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[traduzido por Felipe Vale da Silva
[Hinos à Noite (VI)]
Abaixo, no ventre da Terra
Muito aquém do reino do Dia
A fúria, a dor e a guerra
anunciam sua oportuna partida
Chegamos em canoa estreita
nas praias do paraíso
Bendita seja a Noite infinda!
Bendito, o sono infinito!
É certo que o Dia acalenta,
mitiga o antigo pesar.
Foi-se o anseio por reinos distantes,
junto ao Pai encontramos um lar.
O que resta fazer neste mundo,
do que vale o amor e apego?
O que é arcaico deixamos de lado,
ao moderno temos menosprezo.
Solitário e aflito é o estado
de quem ama o que está no passado.
Um passado em que a luz dos sentidos
já ardeu com imensa fulgência
Onde a face do Onipresente
era parte da humana vivência.
Em grandor, em sublimidade
remetíamos à diva imagem.
Em que troncos remotos da espécie
esbanjavam em emolumentos;
preferível era a morte e o martírio
pois assim chega-se ao firmamento.
E conquanto o desejo é constante
foi o amor que saiu triunfante.
Um passado onde, ainda jovem
Deus revela sua face à Terra
Por amor à verdade Ele morre
Como poucos, doce vida era
Não acossou de si medo e dor
Isso é prova de seu firme amor.
Com anseio, vivemos inquietos,
encobertos pela noite escura
Hoje nem toda a água do mundo
Poderá saciar esta secura,
Resta a ânsia de voltar para casa
Reviver uma era sagrada
E o que impede o nosso regresso?
Já repousam aqueles que amamos;
a tumba é o limite do nosso caminho;
a nos resta só horror e prantos
Esta busca não visa algo certo —
o peito está cheio — o mundo é um deserto.
Infinito e misterioso
Nos domina um terror doce e mudo —
Creio ouvir, dos profundos recessos
O murmúrio de quem veste luto
É possível que um amigo aguarde,
nos envie um sinal de saudades.
Entreguemo-nos à noiva doce,
mais para além, a Jesus, o amado —
Consolai-vos com as trevas da noite
os que amam e os conturbados
Pois, quiçá, em um sonho, nossa algema cai
E seremos entregues aos cuidados do Pai.
Sehnsucht nach dem Tode
Hinunter in der Erde
Schoß,
Weg aus des Lichtes
Reichen,
Der Schmerzen Wut und
wilder Stoß
Ist froher Abfahrt
Zeichen.
Wir kommen in dem engen
Kahn
Geschwind am Himmelsufer
an.
Gelobt sei uns die ew’ge
Nacht,
Gelobt der ew’ge
Schlummer.
Wohl hat der Tag uns warm
gemacht
Und welk der lange Kummer.
Die Lust der Fremde ging
uns aus,
Zum Vater wollen wir nach
Haus.
Was sollen wir auf dieser
Welt
Mit unsrer Lieb und Treue.
Das Alte wird
hintangestellt,
Was soll uns dann das
Neue.
Oh! einsam steht und
tiefbetrübt,
Wer heiß und fromm die
Vorzeit liebt.
Die Vorzeit wo die Sinne
licht
In hohen Flammen brannten,
Des Vaters Hand und
Angesicht
Die Menschen noch
erkannten.
Und hohen Sinns,
einfältiglich
Noch mancher seinem Urbild
glich.
Die Vorzeit, wo noch
blütenreich
Uralte Stämme prangten
Und Kinder für das
Himmelreich
Nach Qual und Tod
verlangten.
Und wenn auch Lust und
Leben sprach,
Doch manches Herz für
Liebe brach.
Die Vorzeit, wo in
Jugendglut
Gott selbst sich
kundgegeben
Und frühem Tod in
Liebesmut
Geweiht sein süßes Leben.
Und Angst und Schmerz
nicht von sich trieb,
Damit er uns nur teuer
blieb.
Mit banger Sehnsucht sehn
wir sie
In dunkle Nacht gehüllet,
In dieser Zeitlichkeit
wird nie
Der heiße Durst gestillet.
Wir müssen nach der Heimat
gehn,
Um diese heil’ge Zeit zu
sehn.
Was hält noch unsre
Rückkehr auf,
Die Liebsten ruhn schon
lange.
Ihr Grab schließt unsern
Lebenslauf,
Nun wird uns weh und
bange.
Zu suchen haben wir nichts
mehr —
Das Herz ist satt — die
Welt ist leer.
Unendlich und
geheimnisvoll
Durchströmt uns süßer
Schauer —
Mir deucht, aus tiefen
Fernen scholl
Ein Echo unsrer Trauer.
Die Lieben sehnen sich
wohl auch
Und sandten uns der
Sehnsucht Hauch.
Hinunter zu der süßen
Braut,
Zu Jesus, dem Geliebten —
Getrost, die Abenddämmrung
graut
Den Liebenden, Betrübten.
Ein Traum bricht unsre
Banden los
Und senkt uns in des
Vaters Schoß.
Hymnen an die Nacht [VI]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação
de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra,
São Paulo — SP; Novalis (1772 — 1801) ou Freiher von Hardenberg,
ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia,
estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg,
foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de
outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche
Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem,
1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen
an die Nacht (Hinos à noite, 1799—1800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea
de Fragmentos e Estudos, 1799—1800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802)
e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura,
muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.




