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[traduzido por Guilherme
Gontijo Flores]
Assim, as partes se inflam de
semente e surge
1045
vontade de seguir loucuras de
libido
[que incita as partes túrgida
com mais semente],
e o corpo busca o que feriu de
amor a mente;
pois todos tombam junto da
ferida, e o sangue
se apressa para o ponto em que
sentira o golpe: 1050
se perto, o rubro humor¹ ataca
o inimigo.
Se alguém sofrer os golpes das
flechas de Vênus,
quer o atinja um menino de
ares feminis,
ou a mulher que exibe amor em
todo o corpo,
logo ele tenta, busca unir-se
na
ferida,
1055
lançar o humor que sai do
corpo noutro corpo,
pois um desejo mudo anuncia o
prazer.
Eis nossa Vênus, donde vem o
nome Amor²,
dali destila a gota do dulçor
venéreo
nos corações, depois a frígida
paixão; 1060
se longe está quem amas,
restam simulacros
e o doce amor então revira
nosso ouvido.
De
rerum natura [trecho] livro 4. 1045 — 1062]
Inritata tument loca semine
fitque uoluntas 1045
eicere id quo se contendit dira
lubido,
[incitat inritans loca turgida
semine multo]
idque petit corpus, mens unde
este saucia amore;
manque omnes plerumque cadunt
in uulnus et illam
emicat in partem sanguis, unde
icimur
ictu, 1050
et si comminus est, hostem
ruber occupat umor,
sic igitur Veneris qui telis
accipit ictus,
siue puer membris muliebribus
hunc iaculatur
seu mulier toto iactans e
corpore amorem,
unde feritur, eo tendit
gestique
coire
1055
et iacere umorem in corpus de
corpore ductum;
manque uoluptatem praesagit
muta cupido.
Haec Venus est nobis; hinc
autemst nomem Amoris,
hinc illaec primum Veneris
dulcedinis in cor
stillauit gutta et successit
frigida cura; 1060
nam si abest quod ames,
praesto simulacra tamen sunt
illius et nomen dulce
obuersatur ad auris.
Notas do tradutor Guilherme
Gontijo Flores:
1. verso 1051: Humor (umor) aqui
indica o conceito antigo dos quatro amores que estão no homem; neste momento,
trata-se do sangue.
2. verso 1058: Amor é
representado, no mais das vezes, como filho de Vênus.
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Por que calar nossos amores? —
Poesia homoerótica latina, edição bilíngue [vários poetas e tradutores], Organização
de Raimundo Carvalho [e outros], Prefácio de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e Apresentação
de Guilherme Gontijo Flores, 2017, Editora Autêntica, Belo Horizonte — MG; Titus
Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? — 55 a.C.), nascido provavelmente em
Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo;
chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas),
um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito
em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo
Flores; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo
o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, em Poetas que pensaram
o mundo, o pensador Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da
Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal
testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de
Cícero (106 a.C. — 43 a.C.).