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[excerto de (Canção de
mim mesmo)]
[traduzido
por Rodrigo Garcia Lopes]
[ . . . ]
Transeuntes
e pedintes me rodeiam*.
Gente que
eu cruzo . . . . . o efeito da aurora da minha vida . . . . ou do bairro e da
cidade onde vivo . . . . ou dessa nação,
As últimas
notícias . . . . descobertas, invenções, sociedades . . . . velhos e novos
autores,
Jantares,
trajes, sócios, olhares, elogios, funções,
A indiferença
real ou simulada de uma mulher ou homem que eu esteja amando,
A doença
de um chegado — ou minha mesmo . . . . ou
imprudência . . . . ou perda ou falta de grana . . . . ou depressões ou
euforias,
Dia e
noite essas coisas me alcançam e de novo partem de mim,
Mas nada
disso é Eu mesmo.
Além do
empurra-empurra e do trânsito está o que eu sou,
Que se
levanta feliz, complacente, compassivo, preguiçoso, unitário,
Que olha
para baixo, fica ereto, ou apoia o braço num indefinível impalpável descanso,
Que olha com
a cabeça pensa pro lado curiosa pra saber o que vem por aí,
Dentro e
fora do jogo ao mesmo tempo e observando e admirado com isso.
Olho pra
trás e vejo meus dias onde suei pra atravessar o nevoeiro com linguistas e
debatedores,
Não ironizo
nem argumento . . . . só testemunho e espero.
Acredito em
você, minha alma . . . . o outro que sou não tem que se rebaixar pra você,
E nem você
tem que se rebaixar pro outro.
Vadie na
relva comigo . . . . solte o nó da garganta,
Nada de
palavras música rima alguma . . . . nem bons costumes ou sermões, nem mesmo os
melhores,
Só quero
sua calma, o zun-zum de sua voz valvulada.
Lembro da
gente deitado em junho, numa transparente manhã de verão;
Você pousou
sua cabeça em meus quadris e delicadamente veio pra cima de mim,
E desabotoou
a camisa do meu peito, e mergulhou sua língua no meu coração nu,
E estendeu
a mão até tocar minha barba, depois até tocar meus pés.
De repente
se ergueram e grassaram à minha volta a paz e a sabedoria que superam toda arte
e argumento desta terra;
E sei que
a mão de Deus é minha irmã primeva,
E sei que
o espírito de Deus é meu irmão primevo,
E que
todos os homens que já nasceram até hoje são meus irmãos . . . . e todas as
mulheres minhas irmãs e amantes,
E que o
amor é a quilha da criação;
E infinitas
são as folhas tensas ou pensas pelos campos,
E as
formigas marrons nas poças sob elas,
E a sebe cheia
de ervas de musgos, pilha de pedras, sabugueiro, verbasco e erva-dos-cancros.
[ . . . ]
 |
| Walt Whitman |
[ . . . ]
Trippers and askers surround me,
People I meet . . . . . the effect upon me of my early life . . . . of the ward and city I live in . . . . of the
nation,
The latest news . . . . discoveries, inventions,
societies . . . . authors old and new,
My dinner, dress, associates, looks, business, compliments,
dues,
The real or fancied indifference of some man or woman I
love,
The sickness of one of my folks — or of myself . . . . or ill-doing . .
. . or loss or lack of money . . . . or depressions or exaltations,
They come to me days and nights and go from me again,
But they are not Me myself.
Apart from the pulling and hauling stands what I am,
Stands amused, complacent, compassionating, idle,
unitary,
Looks down, is erect, or bends an arm on an impalpable
certain rest,
Looks with its sidecurved head curious what will come
next,
Both in and out of the game, and watching and wondering
at it.
Backward I see in my own days where I sweated through fog
with linguists and contenders,
I have no mockings or arguments . . . . I witness and
wait.
I believe in you my soul . . . . the
other I am must not abase itself to you,
And you must not be abased to the
other.
Loafe with me on the grass . . . . loose
the stop from your throat,
Not words, not music or rhyme I
want . . . . not custom or lecture, not even the best,
Only the lull I like, the hum of
your valved voice.
I mind how we lay in June, such a
transparent summer morning;
You settled your head athwart my
hips and gently turned over upon me,
And parted the shirt from my
bosom-bone, and plunged your tongue to my barestript heart,
And reached till you felt my beard,
and reached till you held my feet.
Swiftly arose and spread around me
the peace and knowledge that pass all the art and argument of the earth;
And I know that the hand of God is
the elderhand of my own,
And I know that the spirit of God
is the eldest brother of my own,
And that all the men ever born are
also my brothers . . . . and the women my sisters and lovers,
And that a kelson of the creation
is love;
And limitless are leaves stiff or
drooping in the fields,
And brown ants in the little wells
beneath them,
And mossy scabs of the wormfence, and
heaped stones, and elder and mullen and pokeweed.
[ . . . .
]
[Leaves of Grass — 1855,
excerpt from Song of Myself]
* Nota do tradutor Rodrigo Garcia Lopes: Trippers pode tanto se referir a alguém que se move com leveza quanto a um turista ou visitante.
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Folhas de Relva — A Primeira Edição
(1855) — Walt Whitman, Tradução, Posfácio e Notas de Rodrigo Garcia Lopes, edição
bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819
— 1892), nascido em Huntington — USA, foi poeta, jornalista e ensaísta; desde os
onze anos trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais e atuou na imprensa
da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de
Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com
modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas
(1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai
do verso livre".