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segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Gonçalves Crespo: Odor di femina

 
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Era austero e sisudo; não havia
frade mais exemplar nesse convento:
no seu cavado rosto macilento
um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
folheava o triste um livro pardacento,
viram-no desmaiar, cair do assento,
convulso e torvo sobre a lájea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
ninguém m’a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliófilo comprara
o livro estranho e que, ao abri-lo, achara
uns dourados cabelos de mulher…

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Cândido Gonçalves Crespo (1846 1883), nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe escrava à época de seu nascimento e de pai negociante português, fez seus estudos em Lisboa e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra; em terras portuguesas, dedicou-se no entanto ao jornalismo e à poesia, foi redator do Jornal do Comércio, de Lisboa, e colaborou com os periódicos O Ocidente, Mosaico e Literatura Ocidental, e também com a revista A Folha, na qual publicavam Guerra Junqueiro e Antero de Quental, além de outros notáveis da época; escreveu e publicou Miniaturas (primeira edição, 1871), Noturnos (várias edições, primeira edição em 1882), Contos para Nossos Filhos (em conjunto com Maria Amália Vaz de Carvalho, esposa e também escritora, 1882); foi membro da Academia Real de Ciências de Lisboa; faleceu vitimado pela tuberculose.

sábado, 2 de abril de 2016

Colbert Rangel Coelho: O luar de minha terra

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Neste luar de minha terra vejo
matizes de saudade pelo espaço,
na evocação do meu primeiro beijo,
na timidez do meu primeiro abraço.

Este luar desperta meu desejo
e volto à juventude; e, passo a passo,
eis-me à beira do cais, no rumorejo
de um passado feliz que eu mesmo traço.

À tua espera, minha grande ausente,
pelo facho de luz que vem da serra,
vejo que surges como antigamente.

E, quando surges, neste mesmo cais,
revivem no lar de minha terra
noites distantes que não voltam mais.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Colbert Rangel Coelho (1925  1975), mineiro de Pitangui, fez carreira como publicitário no Rio de Janeiro, foi poeta e trovador considerado um dos pioneiros do trovismo moderno; deixou-nos os livros de trovas Cantigas da Madrugada (1962), Enquanto a Cigarra Canta (1963) e outros; consta de sua biografia que o poeta foi um dos representantes do GTB Grêmio de Trovadores do Bar, depois UTB  União dos Trovadores de Bar, entidade cujo estatuto foi escrito todo em trovas pelo seus fundadores, Colbert inclusive, e com o lema já inscrito do livrinho/documento: “In vino veritas”; registra-se, ainda, que o número de sócios do GTB, depois UTB, era variado e identificado apenas pelo amor ao copo, de preferência cheio de bebida alcoólica; o poeta trovador recebeu muitos troféus pela sua arte.