domingo, 30 de abril de 2017

Cruz e Sousa: Êxtase búdico

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Abre-me os braços, Solidão profunda,
reverência do céu, solenidade
dos astros, tenebrosa majestade,
ó planetária comunhão fecunda!

Óleo da noite, sacrossanto, inunda
todo o meu ser, dá-me essa castidade,
as azuis florescências da saudade,
Graça das Graças imortais oriunda!

As estrelas cativas no teu seio
dão-me um tocante e fugitivo enleio,
embalam-me na luz consoladora!

Abre-me os braços, Solidão radiante,
funda, fenomenal e soluçante,
larga e búdica Noite Redentora!

Últimos Sonetos — 1905



Nota deste Verso e Conversa: Conta-nos Andrade Muricy que neste Cruz e Sousa, Obra Completa publicou-se, pela primeira vez, toda a produção em verso e prosa do Poeta Negro, incluídos os manuscritos, poemas autógrafos, dispersos, inéditos, encontrados em poder de sua esposa, Gavita Rosa Gonçalves, e/ou nas mãos de poetas amigos, e/ou publicados e encontrados em jornais e revistas de então; nele, portanto, se somam O Livro Derradeiro, editado em 1945, composto de poemas até então inéditos em livros, e a obra Cambiantes, uma edição prometida para 1886 por um editor gaúcho e que só ficou na promessa.
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Cruz e Sousa, Obra Completa — Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade Muricy, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861  1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Rubens Rodrigues Torres Filho: Por exemplo

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Ao que se chama oceano: ponto,
pego, ambiguidade
ou simplesmente mar, nas horas densas,

ao que se diz das coisas invisíveis,
a saber, choro e vento, tempestade
dentro do abraço.

ao que se espera quando a noite é lenta
e se alimenta de pássaros suicidas

somo
esta notícia:
de teu nome gravado nas laranjas
e outros hábitos maiores.

Por exemplo sentar-se com gerânios
e a água que isso inaugura nos teus olhos.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Rubens Rodrigues Torres Filho, nascido em 1942, paulista de Botucatu, formado em Filosofia pela FFLCH Universidade São Paulo, é poeta, filósofo, professor e tradutor; em poesia, escreveu e publicou Investigação do olhar (1963), O voo circunflexo (ganhador do Prêmio Jabuti, 1981), A letra descalça (1985), Poros (1989), Retrovar (1993), Novolume (1997); em prosa, produziu e publicou O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte (1975), Ensaios de filosofia ilustrada (1987), 'Redondezas do divino' em Filosofemas (1987), 'Por que estudamos?', na Revista da USP Nº. 10 (1991), e outros textos; traduziu Kant, Fichte, Schelling, Nietzsche, Adorno, para a coleção 'Os Pensadores' (Abril/Nova Cultural), entre outras atividades na área de filosofia; lecionou História da Filosofia Moderna e Filosofia Clássica Alemã na Universidade de São Paulo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Cecília Meireles: Irrealidade

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Como num sonho
aqui me vedes:
água escorrendo
por estas redes
de noite e dia.
A minha fala
parece mesmo
vir do meu lábio
e anda na sala
suspensa em asas
de alegoria.

Sou tão visível
que não se estranha
o meu sorriso.
E com tamanha
clareza pensa
que não preciso
dizer que vive
minha presença.

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente.

Se me perguntam
pessoas, datas,
pequenas coisas
gratas e ingrata,
cifras e marcos
de quando e de onde,
a minha fala
tão bem responde
que todos crêem
que estou na sala.

E ao meu sorriso
vós me sorrides… *
Correspondência
do paraíso
da nossa ausência
desconhecida
e tão feliz!

Mar Absoluto e Outros Poemas — 1945

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* Nota de Darcy Damasceno: Sorris, em todas as edições. Corrigimos. Estilisticamente, o lapso teria explicação (rima sorris — feliz).
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Cecília Meireles — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 107, Seleção e Apresentação de Darcy Damasceno, 1974, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; obra poética: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sosígenes Costa: A magnificência da tarde

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Voa ao poente a túnica da brisa
se desmanchando em chuva de lilases.
A tarde, ante essa mágica, se irisa
e exibe cores francamente audazes.

A natureza, certo, romantiza…
Há nos jardins fascinações de oásis
e os encantos do olhar de Mona Lisa
estão nas rosas e nos grous lilases.

De súbito, o crepúsculo termina.
O céu agora todo se reveste
de uma capa de príncipe da China.

E na ponta de um cônico cipreste,
a lua nova paira, curva e fina,
como o chifre de um búfalo celeste.

(Obra Poética I)

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O Triunfo de Sosígenes Costa (Estudos, Depoimentos e Antologia), Seleção, Organização e Notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, 2004, Editus — editora da UESC, Ilhéus — BA e UEFS Editora, Feira de Santana — BA; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, a partir de 1923 passou a viveu em Ilhéus BA, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 22 de abril de 2017

António Nobre: Saudade

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Saudade, saudade! palavra tão triste,
E ouvi-la faz bem:
Meu caro Garrett, tu bem na sentiste,
Melhor que ninguém!

Saudades da virgem de ao pé do Mondego,
Saudades de tudo:
Ouvi-las caindo da boca dum Cego,
Dos olhos dum Mudo!

Saudades d’Aquela que, cheia de linhas,
De agulha e dedal,
Eu vejo bordando Galeões e andorinhas
No seu enxoval.

Saudades! e canta, na Torre deu a hora
Da sua novena:
Olhai-a! dá ares de Nossa Senhora,
Quando era pequena.

Saudades, saudades! E ouvide que canta
(E sempre a bordar)
Que linda! “Quem canta seus males espanta”
E eu vou-me a cantar...

Virgílio é estudante, levou-o o seu fado
A terras de França!
Mais leve que espuma, não tenho pecado,
Que o diga a balança.

Separam-me dele cem rios, cem pontes,
Mas isso que faz?
Atrás desses montes, ainda há outros montes,
E ainda outros, atrás!

Não tarda que volte por montes e praias,
Formado que esteja;
E iremos juntinhos, ah tem-te-não-caias!
Casar-nos à Igreja.

Virgílio é um anjo, não tem um defeito,
É altinho como eu;
Os lábios com lábios, o peito com peito...
Ah, Virgem do Céu!

O Amor, ai que enigma! consolo no Tédio,
Estrela do Norte!
O Amor é doença, que tem por remédio
Um beijo, ou a Morte.

Às vezes, eu quero dizer-lhe que o amo,
Mas, vou-lhe a dizer,
Irene não fala (Irene me chamo)
E fica a tremer...

Quando ia ao postigo falar-lhe, tão cedo,
(Tu, Lua, bem viste)
Ai que olhos aqueles! metiam-me medo...
E sempre tão triste!

Perfil de Teresa, velado na capa,
Lá passa por mim:
Ó noites da Estrada, tardinhas da Lapa,
Choupal e Jardim!

Cabelos caídos, a cara de cera,
Os olhos ao fundo!
E a voz de Virgílio, docinha que ela era,
Não é deste Mundo!

Saudades, saudades! Que valem as rezas,
Que serve pedir!
No altar continuam as velas acesas,
Mas ele sem vir!

Já choupos nasceram, já choupos cresceram,
Estou tão crescida!
Já choupos morreram, já outros nasceram...
Como é curta a Vida!

Ó rio de amores, que vens da Portela
Pró mar do Senhor,
Ah vê se na costa se avista uma vela,
Se vem o Vapor...

Meu Sto. Mondego, que voas e corres,
Não tenhas vagares!
Mondego dos Choupos, Mondego das Torres,
Mondego dos Mares!

Mas ai! o Mondego (Senhora da Graça,
Sou tão infeliz!)
Já foi e já volta, lá passa que passa,
E nada me diz...


(Paris, 1894)

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António Nobre  Poesia, Coleção Nossos Clássicos  41, por Luís da Câmara Cascudo, 1967, 2ª edição, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; escreveu e publicou (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sosígenes Costa: Dudu Calunga

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Ora vejam só!
Dia de Xangô,
festa de Xangô.
Dia de Iemanjá.
festa de Iemanjá.
Dia de Nanã,
samba na macumba
com qualiquaquá.
Dia de matança
para Oxum-marê,
vamos saravá,
vamos dar okê.

Dia de preceito,
bodas eucarísticas:
caruru no almoço,
vatapá na janta
e de noite samba
lá no ganzuá.
Ora vejam só!
festa todo dia
lá no candomblé.

Uma vez que as cousas
vão correndo mal,
só existe um jeito:
é cair no santo
lá no candomblé.

O babalaô,
quando é consultado
diz que aí vem cousa.
O babalaô,
adorador de Ifá,
diz que aí vem cousa.
É de Exu a cousa
ou então a cousa
vem de um encantado.
Que vem cousa grossa,
diz, olhando os buzos,
o babaluxá.

Se é de Exu a cousa,
é melhor não vir,
antes não chegar.
Se é Dudu Calunga,
apareça já.

Se é Dudu Calunga
venha em seu cavalo.
Venha na galinga.
Venha com a viola
pra animar as festas.
Venha tocar cora.
Venha achar brilhantes,
venha achar anéis.

Venha achar as cousas
que ninguém encontra.
Venha na galinga
que é sua malunga
e só tem dois pés.
Você vem, Dudu?
Sim, já vou, Calunga.
Gente de Aroanda,
vamos saravá
que Dudu Calunga
vem pro ganzuá.
Vem tocando cora,
vem achar brilhantes,
vem nos dar anéis.

Gente de Aroanda,
vamos saravá
que Dudu Calunga,
vem tocando cora,
vem achar corá.

Ora vejam só!
Foi um acalô
que isso me contou.

(Obra Poética II)

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O Triunfo de Sosígenes Costa (Estudos, Depoimentos e Antologia), Seleção, Organização e Notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca, 2004, Editus editora da UESC, Ilhéus BA e  UEFS Editora, Feira de Santana BA; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, a partir de 1923 passou a viver em Ilhéus BA, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Geir Campos: Paralelamente a Camões

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Não queria Raquel, serrana bela:
sua irmã da cidade é que eu queria
— por seu amor, sete anos serviria
Labão ou qualquer pai de mais cautela.

Mas não servindo ao pai, servindo a ela
(e a ela, só, por prêmio aceitaria)
os dias, na esperança de um só dia,
passando e contentando-me com vê-la.

Vejo, em vez, que o mau fado me promete
sempre negar a citadina amada
como se a não tivera eu merecida:

sete esperanças, sete vezes sete
sonhos  e tudo reduzido a nada,
que nada vale sem amor a vida.

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Antologia Poética — Geir Campos, Organização de Israel Pedrosa, 2003, Léo Christiano Editorial Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Geir Nuffer Campos (1924 1999), nascido em São José do Calçado ES, formado em Direção Teatral (FEFIERJMEC, Rio de Janeiro), mestre e doutor em Comunicação Social (UFRJ), foi piloto da marinha mercante, professor universitário, poeta, jornalista, radialista, tradutor e ativista cultural; deixou-nos extensa obra e de grande valor; escreveu e publicou Rosa dos Rumos (poesia, 1950), Arquipélago (poesia, 1952), Coroa de Sonetos (1953), Da Profissão do Poeta (1956), Canto Claro e poemas anteriores (1957), Operário do Canto (1959), O Gato Ladrão (teatro infantil, 1959), O Sonho de Calabar (teatro, 1959), A Verdadeira História da Cigarra e da Formiga (teatro infantil, 1960), Carta aos Livreiros do Brasil (ensaio, 1960), Cantigas de acordar mulher (1964), Rúben Dário, Poeta Participante (ensaio, 1967), Édipo-Rei, de Sófocles (teatro, 1967), Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro, 1972), Diz que sim & Diz que não, de Brecht (teatro, 1977), Canto de Peixe e Outros Cantos (1977), O Vestíbulo (conto, 1979), Tradução e Ruído na Comunicação Teatral (ensaio, 1981), Conto & Vírgula (1982), Pequeno Dicionário de Arte Poética (dicionário, 1960 e diversas outras edições), O que é Tradução (1986), etc etc etc, além de participação em muitas antologias poético-literárias; traduziu textos de Rilke, Kafka, Daniel Defoe, Brecht, Walt Whitman e outros autores; foi co-fundador, junto com o poeta Thiago de Mello, das Edições Hipocampo, em 1951, que revolucionaram as artes gráficas no Brasil.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Genésio dos Santos: poderpodre


PODER
PODER
PODRE
PODRE
PODRE


São Paulo, Brasil  2017
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SPFolha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 — 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

domingo, 16 de abril de 2017

Eduardo de Oliveira: Carruagem de fogo

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para Lenice David Antunes

Quem for aos labirintos da memória,
escuros, como a velha catacumba,
há de acabar reconstruindo a história
desses heróis, que não tiveram tumba;

desses mártires, cuja voz retumba
como trombetas, lá, na eterna glória...
onde se encontra o sangue de Lumumba
e de Luíza Mahin, que vence a escória!

De cada esquina há de surgir um santo!
Novos guerreiros surgirão da praça
ao lado dos poetas e dos sábios!

Aí verão que tinham outro encanto,
os negros e os heróis de nossa raça,
nas palavras de fogo de seus lábios!

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Carrossel de Sonetos — Eduardo de Oliveira, Prefácio de Fernandes Neto e Apresentações de Eunice Aparecida de Jesus Prudente e Alípio Rocha Marcelino, 1994, Editora Pannartz São Paulo — SP; Eduardo de Oliveira (1926 2012), paulista e paulistano, foi advogado, jornalista, professor, poeta e ativista do Movimento Negro; participou de edições dos Cadernos negros (primeiro número em 1978) e organizou a obra Quem é quem na negritude brasileira (1998); escreveu e publicou Além do (1958), Ancoradouro sonetos (1960), O Ébano (1961), Banzo (1965), Gestas líricas da negritude (1967), Evangelho da solidão: dez anos de poesia 1958 — 1968 (1970), Túnica de Ébano — sonetos e trovas (1980), A cólera dos generosos: retrato da luta do negro para o negro (1988), Carrossel de sonetos (1994); o poeta, autor da letra e música do Hino treze de maio cântico da Abolição, oficializado pelo Congresso Nacional, foi vereador na capital paulista, membro da Associação Cultural do Negro, da Casa de Cultura Afro-Brasileira e da União Brasileira dos Escritores.