uma
penca de poetas], Apresentação do Coletivo, Prefácio de Flavia Bischain Rosa, 2012,
Vila Brasilândia, São Paulo — SP; Débora Garcia da Silva, paulista e paulistana
do Bairro de Itaquera — Zona Leste, formada assistente social pela UNESP — Universidade
Estadual Paulista, é poetisa, compositora, cantora, atriz, gestora cultural e
palestrista; atua na Associação Cultural Literatura no Brasil, em Suzano — SP, um
canal de incentivo à formação de novos leitores e escritores e de divulgação do
trabalho dos escritores locais; participação em antologias: Antologia Cadernos Negros,
números 34 e 35 (Quilombhoje, 2011 e 2012), Antologia Erês e Heranças (Quilombhoje,
2012), Antologia & Coletânea Coletivo Perifatividade Volume 2 (2012); produções
em áudio e audiovisual: O menino e o Livro (curta metragem, Buriti Filmes, 2010),
DVD CenoPoesiaMusicada Marginal (Coletivo Cultural Marginaliaria, 2011), CD de
Literatura Volume I e Vídeo Literatura Volumes II e III (Assoc. Cultural Literatura
no Brasil, 2011, 2013 e 2014), Documentário Vidas de Carolina (Instituto Criar de
Cinema, TV e Novas Mídias, 2013); projetos culturais: Poesia Cantada & Música
Declamada (música e poesia, desde 2012), Cenas, prosas e versos de Carolina (teatro
e audiovisual, 2014), Carolina — a jóia da favela (teatro, 2014); Coroações — Aurora
de poemas (2014) é seu primeiro livro publicado; a poetisa atua em saraus pela
paulicéia e é idealizadora do Sarau das Pretas.