Mostrando postagens com marcador Teixeira de Melo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teixeira de Melo. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de março de 2018

Teixeira de Melo: Segredo

____________________
O segredo deste sonho
Que me embalou tantos dias
É como a folha de um livro
Que se rasgou quando o lias...
As flores que à sombra crescem,
Crescem, mulher, tão sombrias!

É como o grito dos mares
Nas asas do furacão.
É um veneno que mata
E alimenta o coração.
É mais talvez que um gemido
E menos que uma oração...

À noite nos cemitérios
Vão mil vampiros vagar:
Quem já rompeu seus mistérios?
Que brisa os sabe contar?
A estrela já disse à noite
Segredos do cintilar?!

Como o perfume de um goivo
Que para os mortos se inclina,
Como o primeiro suspiro
De descuidada menina,
Nasceu só, morreu sozinho,
Que sina, meu Deus! que sina!

A lua  que além se mira
Nas ondas mortas do mar 
Não lhe revela os segredos
Do seu mudo fulgurar;
E, nem a vaga os suspira,
Nem os leva a soletrar.

O segredo dos meus cantos
Não tentes, louca, romper!
Deixa o dormir só comigo,
Só comigo amanhecer,
E acompanhar-me ao jazigo
Na tardinha em que eu morrer.

Esse segredo sem nome
Voz do meu primeiro amor,
Que fora o eco de um riso.
Que é hoje um eco de dor,
Hás de lê-lo no epitáfio
Da lagem [sic] do sonhador.

Sonhador, como as estrelas
Que tremem nos céus com medo,
Sê mudo! Pobre criança!
Não pôde amar-te; era cedo!
Tens um abismo no peito:
Guarda nele o teu segredo!

Poesias, 1914.
Liège: Thipographie F. Brimbois, pp. 7072.

Resultado de imagem para josé alexandre teixeira de melo
____________________
Teixeira de Melo — Série Essencial 19, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Ubiratan Machado, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Alexandre Teixeira de Melo (1833  1907), fluminense de Campos dos Goytacazes, cursou Humanidades no Seminário São José, onde aprendeu latim, francês, filosofia, história, poética, geografia e teologia, e, depois, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; além de médico, foi jornalista, historiador e poeta; o poeta é tido como o precursor e introdutor dos versos alexandrinos clássicos na literatura brasileira; após ter atuado em diversas funções como funcionário da Biblioteca Nacional, foi nomeado seu diretor, cargo este que exerceu até se aposentar; como pesquisador e historiador, pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e colaborou com várias publicações especializadas, entre as quais Anais da Biblioteca Nacional e Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil; o poeta que, ainda estudante de medicina, dirigira e participara de O Acadêmico, “periódico científico-literário, especialmente médico”, posteriormente foi um dos fundadores e colaborador da Gazeta Literária, publicação que divulgava textos dos mais renomados intelectuais da época; como jornalista, assinou seus textos também com o pseudônimo Anódino; bibliografia: Sombras e Sonhos (poesia, 1858), Que Regime Será Mais Conveniente para a Criação dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia (tese acadêmica do curso de medicina, 1859), Miosótis (poesia, 1877), Efemérides Nacionais (1879), Limites do Brasil com a Confederação Argentina (1883), Poesias (1914) e outros.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Teixeira de Melo: Esquecimento

Resultado de imagem para teixeira de melo série essencial academia brasileira de letras
____________________
Au banquet de la vie, infortuné convive,
J’apparus um jour et je meurs;
Je meurs, et sur ma tombe, où lentement j’arrive,
Nul ne viendra verser des pleurs.
Gilbert

Quando eu cair cansado da romagem,
Uma ave só não quebrará seus cantos;
Ninguém meu leito há de juncar de flores
Nem o pó de meus pés lavar com prantos.

Quando eu lançar dos ombros já dormentes
O roto manto d’um viver sem glória,
Ninguém meu berço embalará chorando...
Quem do meu nome guardará memória?!

Por mim, que a vida atravessei cantando,
Por mim, que o mundo chamará de louco,
Ninguém um riso apagará dos lábios.
Dos lábios, onde a dor dura tão pouco!

Eu fui na terra o eco do abandono!
Fui astro errante e d’emprestado brilho!
Não descobri nos ermos da romagem
Um marco, um só! Que m’ensinasse o trilho!

Cantei; mas foi meu canto o som convulso
Do regougo do mar nas tempestades!
Sonhei como Gonzaga! Amei como ele!
E deixo a vida sem deixar saudades.

Amei a infância na mulher que amara,
De olhar de fogo e coração de gelo!
Dormi com crenças, acordei descrido!
Prendi a vida a um longo pesadelo!

Passei na terra  como flor dos mares
Num céu de bronze um bando de andorinhas!
Elas gemem talvez! Gemi com elas;
Mas ninguém escutou as queixas minhas!

Vaguei comigo só pela existência,
Fitos debalde os olhos no caminho,
Sem uns laivos de amor e de verdade
Nem ninguém, meu Deus! sempre sozinho!

Quero agora em frouxel, à beira d´água,
Onde o canto do mar m’embale a medo,
Descansar da romagem no deserto,
Como um riacho à sombra do arvoredo.

Não tem dobre o finado em leito estranho
Nem letreiro nem cruz nem pedra  Embora!
Por ínvia solidão, sem musgo, à sombra,
Posso, como vivi, dormir agora!

Que noite vou passar  amadornado
No seio imenso e nu da eternidade!!
Talvez lá venha iluminar-me os sonhos
Uma réstia de luz e de verdade!...

A dous passos de mim lá corre a louca
Ao mar da eternidade em que se lança!
Rio de lodo, quis sondar-te em seios
Que há de em pouco esconder minha lembrança!

Madalena gentil, eu te amo tanto!
Contigo sonho em noites de abandono,
Contigo acordo e nutro-me de insônias,
Até que em teu regaço eu tenha sono!

Em que lençol vais embrulhar meus ossos,
Quando eu mudar de pó e isolamento!!
Dura verdade que aprendi comigo: 
Pesa mais que a mortalha  o esquecimento!

28 de agosto

Poesias, 1914. Liège: Thipographie
F. Brimbois, pp. 4952.

____________________
Teixeira de Melo — Série Essencial 19, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Ubiratan Machado, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Alexandre Teixeira de Melo (1833  1907), fluminense de Campos dos Goytacazes, cursou Humanidades no Seminário São José, onde aprendeu latim, francês, filosofia, história, poética, geografia e teologia, e, depois, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; além de médico, foi jornalista, historiador e poeta; o poeta é tido como o precursor e introdutor dos versos alexandrinos clássicos na literatura brasileira; após ter atuado em diversas funções como funcionário da Biblioteca Nacional, foi nomeado seu diretor, cargo este que exerceu até se aposentar; como pesquisador e historiador, pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e colaborou com várias publicações especializadas, entre as quais Anais da Biblioteca Nacional e Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil; o poeta que, ainda estudante de medicina, dirigira e participara de O Acadêmico, “periódico científico-literário, especialmente médico”, posteriormente foi um dos fundadores e colaborador da Gazeta Literária, publicação que divulgava textos dos mais renomados intelectuais da época; como jornalista, assinou seus textos também com o pseudônimo Anódino; bibliografia: Sombras e Sonhos (poesia, 1858), Que Regime Será Mais Conveniente para a Criação dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia (tese acadêmica do curso de medicina, 1859), Miosótis (poesia, 1877), Efemérides Nacionais (1879), Limites do Brasil com a Confederação Argentina (1883), Poesias (1914) e outros.