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domingo, 15 de julho de 2012

Antônio Moura: Escrever


Escrever para supraviver
por um momento, ou ser

inteiramente num instante
em que passado, presente


e futuro se fundem numa
chama única e transparente.


Escrever para ver num lago
branco ao lado negro de Narciso,


luz e sombra velando-se e
revelando-se nas pontas do


sorriso  anjo-monstro, que
nas águas aparece refletido.

Escrever, riscar à carvão na própria
lápide o brilho cego de diamantes.


Escrever, morrer e aspirar, eterna
mente, a poeira de uma estante.
Rio Silêncio (2004)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Antônio Moura, paraense de Belém, nascido em 1963, poeta, letrista, publicitário e roteirista de cinema e vídeo, publicou Dez (Super Cores, 1996), Hong Kong & outros poemas (Ateliê Editorial, 1999), Rio Silêncio (Lumme Editor, 1999) e Quase-Sonhos (tradução de Presque-songes, de Jean-Joseph Rabearivelo  Lumme Editor, 2004); tem trabalhos publicados em diversas revistas brasileiras (Cult, Suplemento Literário de Minas Gerais e Sibila) e em antologias nacionais e internacionais.

domingo, 8 de julho de 2012

Marco Lucchesi: Boi

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tive um boi
    na minha infância
               boi trazido
      pelo vento

seu mugido

       era intangível


e os olhos
         lassos
     cheios de piedade


                             boitempo


                   de uma infância

que não passa
Sphera (2003)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Marco Lucchesi, carioca nascido em 1963, é também, além de poeta e romancista, professor, ensaísta e tradutor, por diversas vezes premiado na área de literatura; com livros traduzidos para o romeno, alemão, sueco, árabe e persa, publicou, dentre outras obras, Teatro Alquímico (Prêmio Eduardo Freire), Sphera (menção honrosa do Prêmio Jabuti, Record, 2003), A Memória de Ulisses (Prêmio João Fagundes de Meneses, Civilização Brasileira, 2006), Meridiano Celeste & Bestiário (Prêmio Alphonsus de Guimaraens, Record, 2006), Ficções de um Gabinete Ocidental (Prêmio Ars Latina de Ensaio e Prêmio Orígenes Lessa, Civilização Brasileira, 2009), O dom do Crime (romance, finalista do Prêmio São Paulo e Prêmio Machado de Assis, Record, 2010), A sombra do amado: poemas de Rumi (Prêmio Jabuti) etc.

sábado, 7 de julho de 2012

Fabrício Carpinejar: Meu filho comigo


Meu filho, não terminamos
de conversar mesmo dormindo.
Nossas tosses continuam o assunto.

Uma responde à outra.
Uma completa a outra.
São tosses educadas,

que não ofendem a noite.
Somos tremendamente
felizes na doença.
Meu filho, minha filha (2007)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Fábio Carpinejar, gaúcho de Caxias do Sul nascido em 1972, é poeta, cronista, jornalista e professor autor dos livros de poesia As solas do sol (2 ed., Bertrand Brasil, 1998), Um terno de pássaro ao sul (3 ed., Bertrand Brasil, 2000), Terceira sede (2 ed., Escrituras, 2000), Biografia de uma árvore 2 ed., Escrituras, 2002), Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003), Meu filho, minha filha (2 ed., Bertrand Brasil, 2007), entre outros de crônicas e de literatura infantil.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ana Elisa Ribeiro: Antiguidade d'onde viemos

Resultado de imagem para roteiro da poesia brasileira anos 90
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Péricles disse
que a maior virtude
de uma mulher
era ficar calada.

Péricles se fodeu.

Péricles, hoje,
levaria uma surra
dada por mil mulheres
como eu.


Fresta por onde olhar (2008)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Ana Elisa Ribeiro, mineira nascida em 1975 e vivente em Belo Horizonte desde sempre, formou-se em Letras e é doutora em Linguística Aplicada (Linguagem e Tecnologia) pela UFMG; publicou Perversa (2002, Ciência do Acidente), Fresta por onde olhar (2008, Editorial Interditado)..., além de microcontos e poemas em revistas; é cronista do digestivocultural e pilota uma página na Internet: anadigital

sábado, 30 de junho de 2012

Fabio Weintraub: Barrabás


Vocês não podem velar
o corpo do meu marido
ao lado desse aí
que a polícia acertou

Vocês me desculpem
imagino o sofrimento
perder um filho assim moço

Meu Cícero
morreu trabalhando
Um tiro pelas costas
às duas da manhã
Ao lado do desse aí
o corpo dele não vai gelar

Não adianta insistir
ao lado de bandido
meu marido não fica
Novo Endereço (2002)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Fabio Weintraub, paulista e paulistano nascido em 1967, psicólogo e poeta, é autor dos seguintes livros de poesia: Sistema de Erros (Pau-Brasil, 1996), ganhador do prêmio Nascente 1994, Novo Endereço (Nankin/Funalfa, 2002), ganhador dos prêmios Cidade de Juiz de Fora 2001 e Casa de Las Américas 2003, e Baque (Editora 34, 2007); trabalha como editor e é doutorando em Teoria Literária na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo  FFLCHUSP). 

domingo, 24 de junho de 2012

Frederico Barbosa: DESEXISTIR

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QUANDO EU DESISTI
DE ME MATAR
JÁ ERA TARDE.

DESEXISTIR
JÁ ERA UM HÁBITO.

JÁ DISPARARA
A AUTOBALA:
COBRA CEGA SE COMENDO
COMO QUEM CAVA
A PRÓPRIA VALA.

JÁ ME QUEIMARA.

PONTES, ESTRADAS,
MEMÓRIAS, CARTAS,
TODA SAÍDA DINAMITADA.

QUANDO EU DESISTI
NÃO TINHA VOLTA.

PASSARA DO PONTO.
JÁ NÃO ERA MAIS
A HORA EXATA.

Contracorrente (2000)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo  SP; Frederico Barbosa, pernambucano de Recife, nascido em 1961, é poeta e crítico literário; publicou Rarefato (Iluminuras, 1990), Nada feito nada (ganhador do Prêmio Jabuti, Perspectiva, 1993), Contracorrente (Iluminuras, 2000), Louco no oco sem beiras (Ateliê Editorial, 2001), Cantar de amor entre os escombros (Landy, 2002), A construção do zero (Lamparina, 2004) e, em parceria com Antonio Risério, Brasibraseiro (ganhador, pela segunda vez, do Prêmio Jabuti, 2004); tem poemas traduzidos e publicados em diversas coletâneas de em Portugal, Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia; participante de organismos ligados à literatura, hoje é supervisor de Ações Culturais da Casa das Rosas Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo SP.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Majela Colares: O Soldador de Palavras

Roteiro da poesia brasileira - anos 90 | Amazon.com.br
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fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo  literal sentido 
do verbo frio, transformado em chama
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema
fuga do verbo não mais definido

criado o texto com ideia e tinta
forma e figura em linguagem extinta
quebrando regras de comuns fonemas

a ideia é fogo. Fogo... o verbo aquece
a tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas

O Soldador de Palavras (1997)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo — SP; Majela Colares, nascido em 1964, cearense de Limoeiro do Norte e radicado em Recife  PE, é poeta e contista; membro do Conselho Editorial da revista Calibán, publicou Confissão de Dívida, poesia (Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1993), Outono de Pedra (Giordano / Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1994), O Soldador de Palavras (Ateliê Editorial, 1997), A Linha Extrema (Calibán, 1999), O Silêncio no Aquário / Die Stille im Aquarium (Calibán, 2004), coletânea de poemas bilingue, português-alemão, traduzida por Curt Meyer-Clason, Quadrante Lunar (Calibán, 2005), As Cores do Tempo (Calibán, 2007), entre outros.

Majela Colares: O Soldador de Palavras

Livro Roteiro Da Poesia Brasileira 90 Anos - Paulo Ferraz - R$ 16 ...
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fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo literal sentido
do verbo frio, transformado em chama
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema
fuga do verbo não mais definido

criado o texto com idéia e tinta
forma e figura em linguagem extinta
quebrando regras de comum fonemas

a idéia é fogo... o verbo aquece
a tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas

O Soldador de Palavras (1997)

Biblioteca. Livros de Majela Colares
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Majela Colares, nascido em 1964, cearense de Limoeiro do Norte, radicado em Recife PE, bacharel em Direito, é poeta e contista; membro do Conselho Editorial da revista Calibán, publicou Confissão de Dívida (poesia, Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1993), Outono de Pedra (Giordano / Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1994), O Soldador de Palavras (Ateliê Editorial, 1997), A Linha Extrema (Calibán, 1999), O Silêncio no Aquário / Die Stille im Aquarium (coletânea de poemas bilíngüe, português-alemão, traduzido por Curt Meyer-Clason, Calibán, 2004), Quadrante Lunar (Calibán, 2005), As Cores do Tempo (Calibán, 2007), entre outros.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Maria Lúcia Dal Farra: Quiabo

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Há quem me julgue mal
apenas porque babo.
Há quem de mim se atraia
(ao contrário)
porque toma como patente
a parecença que guardo.
Por sim ou por não
atesto que deste jeito estremeço
jovens e pudicíssimas donzelas.

Meu fino cone
(caviloso)
longas unhas de moça imita
e rapazes que apreciam
também por isso.
Pequenos túneis
carregados de semente
podem fazer crer que
tenho muito a oferecer 

quem sabe até respingos daquilo
que permitiu a ti
ser gerado.


Livro de possuídos (2002)

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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Maria Lúcia Dal Farra, paulista de Botucatu nascida em 1944, é poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, foi professora na USP e na UNICAMP; é professora-titular aposentada da Universidade Federal de Sergipe; publicou Livro de auras (Iluminuras, 1994), Livro de possuídos (Iluminuras, 2002) e Inquilina do intervalo (Iluminuras, 2005), além de diversos trabalhos sobre narrativa e poesia.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Lucinda Persona: Calabouço


Vida
lavrada na ata cotidiana
síntese do sentimento
das realidades perdidas
(e amadas inutilmente).

estou agora como gosto de estar

entre meus objetos e os escombros
do silêncio noturno. Aqui, nesta sala
neste universo com princípio e fim
onde nada se transforma
de uma hora para outra
e qualquer visita é impossível.

Não faz tempo (eu que estou
no imenso calabouço de uma noite)
tive uma assombração de sol
fui à cozinha e vi mamões maduros
adormecidos na fruteira.
Os mamões têm sementes negras
sementes negras e úmidas
em seu calabouço
e que amanhã poderão estar livres
dar novos mamoeiros
eu, não
               e o mundo é assim.
Sopa escaldante (2001)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo  SP; Lucinda Persona, nascida em Arapongas  PR e vivente em Cuiabá  MT, além de poeta, é bióloga pela Universidade Federal do Mato Grosso e mestre em Histologia e Embriologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; foi professora da UFMT até aposentar-se e é professora de Histologia em cursos da área de saúde na Universidade de Cuiabá; publicou os livros de poesia Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995), Ser cotidiano (7 Letras, 1998), Sopa escaldante (7 Letras, 2001), Leito de acaso (7 Letras, 2004) e Tempo comum (7 Letras, 2009); na literatura infantojuvenil publicou Ele era de outro mundo (Tempo Presente, 1997) e A cidade sem sol (Razão Cultural, 2000), além de ter participado de antologias de contos e de colaborar com jornais e revistas matogrossenses na produção de resenhas, crônicas e contos.