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sábado, 9 de abril de 2016

Murilo Mendes: Poema lírico

Nossos Clássicos - Murilo Mendes
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Amiga, amiga! De braço dado atravessamos o arco-íris.
Quem nos dá esta força que nos impele acima do mar e das montanhas?
Deixamos lá embaixo os bens materiais e a violência da vida.
Amiga, amiga! Teu rosto é semelhante à lua moça,
Há nas tuas roupas um cheiro bom de mato virgem.
Tua fala saiu da caixinha de música dos meus sete anos,
E te empinas no azul com a graça dos papagaios que eu soltava.
Ó amiga! Deixamos o reino dos homens bárbaros
Que fuzilam crianças com bonecas ao colo,
E eis-nos livres, soprados pelos ventos,
Até onde não alcançam os aparelhos mecânicos.
Unidos num minuto ou num século, que importa.

Agarrados à cauda de um cometa percorremos a criação.
Teu rosto desvendou os olhos comunicantes.
Não há mistério: só nós dois sabemos nosso nome,
E as fronteiras entre amor e morte.
Eu sou o amante e tu és a amada.
Para que organizar o tempo e o espaço?

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Murilo Mendes — Poesia, Volume 111 da Coleção Nossos Clássicos, por Maria Lúcia Aragão, 1983, Livraria Agir Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Murilo Monteiro Mendes (1901 1975), mineiro de Juiz de Fora, inicialmente arquivista do Ministério da Fazenda e bancário do Banco Mercantil, exerceu variadas funções em missão cultural, tanto no país como no exterior; foi professor, poeta e prosador, iniciando-se na literatura com textos divulgados nas revistas modernistas Terra Roxa e Outras Terras, Verde e Antropofagia; seu livro de estréia, Poemas (1930), foi premiado na categoria poesia da Fundação Graça Aranha; depois vieram outros títulos: Tempo e Eternidade (em conjunto com Jorge de Lima, 1935), A Poesia em Pânico (1937), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia Liberdade (1947), Janela do Caos (França, 1949), Office Humain (França, 1954), Siciliana (Itália, 1959), Poesie (Itália, 1961), Finestra del Caos (Itália, 1961), Siete Poemas Inéditos (Espanha, 1961), A Idade do Serrote (prosa, 1968) etc.; no exterior, entre outras missões culturais, trabalhou na Universidade de Roma como professor na cadeira de Cultura Brasileira.

terça-feira, 1 de março de 2016

Murilo Mendes: O poeta futuro

Nossos Clássicos - Murilo Mendes
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O poeta futuro já se encontra no meio de vós,
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que logo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

MURILO MENDES
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Murilo Mendes — Poesia, Volume 111 da Coleção Nossos Clássicos, por Maria Lúcia Aragão, 1983, Livraria Agir Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Murilo Monteiro Mendes (1901 1975), mineiro de Juiz de Fora, inicialmente arquivista do Ministério da Fazenda e bancário do Banco Mercantil, exerceu variadas funções em missão cultural, tanto no país como no exterior; foi professor, poeta e prosador, iniciando-se na literatura com textos divulgados nas revistas modernistas Terra Roxa e Outras Terras, Verde e Antropofagia; seu livro de estréia, Poemas (1930), foi premiado na categoria poesia da Fundação Graça Aranha; depois vieram outros títulos: Tempo e Eternidade (em conjunto com Jorge de Lima, 1935), A Poesia em Pânico (1937), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia Liberdade (1947), Janela do Caos (França, 1949), Office Humain (França, 1954), Siciliana (Itália, 1959), Poesie (Itália, 1961), Finestra del Caos (Itália, 1961), Siete Poemas Inéditos (Espanha, 1961), A Idade do Serrote (prosa, 1968) etc.; no exterior, entre outras missões culturais, trabalhou na Universidade de Roma como professor na cadeira de Cultura Brasileira.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Murilo Mendes: A Um Poeta

Nossos Clássicos - Murilo Mendes
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Eu te emprestarei minha musa: *
Estou ansioso por te ver alterado por ela.
Quero que te transfira a ti um pouco do seu mistério,
Quero que me procures para longas confidências,
Quero espiar na tua fisionomia
Um reflexo da minha angústia desdobrada.
Quero te sentir meu irmão no sofrimento,
Quero te abraçar com ela, misturando nossa respiração e tristeza.
Também tu hás de esbarrar ante a muralha de pedra,
Aprenderás o desconsolo, serás forte e ampliarás tua alma.

MURILO MENDES

* Nota da Organizadora: A musa é a fonte inspiradora da poesia. É ela quem preside o destino do poeta.
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Murilo Mendes — Poesia, Volume 111 da Coleção Nossos Clássicos, por Maria Lúcia Aragão, 1983, Livraria Agir Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Murilo Monteiro Mendes (1901 1975), mineiro de Juiz de Fora, inicialmente arquivista do Ministério da Fazenda e bancário do Banco Mercantil, exerceu variadas funções em missão cultural, tanto no país como no exterior; foi professor, poeta e prosador, iniciando-se na literatura com textos divulgados nas revistas modernistas Terra Roxa e Outras Terras, Verde e Antropofagia; seu livro de estréia, Poemas (1930), foi premiado na categoria poesia da Fundação Graça Aranha; depois vieram outros títulos: Tempo e Eternidade (em conjunto com Jorge de Lima, 1935), A Poesia em Pânico (1937), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia Liberdade (1947), Janela do Caos (França, 1949), Office Humain (França, 1954), Siciliana (Itália, 1959), Poesie (Itália, 1961), Finestra del Caos (Itália, 1961), Siete Poemas Inéditos (Espanha, 1961), A Idade do Serrote (prosa, 1968) etc.; no exterior, entre outras missões culturais, trabalhou na Universidade de Roma como professor na cadeira de Cultura Brasileira.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Murilo Mendes: Modinha do empregado de banco


Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.

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Murilo Mendes  Poesia, Volume 111 da Coleção Nossos Clássicos, Organização de Maria Lúcia Aragão, 1983, Livraria Agir Ltda., Rio de Janeiro  RJ; Murilo Monteiro Mendes (1901  1975), mineiro de Juiz de Fora, inicialmente arquivista do Ministério da Fazenda e bancário do Banco Mercantil, exerceu variadas funções em missão cultural, tanto no país como no exterior, e foi professor, poeta e prosador; iniciou-se na literatura com textos divulgados nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia, e publicou seu primeiro livro, Poemas, em 1930, pelo qual foi premiado na categoria poesia da Fundação Graça Aranha; depois vieram outras publicações: Tempo e Eternidade (em conjunto com Jorge de Lima, 1935), A Poesia em Pânico (1937), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia Liberdade (1947), Janela do Caos (França, 1949), Office Humain (França, 1954), Siciliana (Itália, 1959), Poesie (Itália, 1961), Finestra del Caos (Itália, 1961), Siete Poemas Inéditos (Espanha, 1961), A Idade do Serrote (prosa, 1968) etc.; no exterior, entre outras missões culturais, trabalhou na Universidade de Roma como professor na cadeira de Cultura Brasileira.