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sábado, 24 de agosto de 2024

Tove Ditlevsen: O trio eterno


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[traduzido por José Paulo Paes]

Há dois homens neste mundo
que cruzam sempre a minha estrada;
um é aquele a quem amo,
o outro, por quem sou amada.

Um está nos sonhos que à noite
me enchem de sombras a mente;
à porta do meu coração,
bate o outro inutilmente.

Um me deu primaveril
ventura logo consumida;
sem nada ganhar em troca,
o outro me deu sua vida.

Um canta no sangue, onde o amor
é puro, livre, risonho;
o outro une-se ao dia triste
onde se afogam os sonhos.

entre os dois, tão pura e amada
é toda mulher que talvez
ocorra a cada cem anos
num só se fundirem os três.

Tove Ditlevsen

De evige tre

Der er to mænd i verden, der
bestandig krydser min vej;
den ene er ham jeg elsker,
den anden elsker mig.

Den ene er i en natlig drøm
der bor i mit mørke sind,
den anden står ved mit hjertes dør,
jeg lukker ham aldrig ind.

Den ene gav mig et vårligt pust
af lykke, der snart fo'r hen,
den anden gav mig sit hele liv
og fik aldrig en time igen.

Den ene bruser i blodets sang,
hvor elskov er ren og fri,
den anden er eet med den triste dag,
drømmene drukner i.

Hver kvinde står mellem disse to,
forelsket, elsket og ren
een gang hvert hundrede år kan det ske,
de smelter sammen til een.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tove Irma Margit Ditlevsen (1918 1976), dinamarquesa de Copenhague, nascida no bairro Vesterbro, em ambiente de extrema pobreza e problemas sociais por que passava a classe trabalhadora, recebeu pouca educação escolar formal e, autodidata, tornou-se escritora, romancista, contista, memorialista e poeta; sua escrita transitou “entre o autobiográfico e o ficcional, com foco na ansiedade e na dor, na criança queimada e nos problemas psicológicos dos adultos”; teve seu primeiro poema publicado no Vild Invede, jornal editado por Viggo F. Møller, seu marido à época; em 1939, publicou Pigesind, sua coleção de poesias de estréia na literatura; suas obras: Pigesind (poesias, 1939), Man did et barn træð (romance, 1941), Lille verden (poesias, 1942), Barndommens gade (romance, 1943), Den fulde frihed (contos, 1944), Dommeren (contos, 1948), Paraplyen (contos, 1952), Kvindesind (poesias, 1955), Annelise — tretten år (literatura infantil, 1959), Hva nå, Annelise? (literatura infantil, 1960), Den hemmelige rude (poesias, 1961), Den onde lykke (contos, 1963), Ansigterne (romance, 1968), De voksne (poesias, 1969), Det tidlige forår — erindringene Barndom og Ungdom (memórias, Infância e Juventude, 2 volumes, 1969), Gift (memória, Dependência, 1971), Vilhelms værelse (romance, 1975) e outros títulos; a poeta, já adulta, viveu adoecida, tratou de ansiedade, foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos, foi medicada e viciou-se em drogas até o fim da vida, suicidando-se entre os dias 4 e 7 de março de 1976 devido overdose de comprimidos para dormir, tendo sido encontrada em 8 de março; já havia tentado o suicídio dois anos antes; suas obras e sua vida inspiraram musicistas, tornaram-se performance teatral, foram transportadas para o cinema, caso do filme Barndommens gade (1986), baseado no romance de igual nome; além de autora, Ditlevsen foi editora da coluna de cartas [caixa do correio] na revista Famile Journalen; premiações: Emil Aarestrup-medaljen (1954), Undervisningsministeriets (prêmio do Livro Infantil, 1959), Søren Gyldendal-prisen (1971) ...; hoje a poeta faz parte da lista de autores canônicos daneses e compõe o rol das leituras obrigatórias na escola primária; seus três livros de memórias, Barndom, Ungdom e Gift, também são conhecidos como Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência.

domingo, 7 de julho de 2024

Tove Ditlevsen: Noite de verão

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Olhos despertos como os de um animal em prontidão,
Copenhague estira-se ante as estrias azuis da alvorada;
torres finas se erguem para as brancas nuvens de verão,
a água brilha e ondeia entre os barcos de proas levantadas.

Eu e tu, tu e eu, eis tudo: o resto do mundo é zero.
Se queres saber quem sou, pergunta às ondas verdes do mar.
Irresponsável como elas, eu nunca sei o que quero.
A noite é boa, cálida, e o pecado, que pode importar?

Fica em total silêncio, a cidade está bem perto de mim.
Na brisa de Langelinge a voz de minha mãe ressoa.
Minha alma, carícia da noite, envolve as árvores. Sou, sim,
 e nunca mais vais esquecê-lo a um só tempo má e boa.

Beija a minha boca e diz-me o que meu coração procura.
Quando rio ou choro, é como se ondas estivessem batendo
contra um negro branco crês seja de amor, porventura?
Percebes o que estás ganhando agora e o que estarás perdendo?

Guardamos silêncio: tudo é jogo, sonho, nevoeiro.
Ergo a fronte para a bétula, que tem alvuras de arminho.
És jovem e feliz, e as trevas te envolvem por inteiro,
mas Deus e eu podemos ver como estás só, como estás sozinho.

Tove Ditlevsen

Sommernat

København har vågne øjne, som et vagtsomt dyr,
strækker sig mod morgengryets første, solblå stribe,
slanke tårne rankes imod hvide sommerskyr,
vandet vugger blankt og blidt on havnens høje skibe.

Du og jeg, jeg og du, ingenting er til
vil du vide hvem jeg er, sa spørg de grønne bølger;
jeg er ansvarsløs som de, ved aldrig hvad jeg vil.
Natten er så god og varm, og synd har ingen følger.

Du skal tie ganske stille, byen er mig nær,
Langelinjes saltvandsbrise er min moders stemme,
og min sjæl er nattens kærtegn om de unge trær,
jeg er god og ond og den du aldrig mer kan glemme.

Kys min mund og lær mig hvad det er mit hjerte vil.
Når jeg ler og græder, er det bølgerne der brister
mod de sorte skibe tror du kærlighed er til?
Ved du hvad du vinder nu og ved du hvad du mister?

Ganske stille står vi, alt er tåge, drøm og leg,
og jeg løfter panden mod de hvide birkegrene.
Du er lykkelig og ung, og mørket skjuler dig,
så kun Gud og jeg kan se, at du er helt alene.
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Quinze Poetas Dinamarqueses, edição bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução, Prefácio e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de Jorge H. Wolff, Coleção Poesia Traduzida, Volume II, 1997, Letras Contemporâneas, Florianópolis — SC; Tove Irma Margit Ditlevsen (1918 1976), dinamarquesa de Copenhague, nascida no bairro Vesterbro, em ambiente de extrema pobreza e problemas sociais por que passava a classe trabalhadora, recebeu pouca educação escolar formal e, autodidata, tornou-se escritora, romancista, contista, memorialista e poeta; sua escrita transitou “entre o autobiográfico e o ficcional, com foco na ansiedade e na dor, na criança queimada e nos problemas psicológicos dos adultos”; teve seu primeiro poema publicado no Vild Invede, jornal editado por Viggo F. Møller, seu marido à época; em 1939, publicou Pigesind, sua coleção de poesias de estréia na literatura; suas obras: Pigesind (poesias, 1939), Man did et barn træð (romance, 1941), Lille verden (poesias, 1942), Barndommens gade (romance, 1943), Den fulde frihed (contos, 1944), Dommeren (contos, 1948), Paraplyen (contos, 1952), Kvindesind (poesias, 1955), Annelise — tretten år (literatura infantil, 1959), Hva nå, Annelise? (literatura infantil, 1960), Den hemmelige rude (poesias, 1961), Den onde lykke (contos, 1963), Ansigterne (romance, 1968), De voksne (poesias, 1969), Det tidlige forår — erindringene Barndom og Ungdom (memórias, Infância e Juventude, 2 volumes, 1969), Gift (memória, Dependência, 1971), Vilhelms værelse (romance, 1975) e outros títulos; a poeta, já adulta, viveu adoecida, tratou de ansiedade, foi internada mais de uma vez em hospitais psiquiátricos, foi medicada e viciou-se em drogas até o fim da vida, suicidando-se entre os dias 4 e 7 de março de 1976 devido overdose de comprimidos para dormir, tendo sido encontrada em 8 de março; já havia tentado o suicídio dois anos antes; suas obras e sua vida inspiraram musicistas, tornaram-se performance teatral, foram transportadas para o cinema, caso do filme Barndommens gade (1986), baseado no romance de igual nome; além de autora, Ditlevsen foi editora da coluna de cartas [caixa do correio] na revista Famile Journalen; premiações: Emil Aarestrup-medaljen (1954), Undervisningsministeriets (prêmio do Livro Infantil, 1959), Søren Gyldendal-prisen (1971) ...; hoje a poeta faz parte da lista de autores canônicos daneses e compõe o rol das leituras obrigatórias na escola primária; seus três livros de memórias, Barndom, Ungdom e Gift, também são conhecidos como Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência.