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Abre-me os
braços, Solidão profunda,
reverência do
céu, solenidade
dos astros,
tenebrosa majestade,
ó planetária
comunhão fecunda!
Óleo da
noite, sacrossanto, inunda
todo o meu
ser, dá-me essa castidade,
as azuis
florescências da saudade,
Graça das
Graças imortais oriunda!
As estrelas
cativas no teu seio
dão-me um
tocante e fugitivo enleio,
embalam-me na
luz consoladora!
Abre-me os
braços, Solidão radiante,
funda,
fenomenal e soluçante,
larga e
búdica Noite Redentora!
Últimos Sonetos — 1905

Nota deste Verso e Conversa:
Conta-nos Andrade Muricy que neste Cruz e Sousa, Obra Completa publicou-se, pela primeira vez,
toda a produção em verso e prosa do Poeta Negro, incluídos os manuscritos,
poemas autógrafos, dispersos, inéditos, encontrados em poder de sua esposa,
Gavita Rosa Gonçalves, e/ou nas mãos de poetas amigos, e/ou publicados e encontrados
em jornais e revistas de então; nele, portanto, se
somam O Livro Derradeiro,
editado em 1945, composto de poemas até então inéditos em livros, e a obra
Cambiantes, uma edição prometida
para 1886 por um editor gaúcho e que só ficou na promessa.
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Cruz e Sousa, Obra
Completa — Edição Comemorativa do Centenário, Introdução Geral de Andrade
Muricy, 1961, Editora José Aguilar
Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz
e Sousa (1861 —
1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da
região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi
obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o
cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890,
manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas
em prosa, 1893) e Broquéis (poemas,
1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas
em prosa), em conjunto com Virgílio
Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um
emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos
Sonetos (1905).
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