quarta-feira, 30 de março de 2011

Rubem Alves: Sobre como da morte brota a vida

Reproduzo crônica de Rubem Alves publicada na Folha de São Paulo (Cotidiano) de 22 de março de 2011:
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RUBEM ALVES 

Sobre como da morte brota a vida 


Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar



     "E O CADÁVER que você plantou no seu jardim, já começou a brotar? Pode ser que cada sepultura seja um jardim!"
     Sou antropófago. Devoro livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros.
     Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.
     É o caso do conto "O afogado mais bonito do mundo", de Gabriel Garcia Marques. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
     É sobre uma vila de pescadores perdida em um nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...
     Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto.
     Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E naquela vila o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.
     Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".
     Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
     De novo o silêncio profundo, até que outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?"
     E elas sorriram e olharam umas para as outras.
     De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"
     Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
     Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.
     A estória termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma...
     Depois dos terremotos e tsunamis nosso mundo nunca mais será o mesmo...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Edgar Allan Poe: O Corvo (no formato de cordel)


(tradução de José Lira Ortigão, em 1995)
1
À meia-noite, uma vez,
Que velhos livros eu lia,
Cuidei que talvez ouvia
Bater à porta, talvez.
Era uma leve batida,
Como que a medo contida,
E então pensei: “A horas tais,
Há de ser uma visita,
Uma tardia visita
Deve ser, e nada mais.”

2
Ai, bem quisera esquecer,
E não lembrar, como lembro:
Era no mês de dezembro,
Brasa em cinza a se fazer.
Nos livros que eu estudava
Consolo à dor não achava,
Ai, que em vão eram meus ais,
Chamando, em vão, por Lenora
— Que aos anjos ouve Lenora,
Porém a mim — nunca mais. . .

3
E eu vi então que tremeu,
Dobra por dobra, a cortina;
De uma aflição repentina
Minha alma toda se encheu.
E, o corpo a suster a custo,
Tentei reprimir o susto,
Pensando assim: “A horas tais,
Há de ser uma visita,
Retardatária visita
Deve ser, e nada mais.”

4
“Perdão, disse eu, que a dormir
E não a ler estivera,
Peço perdão pela espera,
Que já vos vou acudir,
Nobre senhor, gentil dama,
Seja quem for que me chama
Tão de manso e em horas tais.”
E à pressa a porta escancaro,
Na treva o olhar escancaro,
Vejo a treva — e nada mais.

5
Lá fora, o fundo negror
Da noite, e as sombras da noite;
Do vento o açoite, e o açoite
Do frio, e nenhum rumor. . .
Mas e essa voz que me embala
O peito, e ao peito me fala?
— Talvez que em vez de meus ais
Tivesse eu dito: “Lenora?”
Dizendo o eco: “Lenora!”
— Foi só isso, e nada mais. . .

6
E mal a porta fechei,
Minha alma em ânsias ardendo,
Eis que à janela, batendo,
Algo, de novo, escutei.
Disse a mim mesmo: “Não temas,
Livra-te dessas algemas
Que te atam a anseios tais,
Livra-te desse mistério
— Que a causa desse mistério
É o vento, e só, nada mais.”

7
De um pulo à janela vou,
De um golpe eu abro a janela,
E eis que de pronto por ela
Um corvo no quarto entrou,
Sem notar minha presença,
E depressa, e sem licença,
E sem maneiras formais,
No meu portal, à vontade,
Pousou, e então, à vontade,
Lá ficou — e nada mais.

8
Ao vê-lo assim eu sorri,
Livre de medo e de estorvo,
E assim falei para o corvo,
Quando refeito me vi:
“Ave sem crista e sem plumas,
Que em tal altura te aprumas,
Donde vens? Aonde vais?
Como será o teu nome,
Se por acaso tens nome?”
E a ave disse: “Nunca mais.”

9
Ouvir a uma ave falar:
Existe maior surpresa?
Minha alma de novo é presa
De um horror peculiar.
Quem terá, no mundo, a isto,
Que aqui vi, acaso visto?
“Ninguém, eu disse, jamais
Recebeu tal visitante,
Nem ouviu de um visitante
Um nome tal: ‘Nunca Mais’. . .”

10
Muda e parada, porém,
A ave quedou, sem resposta,
Como quem ouve e não gosta
De assim lhe falar alguém.
“Mas ah! (disse eu) já me cansa
Perder amor e esperança,
Perder amigos leais!
Tu também te vais embora,
Em breve tu vais embora. . .”
E a ave disse: “Nunca mais.”

11
Dita assim, de supetão,
Resposta tão adequada,
Supus que essa ave ensinada
Foi por antigo patrão.
Má sorte teve o seu dono:
A ave o deixou no abandono,
Depois que palavras tais
Ela aprendeu, certamente,
E hoje só diz, certamente,
Esse refrão: “Nunca mais.”

12
E nessa hora me dá
Certo langor e cansaço,
E eu me recosto no braço
De meu antigo sofá.
Fico defronte dessa ave
De ar sisudo, sério, grave,
De aspecto e porte ancestrais,
Tentando achar um sentido,
Pois há de haver um sentido,
Nesse refrão: “Nunca mais.”

13
A ave de negro capuz
Tem olhos da cor de fogo,
Que brilham em meio ao jogo
De sombras do quebra-luz,
E eu, ofuscado, me deito
No sofá, de encosto feito
Por certas mãos divinais
(Ah! que essas mãos de veludo
Não tocarão no veludo
Deste sofá — nunca mais!)

14
Nesse momento subiu,
No ar pesado do quarto,
Um cheiro de incenso, farto,
E o som de passos se ouviu.
“Ó desgraçado! — eu gritando
Falei — dos anjos o bando
Trouxe-te as bênçãos finais!
— A paz, enfim! O repouso! —
Terei enfim meu repouso. . .”
Mas a ave diz: “Nunca mais.”

15
“Profeta! Núncio do mal!
— Eu grito — Ó escuro profeta!
De que doutrina secreta
És bruxo ou mago, afinal?
Fala a verdade, eu te imploro,
Vê que de bruços eu choro!
— Dá-me os ocultos sinais
Que hão de trazer-me Lenora!
Quando há de voltar Lenora?”
E o corvo diz: “Nunca mais.”

16
“Profeta! Ó preto satã!
— Ave ou demônio de pena! —
Deixa-me de alma serena,
Ó tu que vês o amanhã!
Quero saber, negro monge,
Quando verei, perto ou longe,
Nas mansões celestiais,
Vestida de anjo ou de santa,
Essa mulher — essa santa!”
E o corvo diz: “Nunca mais.”

17
“Ó infeliz, infeliz,
Bicho ou demônio esquisito!
Volta ao teu mundo maldito,
Corvo de obscuro verniz!
Cravaste a garra em meu peito,
Ave de bico malfeito!
Vai-te! Não tornes jamais!
Deixa-me só nesta casa,
Deixa-me em paz nesta casa!”
E o corvo diz: “Nunca mais!”

18
E agora, pobre de mim,
Que desde então esse bicho
No quarto fez o seu nicho,
E eu vivo a sofrer assim:
Preso ao horror que me assombra,
Arrasto-me à sua sombra,
Nesses transes infernais,
E a minha alma não se livra,
Minha alma não mais se livra,
Nunca, nunca, nunca mais!
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José Lira Ortigão, paraibano, nascido em 1946, é poeta, cronista e tradutor.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Núbia Marques: Inconseqüência

Fizeram de mim
simum de auroras
depois perguntam-me cinicamente
por que diante de tanta luz
tens a noite aninhada no peito?

Fizeram de mim
pastora que arrebanha luz
depois perguntam-me cinicamente
por que choras diante do caos de estrelas?

Fizeram de mim
criança que nina bonecas e canta ciranda
depois perguntam-me cinicamente
mulher onde estão os machos de tua conquista?

Fizeram de mim
tecelã de sonhos
depois perguntam-me cinicamente
que fazes neste tear-sonâmbulo?

Fizeram de mim
a guardiã da liberdade,
com armas de matéria plástica
depois perguntam-me cinicamente 
por que não defendes os oprimidos?

Vão todos pra merda
seus filhos da puta.(*)

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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo  SP (Prêmio Pedro Calazans Prefeitura Municipal de Aracaju 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; (*) em 27/06/1975, quando houve o lançamento deste livro aqui em São Paulo, a autora acrescentou nos exemplares, à mão, os dois últimos versos do poema "Inconseqüência" que, neste blogue, estão transcritos em negrito e com asterisco; guardo comigo um exemplar do livro, autografado.

terça-feira, 22 de março de 2011

Blogueiros de São Paulo agendam I Encontro

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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

sábado, 19 de março de 2011

Manuel Bandeira: O bicho


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
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Manuel Bandeira (1886  1968), pernambucano, poeta, autor de vasta obra em verso e prosa, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor, escreveu este poema em 1947.

Genésio dos Santos: Falência cultural

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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Eu fito
na foto
o fato
do feto.

O futuro?!
De fato
é fatídico.

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Número Um, Edição do Autor, 1978, São Paulo  SP; Genésio dos Santos, nascido em 1952, é poeta e cronista.

Vitor Knijnik: Blog do Neruda


Reproduzo de Carta Capital (n.638, de 23.03.2011) texto de Vitor Knijnik:
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Janis
SOBRE MIM

Trocando em miúdos, um poeta essencial. Nos divórcios, as partes abrem mão de tudo, menos do disco do Pixinguinha e um livro meu. “O resto é seu.”
SOBRE O BLOG

Para evitar piadas como essa abaixo, esse blog não publica meus poemas de amor.

¡Que descaro! ¡Que descaro!
¿Te quieres creer, Manolo,
que un tal Pablo Neruda
ha publicado un libro copiando
las poesías que me escribiste
cuando éramos novios?
ARQUIVO DO BLOG

  • 2011 (1)
  • Março (1)
  • O E-MAIL E O POETA
OUTROS BLOGS DO ALÉM
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O E-MAIL E O POETA


          Poesia é aquele gênero que todo mundo adora, mas só meia dúzia lê. Nunca figura na lista dos mais vendidos. O poeta, pra virar conhecido, precisa ganhar prêmio, ter seus poemas musicados ou, sei lá, inspirar algum filme de sucesso. No meu caso, as três coisas aconteceram. Nunca me faltou reconhecimento. Mas o que me deixou famoso, postumamente, até mesmo na parada de ônibus, foi o filme O Carteiro e o Poeta. Lembram? Essa película fez muito sucesso na década de 90. Era o filme que todo mundo gostava de gostar.
          O enredo era mais ou menos esse: durante o meu exílio político em uma charmosa e bela ilha da Itália (na verdade me exilei na fria Isla Negra pertencente ao Chile), para manter a minha correspondência em dia, eu contrato um carteiro extra. Esse sujeito, quase analfabeto, aprende, através da convivência comigo, a escrever seus sentimentos por sua amada. Ele acaba conquistando-a (depois dizem que a poesia não serve pra nada). E eu, em troca, ganhei um ouvinte atento e compreensivo para as lembranças saudosas de minha pátria.
          Estou contando isso porque, esses dias, eu li num caderno de informática que o e-mail vai desaparecer. Os autores do artigo sustentam que as mensagens enviadas através de redes sociais, telefones celulares e comunicadores tipo Messenger estão relegando ao velho e-mail o papel de trafegar apenas as informações comerciais. Mais ou menos o que aconteceu com a nossa caixa de correspondência, que hoje não passa de um amontoado de contas e malas-diretas nos vendendo coisas que não precisamos. Com exceção de uma oferta de pílulas azuis sem receita que estão muito em conta, mas isso não vem ao caso agora.
          O e-mail ainda era o último elo natural com a arcaica carta de papel. Mesmo que seu envio fosse instantâneo e sem selo, sua lógica obedecia aos princípios de sua antecessora. Há muita gente preocupada com o embate livro físico x livro digital. Mas vejo poucos atentos a um gênero literário que está com os seus dias contados: a correspondência. Gênero esse que já produziu obras de grande relevância, como Carta ao Pai de Kafka, Na missiva, Kafka fazia um ajuste de contas com seu autoritário pai. No fim, nem a enviou ao seu progenitor, ficou com medinho. Nos dias de hoje, essa pérola literária seria reduzida a um mero SMS dizendo: pai, larga do meu. Abs K. E o mundo ficaria sem sem saber que aquelas loucuras envolvendo baratas, absurdos e burocracia até que eram bem razoáveis, para quem teve um pai como aquele. Falar em pai, o da psicanálise teve a correspondência de mais de 34 anos com sua filha, Anna, reunida em livro. E assim curiosos e profissionais puderam estudar a intimidade de Freud. Se esse material fosse produzido hoje, só teríamos coisas como:
           Chegou bem, filha?
           Cheguei.
           E o seu id e o seu superego também?
          Num mundo onde é possível se comunicar a qualquer hora, em qualquer lugar e de diversas maneiras, a carta deixou de ser útil, perdeu seu sentido original.
          Uma pena. Os livros de correspondência nos forneciam outro tipo de dado sobre a intimidade, registravam com muita naturalidade os momentos individuais e coletivos. Mas não adianta reclamar. É um caminho sem volta e rápido. Em breve, a revista CartaCapital se chamará SMS Capital, Papai Noel só receberá tuites das crianças e condutores precisarão tirar DM de motorista. Uma coisa será boa. Livros como Cartas Entre Amigos de Gabriel Chalita e padre Fábio de Melo também deixarão de existir.


Postado por Pablo Neruda às 8:45                                     0 comentários
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Genésio dos Santos é um aprendiz de blogueiro que se sente só um tantinho incomodado por ser um "reprodutor" de textos alheios neste blogue.

Vinicius de Moraes: A rosa de Hiroxima

Clique no linque abaixo e ouça este belíssimo poema cantado por Ney Matogrosso nos  idos tempos quando ele ainda fazia parte do conjunto musical Secos e Molhados:


http://obviousmag.org/archives/2006/08/a_rosa.html
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Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século  Seleção e Organização de Ítalo Moriconi  Editora Objetiva, 2001, São Paulo  SP (In Livro das Letras, São Paulo: Companhia das Letras, 1991); Vinicius de Moraes, 1913  1980, poeta, prosador e criador de textos para teatro, escreveu este poema em 1954.

No calor dos últimos acontecimentos no Japão...

Reproduzo, de Carta Maior, texto no qual se faz reflexão acerca do tema energia nuclear:
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Internacional| 18/03/2011
Uma advertência ao mundo

Amy Goodman – Democracy Now

Democracy Now

Ao descrever a devastação em uma cidade do Japão, um jornalista escreveu: “É como se uma patrola gigante tivesse passado por cima e arrasado tudo o que existia. Escrevo sobre estes fatos como uma advertência ao mundo”. O jornalista era Wilfred Burchett, que escrevia desde Hiroshima, Japão, em 5 de setembro de 1945. Burchet foi o primeiro jornalista do Ocidente a chegar a Hiroshima após o lançamento da bomba atômica. Informou sobre uma estranha enfermidade que seguia matando as pessoas, inclusive um mês depois desse primeiro e letal uso de armas nucleares contra seres humanos. Suas palavras podiam perfeitamente descrever as cenas de aniquilação que acabam de se verificar no noroeste do Japão. Devido ao agravamento da catástrofe na central nuclear de Fukushima, sua grave advertência ao mundo segue mais do que vigente.

O desastre se aprofunda no complexo nuclear de Fukushima após o maior terremoto da história do Japão e o tsunami que o sucedeu, deixando milhares de mortos. As explosões nos reatores número 1 e número 3 liberaram radiação em um tal nível que ela foi detectada por uma navio da Marinha dos EUA a uma distância de 160 quilômetros, obrigando-a a afastar-se da costa. Uma terceira explosão ocorreu no reator número 2, fazendo com que muitos especulassem que um compartimento primário, onde fica o urânio submetido à fissão nuclear, teria sido danificado. Pouco depois o reator número 4 foi atingido por um incêndio, apesar dele não estar funcionando quando o terremoto atingiu o país. Cada reator utilizou o combustível nuclear armazenado em seu interior e esse combustível pode provocar grandes incêndios, liberando mais radiação no ar. Todos os sistemas de resfriamento falharam, assim como os sistemas de segurança adicionais. Uma pequena equipe de valentes trabalhadores permanece no lugar, apesar da radiação perigosa, que pode ser letal, tratando de bombear água do mar às estruturas danificadas para esfriar o combustível radioativo.

O presidente Barack Obama assumiu a iniciativa de liderar um “renascimento nuclear” e propôs novas garantias de empréstimos federais de 36 bilhões de dólares para promover o interesse das empresas de energia na construção de novas plantas nucleares (o que se soma aos 18,5 bilhões de dólares aprovados durante o governo de George W. Bush). A primeira empresa de energia que esperava receber esta dádiva pública foi a Southern Company, por dois reatores anunciados para a Georgia. A última vez que se autorizou e se concretizou a construção de uma nova planta de energia nuclear nos Estados Unidos foi em 1973, quando Obama estava no sétimo ano na Escola Punahou, em Honolulu. O desastre de Three Mile Islan, em 1979, e o de Chernobyl, em 1986, efetivamente fecharam a possibilidade de avançar em novos projetos de energia nuclear com objetivos comerciais nos Estados Unidos. No entanto, este país segue sendo o maior produtor de energia nuclear comercial no mundo. As 104 plantas nucleares são velhas e se aproximam do fim de sua vida útil originalmente projetada. Os proprietários das plantas estão solicitando ao governo federal a prorrogação de suas licenças para operar.

A Comissão Reguladora Nuclear (NRC, na sigla em inglês) está encarregada de outorgar e controlar estas licenças. No dia 10 de março, a NRC emitiu um comunicado de imprensa “sobre a renovação da licença de operação da usina nuclear Vermont Yankee, próxima de Brattleboro, Vermont, por mais vinte anos”. Está previsto que o pessoal da NRC conceda logo a renovação da licença”, dizia o comunicado de imprensa. Harvey Wasserman, da NukeFree.org, me disse: “O reator número 1 de Fukushima é idêntico ao da planta de Vermont Yankee, que agora aguarda a renovação da sua licença que o povo de Vermont pretende encerrar. É importante levar em conta que esse tipo de acidente, esse tipo de desastre, poderia ter ocorrido em quatro reatores na Califórnia, caso o terremoto de 9 graus na escala Richter tivesse atingido o Cânion do Diabo em San Luis Obispo ou San Onofre, entre Los Angeles e San Diego. Poderíamos perfeitamente estar testemunhando agora a evacuação de Los Angeles ou San Diego se esse tipo de coisa tivesse ocorrido na Califórnia. E Vermont tem o mesmo problema. Há 23 reatores nos Estados Unidos que são idênticos ou quase idênticos ao reator n° 1 de Fukushima. A maioria dos habitantes de Vermont, entre eles o governador do Estado, Peter Shumlin, apoia o fechamento do reator Vermont Yankee, desenhado e construído pela General Eletric.

A crise nuclear no Japão repercute mundialmente. Houve manifestações em toda a Europa. Eva Joly, membro do parlamento europeu, disse em uma manifestação: “A ideia de que esta energia é perigosa, mas que podemos manejá-la, foi rechaçada hoje. E sabemos como eliminar as plantas nucleares: necessitamos de energia renovável, energia eólica, energia geotérmica e energia solar. A Suíça deteve seus planos de renovar as licenças de seus reatores e 10 mil manifestantes em Stuttgart pediram à chanceler alemã Angela Merkel o fechamento imediato das sete plantas nucleares alemãs construídas antes da década de 80. Nos Estados Unidos, o deputado democrata de Massachussetts, Ed Markey, disse: “o que está acontecendo no Japão neste momento dá indícios de que também nos Estados Unidos poderia ocorrer um grave acidente em uma usina nuclear”.

A era nuclear iniciou não muito longe de Fukushima, quando os Estados Unidos se converteram na primeira nação na história da humanidade a lançar bombas atômicas sobre outro país, duas bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, matando centenas de milhares de civis. O jornalista Wilfred Burchett foi o primeiro a descrever a “praga atômica” como a chamou: “nestes hospitais encontro gente que, quando as bombas caíram não sofreram nenhuma lesão, mas que agora estão morrendo por causa das sequelas. Sua saúde começou a se deteriorar sem motivo aparente”. Mais de 65 anos depois de Nurchett sentar-se em meios aos escombros com sua castigada máquina de escrever Hermes e escrever sua advertência ao mundo, o que aprendemos de fato?
(*) Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna

(**) Tradução: Katarina Peixoto

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Renato Rovai: ...ou "a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar"...

Reproduzo texto assinado por Renato Rovai (Revista Forum) no qual o jornalista, a partir do desastre que ocorreu no Japão no último dia 11, com cidades inteiras sendo devastadas pelo terremoto seguido de tsunami e outras seqüelas decorrentes disso, inicia uma reflexão acerca do presente estágio da economia mundial, estágio este que tem a nação japonesa como "um dos países centrais do atual modelo de desenvolvimento capitalista", e que se impõe pela perversa lógica de mais produção, mais trabalho, mais consumo, que exige mais energia (nuclear!) para gerar mais produção, que deve gerar mais trabalho, mais consumo..., tudo isso num interminável movimento desta roda-viva chamada capitalismo. E arremata: "Sem trocadilhos, é o fim do mundo."
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O Japão e o capitalismo urubu




Já fiz algumas coberturas jornalísticas bastante duras, mas as cenas que chegam do Japão são de estremecer.
Não só as  imagéticas. Mas também aquelas que os relatos nos fazem imaginar.
Dia desses li que numa das cidades litorâneas os seres humanos arrastados pela Tsunami começavam a ser devolvidos pelo mar. Falava-se em mil corpos num só dia. Não vi a imagem, mas a imaginei…
É exagerado dizer que o que aconteceu guarda relação com o aquecimento global. Mas ao mesmo tempo não dá para não dizer que o homem não tem tratado a natureza e seus fenômenos com desdém.
Até teorias fraudulentas de que na verdade há esfriamento e não aquecimento são difundidas por pessoas sérias.
E isso acaba levando uma questão do nosso tempo a ser tratada de forma lateral e até certo ponto de maneira esquizofrênica. Todo mundo diz que ela é muito importante, mas a grande maioria não dá a menor importância a ela.
O fato é que o Japão é um dos países centrais do atual modelo de desenvolvimento capitalista. Daquele das inovações tecnológicas e do descartável.
No Japão tudo é feito para durar pouco, para que possa ser substituído por algo novo e faça girar a máquina do lucro. Independente do que isso vá gerar de custo energético e ambiental.
O Japão virou o Japão que conhecemos, nesta base.
Aceitou ser aliado dos EUA na Ásia e se beneficiou dessa parceria para entrar com tudo no esquema “se mate de trabalhar para poder consumir”. E consuma tudo que puder de forma mais rápida possível.
O Japão não é o único país que reproduz essa lógica. Ao contrário.
Quase todos os países parecem dispostos a aceitar esse padrão desde que seja possível do ponto de vista econômico.
Dane-se a questão ambiental.
No Brasil de hoje este enfrentamento também faz parte da agenda, mas todo o esforço que se faz é para que ele se resuma a algo menor.
Mas voltando ao Japão,  por incrível que pareça, no meio dessa devastação já há gente fazendo contas de quanto a economia de lá e também do resto do mundo pode vir a ganhar ou perder com a tragédia.
Mesmo que a catástrofe natural não tenha relação com isso – essa é uma questão pros cientistas debaterem – o caos que pode vir a matar milhares por conta das radiações da usinas nucleares têm.
O padrão de consumo imposto pela lógica deste capitalismo urubu nos obriga a ter de produzir cada vez mais energia para poder produzir cada vez mais bens de consumo.
E este debate não tem tido espaço na arena pública.
A pauta é contabilizar os mortos e discutir os impactos da tragédia na economia global.
Sem trocadilhos, é o fim do mundo.
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

terça-feira, 15 de março de 2011

Voltaire: Poema sobre o desastre de Lisboa em 1755

(tradução de Jorge Pereirinha Pires)

Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludidos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tectos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonho de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Quem de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes»?
Que crime, que falta comentaram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada e dança-se em Paris.

(...)

Ide interrogar as margens do Tejo;
Revolvei os escombros deste sangrento despejo;
Perguntai aos moribundos, nesta morada de pavor,
Se é o orgulho quem clama: «Ajudai-me, Senhor!
Ó céus, tende piedade do humano fadário!»
«Tudo está bem», dizeis vós, «e tudo é necessário.»
Mas quê! O Universo inteiro, sem este abismo infernal,
Sem engolir Lisboa, teria estado em maior mal?

(...)

Não, não ostenteis mais a meu coração alterado
Essas imutáveis leis da necessidade,
Essa cadeia dos corpos, dos espíritos, e dos mundos.
Ó sonhos de sábios! Ó desvarios profundos!
Deus tem na mão a corrente, e não está acorrentado;
Por sua escolha benévola tudo é determinado:
Ele é livre, ele é justo, e não é implacável.
Porque sofremos então com um amo justo e amável?

(...)

Elementos, animais, humanos, tudo está em guerra.
Há que reconhecê-lo, o “mal” está sobre a terra:
Seu princípio secreto não nos é de todo conhecido.
Do autor de todo o bem, terá o mal decorrido?

(...)

Um Deus veio consolar a nossa raça alarmada;
Visitou a terra, mas não a mudou em nada!
Diz-nos um sofista arrogante que ele o não pôde fazer:
«Ele poderia», diz outro, «mas havia de o querer:
Querê-lo-ia, sem dúvida;» e, enquanto se apregoa,
Há trovões subterrâneos que vão engolindo Lisboa,
E de trinta cidades dispersam os lambris,
Das margens sangrentas do Tejo até ao mar de Cádis.

Ou o homem nasceu culpado, e Deus pune sua raça,
Ou esse senhor absoluto do ser e do espaço,
Sem furor, sem piedade, tranquilo, indiferente,
De seus primeiros decretos segue a eterna torrente;
Ou a matéria informe, a seu mestre rebelde,
Transporta consigo defeitos tão necessários quanto ela;
Ou Deus nos põe à prova, e esta estadia mortal
Não é senão uma passagem estreita para um mundo eternal.
Aqui experimentamos dores transitórias:
Falecer é um bem que termina as nossas misérias.
Mas quando por fim sairmos desta passagem de agruras,
Qual de nós pretenderá merecer colher venturas?

(...)

Leibniz nunca me ensina por que nós invisíveis,
No mais bem ordenado dos universos possíveis,
Uma desordem eterna, um caos de infelicidades,
A nossos vãos prazeres mistura certas dores que são verdades,
Nem por que é que o inocente, tal como o culpado,
Sofre do mesmo modo este mal desgraçado.
Também não concebo como tudo estaria bem:
Sou como um médico; infelizmente nada sei.

(...)

“Um dia tudo estará bem”, eis aí a nossa esperança;
“Tudo está bem hoje em dia”, eis aqui a ilusão.

(...)


Outrora um califa, chegado à hora em que se falece,
Ao deus que adorava disse então como prece:
«Trago-te, ó único rei, único ser sem limitação,
Tudo o que não possuis na tua imensidão,
Os defeitos, os remorsos, os males e a ignorância.»
Mas poderia haver acrescentado ainda “a esperança”.