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terça-feira, 19 de novembro de 2024

Camilo Pessanha: Estátua

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Cansei-me de tentar o teu segredo:
no teu olhar sem cor  frio escalpelo ,
o meu olhar quebrei, a debatê-lo,
como a onda na crista de um rochedo.

Segredo de tua alma, e meu degredo
e minha obstinação! Para bebê-lo
fui teu lábio oscular, num pesadelo
por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
esfriou sobre o mármore correto
desse entreaberto lábio enregelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
severo como um túmulo fechado,
sereno como um pélago quieto.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como a Ave Azul, de Viseu, A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, também de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; foi pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, que publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; desse modo, os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento; Camilo Pessanha também recebeu o cognome de “o Verlaine português” por quem apreciava seus poemas.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Camilo Pessanha *: Caminho — I

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Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,

sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
porque é só madrugada quando chora.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos registrou acerca do poeta Camilo Pessanha: “O professor Celso Luft, em seu Dicionário de literatura portuguesa e brasileira, sintetiza o prestígio dele [Camilo Pessanha] entre os estudiosos: ‘é o representante máximo da estética simbolista em Portugal’ [...] se formou em Direito e após algumas desilusões amorosas foi trabalhar em Macau, colônia portuguesa na China, como professor, em seguida como conservador do registro predial e juiz. Seus versos só não se perderam graças a um menino de 17 anos, João de Castro Osório. Ele os reuniu e os entregou à mãe, a escritora e editora Ana de Castro Osório, que os editou em livro com o título de Clepsidra. Na época, o poeta já trazia a saúde comprometida pelo vício do ópio e os pulmões destroçados pela tuberculose.
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

sábado, 14 de janeiro de 2023

Camilo Pessanha: Poema Final

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Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias ,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,
 
As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.
 
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,
 
Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.
 
Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
 
Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Camilo Pessanha: Lúbrica

 
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Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando, com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa, em nuvem densa,
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços
A sua carne branca e palpitante;

Como, da Ásia nos bosques tropicais,
Apertam, em espiral auri-luzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.

Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim, quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostrasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;

Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido,

Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo predileto
No ambiente espalhava pouco antes...

Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da inocência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

Que há de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;

Quero admirá-la, então, tranqüilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;

Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sozinha na alameda...

(1895)

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Camilo Pessanha: Água morrente

 
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Il pleure dans mon coeur
Comme Il pleut sur la ville.
Verlaine

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

 Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
As águas da torrente
Já tão longe passadas. 

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranqüilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Camilo Pessanha: Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, . . . [soneto]

 
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Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Notas e Traços Biográficos de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

sábado, 9 de julho de 2022

Camilo Pessanha: Paisagens de inverno

 
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I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou, o sol! Voltai, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
Já vai florir o pomar das macieiras,
Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

Sossegai, esfriai, olhos febris.
E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis...

II

Passou o Outono já, já torna o frio...
Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

domingo, 26 de junho de 2022

Camilo Pessanha: Crepuscular

 
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Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d’ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d’anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Camilo Pessanha: Violoncelo

 
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Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trêmulos astros...
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Camilo Pessanha: No claustro de celas

 
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Eis quanto resta do idílio acabado,
Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas,
Silindras, flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as urtigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!
Que os meus olhos mal podem soletrar,
Cansados... E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!
Enobreceu-o a quietação do olvido,
Ó doce, ingênua, inscrição tumular.

Clepsidra — 1920

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura, foi professor de Filosofia e poeta; ao longo do seu período acadêmico publicou poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal; em 1894 partiu para Macau após ter sido aprovado em concurso e nomeado professor de Filosofia no recém criado Liceu de Macau; pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi desse modo que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Camilo Pessanha: Interrogação

Nossos Clássicos 75: Camilo Pessanha
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Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, 
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito, 
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio 
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente... 
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Dezembro, 1889

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Camilo Pessanha — Poesia e Prosa, Volume 75 da Coleção Nossos Clássicos, por Bernardo Vidigal, 1965, Livraria Agir Editora Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894 parte para Macau; foi pelas mãos da escritora Ana de Castro Osório que, a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram, assim, do esquecimento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Camilo Pessanha: Encontraste-me um dia no caminho . . . [soneto]

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Caminho

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.

 Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um... 
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894 parte para Macau; pelas mãos de Ana de Castro Osório, e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi assim que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.