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segunda-feira, 30 de março de 2026

Lirio Resende: Exortação a Primeiro de Maio

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O trabalho não é festa,
Enquanto no mundo resta
Uma exploração que empesta,
O bem-estar, a paz geral!
Protestai, trabalhadores;
Fazei rufar os tambores
E marchai contra os horrores
Do maldito capital!

Explorados e premidos
Afinai vossos sentidos
Deixem de ser iludidos!
Há uma nova Luz, olhai!
Quem só quer emancipar,
Deve agir, tem de lutar,
Quer em Terra, quer em Mar,
Vossas forças congregai!

Avante, segui à luta,
Pois que a burguesia estulta,
Vai dirigindo a labuta
No mais torpe barbarismo!...
E se nosso esforço é falho,
Tombaremos no trabalho,
Sem repouso ou agasalho,
Despenhados num abismo!

Vamos todos à conquista,
Do novo sol que se avista,
E muitas léguas não dista,
Do elmo dos altos dos montes!
É o fanal da Liberdade,
Apontando à Humanidade,
Da futura sociedade
Os fraternos horizontes!

Primeiro de Maio é dia
De luta, não de alegria,
Pois que lembra a tirania
Contra os modernos pioneiros!
Dia também de descanso
Para darmos um balanço,
Pois nossos passos no avanço,
Vão prosseguindo ligeiros!

Neste Primeiro de Maio
Redobremos sem desmaio,
Nossa firmeza, e num raio
Mostremos não vacilar!
Que impere o nosso direito!
E tudo que diz respeito,
Para alcançarmos o preito,
Da Liberdade e o Bem-Estar!

(A Razão, 1º/5/1919, p. 9.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Lirio de Rezende: Últimos momentos de Nero

 
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Maldito seja o dia em que eu nasci
Maldito o ebúrneo leite que mamei
Maldita a vida inútil que passei
E malditas as mágoas que sofri

Maldita seja a paz que idealizei
Mais os lauréis do gênio que expandi
Maldita seja a lei que proclamei
E todo bem que aos nobres concedi.

Maldito seja o trono, a humanidade
Maldito o amor, o gozo, a liberdade
Que não passam de meras ilusões

Maldita seja a Madre-Natureza
Que permite o momento de fraqueza
Em que morre o maior dos corações

(Voz Cosmopolita, 1/2/1923, p. 2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

sábado, 12 de novembro de 2022

p. da silva: sonho & burrice

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as classes média e média baixa que vivem de salário levam a vida tentando ingressar no paraíso; às vezes conseguem, mas logo dali são expulsas; retornam então ao purgatório e já não são mais aceitas; desiludidas, tentam viver isoladas sem perceber que as estão mandando é para o inferno.

[Acatar se ... é um informativo ainda experimental
que mata a cobra e mostra a cobra morta
— nº quase zero, março e abril/2001 —]
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p. da silva e alguns outros silva que subscrevem neste blogue, além de genésio dos santos, são um só zigoto, uma só pessoa e um só aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Lirio de Rezende: Organização & Trabalhador que labutas

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Organização

Os governos se organizam
Empregando a tirania
Para esmagar as idéias
Que prosperam dia a dia!

Façamos também o mesmo
Em pujantes alcatéias;
Esmagada a tirania
Vencerão nossas idéias!

(Voz Cosmopolita, 1/4/1922, p.2.)

Trabalhador que labutas

Trabalhador que labutas
Escravizado ao poder,
Tu plantas as boas frutas
Que os outros sabem comer

(Voz Cosmopolita, 18.12.1923, p.2.)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de "pedreiros da anarquia", “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto “O gênero na composição poética anarquista” nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição ...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro"; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos LiberdadeVoz CosmopolitaA Razão, todos do Rio de Janeiro, entre outros...).

sábado, 1 de maio de 2021

Lírio Rezende: Aos heróis de Chicago *

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Parsons, Fischer, Spies, Engel, Lingg, Fieldem, Schwab, Neeb.

Para corporizar em versos cristalinos
A suprema visão dos oito semeadores
Que sobranceiramente uniram seus destinos
Em prol da refeição dos povos sofredores;
Para se causticar a fronte dos tratantes
Que fizeram tolher o passo aos bandeirantes
Paladinos do bem, dos mundos superiores,
É preciso verter as lágrimas do triste,
Suportar e reagir aos aguilhões da fome;
É preciso enfrentar a causa que persiste
Na missão de manter o mal que nos consome
É preciso pairar acima da opulência,
Ter nobre sentimento e ser puro altruísta,
É preciso sentir, amar, ter complacência,
Pensar e refletir, ser algo mais que artista;
Definir e mostrar por atos de verdade
Tudo quanto elevar a causa da igualdade!
Pelos tempos afora
Desde o riso pagão à loucura cristã,
Existiu a pletora
Das leis a constituir uma justiça vã...
Tal como antigamente o mesmo existe agora!
Mas apesar das leis serem frutos da força
Existe uma outra lei que jamais há quem torça
É a lei da vontade
O desejo aguilhão que impele a humanidade!

Arautos decididos,
Ousando conquistar nas praças de Chicago
Oito horas de labor em bem dos oprimidos,
Não poderão gozar do sonho o belo afago.

Presos foram sofrer sem culpa, nas prisões!...

Embora quatro heróis tenham sido enforcados,
Alguém fez prosseguir seus gestos e ações
E disto a prova está nas reivindicações
Que desde 86 são fatos confirmados!

Oito horas de labor para cada operário,
Valem por uma luz na treva de um calvário!
Faz avançar um grau na estrada que conduz,
Ao éden da eqüidade o povo que produz.

Irmãos que me escutais: se em vossos corações
Arde a chama do amor em novas concepções,
Deixai que se irradie esse calor fecundo
Até se transformar em sol de novo mundo!

[jornal (“Renovação”, novembro de 1921.)]

* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15: Publicado em “Renovação”, em novembro de 1921; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de vários autores libertários, lê-se o seguinte trecho: ... “Edgard Leuenroth, velho militante libertário paulista [...] Gostava de uma frase que dizia: ‘o pensar faz os homens humanos, a leitura os torna completos, a história os converte em sábios e prudentes, a poesia “espirituais”, sensíveis’. À medida em que nos familiarizamos com a militância anarquista nos damos conta do significado dessas palavras. A Anarquia, na perspectiva militante, é a doutrina que leva à verdadeira libertação, porque valoriza os indivíduos como “forças conscientes” capazes de construir os caminhos libertários por sua própria experiência e vontade. No entender libertário, são muitos os caminhos para a felicidade suprema, que está na liberdade completa, na perfeita harmonia com a natureza e dos homens entre si. Esses são construídos no dia-a-dia, com base na liberdade, na igualdade e na solidariedade, segundo e como queiram os sujeitos em ação, na vida diária, na família, no trabalho ou no lazer. Livremente organizados, eles forjam a revolução, enfrentando a exploração e a autoridade em todas as situações onde elas se manifestam. [...] Dentro dessa perspectiva, as leituras, os estudos, e a reflexão ocupam lugar de destaque na militância anarquista. Seus protagonistas organizam jornais e outras publicações, centros culturais, conferências e festivais artísticos, criam escolas, por meio das quais procuram aprofundar e debater assuntos sociais, divulgar a doutrina libertária e o ensino racionalista que a acompanha.” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História [vários autores], Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (19081915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a 'propaganda exclusivamente libertária'”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro"; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, Renovação, entre outros...).

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Autoria desconhecida: Aos Poetas — Miséria *

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Artista! Se te oprime a esquálida miséria,
Se a grande falta de ouro amarra as tuas asas,
Rojando-te no chão, na lama da matéria,
Mesclando a fome vil ao sonho em que te abrasas,

Não te importe o clamor dessas turbas tão rasas,
Não te importe o pungir da carne deletéria;
Num solo de veludo ou num solo de brasas,
Caminha, fito o olhar numa esperança etérea.

Que te importa o banal? A propriedade? O mundo?
Se te negam o pão, usa a força, expropria;
Em vez de te humilhar, faze-te vagabundo!

Vibra o plectro de luz por esse mundo afora,
Mas lega, quando morto, à multidão sombria,
Um grito de revolta e uma estrofe sonora.

* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15: Soneto impresso, sem nome do autor nem outra referência; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de vários autores libertários, lê-se o seguinte trecho: ...Edgard Leuenroth, num trabalho metódico e minucioso, reuniu, sobretudo na imprensa operária e livre-pensadora, poesias de várias regiões do país publicadas ao longo dos anos 1900. Nelas e por elas lamentam-se as condições de vida e de trabalho do assalariado, as misérias dos vícios e das guerras, as resignações e as crendices religiosas; denunciam-se as tiranias e as injustiças das instituições autoritárias. Em oposição, são enaltecidos o uso da razão e o livre-pensar e o trabalhador é alentado para a luta, apesar dos sofrimentos e das desilusões. Curiosamente, raramente as poesias se referem às formas de organização do movimento ou da sociedade futura propostas pelos anarquistas; reportam-se mais ao valor da instrução racionalista e à importância do saber e da cultura; exaltam o trabalho como elemento fundamental na edificação da futura sociedade anárquica e o próprio lazer como meio de educação e de luta. Muitas das poesias coletadas por Edgard são manuscritas, outras datilografadas, algumas impressas; umas são acompanhadas de cartas explicativas; outras são delicadas a algum militante ou enviadas para serem incorporadas ao documento em elaboração pelo velho militante.” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História [vários autores], Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; sobre a autoria do poema Aos Poetas Miséria, nada se sabe, o que de resto está explicitado no trecho do texto/documento A Poesia Anarquista, da historiadora Yara Aun Khoury, acima transcrito.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Afonso Schmidt: A nossa fogueira

 
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A fim de festejar o nosso dia,
Pois o dia dos míseros não tarda,
Vamos fazer uma vermelha orgia
Para que o mundo das mentiras arda.

Fogo na lei parcial que nos mentia
E que se impunha a tiros de espingarda,
Fogo nos santarrões de sacristia,
Fogo na toga, no burel, na farda!

Fogo nos bairros proletários onde
A vergonha dos míseros se esconde;
Que o conforto pertence a quem trabalha.

A nova máquina social, do povo,
Precisa ser como um alfange novo
Que sai do coração de uma fornalha.

(Cottin * [Afonso Schmidt])


* Notas de Yara Aun Khoury, historiadora e autora do Texto/Documento A Poesia Anarquista, neste Sociedade & Cultura  Revista Brasileira de História Nº 15: Recorte impresso, sem referências. Cottin é um pseudônimo de Afonso Schmidt, literato, simpatizante libertário. “A Plebe” publica poesias e artigos seus; no texto/documento A Poesia Anarquista [págs 215-247 da referida revista] no qual a historiadora apresenta 40 poemas de autores libertários, lê-se o seguinte: ... “É agradável deparar com poesias de libertários famosos como Gigi Damiani, Neno Vasco, José Oiticica; é instigante descobrir pseudônimos, saber que Souza Passos é também Felipe Gil, escrevendo em “A Plebe”. que Afonso Schmidt assina por vezes Cottin, no mesmo jornal; é desafiante perceber Adalberto Viana, Albino Bastos, Raymundo Reis, Andrade Cadete exercendo atividades variadas e se pronunciando sobre assuntos diversificados, como expressão de uma única militância;” ...
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Sociedade & Cultura — Revista Brasileira de História Nº 15 — Órgão da ANPUH — Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Volume 8, setembro de 1987 / fevereiro de 1988, vários autores, Editora Marco Zero — São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; por vezes, Afonso Schmidt assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: Ao operário

 
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Operário ignorante e maltrapilho,
escravo, ilota da moderna idade
que neste afã perdes a cor e o brilho
do olhar, fanando a flor da mocidade.

Que vês de fome definhar teu filho
e de teu lar fugir a alacridade,
desperta finalmente e segue o trilho
da rebeldia e da felicidade!

Atenta na abjeção em que caíste,
a ardente voz dos teus irmãos escuta,
pensa na agrura do teu fado triste.

E, sem achares forças que te domem,
quebra os grilhões, instrui-te e, altivo, luta
por seres livre para seres HOMEM!

(jornal Spartacus, 25/10/1919, p. 2.)

Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biobibliográficos de Sylvio Figueiredo, em Os Poetas Satíricos do Café Paris (organização, apresentação e introdução de Luiz Antonio Barros, 2014), ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; bibliografia: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Lirio de Rezende: Prodigioso!...

 
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O Aureliano Leal *, vulto apagado,
Nutrindo propensão para a malícia
Conseguiu ser o chefe de polícia,
D’um governo, como todos detestado!

Tão depressa no cargo empossado
A espada manejou com tal perícia
Que resolveram dar-lhe vitalícia
Outra pasta de estofo aveludado.

À crítica mordaz, ele sorria;
Prendendo, deportando, respondia
 Hei de acabar com todos os grevistas. 

E tanto perseguiu as multidões
Que lhes fortaleceu as convicções,
Fazendo triplicar os anarquistas!

(jornal Liberdade, 08/1919, p. 2.)

* Nota do Verso e Conversa: através de pesquisa googleana, o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que Aureliano Leal (1877 — 1924) foi nomeado chefe de polícia do Rio de Janeiro, à época capital da república e distrito federal, no governo Venceslau Braz; Aureliano, ao atuar dando ordens para que antes da apreensão de materiais usados em jogos de azar os infratores fossem avisados, teria inspirado os autores e compositores Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, e Mauro de Almeida a criarem o samba Pelo Telefone, hoje reconhecido como marco inicial da história fonográfica do gênero.
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP, no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos LiberdadeVoz CosmopolitaA Razão, todos do Rio de Janeiro, entre outros...).

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Max de Vasconcellos: Primeiro de Maio

Resultado de imagem para Ouve meu grito antologia de poesia operária 1894 1923
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Dia grande e cruel à memória operária
Hinos brancos de Paz. Hinos rubros de Guerra.
A Bandeira do Amor que se fez incendiária…

Data fatal que em si ao mesmo tempo encerra
A promessa do bem ao coração do Pária
E juramentos de Ódio aos senhores da Terra!

Olhar perdido além, num horizonte vago,
Num sonho em que se vê o Mundo Comunista,
Ou se lembram talvez os mortos de Chicago!

Grande marco miliário à suprema conquista
Do País ideal onde se esplaina o Lago
Verde-azul da Concórdia a consolar a vista.

Calendimaio! O Sol que te ilumina seja
O último a iluminar as grades da Prisão,
Os muros do Quartel e as fachadas da Igreja;

E amanhã, ao brotar do grande Astro o Clarão,
Que aos seus raios triunfais o Homem por fim se veja
Sobre a Terra, cantar, liberto do patrão!…

A Razão, 1º/5/1919, p.6.
A Voz do Trabalhador, 1º/5/1913, p.1.
(jornais do Rio de Janeiro)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Max de Vasconcellos Azevedo (1891 — 1919), fluminense de Campos dos Goytacazes, estudou no Colégio Abílio, de Niterói, formou-se na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, foi poeta, jornalista, militante anarquista e boêmio frequentador da Roda Literária do Café Paris, de Niterói, além de também fazer presença em outros cafés da Lapa carioca; o poeta trabalhou como jornalista em diversos periódicos niteroienses e da então capital do país, Rio de Janeiro; Max de Vasconcellos não publicou livros em vida, porém seus poemas, crônicas e resenhas ficaram registrados em inúmeros jornais e revistas da época, muitos deles de orientação anarquista: Athena Fluminense (hebdomedário literário e noticioso) e Gazeta da Manhã, ambos de Niterói, O Debate, A Razão, A Luta (Revista da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro), Guerra Social, Gazeta de Notícias, A Voz do Trabalhador (Órgão da Confederação Operária Brasileira), La Rinascenza Latina — Settimanale politico dell’italo-americanismo in Brasile e ABC, todos do Rio de Janeiro, Fanal — revista do Novo Cenáculo, de Curitiba, A Plebe e A Lanterna (jornal anticlerical e de combate), ambos de São Paulo, O Dia, de Campos dos Goytacazes, etc; poliglota, o poeta também escreveu e deixou registrado versos em italiano, francês e romeno; a Roda Literária do Café Paris frequentada pelo poeta e boêmio, algum tempo depois passou a se chamar Cenáculo Ambulante (consta ter sido o poeta o primeiro a designá-la Cenáculo) e mais tarde (1923) deu origem ao Cenáculo Fluminense de História e Letras CFHL, ativo até os dias de hoje; o poeta simbolista, boêmio e jovem, morreu de tuberculose em 10 de abril de 1919.

domingo, 5 de abril de 2020

p. da silva: a pá lavra

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a pá lavra nas bocas
de quem quer plantar
pra saciar a fome do mundo.

a pá lavra nos sonhos
de quem se recusa a buscar sonhos
nos cortiços, favelas e ruas
dos centros urbanos.

a pá lavra nas armas tão toscas
dos que resistem a fuzis, metralhadoras,
escudos e coletes à prova de balas
dos defensores de latifúndios improdutivos.

a pá lavra que mata ecoa
floresta propaga de boca em boca:
vergonha!

a pá lavra numa vida inteira
e em sete palmos de terra.
amém!

a pá lavra, enfim,
em duas só palavras:
REFORMA AGRÁRIA!
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P. da Silva (Genésio dos Santos), maio/1996: poema desenvolvido por ocasião das mortes de 19 trabalhadores rurais sem-terra, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996, trabalhadores esses executados pela polícia paraense num episódio amplamente registrado na mídia como o Massacre de Eldorado dos Carajás; á época, três meses após as mortes, o Sindicato dos Bancários de São Paulo promovera um ato público itinerante lembrando o triste e revoltante acontecimento, e, durante a caminhada pelo centro de São Paulo, foi distribuido à população um documento pelo qual se cobrava o não esquecimento e a punição dos matadores e responsáveis pela chacina  no verso do documento fez-se constar o poema acima.

sábado, 14 de setembro de 2019

Lirio de Rezende: Novo Spartacus

Resultado de imagem para Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher
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Ó nababos da lei, faróis da tirania
Que mandais meus irmãos ao grande morticínio
Ficai sabendo, pois, titãs da burguesia
Que não deve tardar vosso fero extermínio.

O lucro que tirais de tanto barbarismo
Aumentará por certo a vossa teimosia,
Mas desempenhar-vos-á num tenebroso abismo
No qual ireis carpir tamanha hipocrisia.

Basta de latrocir, ferozes salafrários!
Tartufos, canibais, infames, sanguinários
Já seguis aberrando um colossal vulcão...

Para vos castigar, histéricos, malditos,
Desprezo a vossa lei, vou por entre os aflitos
Repartir munições para a revolução.

(jornal Liberdade, 06/1919, p. 2.
— Rio de Janeiro)
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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta e militante anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e só em A Voz do Trabalhador (19081915), órgão da Confederação Operária Brasileira, 48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam poesias revolucionárias, romances, obras de ideias avançadas, de história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais fossem. ..., Lírio de Rezende, entre outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUCSP, no texto “O gênero na composição poética anarquista” nos relata que Lírio de Rezende, poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro Galego do Rio de Janeiro (1903—1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende ..., a primeira especializada em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro, entre outros.) ...