____________________
O trabalho não é festa,
Enquanto no mundo resta
Uma exploração que empesta,
O bem-estar, a paz geral!
Protestai, trabalhadores;
Fazei rufar os tambores
E marchai contra os horrores
Do maldito capital!
Explorados e premidos
Afinai vossos sentidos
Deixem de ser iludidos!
Há uma nova Luz, olhai!
Quem só quer emancipar,
Deve agir, tem de lutar,
Quer em Terra, quer em Mar,
Vossas forças congregai!
Avante, segui à luta,
Pois que a burguesia estulta,
Vai dirigindo a labuta
No mais torpe barbarismo!...
E se nosso esforço é falho,
Tombaremos no trabalho,
Sem repouso ou agasalho,
Despenhados num abismo!
Vamos todos à conquista,
Do novo sol que se avista,
E muitas léguas não dista,
Do elmo dos altos dos montes!
É o fanal da Liberdade,
Apontando à Humanidade,
Da futura sociedade
Os fraternos horizontes!
Primeiro de Maio é dia
De luta, não de alegria,
Pois que lembra a tirania
Contra os modernos pioneiros!
Dia também de descanso
Para darmos um balanço,
Pois nossos passos no avanço,
Vão prosseguindo ligeiros!
Neste Primeiro de Maio
Redobremos sem desmaio,
Nossa firmeza, e num raio
Mostremos não vacilar!
Que impere o nosso direito!
E tudo que diz respeito,
Para alcançarmos o preito,
Da Liberdade e o Bem-Estar!
(A Razão, 1º/5/1919, p. 9.)
____________________
Ouve meu grito — Antologia de poesia
operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação)
e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora
Marco Zero, São Paulo — SP; sobre Lirio de Rezende, poeta, livreiro e militante
anarquista, pouco se sabe; Edgar Rodrigues, em Rebeldias 2, faz o registro de mais
de uma centena de “pedreiros da anarquia”, “colaboradores na imprensa ácrata, e
só em A Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação Operária Brasileira,
48 militantes (homens e mulheres) anarquistas escreviam em suas páginas. Nos anos
1910 e 1920 muitos operários já tinham vencido a falta de instrução das escolas
oficiais e adquirido conhecimento invejável nos sindicatos, nos centros de cultura
e nas escolas de teatro social, eram formados na universidade da vida. Escreviam
poesias revolucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de história, dirigiam
jornais como se jornalistas profissionais fossem. [...], Lírio de Rezende, entre
outros.”; já Angela Maria Roberti Martins, doutora em História Social pela PUC-SP,
no texto O gênero na composição poética anarquista nos relata que Lírio de Rezende,
poeta-militante, foi autor do livreto de poesias Mundo Agonizante (1920), cuja edição
teve a responsabilidade do grupo idealista ‘Paladinos do Porvir’ que “esclarecia
que o preço cobrado pelo folheto destinava-se a cobrir o custo do trabalho gráfico
e que a publicação do opúsculo servia para garantir a “propaganda exclusivamente
libertária”; neste texto (O gênero na composição...) há o relato de que Lírio de
Rezende “desde muito jovem ingressou no movimento anarquista e que na idade adulta
teria exercido a atividade de livreiro; por sua vez, em Memória Anarquista do Centro
Galego do Rio de Janeiro (1903-1922), o autor Mílton Lopes, da Federação Anarquista
do Rio de Janeiro, nos conta que, de fato, na Rua da Constituição, antiga Rua dos
Ciganos nº 14, “funcionou a livraria de Lírio de Rezende [...], a primeira especializada
em literatura anarquista”; o poeta-militante teve seus poemas publicados especialmente
pela imprensa operária e anarquista (periódicos Liberdade, Voz Cosmopolita, A Razão, todos do Rio de Janeiro,
Renovação, entre outros...).









