(A Augusto Esteves, à guiza de impressões
sobre a
memorável exposição dos
seus desenhos a bico de pena)
Nhô Ógusto Istéve
garrô na pêna, moiô na tinta,
oiô em vórta
cô ôio comprido, campeô um papé,
ponhô ele em
frente, fêis um risquínho, fêis vinte, trinta,
e foi fazendo
rísco e mais rísco com tuda fé!
De vêis em
quando nhô Istève oiáva pra aqueles rísco,
dando um
suspiro, parando a pêna pra descançá;
e via os
rísco que nem peixínho dos mais arísco,
dando pinóte e
corcuveándo pra lá e pra cá...
É que nos rísco
tinha mandínga de fitiçêro
e o sangue
brábo de gato preto, galo ô cabríto,
matádo na hóra
que o sací táva nargúm terrêro,
dando pinóte
na pórva acêsa, pregando gríto!
Proquê se
ispiándo firme os risquínho de nhô Istéve,
não sei o que
éra, mas as idéia ficáva lôca!
Proquê não
via rísco nem letra que a pêna iscréve,
só via igrêja,
lagôa e gente mexendo a bôca!
Foi assim que
ele fêis num papé as figura
das capélinha
véia como quê...
Das capélinha
que hoje quando Deus precúra
campêia élas
do céu e não acha pra vê
as capéla
véínha que já se acabô,
que nem um
tijolínho e uma têia sobrô!
Nas capélinha
véia foi que a gente antíga
se batisô, rezô,
se confessô e casô...
Nas capélinha
véia é que as mãe de famía
se ajueiáva,
chorando, de noite e de dia,
rezando Padre
Nosso e Ave Maria
e fazendo
preméssa pra acabá a bexíga
e acabá tantas
morte co’a fébre amaréla...
Capélinha
véinha... dônde tá as capéla?
Gente nóva
imbirrô, não quiz mais éla,
fêis pôco
cáuso em tudo o que os véio dexô...
garrô a tê
réiva déla... adesprezô...
Elas sentía
tanto... e choráva, choráva,
que quando
arguêm garráva no sino e tocáva
as póvre
capélinha saluçáva,
e os salúço da
póvre ninguem iscuitô!
Morreu a gente
véia que rezáva;
gente nóva
não réza, pegô e derrubô!
Nhô Istéve
uma vêis se assentô na cadêra,
ageitô bem na
mão a pêna mandiguêra,
foi isfregando
a pêna no papé,
fêis um rísco
quarqué,
inté a pêna gemê
de tanto se isfregá,
e as
capélinha tuda vortô no lugá!
Despôis ele
garrô a cumpará
(óie só o que
nhô Istéve haverá maginá!)
que as
capélinha que ja tão caída
é iguazínho — sem tirá nem pô —
co’as pessôa que
fica famosa na vída,
côs hóme bão,
côs hóme de valô,
que quando morre
deixa arrespeitádo o nóme
que nunca se consóme,
proquê quando
se fala é taliquá capéla
cô artazínho
infeitado de frô e de véla,
e os santo e
as santinha la em riba do artá
chamando a
gente pra ajueiá e rezá!
Nhô Istéve
ahi então tornô a riscá...
Riscô, riscô,
riscô,
fêis quáse um
bataião de hóme de valô,
ponhô um pértinho
do ôtro, infilerô,
e despôis
ajuntô
os hóme bão
co’as capélinha antíga...
— Ficaram tão
iguá que nem mío na ispíga!
Muita gente
óia aquilo e garra a maginá
como é que
nhô Istéve fêis vortá
aqueles hóme
tudo e as capélinha intêra...
É que o
ladino nunca disse pra ninguem
que ele fáis
tudo isso só proquê ele tem
a pêna
mandinguêra,
que quando
reina em riba do papé
de quarqué rísco
fáis o que o dono quizé,
quarqué hora que
seja, de noite ô de dia...
É incantáda a
diánha! Fáis fitiçaría!
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Rosário da Capiá (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de
Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves,
Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e
Rio de Janeiro; Nhô Bento, ou José Bento de Oliveira
(1902 — 1968), paulista de São Sebastião, fez seus estudos iniciais no
Grupo Escolar Henrique Botelho, trabalhou como funcionário público
estadual, foi poeta, declamador e radialista; Nhô Bento manteve por longo tempo
um programa na Rádio Gazeta, em São Paulo, onde declamava e apresentava
seus textos; além deste Rosário de Capiá — poemas caboclos, o poeta
declamador também teve seus textos gravados em disco de vinil pela RGE Discos
do Brasil.