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segunda-feira, 21 de março de 2022

Nicolau Tolentino: A carnal tentação desenfreada . . . [soneto]

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A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede,
Subisse de uma puta a infame escada.

Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.

Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:

Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria,
Jurei no altar de Vênus castidade.

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Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso [diversos poetas] — Organização, Introdução, Glossário e Notas de Alexei Bueno, 2011, Saraiva de Bolso, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

sábado, 5 de março de 2022

Nicolau Tolentino de Almeida: A um Cavalo

 
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Vai, mísero Cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente;
não percas tempo, enquanto t’o consente
de magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
para sinal da minha dor veemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inútil do inconstante vento:

Morre em paz; que em havendo algum dinheiro,
hei de mandar, em honra de teu nome,
abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui, piedoso entulho, os ossos come
do mais fiel, mais rápido sendeiro,
que fora eterno a não morrer de fome».

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O Mundo Maravilhoso do Soneto [inúmeros sonetistas e tradutores], de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Nicolau Tolentino de Almeida: A um penteado

 
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Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pé na casa, a mãe ordena,
que o furtado colchão, fofo, e de pena,
a filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta, e aperaltada,
lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se lhe um colchão, é forte pena!
Olhe não fique a casa arruinada”...

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto,

arremete-lhe à cara e ao penteado;
eis senão quando (caso nunca visto!)
sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

domingo, 29 de agosto de 2021

Nicolau Tolentino de Almeida: Em escura botica encantoados, . . . [soneto]

 
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Em escura botica encantoados,
Ao som de grossa chuva que caía,
Passavam de janeiro um triste dia
Dois ginjas no gamão encarniçados;

"Corra, vizinho, corra-me esses dados,"
Gritava um deles que nem bóia via;
De sangue frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados;

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E ardendo em fúria o trêmulo velhinho,
Atira cuma tábula ao contrário;

O mal seguro golpe erra o caminho;
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.

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30 Séculos de Poesia — de IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 — 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

sábado, 31 de julho de 2021

Nicolau Tolentino de Almeida: O Bilhar [trechos]

 
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Sátira

Por fugir da cruel melancolia,
Que a estragada cabeça me atropela,
Largando o pobre leito, em que jazia,
Fui sentar-me num canto da janela;
Dali pela miúda gelosia,
Espreitando, qual tímida donzela,
De tudo quanto vi te darei parte,
Se tanto me ajudar engenho, e arte.

Mora defronte roto guriteiro.
Com jogo de bilhar e carambola;
Onde ao domingo o lépido caixeiro
Coa loja do patrão vai dando à sola;
Gira no liso, verde tabuleiro,
De indiano marfim lascada bola,
Erguendo aos ares perigosos saltos,
Chamam-lhe os mestres d’arte Truques Altos.

Ali se ajunta bando de casquilhos,
A que o vulgo mordaz chama rafados;
Alto topete, prenhe de polvilhos,
Que descalço galego deu fiados;
De quebrados tafuis, vadios filhos,
Pelas vastas tablilhas encostados.
Altercam mil questões; prontos contendem,
Prontos decidem no que nada entendem.

[ . . . ]

Alçando mais os olhos, vi defronte
Malhando a fio rígido banqueiro;
Que tendo já de marcas alto monte,
Ia despindo o mísero parceiro;
Enquanto um diz que lavre, outro que conte,
Sem valerem os óculos do olheiro,
Numa paz já vencida, um ponto afoito.
Sutilmente lhe encaixa duas de oito.

O perito banqueiro afronta os medos,
Tendo nas mãos em que se vá vingando;
Com cuspo milagroso ungindo os dedos,
Vai destramente as cartas recuando;
De ciência infernal, sutis segredos,
Com mão ligeira pronto executando,
Marcando cartas, inventando nicas,
Fazia, em vez de banca, peloticas.

Mas não se livra de sutil calote,
Que um velho mansamente lhe tecia;
Julgando todos mísero pixote.
Parolins de campanha impune erguia;
Embuçado em diáfano capote,
Por um buraco os ganhos recebia;
Fôra no Cabra das melhores pernas,
Hoje joga os Três Setes nas tavernas.

[ . . . ]

Mais ao longe, com pálida viseira,
Sujo poeta está vociferando;
Da nojosa, empeçada cabeleira,
Várias pontas de palha vem brotando;
Os papéis, que lhe pejam a algibeira,
Vão pelo forro larga porta achando;
Faz da véstia camisa; e é colarinho
Torcido solitário pescocinho.

Fora cem vezes em noturno outeiro
Da sábia padaria apadrinhado;
E diz-se que glosava por dinheiro;
Mas creio que até ‘qui não tem cobrado:
Seguindo em moço o ofício de barbeiro,
E das filhas de Jove namorado,
Abriu ao mundo aspérrima batalha,
Tanto coa pena, como coa navalha.

Falou, por afetar musa campestre,
Em surrão, e cajado muitas vezes;
Era um flagelo este tirano mestre
Dos ouvidos e faces dos fregueses;
Todos os versos leu da Estátua Equestre,
E todos os famosos entremezes,
Que no Arsenal ao vago caminhante
Se vendem a cavalo num barbante.

De cansada, rançosa poesia.
Grosso volume na algibeira andava;
Em vendo gente, logo lá corria,
E o fatal cartapácio lhe empurrava;
Acrósticos sonetos repetia,
Que só ele entendia, e só louvava;
Punha em prosa também muita parola,
E acabava por fim pedindo esmola.

Este ouvindo da turba as prosas frias,
E aceso do Parnaso em santo zelo,
Alçando a voz, cantou doces poesias,
Que invejou de Latona o filho belo;
Jurando que as fizera em poucos dias,
Prometeu que as havia dar ao prelo;
Mas da roda um dos menos depravados,
Em desconto as ouviu dos seus pecados.

Debalde, diz, o povo vil, perverso
Sobre mim descarrega tiros rudos;
Que eu não só sou poeta desde o berço,
Mas também tenho sólidos estudos;
Sei que sílabas leva cada verso,
E não misturo graves com agudos;
Rompi outeiros em Sant’Ana, e Chelas,
Chamei Sol à prelada, ás mais, estrelas.

Coas sonoras palavras Pindo, e Plectro,
Ponho em meus versos locução divina;
E sei, para cumprir as leis do metro,
Quanto a história das fábulas me ensina;
Sei que dos céus tem Júpiter o cetro,
Que nos infernos reina Proserpina;
 madrugada sempre chamo aurora.
Sempre chamo a um jasmim mimo de Flora.

[ . . . ]

As tais poesias, que a entender não chego,
Podres palavras têm desenterrado;
Se levam nó, é tão oculto, e cego,
Que quem quer desatá-lo, vai logrado;
Dizem que imitam nisto um certo grego,
Glória de Tebas, Píndaro chamado;
Se isto é assim, a sua língua de ouro
Seria grega, mas falava mouro.

Quatro rapazes estendendo o pano,
Deixam as gentes ao redor absortas;
Falando em Venuzino, e Mantuano,
As musas portuguesas põem por portas;
Aprendendo francês, e italiano,
E umas tais línguas, a que chamam mortas,
Trazem com elas perigosas modas;
Mas ainda bem que eu as ignoro todas.

[ . . . ]

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30 Séculos de Poesia — de IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.