____________________
Sátira
Por fugir da cruel
melancolia,
Que a estragada cabeça me atropela,
Largando o pobre leito, em
que jazia,
Fui sentar-me num canto da
janela;
Dali pela miúda gelosia,
Espreitando, qual tímida
donzela,
De tudo quanto vi te darei
parte,
Se tanto me ajudar engenho, e arte.
Mora defronte roto
guriteiro.
Com jogo de bilhar e
carambola;
Onde ao domingo o lépido
caixeiro
Coa loja do patrão vai
dando à sola;
Gira no liso, verde
tabuleiro,
De indiano marfim lascada
bola,
Erguendo aos ares
perigosos saltos,
Chamam-lhe os mestres
d’arte Truques Altos.
Ali se ajunta bando de
casquilhos,
A que o vulgo mordaz chama
rafados;
Alto topete, prenhe de
polvilhos,
Que descalço galego deu
fiados;
De quebrados tafuis,
vadios filhos,
Pelas vastas tablilhas
encostados.
Altercam mil questões;
prontos contendem,
Prontos decidem no que
nada entendem.
[ . . . ]
Alçando mais os olhos, vi
defronte
Malhando a fio rígido
banqueiro;
Que tendo já de marcas
alto monte,
Ia despindo o mísero
parceiro;
Enquanto um diz que lavre,
outro que conte,
Sem valerem os óculos do
olheiro,
Numa paz já vencida, um
ponto afoito.
Sutilmente lhe encaixa
duas de oito.
O perito banqueiro afronta
os medos,
Tendo nas mãos em que se
vá vingando;
Com cuspo milagroso
ungindo os dedos,
Vai destramente as cartas
recuando;
De ciência infernal, sutis
segredos,
Com mão ligeira pronto
executando,
Marcando cartas,
inventando nicas,
Fazia, em vez de banca,
peloticas.
Mas não se livra de sutil
calote,
Que um velho mansamente
lhe tecia;
Julgando todos mísero pixote.
Parolins de campanha
impune erguia;
Embuçado em diáfano
capote,
Por um buraco os ganhos
recebia;
Fôra no Cabra das melhores pernas,
Hoje joga os Três
Setes nas tavernas.
[ . . . ]
Mais ao longe, com pálida
viseira,
Sujo poeta está
vociferando;
Da nojosa, empeçada
cabeleira,
Várias pontas de palha vem
brotando;
Os papéis, que lhe pejam a
algibeira,
Vão pelo forro larga porta
achando;
Faz da véstia camisa; e é
colarinho
Torcido solitário
pescocinho.
Fora cem vezes em noturno outeiro
Da sábia padaria
apadrinhado;
E diz-se que glosava por
dinheiro;
Mas creio que até ‘qui não
tem cobrado:
Seguindo em moço o ofício
de barbeiro,
E das filhas de Jove
namorado,
Abriu ao mundo aspérrima
batalha,
Tanto coa pena, como coa
navalha.
Falou, por afetar musa
campestre,
Em surrão, e cajado muitas
vezes;
Era um flagelo este tirano
mestre
Dos ouvidos e faces dos
fregueses;
Todos os versos leu da Estátua
Equestre,
E todos os famosos entremezes,
Que no Arsenal ao vago
caminhante
Se vendem a cavalo num
barbante.
De cansada, rançosa
poesia.
Grosso volume na algibeira
andava;
Em vendo gente, logo lá
corria,
E o fatal cartapácio lhe
empurrava;
Acrósticos sonetos
repetia,
Que só ele entendia, e só
louvava;
Punha em prosa também
muita parola,
E acabava por fim pedindo
esmola.
Este ouvindo da turba as
prosas frias,
E aceso do Parnaso em
santo zelo,
Alçando a voz, cantou
doces poesias,
Que invejou de Latona o
filho belo;
Jurando que as fizera em
poucos dias,
Prometeu que as havia dar
ao prelo;
Mas da roda um dos menos
depravados,
Em desconto as ouviu dos
seus pecados.
Debalde, diz, o povo vil,
perverso
Sobre mim descarrega tiros
rudos;
Que eu não só sou poeta
desde o berço,
Mas também tenho sólidos
estudos;
Sei que sílabas leva cada
verso,
E não misturo graves com
agudos;
Rompi outeiros em Sant’Ana,
e Chelas,
Chamei Sol à prelada, ás
mais, estrelas.
Coas sonoras palavras Pindo, e Plectro,
Ponho em meus versos
locução divina;
E sei, para cumprir as
leis do metro,
Quanto a história das fábulas
me ensina;
Sei que dos céus tem
Júpiter o cetro,
Que nos infernos reina
Proserpina;
 madrugada sempre chamo
aurora.
Sempre chamo a um jasmim
mimo de Flora.
[ . . . ]
As tais poesias, que a
entender não chego,
Podres palavras têm
desenterrado;
Se levam nó, é tão oculto,
e cego,
Que quem quer desatá-lo,
vai logrado;
Dizem que imitam nisto um
certo grego,
Glória de Tebas, Píndaro
chamado;
Se isto é assim, a sua
língua de ouro
Seria grega, mas falava
mouro.
Quatro rapazes estendendo
o pano,
Deixam as gentes ao redor
absortas;
Falando em Venuzino, e
Mantuano,
As musas portuguesas põem
por portas;
Aprendendo francês, e
italiano,
E umas tais línguas, a que
chamam mortas,
Trazem com elas perigosas
modas;
Mas ainda bem que eu as
ignoro todas.
[ . . . ]
____________________
30 Séculos de Poesia — de IX a.C. até o Século XVIII, Organização,
Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ;
Nicolau Tolentino de Almeida (1740 — 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário
da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e
satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos
anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras
composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes
constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras:
Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes,
Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.