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sábado, 17 de dezembro de 2022

Lucrécio: Da natureza das coisas [trecho], livro 4. 1045 — 1062


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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Assim, as partes se inflam de semente e surge           1045
vontade de seguir loucuras de libido
[que incita as partes túrgida com mais semente],
e o corpo busca o que feriu de amor a mente;
pois todos tombam junto da ferida, e o sangue
se apressa para o ponto em que sentira o golpe:         1050
se perto, o rubro humor¹ ataca o inimigo.
Se alguém sofrer os golpes das flechas de Vênus,
quer o atinja um menino de ares feminis,
ou a mulher que exibe amor em todo o corpo,
logo ele tenta, busca unir-se na ferida,                         1055
lançar o humor que sai do corpo noutro corpo,
pois um desejo mudo anuncia o prazer.
Eis nossa Vênus, donde vem o nome Amor²,
dali destila a gota do dulçor venéreo
nos corações, depois a frígida paixão;                         1060
se longe está quem amas, restam simulacros
e o doce amor então revira nosso ouvido.

Lucrécio

De rerum natura [trecho] livro 4. 1045 — 1062]

Inritata tument loca semine fitque uoluntas                    1045
eicere id quo se contendit dira lubido,
[incitat inritans loca turgida semine multo]
idque petit corpus, mens unde este saucia amore;
manque omnes plerumque cadunt in uulnus et illam
emicat in partem sanguis, unde icimur ictu,                    1050
et si comminus est, hostem ruber occupat umor,
sic igitur Veneris qui telis accipit ictus,
siue puer membris muliebribus hunc iaculatur
seu mulier toto iactans e corpore amorem,
unde feritur, eo tendit gestique coire                                  1055
et iacere umorem in corpus de corpore ductum;
manque uoluptatem praesagit muta cupido.
Haec Venus est nobis; hinc autemst nomem Amoris,
hinc illaec primum Veneris dulcedinis in cor
stillauit gutta et successit frigida cura;                              1060
nam si abest quod ames, praesto simulacra tamen sunt
illius et nomen dulce obuersatur ad auris.

Notas do tradutor Guilherme Gontijo Flores:
1. verso 1051: Humor (umor) aqui indica o conceito antigo dos quatro amores que estão no homem; neste momento, trata-se do sangue.
2. verso 1058: Amor é representado, no mais das vezes, como filho de Vênus.
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Por que calar nossos amores? — Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Titus Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? 55 a.C.), nascido provavelmente em Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo; chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas), um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo Flores; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, em Poetas que pensaram o mundo, o pensador Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de Cícero (106 a.C. 43 a.C.).

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Lucrécio: Da Natureza [trecho], livro I. 445 — 458


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[traduzido por Agostinho da Silva]

Portanto, além dos corpos e do vazio, não fica, no número
das coisas, nada que caia em qualquer momento na
denúncia dos nossos sentidos ou que possa ser percebido
pelo raciocínio do espírito. Tudo aquilo que tem um nome,
encontrá-lo-ás ou inerente a uma destas coisas ou como
acidental. É inerente tudo o que não se pode separar ou
abstrair do corpo sem a destruição deste, como, por
exemplo, o peso da pedra, o calor do fogo, o fluido da
água, a tangibilidade de todos os corpos, a intangibilidade
do vazio. Mas a escuridão, a pobreza e a riqueza, a
liberdade, a guerra, a paz, tudo aquilo que, por chegar ou
partir, não modifica a natureza dos corpos, tem, segundo o
nosso costume e como é justo, o nome de acidental.


De natura rerum [trecho], livro I. 445 458

Ergo praeter inane et corpora tertia per se                    [445]
nulla potest rerum in numero natura relinqui,
nec quae sub sensus cadat ullo tempore nostros
nec ratione animi quam quisquam possit apisci.
Nam quae cumque cluent, aut his coniuncta duabus
rebus ea invenies aut horum eventa videbis.                  [450]
coniunctum est id quod nusquam sine permitiali
discidio potis est seiungi seque gregari,
pondus uti saxis, calor ignis, liquor aquai,
tactus corporibus cunctis, intactus inani.
servitium contra paupertas divitiaeque,                         [455]
libertas bellum concordia cetera quorum
adventu manet incolumis natura abituque,
haec soliti sumus, ut par est, eventa vocare.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Titus Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? 55 a.C.), nascido provavelmente em Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo; chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas), um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo Flores, em Por que calar nossos amores? — poesia homoerótica latina; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, neste Poetas que pensaram o mundo, o pensador filósofo Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de Cícero (106 a.C. 43 a.C.).