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sábado, 1 de junho de 2024

Walt Whitman: Broadway


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Que apressadas correntes humanas, ou de dia ou de noite!
Que paixões, ganhos, perdas, ardores, nadam em tuas águas!
Que redemoinhos de maldade, alegria e tristeza, te contêm!
Que curiosos olhares interrogativos cintilações de amor!
Olhar irônico, inveja, desdém, menosprezo, esperança, aspiração!
Tu és portal tu és arena tu, da miríade de extensas linhas e
grupos!
(Apenas tuas lajes, parapeitos, fachadas podem contar suas histórias
inimitáveis;
Tuas ricas janelas e enormes hotéis tuas amplas calçadas;)
Tu dos infindos pés de passo curto, deslizando, arrastando!
Tu, como o próprio mundo multicolorido como a infinita, fértil e
escarnecedora vida!
Tu disfarçada, grandiosa, indizível exibição e lição!

Walt Whitman

Broadway

What hurrying human tides, or day or night!
What passions, winnings, losses, ardors, swim thy waters!
What whirls of evil, bliss and sorrow, stem thee!
What curious questioning glances glints of love!
Leer, envy, scorn, contempt, hope, aspiration!
Thou portal thou arena thou of the myriad long-drawn lines and
groups!
(Could but thy flagstones, curbs, facades, tell their inimitable tales;
Thy windows rich, and huge hotel thy side-walks wide;)
Thou of the endless sliding, mincing, shuffling feet!
Thou, like the parti-colored world itself like infinite, teeming,
mocking life!
Thou visor'd, vast, unspeakable show and lesson!
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Walt Whitman: A Ti, Ó Democracia


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Venha, farei o continente indissolúvel,
Farei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol jamais brilhou,
Farei divinas terras magnéticas,
Com o amor dos camaradas,
Com o amor de toda vida dos camaradas.

Plantarei o companheirismo copioso como árvores ao longo de todos
os rios da América e ao longo das margens dos grandes lagos e por todas as pradarias,
Farei cidades inseparáveis, cada uma com os braços em volta do
pescoço da outra,
Pelo amor de camaradas,
Pelo másculo amor de camaradas.

A ti, isto de mim, Ó Democracia, a fim de servi-la ma femme!
A ti, a ti estou trinando estas canções.

Walt Whitman

For You O Democracy

Come, I will make the continent indissoluble,
I will make the most splendid race the sun ever shone upon,
I will make divine magnetic lands,
With the love of comrades,
With the life-long love of comrades.

I will plant companionship thick as trees along all the rivers of 
America, and along the shores of the great lakes, and all over the prairies,
I will make inseparable cities with their arms about each other’s necks,
By the love of comrades,
By the manly love of comrades.

For you these from me, O Democracy, to serve you ma femme!
For you, for you I am trilling these songs.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

sábado, 14 de outubro de 2023

Walt Whitman: Murmúrios da morte celestial

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Murmúrios da morte celestial sussurrados ouvi,
Conversa labial da noite, coros sibilantes,
Passos ascendendo suavemente, aragens místicas vogavam amenas
e baixo,
Ondulações de rios invisíveis, marés de uma corrente a fluir, sempre a
fluir,
(Ou será o salpicar de lágrimas? as ilimitadas águas das lágrimas
humanas?)

Vejo, vejo exatamente em direção ao céu, imensas massas de nuvens,
Lugubremente devagar elas flutuam, silenciosamente dilatando-se
e mesclando-se,
Com às vezes uma entristecida estrela, remota e semi-eclipsada,
Aparecendo e desaparecendo.

(Provavelmente algum parto, algum nascimento solene e imortal;
Impenetrável sobre as fronteiras para os olhos,
Alguma alma está passando por cima.)

Walt Whitman

Whispers of heavenly death

Whispers of heavenly death murmur’d I hear,
Labial gossip of night, sibilant chorals,
Footsteps gently ascending, mystical breezes wafted soft and low,
Ripples of unseen rivers, tides of a current flowing, forever flowing,
(Or is it the plashing of tears? the measureless waters of human
tears?)

I see, just see skyward, great cloud-masses,
Mournfully slowly they roll, silently swelling and mixing,
With at times a half-dimm’d sadden’d far-off star,
Appearing and disappering.

(Some parturition rather, some solemn immortal birth;
On the frontiers, to eyes impenetrable,
Some soul is passing over.)
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

sábado, 19 de agosto de 2023

Walt Whitman: Uma vez atravessei uma cidade populosa


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[traduzido por Waly Sailormoon*]

Uma vez atravessei uma cidade populosa imprimindo no meu cérebro,
para uso futuro, seus espetáculos, sua arquitetura, trajes e tradições.
Mas agora de tudo daquela cidade me recordo só de um homem que
por ali vagabundeou comigo e que me amou.
Dia após dia, noite após noite, permanecemos juntos.
Tudo o mais já foi esquecido por mim  me recordo só de um homem
rude e ignorante que, quando parti, segurou minha mão muito tempo,
boca não disse palavra, triste e trêmulo.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim**, 03.02.85

Walt Whitman

Once I passed through a populous city

Once I passed through a populous city, imprinting on my brain, for
future use, its shows, architecture, customs and traditions
But now of all that city I remember only the man who wandered with me
there, for love of me.
Day by day, and night by night, we were together.
All else has long been forgotten by me — I remember, I say, only one
rude and' ignorant man who, when I departed, long and long held me by the hand, with silent lips, sad and tremulous.

[Leaves of Grass  an electronic classics series publication]

Notas do blogue Verso e Conversa:
* Waly Sailormoon (1943 — 2003), marujeiro da lua, é pseudônimo de Waly Salomão;
** o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Walt Whitman: Os adormecidos que estão vivos ou mortos esperam . . .


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[excerto de (Os Adormecidos)]

[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

          [ . . . ]

          Os adormecidos que estão vivos ou mortos esperam . . . os que estão na frente vão na sua vez, e os que estão atrás também,
          O diverso não será mais diverso, e sim vai fluir e se unir . . . . eles se unem agora.

          Os adormecidos estão lindos deitados nus assim,
          Fluem de mãos dadas sobre toda a terra de leste a oeste deitados e nus assim;
          O asiático e o africano dão aos mãos . . . . e o europeu e o americano dão as mãos,
          Letrados e analfabetos dão as mãos . . . . e o macho e a fêmea dão as mãos;
          O braço nu da moça atravessa o peito nu  de seu amante . . . . eles se amassam sem luxúria . . . . lábios premem o pescoço,
          O pai segura seu filho crescido ou criança em seus braços com amor desmedido . . . . e o filho segura o pai em seus braços  com amor desmedido,
          O cabelo branco da mãe brilha no pulso branco da filha,
          A respiração do menino vai com a respiração do homem . . . . amigo é desarmado por amigo,
          O acadêmico beija o professor e o professor beija o acadêmico . . . . o torto se endireita,
          E grito do escravo e o do senhor viram um só . . e o senhor saúda o escravo,
          O condenado se safa da prisão . . . . o insano fica são . . . . . o sofrimento do doente é aliviado,
          Cessam as febres e os suores . . a garganta rouca fica boa . . os pulmões do tísico se restauram . . a cabeça perturbada se alivia,
          As juntas do reumático estão ativas como nunca, mais ágeis do que nunca,
          Asfixias e passagens se abrem . . . . o paralítico fica elástico,
          Os inchados e convulsivos e congestionados acordam pra si mesmos em condição,
          Passam pelo tratamento da noite e sua química noturna e agora despertam.

          Também estou de passagem pela noite;
          Fico fora um tempo Ó noite, mas volto pra você e a amo;

          Por que ter medo de me entregar a você?
          Não tenho medo . . . . fui bem gerado e parido por você;
          Adoro a rica rapidez do dia, mas não abandono aquela que me acalenta por tanto tempo:
          Não sei como vim de você, nem sei aonde vou com você . . . . mas sei que vim bem e assim prosseguirei.

          Vou parar com a noite só por um momento . . . . despertarei a tempo.

          Vou passar o dia pontualmente Ó minha mãe e pontualmente voltar pra você;
          Você dará à luz a aurora com mais certeza do que dará à luz a mim de novo,
          Tão certo quanto o ventre gera o bebê em meu tempo serei gerado de você.

Walt Whitman

          [ . . . ]

          The sleepers that lived and died wait . . . . the far advanced are to go on in their turns, and the far behind are to go on in their turns,
          The diverse shall be no less diverse, but they shall flow and unite . . . . they unite now.

          The sleepers are very beautiful as they lie unclothed,
          They flow hand in hand over the whole earth from east to west as they lie unclothed;
          The Asiatic and African are hand in hand . . . . the European and American are hand in hand,
          Learned and unlearned are hand in hand . . and male and female are hand in hand;
          The bare arm of the girl crosses the bare breast of her lover . . . . they press close without lust . . . his lips press her neck,
          The father holds his grown or ungrown son in his arms with measureless love . . . . and the son holds the father in his arms with measureless love,
          The white hair of the mother shines on the white wrist of the daughter,
          The breath of the boy goes with the breath of the man . . . . friend is inarmed by friend,
          The scholar kisses the teacher and the teacher kisses the scholar, the wronged is made right,
          The call of the slave is one with the master's call, and the máster salutes the slave,
          The felon steps forth from the prison . . . . the insane becomes sane . . . . the suffering of sick persons is relieved,
          The sweatings and fevers stop . . . . the throat that was unsound is sound . . the lungs of the consumptive are resumed . . the poor distressed head is free,
          The joints of the rheumatic move as smoothly as ever, and smoother than ever,
          Stiflings and passages open . . . . the paralysed become supple,
          The swelled and convulsed and congested awake to themselves in condition,
          They pass the invigoration of the night and the chemistry of the night, and awake.

          I too pass from the night;
          I stay a while away O night, but I return to you again and love you;

          Why should I be afraid to trust myself to you?
          I am not afraid . . . . I have been well brought forward by you;
          I love the rich running day, but I do not desert her in whom I lay so long:
          I know not how I came of you, and I know not where I go with you . . . . but I know I came well and shall go well.

          I will stop only a time with the night . . . . and rise betimes.

          I will duly pass the day O my mother and duly return to you;
          Not you will yield forth the dawn again more surely than you will yield forth me again,
          Not the womb yields the babe in its time more surely than I shall be yielded from you in my time.

[Leaves of Grass — 1855, excerpt from The Sleepers]
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Folhas de Relva — A Primeira Edição (1855) — Walt Whitman, Tradução, Posfácio e Notas de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Walt Whitman: Transeuntes e pedintes me rodeiam. . . .

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[excerto de (Canção de mim mesmo)]

[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

          [ . . . ]

          Transeuntes e pedintes me rodeiam*.
          Gente que eu cruzo . . . . . o efeito da aurora da minha vida . . . . ou do bairro e da cidade onde vivo . . . . ou dessa nação,
          As últimas notícias . . . . descobertas, invenções, sociedades . . . . velhos e novos autores,
          Jantares, trajes, sócios, olhares, elogios, funções,
          A indiferença real ou simulada de uma mulher ou homem que eu esteja amando,
          A doença de um chegado ou minha mesmo . . . . ou imprudência . . . . ou perda ou falta de grana . . . . ou depressões ou euforias,
          Dia e noite essas coisas me alcançam e de novo partem de mim,
          Mas nada disso é Eu mesmo.

          Além do empurra-empurra e do trânsito está o que eu sou,
          Que se levanta feliz, complacente, compassivo, preguiçoso, unitário,
          Que olha para baixo, fica ereto, ou apoia o braço num indefinível impalpável descanso,
          Que olha com a cabeça pensa pro lado curiosa pra saber o que vem por aí,
          Dentro e fora do jogo ao mesmo tempo e observando e admirado com isso.

          Olho pra trás e vejo meus dias onde suei pra atravessar o nevoeiro com linguistas e debatedores,
          Não ironizo nem argumento . . . . só testemunho e espero.

          Acredito em você, minha alma . . . . o outro que sou não tem que se rebaixar pra você,
          E nem você tem que se rebaixar pro outro.

          Vadie na relva comigo . . . . solte o nó da garganta,
          Nada de palavras música rima alguma . . . . nem bons costumes ou sermões, nem mesmo os melhores,
          Só quero sua calma, o zun-zum de sua voz valvulada.

          Lembro da gente deitado em junho, numa transparente manhã de verão;
          Você pousou sua cabeça em meus quadris e delicadamente veio pra cima de mim,
          E desabotoou a camisa do meu peito, e mergulhou sua língua no meu coração nu,
          E estendeu a mão até tocar minha barba, depois até tocar meus pés.

          De repente se ergueram e grassaram à minha volta a paz e a sabedoria que superam toda arte e argumento desta terra;
          E sei que a mão de Deus é minha irmã primeva,
          E sei que o espírito de Deus é meu irmão primevo,
          E que todos os homens que já nasceram até hoje são meus irmãos . . . . e todas as mulheres minhas irmãs e amantes,
          E que o amor é a quilha da criação;
          E infinitas são as folhas tensas ou pensas pelos campos,
          E as formigas marrons nas poças sob elas,
          E a sebe cheia de ervas de musgos, pilha de pedras, sabugueiro, verbasco e erva-dos-cancros.

          [ . . . ]

Walt Whitman

          [ . . . ]

          Trippers and askers surround me,
          People I meet . . . . .  the effect upon me of my early life . . . .  of the ward and city I live in . . . . of the nation,
          The latest news . . . . discoveries, inventions, societies . . . . authors old and new,
          My dinner, dress, associates, looks, business, compliments, dues,
          The real or fancied indifference of some man or woman I love,
          The sickness of one of my folks or of myself . . . . or ill-doing . . . . or loss or lack of money . . . . or depressions or exaltations,
          They come to me days and nights and go from me again,
          But they are not Me myself.

          Apart from the pulling and hauling stands what I am,
          Stands amused, complacent, compassionating, idle, unitary,
          Looks down, is erect, or bends an arm on an impalpable certain rest,
          Looks with its sidecurved head curious what will come next,
          Both in and out of the game, and watching and wondering at it.

          Backward I see in my own days where I sweated through fog with linguists and contenders,
          I have no mockings or arguments . . . . I witness and wait.

          I believe in you my soul . . . . the other I am must not abase itself to you,
          And you must not be abased to the other.

          Loafe with me on the grass . . . . loose the stop from your throat,
          Not words, not music or rhyme I want . . . . not custom or lecture, not even the best,
          Only the lull I like, the hum of your valved voice.

          I mind how we lay in June, such a transparent summer morning;
          You settled your head athwart my hips and gently turned over upon me,
          And parted the shirt from my bosom-bone, and plunged your tongue to my barestript heart,
          And reached till you felt my beard, and reached till you held my feet.

          Swiftly arose and spread around me the peace and knowledge that pass all the art and argument of the earth;
          And I know that the hand of God is the elderhand of my own,
          And I know that the spirit of God is the eldest brother of my own,
          And that all the men ever born are also my brothers . . . . and the women my sisters and lovers,
          And that a kelson of the creation is love;
          And limitless are leaves stiff or drooping in the fields,
          And brown ants in the little wells beneath them,
          And mossy scabs of the wormfence, and heaped stones, and elder and mullen and pokeweed.

          [ . . . . ]

[Leaves of Grass — 1855, excerpt from Song of Myself]

* Nota do tradutor Rodrigo Garcia Lopes: Trippers pode tanto se referir a alguém que se move com leveza quanto a um turista ou visitante.
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Folhas de Relva — A Primeira Edição (1855) — Walt Whitman, Tradução, Posfácio e Notas de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Walt Whitman: Já percebi que estar junto de quem gosto me basta, . . .

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[excerto de (Eu Canto o Corpo Elétrico)]

          [ . . . ]

          Já percebi que estar junto de quem gosto me basta,
          Ficar na companhia dos outros num fim de tarde me basta,
          Estar cercado por suas carnes belas curiosas gargalhantes e sem fôlego me basta,
          Passar no meio deles . . tocar qualquer um . . . . pousar de leve meu braço ao redor do pescoço dele ou dela por um momento . . . . o que é isso?
          Não peço delícia melhor . . . . mergulho nisso como num mar.

          Tem alguma coisa em ficar perto de homens e mulheres e no olhar e no contato e nos seus cheiros que satisfazem a alma,
          Todas as coisas satisfazem a alma, mas essas sim satisfazem a alma.

          Eis a forma feminina,
          Um nimbo divino exala de si da cabeça aos pés,
          Atrai com atração furiosa e irrecusável,
          Sou sugado por sua respiração feito um vapor indefeso . . . . tudo se precipita ao redor menos ela e eu,
          Livros, artes, religiões, tempo . . a terra visível e sólida . . a atmosfera e as franjas de nuvens . . o que se esperava do céu e se temia do inferno agora se consome,
          Filamentos loucos disparam, incontroláveis centelhas de dentro dela . . a resposta igualmente incontrolável,
          Cabelos, peito, quadril, curva de pernas, mãos caindo distraídas todas difusas . . . . as minhas também difusas,
          Maré ferindo o fluxo, fluxo ferindo a maré . . . . carne amorosa inchando e doendo deliciosamente,
          Límpidas e ilimitadas ejaculações de amor quentes e imensas . . . . gelatina trêmula do amor . . . suco delirante jato branco,
          Noite de núpcias trabalhando com firmeza e suavidade dentro da aurora ereta,
          Ondulando dentro do dia rendido e a fim,
          Perdido na brecha apertada da carne suculenta do dia.

          Eis o núcleo . . . depois da criança nascer da mulher o homem nasce da mulher,
          Eis o banho batismal . . . eis a fusão do menor e do maior e de novo a saída.
          Não se envergonhem mulheres . . . . seu privilégio é conter o resto . . ser a saída para o resto,
          Vocês são os portais do corpo e vocês são os portais da alma.

          [ . . . ]

Walt Whitman

          [ . . . ]

          I have perceived that to be with those I like is enough,
          To stop in company with the rest at evening is enough,
          To be surrounded by beautiful curious breathing laughing flesh is enough,
          To pass among them . . to touch any one . . . . to rest my arm ever so lightly round his neck or her neck for a moment . . . . what is this then?
          I do not ask any more delight . . . . I swim in it as in a sea.

          There is something in staying close to men and women and looking on them and in the contact and odor of them that pleases the soul well,
          All things please the soul, but these please the soul well.

          This is the female form,
          A divine nimbus exhales from it from head to foot,
          It attracts with fierce undeniable attraction,
          I am drawn by its breath as if I were no more than a helpless vapor . . . . all falls aside but myself and it,
          Books, art, religion, time . . the visible and solid earth . . the atmosphere and the fringed clouds . . what was expected of heaven or feared of hell are now consumed,
          Mad filaments, ungovernable shoots play out of it . . the response likewise ungovernable,
          Hair, bosom, hips, bend of legs, negligent falling hands — all diffused . . . . mine too diffused,
          Ebb stung by the flow, and flow stung by the ebb . . . . loveflesh swelling and deliciously aching,
          Limitless limpid jets of love hot and enormous . . . . quivering jelly of love . . . white-blow and delirious juice,
          Bridegroom-night of love working surely and softly into the prostrate dawn,
          Undulating into the willing and yielding day,
          Lost in the cleave of the clasping and sweetfleshed day.

          This is the nucleus . . . after the child is born of woman the man is born of woman;
          This is the bath of birth . . . this is the merge of small and large and the outlet again.
          Be not ashamed women . . your privilege encloses the rest . . it is the exit of the rest,
          You are the gates of the body and you are the gates of the soul.

          [ . . . ]

[Leaves of Grass — 1855, excerpt from I Sing the Body Electric]
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Folhas de Relva — A Primeira Edição (1855) — Walt Whitman, Tradução, Posfácio e Notas de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".