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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Hermes Fontes: Estrela d'alva

 
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Vem por aí o Dia... Ó loura Estrela d'Alva,
escudeira do Sol, cuja vanguarda assumes!
Ao teu beijo estelar, a alma se nos ressalva,
e se ofusca a “lanterna azul” dos vaga-lumes...

Pela planície do Ar, que a Noite, em fuga, escalva,
vão-se os astros... Só tu sorris, e te presumes
uma salva geral de palmas, uma salva
de pétalas, de sons, de cores, de perfumes...

Estrela d’Alva, noiva e irmã dos sonhadores!
Taça, onde os olhos vão beber, contra as moléstias,
remédios imortais e purificadores...

Cercam-te, régia noiva, etéreas brumas... veste-as;
véu nupcial que te envia a Terra, expansa em flores,
Pela escada de luz das tuas louras réstias...

MCMIV.
(Apoteoses, pág. 28, 2ª Edição, 1915,
Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro,)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

domingo, 15 de março de 2026

Emilio Kemp: Hora da morte

 
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Morre, e morrendo vai ouvindo a espaços,
Raros momentos de mistérios magos
Vagas dolências de luares vagos,
Sons magnéticos, insondáveis, baços...

Mãos de veludos de invisíveis braços,
Roçam-lhe a face em cândidos afagos...
Doces, suaves quietações de lagos
Os seus gemidos vão tornando escassos.

Agora escuta um remexer macio
De asas o voo rápido sustendo...
Cobre-lhe as faces um palor sombrio...

E a alma entrando no vácuo ouve, absorta,
Os sons intraduzíveis, refervendo
Na harmonia feral da carne morta!...

(Poesia. Editores: Cunha, Rentzsch & C., Livraria
Americana, pág. 76, Porto Alegre, 1920.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Emilio Kemp Larbeck Filho (1874 1955), nascido no Rio de Janeiro, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Paraná, tendo exercido a profissão, mas também foi pedagogo, poeta, romancista, comediógrafo, crítico literário e jornalista; no jornalismo, trabalhou como redator no Cidade do Rio [jornal de José do Patrocínio], foi co-fundador de O Comércio e redator da Gazeta de Petrópolis, ambos em Petrópolis RJ; fundou a revista Avenida (Rio de Janeiro), redigiu O Fluminense (Niterói RJ), colaborou n’A Gazeta da Tarde, n’O Malho, n’A Imprensa, todos do Rio de Janeiro, e em outros periódicos; a partir de 1910, já em Porto Alegre RS, dirigiu e foi redator do Correio do Povo, dirigiu O Diário e Norte-Sul, fundou o jornal A Manhã, foi diretor da Imprensa Oficial, todos na capital gaúcha; ocupou cargos técnicos e administrativos em instituições ligadas à saúde pública e ao magistério, lecionou na Escola Superior de Comércio, na Escola Normal e na Escola Médico-Cirúrgica, dirigiu o Museu Julio de Castilhos, sempre em Porto Alegre; como poeta e literato, participou do simbolismo, colaborou na Revista Vera-Cruz [órgão simbolista], e ali subscreveu suas obras com o próprio nome e também com os pseudônimos Acúrcio Benigno e Baianave; escreveu e publicou: Matinal (teatro, em versos, 1898, 2ª edição em 1918), Poesia (1900, 2ª edição 1920), O Senhor Ministro (teatro, 1906), Pobre amor, o amor de Dona Amanda (romance ou novela, 1908), A Defesa da Saúde Pública no Rio Grande do Sul (tese acadêmica, 1916), Gente Alegre (comédia, teatro, 1918), Enciclopédia Brasileira de Educação — 6 volumes (compilação de trabalhos pedagógicos, 1922-1934), Luz Suprema (versos, 1938), Cantos de Amor ao Céu e à Terra (versos, 1943), A Boneca de Sofia e o Batizado (literatura infantil, 1950) e outros títulos, além de operetas e outros textos dispersos em folhetins e colunas de jornais e revistas da época.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Hermes Fontes: A primeira pedra

 
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Corpo que se encontrou abandonado de alma,
corpo que se não pôde à ação do ar decompor,
uma pedra é uma vaga imóvel... É uma calma
recordação do mar de que foi leito a estrada,
uma vaga do mar dos Tempos, retardada,
que por aí ficou sem sentidos, parada,
adormecida por um íntimo torpor.

É a Impassibilidade esculturada. Dorme.
Secou-lhe o sangue, e não consegue apodrecer.
Vive? É possível. Morre? É provável. Conforme
a Vida e a Morte... A pedra é um ponto de partida.
É o princípio da Morte, é o princípio da Vida...
É um gesto contrariado, é uma força contida,
É o Ser que adormeceu em caminho do Ser...

(Gênese, pág. 34, 1913 [Tipografia
W. Martins & C., Rio de Janeiro.])

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Edgar Mata: Fala e pergunta pelos filhos. Onde . . . [soneto]

 
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Fala e pergunta pelos filhos. Onde
Estão agora, abandonando o doente?
Manda chamá-los, como que já sente
A grande bruma que o Mistério esconde.

Senhora! os olhos macerados ponde
Sobre essa mágoa e os corações alente
A virginal resignação dolente
Onde a alma triste, a soluçar, se esconde.

Ah! sofrimento que não tem conforto...
Beijar-lhe a face emagrecida e ardente,
Senti-lo vivo, já sonhando-o morto!

Como que a Paz dos grandes Céus baixava
Sobre ele e havia irradiações do Poente
Naquela vida que se aniquilava...

(Andrade Muricy — Panorama do Movimento
Simbolista Brasileiro, vol. II, pág. 290, Rio, 1951.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar da Mata Machado (1878 1907), mineiro de Vila Rica (atual Ouro Preto), aprendeu as primeiras letras no Rio de Janeiro, estudou Humanidades no Colégio Aquino, também no Rio, foi poeta do Simbolismo e jornalista; de retorno a Minas, passou a integrar o grupo literário Jardineiros do Ideal que se formara na ainda jovem Belo Horizonte, cidade construída para ser a nova capital do Estado; o grupo Jardineiros [Romeiros] do Ideal foi responsável pelo surgimento do Lótus, primeiro jornal literário da nova capital; em 1901 surgiu o Minas Artística, cuja direção pertenceu a Edgar Mata; em 1902, foi fundada a Horus, revista “de feitio nitidamente simbolista” que contou com a participação de Edgar Mata e outros; em 1903, o poeta, a convite de Afonso Arinos, seguiu para São Paulo e passou a fazer parte da redação do Comércio de São Paulo, periódico no qual escreveu crônicas diárias, sob o pseudônimo “Mário Corvo”; ainda em 1903, voltando para Minas, passou a residir em Diamantina, com sua avó paterna, e “ali viveu dolorosa boêmia, até completa obnubilação das faculdades mentais, falecendo repentinamente na madrugada de 26 de fevereiro de 1907, com a idade de 28 anos, quatro meses e sete dias”, conforme relato de Andrade Muricy, organizador da obra Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, volumes I e II; Edgar Mata colaborou em numerosos jornais e revistas de Minas Gerais e de São Paulo, sua produção ainda permanece dispersa; “Reza a tradição familiar, a esse respeito, que o poeta, num acesso de desespero ou hipocondria, queimou os seus versos no pátio da sua casa de Diamantina. O pouco que existe foi salvo por suas irmãs e primas que acorreram. O que resta, presentemente em mãos de seu parente Professor Celso Cunha a quem devo a gentilíssima comunicação do material que apresento são três códices com poesias de Edgar Mata e de Otávio Mata, seu parente, copiadas por várias mãos femininas.”; é o que também nos conta Andrade Muricy.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Cassiano Machado Tavares Bastos: Sombras da lua

 
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Há no mar incógnitas paisagens,
Sombras formando um bronzeado trono,
Montanhas plúmbeas, pálidas ramagens
Que eu cuido contemplar num negro sono...

Não sei o que haverá nessas paragens
Que nos meus versos diluídos canto,
Não sei que entranhas, lânguidas imagens
Podem viver nesse estrelado manto!

Ah! por que foi satélite da Terra
A Lua, esse Astro incompreensível, místico,
E vemos nós as sombras que ela encerra?...

Certo no trono que estas sombras fazem,
Jaz o perfil do meu Sonhar artístico,
E as minhas Ilusões desfeitas jovem!...

(Ermida, pág. 17, 1900, Tipografia do
Instituto Profissional, Rio de Janeiro.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Cassiano Machado Tavares Bastos (1885 1973), nascido em Santa Maria Madalena RJ, ou C. Tavares Bastos, fez seus primeiros estudos em colégio particular no Rio de Janeiro, aos 11 anos matriculou-se no Internato do Ginásio Nacional (atual Colégio  Pedro II), depois transferiu-se para o Externato do mesmo instituto, cursou a Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelou-se em Ciências e Letras, foi funcionário público, poeta do Simbolismo e tradutor; iniciando sua carreira como auxiliar de escrita da Estrada de Ferro Central do Brasil, exerceu inúmeras funções no alto escalão do serviço público e na área diplomática, aposentou-se em 1941 e passou a dedicar-se exclusivamente às letras; colaborou no semanário Rua do Ouvidor, na Folha do Dia (redigia a coluna “Crônica Semanal”, sob o pseudônimo “Cornely”), na revista Rosa Cruz e na revista Sousa Cruz, estas últimas de inspiração simbolista; traduziu Victor Hugo, Baudelaire e Dante; escreveu e publicou Ermida (poesia, versos dos 15 aos 17 anos, 1900), Versões Poéticas Brasileiras de Victor Hugo (1952), Dante e Outros Poetas Italianos na Interpretação Brasileira (1953), Baudelaire no Idioma Vernáculo (1963), Trovas do Crepúsculo (poesias, 1965), além de ter produzido vários livros na área de Estatística; Cassiano Machado foi participante ativo no movimento simbolista ao lado dos amigos e companheiros literários Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Carlos D. Fernandes, Castro Meneses e outros; seu estudo “Como surgiram os Místicos da Rosa Cruz (O Simbolismo no Brasil A Influência de Saturnino de Meireles Os discípulos de Cruz e Sousa Vicissitudes de uma Revista de Arte)”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de março de 1937, é de importância fundamental para a história do simbolismo brasileiro, na sua segunda fase, no relato de Andrade Muricy, organizador da obra Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, volumes I e II.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Saturnino de Meireles: Estrelas

 
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Amo-as assim serenamente frias
Nesse vago crepúsculo sonhado,
Lembrando as formosuras fugidias
Que um outro Dante já tivesse amado.

Amo-as assim tão brancas e erradias,
Como se fossem para o seu noivado,
Cantando então as fundas nostalgias
Que em lírios abrem nosso amor velado.

Estrelas tristes que o silêncio canta
Nas harpas frias desse véu deserto
Que todo em névoas nosso ser quebranta.

Estrelas tristes, pálidas estrelas,
Que eu quisera de mim sentir bem perto
E só na mão poder então contê-las.

(Astros Mortos, pág. 63 a 66, Tipografia
Leuzinger, Rio de Janeiro, 1903.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Saturnino Soares de Meireles Filho (1878 1906), nascido no Rio de Janeiro [cidade e estado], foi poeta, ensaísta e ativista do simbolismo; apesar de ter tido apenas um emprego modesto numa companhia de seguros, foi de uma dedicação absoluta a Cruz e Sousa, de quem era amigo e discípulo e a quem reservava a quarta parte de seu parco salário; sobre Saturnino, escreveu Andrade Muricy "Mais do que a sua produção, a sua ação garante-lhe durabilidade à memória."; em seu único livro publicado em vida, Astros Mortos (1903), o poeta Saturnino Meireles fez dedicatória ao paupérrimo poeta negro, chamando-o de "grande mestre e divino amigo"; morto Cruz e Sousa em 19 de março de 1898, pagou-lhe a edição de Evocações [publicada postumamente naquele ano] e contribuiu para a publicação de Faróis [1900]; adquiriu, no Cemitério São Francisco Xavier, o terreno onde se ergueu o mausoléu do amigo e, finalmente, foi um dos fundadores e sustentadores da revista Rosa-Cruz (1901 1904), a qual tinha a finalidade de cultuar a memória de Cruz e Sousa, seu ídolo; sem dúvida, chefe desse grupo, Saturnino acabou por se tornar um dos mais importantes ativistas do movimento simbolista; suas obras: Astros Mortos (sonetos, 1903), Intuições (edição póstuma, prosa: crítica, teoria ou história literária, 1906), e o poeta também deixou inéditos: Kyola [drama teatral], Meus Íntimos [prosa], Estufa Espiritual [poemas], Meu Arquivo [coletânea de artigos publicados em jornais e revistas]; teve textos publicados com o pseudônimo Satur.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Edgar Mata: A garça

 
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Na grande paz da noite a Garça branca cisma,
Entre os velhos juncais do paludoso lago,
Embebida num sonho etereamente vago
Sonolência do luar que na amplidão se abisma.

E quem sabe se da ave a Alma não guarda um prisma
De estranhas emoções, de redolente afago,
Onde se decompõe, num grande íris pressago,
De mortas sensações um doloroso Crisma?

E a velha Garça exul cisma na noite aziaga;
E que espirais de Sonho e que tremendo abismo
Sua Alma lhe revela, inconsciente e vaga!

Porém nada perturba o pávido mutismo;
E a ave, que a Saudade, imponderada alaga,
Do triste Luar contempla o amplo sonambulismo.

(Andrade Muricy — Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro, vol, II, págs. 288-289, Rio, 1951.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar da Mata Machado (1878 1907), mineiro de Vila Rica (atual Ouro Preto), aprendeu as primeiras letras no Rio de Janeiro, estudou Humanidades no Colégio Aquino, também no Rio, foi poeta do Simbolismo e jornalista; de retorno a Minas, passou a integrar o grupo literário Jardineiros do Ideal que se formara na ainda jovem Belo Horizonte, cidade construída para ser a nova capital do Estado; o grupo Jardineiros [Romeiros] do Ideal foi responsável pelo surgimento do Lótus, primeiro jornal literário da nova capital; em 1901 surgiu o Minas Artística, cuja direção pertenceu a Edgar Mata; em 1902, foi fundada a Horus, revista “de feitio nitidamente simbolista” que teve a participação de Edgar Mata e outros; em 1903, o poeta, a convite de Afonso Arinos, seguiu para São Paulo e passou a fazer parte da redação do Comércio de São Paulo, periódico no qual escreveu crônicas diárias, sob o pseudônimo “Mário Corvo”; ainda em 1903, voltando para Minas, passou a residir em Diamantina, com sua avó paterna, e “ali viveu dolorosa boêmia, até completa obnubilação das faculdades mentais, falecendo repentinamente na madrugada de 26 de fevereiro de 1907, com a idade de 28 anos, quatro meses e sete dias”, conforme relato de Andrade Muricy, organizador de Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro ...; Edgar Mata colaborou em numerosos jornais e revistas de Minas Gerais e de São Paulo, sua produção ainda permanece dispersa; “Reza a tradição familiar, a esse respeito, que o poeta, num acesso de desespero ou hipocondria, queimou os seus versos no pátio da sua casa de Diamantina. O pouco que existe foi salvo por suas irmãs e primas que acorreram. O que resta, presentemente em mãos de seu parente Professor Celso Cunha a quem devo a gentilíssima comunicação do material que apresento são três códices com poesias de Edgar Mata e de Otávio Mata, seu parente, copiadas por várias mãos femininas.”; é o que também nos conta Andrade Muricy.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Edgar Mata: Andam pelo ar jejuns e penitências . . . [soneto]

 
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Andam pelo ar jejuns e penitências
De monges ciliciados e contritos;
Salmos chorosos d’esquecidos ritos
E um perfume de místicas essências.

Choram nos ermos violões plangências
E agonias humanas de precitos;
Cruzam-se preces, misereres, gritos,
Das emoções as rubras florescências.

E tudo sobe para os Céus remotos,
Na luta ascensional de extremos votos,
Blasfêmias negras e orações de santos!

E tudo sobe, numa estranha guerra!
E sobre a mágoa Vesperal da terra
Cai um dilúvio universal de prantos...

(Andrade Muricy — Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro, vol, II, págs. 289-290, Rio, 1951.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar da Mata Machado (1878 1907), mineiro de Vila Rica (atual Ouro Preto), aprendeu as primeiras letras no Rio de Janeiro, estudou Humanidades no Colégio Aquino, também no Rio, foi poeta do Simbolismo e jornalista; de retorno a Minas, passou a integrar o grupo literário Jardineiros do Ideal que se formara na ainda jovem Belo Horizonte, cidade construída para ser a nova capital do Estado; o grupo Jardineiros [Romeiros] do Ideal foi responsável pelo surgimento do Lótus, primeiro jornal literário da nova capital; em 1901 surgiu o Minas Artística, cuja direção pertenceu a Edgar Mata; em 1902, foi fundada a Horus, revista “de feitio nitidamente simbolista” que teve a participação de Edgar Mata e outros; em 1903, o poeta, a convite de Afonso Arinos, seguiu para São Paulo e passou a fazer parte da redação do Comércio de São Paulo, periódico no qual escreveu crônicas diárias, sob o pseudônimo “Mário Corvo”; ainda em 1903, voltando para Minas, passou a residir em Diamantina, com sua avó paterna, e “ali viveu dolorosa boêmia, até completa obnubilação das faculdades mentais, falecendo repentinamente na madrugada de 26 de fevereiro de 1907, com a idade de 28 anos, quatro meses e sete dias”, conforme relato de Andrade Muricy, organizador do Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro ...; Edgar Mata colaborou em numerosos jornais e revistas de Minas Gerais e de São Paulo, sua produção ainda permanece dispersa; “Reza a tradição familiar, a esse respeito, que o poeta, num acesso de desespero ou hipocondria, queimou os seus versos no pátio da sua casa de Diamantina. O pouco que existe foi salvo por suas irmãs e primas que acorreram. O que resta, presentemente em mãos de seu parente Professor Celso Cunha a quem devo a gentilíssima comunicação do material que apresento são três códices com poesias de Edgar Mata e de Otávio Mata, seu parente, copiadas por várias mãos femininas.”; é o que também nos conta Andrade Muricy.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Cícero França: Olhar aziago

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Para o Santa Rita Júnior

A luz daquele olhar que eu canto no meu verso,
Daquele olhar sombrio, olhar triste, aziago,
Andar doente faz-me, andar soturno, imerso
Da mais austera dor no funerário lago.

Daquele olhar tristonho, olhar que eu amo e afago,
A luz mortiça e calma o riso faz inverso...
Faz-me o cálix sorver do amargor, trago a trago,
Do amargor mais cruel que existe no Universo...

Aquele olhar, silente, olhar duns negros olhos,
Banha-me da tristeza atroz do cemitério
E me enche do terror que infunde um mar de escolhos...

Tem-me feito sofrer e me fará, magoado,
Descer à sepultura, ao badalar funéreo
Dos sinos duma igreja em dobres de finado!...

Bahia — 1902.
(Necrotério d’Alma, 2ª edição, pág. 11, Curitiba, 1953.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Cícero Marcondes de França (1884 1908), paranaense nascido em Fazendinha, hoje Fazenda Rosal do Cruzeiro, município de Palmas PR, estudou no Colégio Paranaense, consta ter frequentado as Faculdades de Direito de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, mas não chegou a concluir o curso, foi poeta do simbolismo; ainda estudante colegial, escreveu seus primeiros versos e os publicou n’O Estudo, periódico cultural do Colégio; em 1905, já acometido da tuberculose e debilitado há algum tempo, em Curitiba, organizou e lançou o livro Necrotério d’Alma (obra composta por 26 sonetos) e, em União da Vitória, fundou o jornal O Rebate; ainda em 1905, a revista simbolista Stellario, de Curitiba, contou com a colaboração do poeta; consta das escassas notícias e notas biográficas a respeito de Cícero França que, em 1908, já tendo se afastado dos estudos e bastante enfraquecido, o poeta, acompanhado de seu irmão caçula Vespertino França, de doze anos de idade, em viagem de Curitiba com destino a Porto União, na passagem por Ponta Grossa hospedou-se no Hotel Palermo e ali faleceu na noite de 10 de julho; o relato de seu irmão é que conversaram até quase de madrugada e foram dormir: Vespertino, a testemunha do fato, foi a última e “a única pessoa presente nas suas derradeiras horas de vida” e a primeira pessoa que viu o corpo na manhã do dia seguinte; a obra Necrotério d’Alma, que teve uma segunda edição em 1953 (acrescida de Pedras Brutas, póstumo, incluindo outros 27 sonetos), nos revela o poeta simbolista e decadentista e assim também Cícero França é consignado quando citado por estudos e antologias literárias do simbolismo.