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terça-feira, 3 de outubro de 2023

T. S. Eliot: Manhã à Janela

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[traduzido por Ivan Junqueira]

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

As fulvas ondas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Prufrock e outras observações — 1917

T. S. Eliot

Morning at the Window

They are rattling breakfast plates in basement kitchens,
And along the trampled edges of the street
I am aware of the damp souls of housemaids
Sprouting despondently at area gates.

The brown waves of fog toss up to me
Twisted faces from the bottom of the street,
And tear from a passer-by with muddy skirts
An aimless smile that hovers in the air
And vanishes along the level of the roofs.

[From Prufrock, and other observations (The Egoist, Ltd, 1917)]

* Nota do tradutor Ivan Junqueira: Escrito em Oxford, Inglaterra, 1915; é possível que este poema haja sido escrito em 1915, quando Eliot ainda realizava seus estudos sobre os pré-socráticos na Merton College, em Oxford, mas sua publicação data do ano seguinte, na revista Poetry, VIII, a 6 de setembro de 1916. Conforme suspeição de G[rover]. Smith ([1923 — 2014], in T. S. Eliot’s Poetry and Plays, 1956), “Manhã à Janela” teria sido inspirado por uma cena banal que Eliot presenciou ao longo de uma rua que leva à Russel Square, em Londres, durante o outono de 1914, quando o poeta residia então na Bradford Place, 28.
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Poesia: T. S. Eliot — Tradução, Introdução, Nota biográfica e Notas de Ivan Junqueira, 3ª edição, 1981, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

domingo, 24 de setembro de 2023

T. S. Eliot: East Coker* [excerto]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[ . . . ]

III
Ó escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários comitês,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulham no
escuro,1
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha2,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa baixar o escuro sobre ti3,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre
treva4,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados para longe5
Ou quando, no metrô, um trem se demora entre duas estações
E as conversas se animam e lentamente no vazio tombam
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente, mas consciente de
nada
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e espera sem esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera sem amor
Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há-de o repouso se
tornar.

[ . . . ]

T. S. Eliot

East Coker

[ . . . ]

III
O dark dark dark. They all go into the dark,
The vacant interstellar spaces, the vacant into the vacant,
The captains, merchant bankers, eminent men of letters,
The generous patrons of art, the statesmen and the rulers,
Distinguished civil servants, chairmen of many committees,
Industrial lords and petty contractors, all go into the dark,
And dark the Sun and Moon, and the Almanach de Gotha
And the Stock Exchange Gazette, the Directory of Directors,
And cold the sense and lost the motive of action.
And we all go with them, into the silent funeral,
Nobodys funeral, for there is no one to bury.
I said to my soul, be still, and let the dark come upon you
Which shall be the darkness of God. As, in a theatre,
The lights are extinguished, for the scene to be changed
With a hollow rumble of wings, with a movement of darkness on
darkness,
And we know that the hills and the trees, the distant panorama
And the bold imposing facade are all being rolled away
Or as, when an underground train, in the tube, stops too long between
stations
And the conversation rises and slowly fades into silence
And you see behind every face the mental emptiness deepen
Leaving only the growing terror of nothing to think about;
Or when, under ether, the mind is conscious but conscious of nothing
I said to my soul, be still, and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing; wait without love
For love would be love of the wrong thing; there is yet Faith
But the faith and the love and the hope are all in the waiting.
Wait without thought, for you are not ready for thought:
So the darkness shall be the light, and the stillness the dancing.

[ . . . ]

Notas do tradutor Ivan Junqueira:
* East Coker é o nome de aldeia que se estende nos arredores de Yeovil, no Condado de Somerset, Inglaterra, distante 32 quilômetros do litoral da Mancha. Foi daí que, em em 1667, o Rvdo. Andrew Eliot, um dos primeiros ancestrais do poeta, emigrou para a Nova Inglaterra, Estados Unidos, iniciando assim o ramo norte-americano da família Eliot. East Coker foi lançado no semanário londrino The New English Weekly, a 21 de março de 1940. A primeira edição isolada é de 12 de setembro de 1940.
1. Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras . . . [Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos mergulharam no escuro,]. Cf. Apocalipse, VI, 5: “ Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos, e todo o escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes.”;
2. Almanaque de Gotha. Espécie de almanaque genealógico do mundo;
3. Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa que baixe o escuro sobre ti. É aqui bastate palpável a lembrança de Baudelaire, no soneto “Récueillement”, Les Fleurs du Mal, “Sois sage, ô ma Douleur, et tiens ti plus tranquille. / Tu réclamais le Soir; il descend . . . ”. O mesmo poeta já fora “eliotizado” no final da primeira seção de A Terra Desolada, verso 76, assim como em Burnt Norton, II, 49-50;
4. Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento de treva sobre treva. Maioria dos comentadores e exegetas de Eliot sustenta que o verso evoca o ronco dos aviões nazistas que bombardearam Londres entre 1940-42, período em que foram escritos os três últimos Quartetos. É fato sabido, aliás, que estes poemas estão repletos de alusões à Segunda Guerra Mundial;
5. E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama / E a soberba fachada altiva estão sendo arrastadas para longe. Cf. Apocalipse, VI, 13-14: “As estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então todos os montes e ilhas foram movidos dos seus lugares.”
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Poesia: T. S. Eliot — Tradução, Introdução, Nota biográfica e Notas de Ivan Junqueira, 3ª edição, 1981, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Mikhail Lomonósov: Meditação noturna sobre a Divina Majestade por ocasião da aurora boreal

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[traduzido por Marco Lucchesi]

Oculta seu rosto o dia,
desce a noite fantasmal,
sombras pela serrania,
já dormiu o astro real,
abre-se o abismo sem fundo,
quantas estrelas no fundo!

Grão de areia sobre o mar,
nas geleiras fogaréu,
pluma que se vê passar
como poalha no céu.
Eis o que sou nessa altura,
que me abrasa e me tortura.

Lá, dizem as lumeeiras,
há mundos em profusão,
mais de mil sóis as fogueiras,
e seus povos são legião.
E para a glória eternal
sua força é toda igual.

Onde a tua lei, Natura?
Alba além do setentrião!
Habita o sol, por ventura,
lá onde nasce Aquilão?
Fogo frio nos envia
e da noite faz o dia.

Homens de vista atrevida,
descobristes plenamente
as profundas leis da vida,
que rege o menor dos entes
como todos os planetas,
dizei, quanto nos inquieta?

Quem, de noite, o raio inflama?
Quem tira o fogo da terra?
Que relâmpagos, que chama
dos torrões o céu descerra?
Por que gélido vapor
engendra invernal fulgor?

Passam as ondas e a bruma
ou Febo raios envia
pelo ar, e não ressuma?
Ou arde a montanha fria?
Ou se acalma o doce vento
e o mar beija o firmamento?

Eis a sombra e o profundo,
que recai nos circundantes.
Dizei, pois, se é grande o mundo?
Que guardam astros distantes?
Os viventes conheceis?
Do Criador, que sabeis?

Mikhail Lomonósov

Вечернее размышление о Божием величестве при случае великого северного сияния

Лице свое скрывает день:
Поля покрыла мрачна ночь;
Взошла на горы чорна тень;
Лучи от нас склонились прочь;
Открылась бездна, звезд полна;
Звездам числа нет, бездне дна.

Песчинка как в морских волнах,
Как мала искра в вечном льде,
Как в сильном вихре тонкой прах,
В свирепом как перо огне,
Так я, в сей бездне углублен,
Теряюсь, мысльми утомлен!

Уста премудрых нам гласят:
Там разных множество светов;
Несчетны солнца там горят,
Народы там и круг веков:
Для общей славы Божества
Там равна сила естества.

Но где ж, натура, твой закон?
С полночных стран встает заря!
Не солнце ль ставит там свой трон?
Не льдисты ль мещут огнь моря?
Се хладный пламень нас покрыл!
Се в ночь на землю день вступил!

О вы, которых быстрый зрак
Пронзает в книгу вечных прав,
Которым малый вещи знак
Являет естества устав,
Вы знаете пути планет;
Скажите, что наш ум мятет?

Что зыблет ясный ночью луч?
Что тонкий пламень в твердь разит?
Как молния без грозных туч
Стремится от земли в зенит?
Как может быть, чтоб мерзлый пар
Среди зимы рождал пожар?

Там спорит жирна мгла с водой;
Иль солнечны лучи блестят,
Склонясь сквозь воздух к нам густой;
Иль тучных гор верхи горят;
Иль в море дуть престал зефир,
И гладки волны бьют в эфир.

Сомнений полон ваш ответ
О том, что окрест ближних мест.
Скажите ж, коль пространен свет?
И что малейших дале звезд?
Несведом тварей вам конец?
Кто ж знает, коль велик Творец?

1743 г.
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Mikhail Vasilyevich Lomonosov (1711 1765), russo de Denisovka, atual Lomonosov, graduado na Universidade da Academia Imperial de Ciências, em São Petersburgo, e com formação acadêmica completada nas universidades de Marburg e Freiberg, na Alemanha, foi físico, químico, astrônomo, professor, gramático, escritor, poeta, ... um autêntico polímata; após estudos na Alemanha, foi nomeado professor de química da Academia de Ciências de São Petersburgo, e também recebeu a missão de construir um laboratório de pesquisas; Lomonosov é considerado pioneiro em muitas áreas do conhecimento, tais como física, filosofia, literatura e criador da formação da cultura russa moderna; textos do polímata Lomonosov: Pismo o pravilakh rossiyskogo stikhotvorstva (Carta sobre as regras da versificação russa), 276 zametok po fizike i korpuskulyarnoy filosofi (276 Notas sobre Filosofia e Física Corpuscular), Slovo o polze khimi (Слово о пользе химии, Discurso sobre a utilidade da química, 1751), Pismo k II Shuvalovu o polze stekla (Carta a II Shuvalov sobre a utilidade do vidro, 1752), Rossiyskaya grammatika (Gramática Russa), Kratkoy rossiyskoy letopisets (Crônica Russa Curta), Slovo o proiskhozhdeni sveta (Origem da Luz e das Cores, 1756), etc., etc...; escreveu, em latim, as Meditationes de Caloris et Frigoris Causa (Causa do Calor e Frio, 1747), o Tentamen Theoriae de vi Aëris Elastica (Força Elástica do Ar, 1748) e Theoria Electricitatis (Teoria da Eletricidade, 1756) e traduziu para o russo as Institutiones philosophiae experimentalis, de Christian Wolff (Estudos de filosofia experimental); teve a originalidade de vários de seus artigos reconhecidos pelo amigo e célebre matemático suíço Leonhard [Paul] Euler [1707 1783], os quais, a seu conselho, foram publicados pela Academia Russa no Novye kommentari; em 1937, estudiosos soviéticos publicaram uma biografia do polímata e, depois, vieram à luz os 11 volumes de Polnoye sobraniye sochineny (Полное собрание сочинений, Obras Completas, 19501983); em 1940, a Universidade de Moscou passou a se chamar Universidade Lomonosov.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Vielimir Khliébnikov: Números

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[traduzido por Marco Lucchesi]

Eu vos contemplo, ó números!,
vestidos de animais, em suas peles,
as mãos sobre carvalhos destroçados.
Mostrais a união entre o serpear
da espinha dorsal do universo e o bailado da balança.
Permitis a compreensão dos séculos, como os dentes numa breve
gargalhada.
Meus olhos se arregalam intensamente.
Aprender o destino do Eu, se a unidade é seu dividendo.

[1912]

Vielimir Khliébnikov

ЧИСЛА

Я всматриваюсь в вас, о, числа,
И вы мне видитесь одетыми в звери, в их шкурах,
Рукой опирающимися на вырванные дубы.
Вы даруете единство между змееобразным движением
Хребта вселенной и пляской коромысла,
Вы позволяете понимать века, как быстрого хохота зубы.
Мои сейчас вещеобразно разверзлися зеницы
Узнать, что будет [Я], когда делимое его единица.

[1912]
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções bilíngue de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Vielimir Khliébnikov: Meninas, aquelas que passam, . . . [Versos a Blok*]


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[traduzido por Marco Lucchesi]

Meninas, aquelas que passam,
calçando botas de olhos negros,
nas flores de meu coração.
Meninas que pousam as lanças
no lago de suas pupilas
Meninas que lavam as pernas
no lago de minhas palavras.

[1921]

Vielimir Khliébnikov

Девушки, те, что шагают
Сапогами черных глаз
По цветам моего сердца.
Девушки, опустившие копья
На озера своих ресниц.
Девушки, моющие ноги
В озере моих слов.

[1921]

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em Bizâncio [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], o poema ora postado está registrado com ausência do nome Versos a Blok.
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções bilíngue de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

domingo, 9 de abril de 2023

Fiódor Tiuchev: Silentium


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[traduzido por Marco Lucchesi]

Ao silêncio te abalança,
guarda anseios e esperanças
em teu abismo de estrelas,
lá, onde brilham qual velas,
contempla na alma sagrada,
contempla sem dizer nada!

Como abrir teu coração?
Como dizer teu desvão?
Quanto vale tua verdade?
Fora, tudo é falsidade.
Deixa a fonte imperturbada,
e bebe sem dizer nada!

Aprende coa solidão:
moram em teu coração
mistérios e melodias,
que fogem da luz do dia
e dos rumores da estrada,
ouve o canto e não diz nada!...

Fiódor Tiuchev

Silentium

Молчи, скрывайся и таи
И чувства и мечты свои
Пускай в душевной глубине
Встают и заходят оне
Безмолвно, как звезды в ночи,
Любуйся ими и молчи.

Как сердцу высказать себя?
Другому как понять тебя?
Поймет ли он, чем ты живешь?
Мысль изреченная есть ложь;
Взрывая, возмутишь ключи,
Питайся ими и молчи.

Лишь жить в себе самом умей
Есть целый мир в душе твоей
Таинственно-волшебных дум;
Их оглушит наружный шум,
Дневные разгонят лучи,
Внимай их пенью и молчи!...

[<1829>, начало 1830-х годов]
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Fiódor Ivanovitch Tiútchev, ou Fiódor Tiuchev, (1803 1873), nascido em Ovstug [hoje distrito de Zhukovsky], Império Russo, estudou na Faculdade de História e Filologia da Universidade de Moscou, foi escritor, poeta, diplomata, filósofo, publicitário político, tradutor e jornalista de opinião; aprendeu latim e desde a sua infância dominava o francês, foi criado em uma família onde só se falava este idioma; suas cartas, artigos escritos em anos posteriores, e mesmo alguns de seus poemas, tudo era escrito em francês; aos doze anos traduziu Horace para o russo e escreveu seu primeiro poema aos dezesseis; já aos dezenove ingressou no serviço público do Departamento de Relações Exteriores de Petersburgo e, por força de seu ofício na diplomacia, viveu por mais de duas décadas na Europa (muito mais em MuniqueAlemanha, um pouco em TurimItália); no campo literário, tido como sendo do período romântico tardio, Tiútchev, que não se considerava um poeta profissional, foi pouco conhecido em vida; escreveu cerca de 300 poemas curtos em russo, chamando-os de bagatelas e não dignos de serem publicados; geralmente não se preocupava em escrever e, se o fizesse, muitas vezes perdia os papéis rabiscados; apenas em 1854 teve impresso seu primeiro volume de versos, preparado por Ivan Turgenev e outros, sem qualquer ajuda do autor; alguns de seus poemas só foram encontrados após a sua morte; Fiódor Tiútchev, um homem capaz de se comunicar com os centros intelectuais de toda a Europa, foi aceito em pé de igualdade entre os principais pensadores políticos de sua época na Inglaterra, Alemanha e França.

domingo, 2 de abril de 2023

Vielimir Khliébnikov: Eu e a Rússia

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[traduzido por Marco Lucchesi]

A Rússia libertou milhares e milhares.
Um gesto nobre! Um gesto inesquecível!
Mas eu tirei a camisa
e cada arranha-céu espelhado de meus cabelos,
cada ranhura
da cidade do corpo
expôs seus tapetes e tecidos de púrpura.
As cidadãs e os cidadãos
do Estado Mim
juntavam-se às janelas dos cabelos,
as olgas e os ígores,
não por imposição,
mas para saudar o Sol, através da pele.
Caiu a prisão da camisa!
Nada mais fiz do que tirá-la.
Estava nu junto ao mar.
Dei Sol aos povos de Mim!
Assim eu libertava
milhares e milhares.

Vielimir Khliébnikov

Я И РОССИЯ

Россия тысячам тысяч свободу дала.
Милое дело! Долго будут помнить про это.
А я снял рубаху,
И каждый зеркальный небоскреб моего волоса,
Каждая скважина
Города тела
Вывесила ковры и кумачовые ткани.
Гражданки и граждане
Меня государства
Тысячеоконных кудрей толпились у окон.
Ольги и Игори,
Не по заказу
Радуясь солнцу, смотрели сквозь кожу.
Пала темница рубашки!
А я просто снял рубашку
Дал солнце народам Меня!
Голый стоял около моря.
Так я дарил народам свободу,
Толпам загара.

[1921]
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções bilíngue de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей, 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente; em 1923, editou-se um seu livro de versos: em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se em cinco volumes uma edição de suas obras, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidosde seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

domingo, 19 de março de 2023

Fiódor Tiuchev: Há nas ondas marinhas melodia, . . .

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[traduzido por Marco Lucchesi]

Est in arundineis modulatio musica ripis
Ausonius

Há nas ondas marinhas melodia,
no som dos elementos, harmonia;
sussurro musical que salmodia
o curvo bambuzal ao fim do dia.

Impera a consonância universal,
segue a natura uma tonalidade,
somente em nossa falsa liberdade
sentimos a mudança universal.

De que maneira surge a dissonância?
Por que longe do coro de elementos
a alma desafina os pensamentos,
um caniçal pensando a própria ânsia?

Por que, da terra ao astro mais distante,
não há resposta para a voz que chora,
ó solidão da alma, alta e sonora,
seu próprio desespero lancinante?

Fiódor Tiuchev

Est in arundineis modulatio musica ripis
Ausonius

Певучесть есть в морских волнах,
Гармония в стихийных спорах,
И стройный мусикийский шорох
Струится в зыбких камышах.

Невозмутимый строй во всем,
Созвучье полное в природе,
Лишь в нашей призрачной свободе
Разлад мы с нею сознаем.

Откуда, как разлад возник?
И отчего же в общем хоре
Душа не то поет, что море,
И ропщет мыслящий тростник?

И от земли до крайних звезд
Всё безответен и поныне
Глас вопиющего в пустыне,
Души отчаянной протест?
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Fiódor Ivanovitch Tiútchev, ou Fiódor Tiuchev, (1803 1873), nascido em Ovstug [hoje distrito de Zhukovsky], Império Russo, estudou na Faculdade de História e Filologia da Universidade de Moscou, foi escritor, poeta, diplomata, filósofo, publicitário político, tradutor e jornalista de opinião; aprendeu latim e desde a sua infância dominava o francês, foi criado em uma família onde só se falava este idioma; suas cartas, artigos escritos em anos posteriores, e mesmo alguns de seus poemas, tudo era escrito em francês; aos doze anos traduziu Horace para o russo e escreveu seu primeiro poema aos dezesseis; já aos dezenove ingressou no serviço público do Departamento de Relações Exteriores de Petersburgo e, por força de seu ofício na diplomacia, viveu por mais de duas décadas na Europa (muito mais em MuniqueAlemanha, um pouco em TurimItália); no campo literário, tido como sendo do período romântico tardio, Tiútchev, que não se considerava um poeta profissional, foi pouco conhecido em vida; escreveu cerca de 300 poemas curtos em russo, chamando-os de bagatelas e não dignos de serem publicados; geralmente não se preocupava em escrever e, se o fizesse, muitas vezes perdia os papéis rabiscados; apenas em 1854 teve impresso seu primeiro volume de versos, preparado por Ivan Turgenev e outros, sem qualquer ajuda do autor; alguns de seus poemas só foram encontrados após a sua morte; Fiódor Tiútchev, um homem capaz de se comunicar com os centros intelectuais de toda a Europa, foi aceito em pé de igualdade entre os principais pensadores políticos de sua época na Inglaterra, Alemanha e França.

sábado, 3 de dezembro de 2022

T. S. Eliot: A Terra Desolada* [trechos]


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[traduzido por Ivan Junqueira]

[I – O Enterro dos Mortos]

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos,
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre de morte ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! mon semblable , mon frère!”

T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.

T. S. Eliot

The Waste Land

[I. The Burial of the Dead]

APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

[ . . . ]

Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying ‘Stetson!
‘You who were with me in the ships at Mylae!
‘That corpse you planted last year in your garden,
‘Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
‘Or has the sudden frost disturbed its bed?
‘Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
‘Or with his nails he’ll dig it up again!
‘You! hypocrite lecteur! mon semblable, mon frère!’

[T.S. Eliot — Poesia, Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1981.]

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado que o longo poema A Terra Desolada (The Waste Land), publicado pela primeira vez em 1922 na revista Criterion, é composto de 5 tópicos; ora estão expostos e traduzidos dois trechos do primeiro tópico, I. O Enterro dos Mortos (I. The Burial of the Dead).
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.