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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sêneca: Da vida retirada

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I

Os vícios nos acompanham constantemente. Mesmo que não buscássemos nenhuma outra coisa saudável, retirar-se, por si só, ainda poderia ser proveitoso, pois nos tornaria melhores do que somos.

Que pensar então da utilidade de se retirar para perto de homens qualificados e escolher um exemplo para orientar a nossa vida? Isso, a não ser em uma vida retirada, não pode ser conseguido. Somente assim pode ser alcançado aquilo com que sonhamos, em um lugar onde ninguém interfere em nossas ações, para não deixarmos de lado nossos propósitos. Somente dessa forma pode-se conduzir a vida segundo um único princípio, em lugar de fragmentá-la com projetos diversificados.

Por exemplo, dentre todos os males, o pior de todos é quando resolvemos mudar nossos defeitos. Passar de uma coisa para outra pode agradar, mas, ao mesmo tempo, é vergonhoso, uma vez que nossas decisões tornam-se levianas. Hesitamos e somos levados para cá e para lá. Abrimos mão de nossos anseios, reclamamos do que abandonamos, as mudanças se alternam entre a nossa ambição e o nosso arrependimento.

Dependemos inteiramente dos julgamentos alheios, e parece-nos melhor aquele que tem muitos pretendentes e adoradores e não o que deve ser elogiável e desejável. Nem avaliamos o caminho do bem e do mal por si, mas pela quantidade de pistas, sendo que nenhuma assinala retorno.

Perguntas: "O que dizes, Sêneca? Abandonas os teus pares? Teus amigos estoicos dizem com certeza 'que até o último momento da vida estaremos em ação, não desistiremos de trabalhar para o bem comum, de ajudar cada um, até considerar o poder de dar auxílio ao inimigo debilitado pela idade. Somos os que não damos privilégio a nenhuma idade e, como diz aquele homem respeitadíssimo, apertamos nossos cabelos brancos com capacete; nós estamos entre os que, mesmo diante da morte, não ficamos parados  e, se as circunstâncias permitirem, nem mesmo para própria morte será dado descanso.' Por que nos repassa os preceitos de Epicuro junto aos princípios de Zenão? Por que, em lugar de trair Zenão, visto que ele te causa aborrecimentos, não o abandona completamente?"

Quero provar que não estou em conflito com a doutrina estoica, nem eles estão contra os próprios ensinamentos. Mesmo que eu os abandonasse, seria desculpado, porque continuaria seguindo os exemplos deles.

O que passo a dizer será dividido em duas partes. Em primeiro lugar, alguém pode, desde a primeira idade, se entregar inteiramente à contemplação da verdade e buscar a razão de viver, praticando de forma reservada. Depois, vou mostrar que, em idade já avançada, o homem, com plena capacidade, pode continuar servindo e orientando os demais, tal como as virgens vestais, que gastaram muitos anos entre vários ofícios para aprender funções sagradas. Depois, passavam a ensinar aos outros aquilo que tinham aprendido.

II

Demonstrarei que isso também agrada aos estoicos, não porque eu siga uma lei que proíbe dizer algo contra Zenão e Crisipo, mas porque a própria situação me faz seguir a opinião deles, pois, se alguém está ligado à posição de uma única pessoa, seu lugar não é na cúria e, sim, entre as facções partidárias. Se tudo fosse  bem explicado  e sendo a verdade professada abertamente, nada teríamos de mudar em nossas decisões. Agora buscamos a verdade na companhia daqueles mesmos que nos ensinam a respeito dela.

As duas maiores correntes filosóficas, a dos epicuristas e a dos estoicos, discordam entre si sobre esse tema, embora por caminhos diversos concordem com a vida retirada. Epicuro diz: "O sábio não deve ter acesso a negócio público a não ser que seja obrigado". Zenão fala: "Exerça função pública, a não ser que haja algum empecilho".

Dessa forma, um ordena, por princípio, a vida retirada, outro pressupõe para isso uma causa, mas o termo "causa" tem sentido amplo. Se a república estiver tão corrompida que não possa ser ajudada, se estiver toda tomada pelo mal, o sábio irá dedicar-se ao não-realizável, empenhar-se para não conseguir nenhum resultado. Acrescente-se que, se tiver pouca autoridade e pouca força, a própria república não iria aceitá-lo se a saúde o impedisse. Assim como não se lança ao mar um navio com o casco danificado, nem se alistaria no exército quem estivesse debilitado, da mesma forma não se deve empreender uma caminhada para a qual se sabe não estar capacitado.

Portanto, aquele com plena capacidade física, antes de procurar problemas, pode colocar-se em segurança e, imediatamente, dedicar-se a artes nobres, vivendo em ócio justificado, cultivando virtudes que podem ser praticadas no mais absoluto retiro.

O que se exige do homem é que seja útil  ao maior número de semelhantes, se possível. Caso não consiga, sirva a poucos, ou aos mais próximos, ou a si mesmo.

Ao tornar-se útil para os demais, acaba por iniciar um trabalho comunitário. Da mesma forma como quem se degenera prejudica não apenas a si, mas também a todos os quais poderia prestar auxílio caso fosse melhor, quem se aprimora apenas por isso já beneficia os outros, já que apronta quem vai poder beneficiá-los no futuro.

III


Suponhamos que haja duas repúblicas: uma grande e verdadeiramente pública na qual vivem homens e deuses e na qual nada se vê apenas por um ângulo, medindo a sua extensão pelo percurso do sol. A outra é aquela que nos foi dada ao nascer. É a dos atenienses ou a dos cartagineses ou qualquer outra que não pertença a todos os homens, apenas a alguns deles. Há indivíduos que se dedicam ao mesmo tempo a ambas; outros apenas à menor e outros, ainda, somente à maior.

À república maior, mesmo na vida retirada, podemos servir, o que me parece até ser melhor, podendo ainda inquirir o que é a virtude; se há uma ou muitas; se é a natureza ou a prática que faz os homens bons; se aquilo que abrange as terras e os mares e o que neles está inserido é apenas uma coisa ou muitos corpos espalhados por deus; se a matéria da qual tudo nasce é alguma coisa contínua e plena ou descontínua e vazia ou uma mistura de partes sólidas; onde está deus; se sua obra está espalhada no exterior da matéria ou incluída no conjunto; se o mundo é eterno ou deve ser olhado como coisa efêmera inserida no tempo. Aquele que contempla tudo isso presta que serviço a deus? Oxalá suas obras tão grandiosas não fiquem sem testemunhas!

Costumamos dizer que o bem supremo consiste em viver de acordo com a natureza. A natureza gerou-no tanto para a contemplação quanto para a ação. Agora podemos provar o que dissemos anteriormente. Por que agora? Isso não ficaria provado de maneira suficiente se cada um buscasse dentro de si próprio o desejo que possui para buscar o desconhecido e a curiosidade diante da narração de uma história?

Alguns navegam e enfrentam os trabalhos de uma peregrinação muito longa apenas pelo prêmio de conhecer algo longínquo e oculto. É isso que reúne a multidão para os espetáculos; é isso que leva a buscar coisas não aparentes, a questionar as secretas, a remexer antigüidades, a ouvir sobre costumes dos povos bárbaros.

A natureza deu-nos um espírito curioso e consciente de sua perícia e beleza; criou-nos para a contemplação desses grandes espetáculos. Tudo isso perderia a sua riqueza de coisas grandiosas, excelsas, tão nitidamente estruturadas, tão brilhantes e formosas, se ficasse visível apenas para a solidão!

Para que saibas que ela quer que tudo isso fosse admirado e não apenas avistado, observa, então, o local onde nos situou, isto é, colocou-nos em meio dela própria e concedeu-nos o poder de observar todos os seres ao nosso redor. Não fez o homem apenas ereto, mas, sobretudo, deu-lhe habilidade para a contemplação. A fim de que, desde o nascer do sol até o ocaso, pudesse observar o curso dos astros e para que seu rosto girasse, deu-lhe uma cabeça erguida, colocando-a sobre ombros flexíveis. Direcionando o curso de seis constelações durante o dia e de seis outras no decorrer da noite, a natureza não oculta nada de si mesma, pondo diante dos olhos humanos tais maravilhas que estimulam a curiosidade para outras.

Mas nem por isso já vimos tudo o que existe, já que a nossa visão descortina o caminho para a investigação e apresenta-nos os fundamentos da verdade de maneira que a averiguação passa do claro para o escuro, pondo a descoberto o que existe de mais antigo no universo, como, por exemplo, procurar a origem dos astros que se mostram como elementos distintos entre si; qual foi a lei que separou elementos ligados entre si e os que se encontram misturados; quem indicou o lugar para cada um deles; se os elementos mais pesados caíram sozinhos e os mais leves alçaram voo, ou, independente do peso dos corpos, uma outra força mais forte determinou a lei de cada um deles; se é verdade, segundo dizem, que o homem é constituído de espírito divino; se partículas e fagulhas de astros caíram sobre a Terra e aí ficaram escondidas em lugar inacessível.

IV

O nosso pensamento invade as barreiras do céu e não se contenta em saber apenas o que está ao nosso alcance. Alguém poderia perguntar, afirmando: "examino o que está localizado além de nosso mundo para saber se é uma grande vastidão ou está circunscrito por alguns limites; qual a forma dos elementos estranhos; são disformes ou confusos ou com igual volume em cada parte; se estão ligados com o nosso mundo ou dele separados; se vagueiam pelo espaço; se é com elementos indivisíveis que se compõe tudo o que surgiu ou surgirá; ou, ainda, se a matéria de tudo isso é espessa e móvel ao mesmo tempo; se os elementos são opostos entre si ou se não estão em conflito já que contribuem para um mesmo fim por caminhos diferentes".

Uma vez que veio ao mundo para descobrir tais problemas, vê como é pequeno o tempo de que o homem dispõe, embora se dedique a isso por inteiro. Ainda que não permita que lhe perturbem nem se descuide, ainda que controle seu tempo com muito cuidado e estenda as suas horas até o fim de sua vida, desde que o destino não retire nada do que recebeu da natureza, o homem é por demais mortal para compreender as coisas imortais.

Assim, vivo segundo a natureza, já que a ela me entreguei totalmente, já que sou seu admirador e servo. Entretanto, a natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me à reflexão. Tanto uma quanto outra realizo, pois não pode haver contemplação sem alguma forma de ação.

V

"Mas faz diferença", dizes, "dedicar-se ao estudo da natureza apenas levado pelo prazer, não pedindo nada mais que a contemplação, sem visar a qualquer outro objetivo, uma vez que ela, com seus atrativos, já proporciona satisfação?"

Da mesma forma que desejas as coisas sem o mínimo apreço pelas virtudes, sem cultivar o espírito, agindo de forma injusta através de atos não dignos de aprovação - já que todos os elementos devem estar ligados -, assim uma virtude distanciada da vida retirada é um bem imperfeito e doente, uma vez que inativa não demonstra nenhuma aprendizagem.

Ninguém pode negar que a virtude deve provar a sua eficiência em obras e não apenas ficar refletindo sobre o que faz; deve, às vezes, entregar-se inteiramente a uma tarefa e pôr-se a fazer algo com empenho e resolutamente pela sua prática. Se o atraso na execução não ocorre por causa do sábio, então não é o agente que está em falta e, sim, aquilo que deve ser feito. Por que razão então condená-lo a ficar recluso?

Com que razão então o sábio se retira para o sossego? É para ter certeza de que, também ali, deve praticar atos que serão de utilidade para toda a posteridade. Certamente, sabemos que tanto Zenão como Crisipo realizaram obras mais soberbas do que comandar exércitos, ocupar cargos públicos, promulgar leis. Até as promulgaram, mas não apenas para uma cidade e, sim, para toda a humanidade. Por que, então, não seria conveniente ao homem honesto e digno a vida retirada, graças ao qual se organizam os séculos futuros. É através dessa que se divulga uma mensagem não apenas para um pequeno auditório e, sim, para homens de todas as nações, sejam os que ali se encontram, sejam os que hão de vir.

Em síntese, pergunto, se Cleanto, Crisipo e Zenão(4) viveram de acordo com seus ideais. Não duvido que responderás que viveram da mesma forma como ensinaram, porém nenhum deles administrou república alguma. Dirás ainda que não tiveram a fortuna e a dignidade que costumam ter os que são aceitos na gerência dos negócios públicos. Mas nem isso levaram uma vida negligente e tediosa. Agiram de modo que o seu sossego fosse mais útil aos homens do que as atividades e o suor de muitos outros. Dessa forma, são percebidos como grandes empreendedores, apesar de não terem exercido cargos públicos.

VI

Além disso, há três modos de vida. Cabe questionar qual o melhor: o que se consagra ao prazer, o que se consagra à contemplação ou aquele que se dedica à ação? Primeiramente, abandonando qualquer discussão e o implacável ódio que se declara aos que decidem trilhar caminhos diferentes dos nossos, vejamos se todas essas doutrinas, de diferentes denominações, não estariam levando a um mesmo caminho sob um ou outro aspecto. Mesmo o que preconiza a doutrina do prazer não abandona a contemplação, como o que só se dedica a contemplação também não está afastado do prazer, e o terceiro, embora dedicando a vida às atividades, não está livre da contemplação.

Dirás que existe uma sensível diferença entre alguma coisa ser proposital ou estar direcionada para alguma intenção. Evidentemente, há diferença, porém uma coisa não acontece sem a outra. Nem contemplação sem ação, nem ação sem contemplação, nem o terceiro, que consideramos negativo, demonstra ter um prazer apático, uma vez que captura aquilo que a razão assinala como estável para si. Por esse motivo, também a comitiva do prazer é ativa.

E por que não seria? É ativa porque Epicuro declara, em algum lugar, que se afastaria do prazer e até suportaria a dor se o prazer fosse amenizado pelo arrependimento, ou uma dor menor substituísse outra mais séria.

Por que importa dizer tais coisas? Importa deixar claro que a contemplação agrada a todos. Uns a desejam como fim último; nós a temos como um porto de passagem, não como porto de chegada.

Acrescente-se a tudo isso que , segundo a lei de Crisipo, é lícito viver uma retirada. Não digo resignar-se a ela, mas escolher voluntariamente esse modo de vida. Dizem que o sábio não deve aproximar-se de qualquer tipo de negócio público. Não importa qual o caminho que ele escolhe para o descanso final. Pode acontecer que os negócios públicos não o escolham; pode acontecer que ele não os escolha; pode, enfim, acontecer que nem existam. O fato é que tais negócios faltarão para os que os buscarem com disposição destrutiva.

Pergunto, então, de qual república o sábio deve aproximar-se? A dos atenienses, na qual Sócrates foi condenado e da qual Aristóteles teve de fugir para que não tivesse o mesmo destino? Daquela na qual a inveja persegue a virtude? Assim dirás que o sábio não deve se  aproximar de tal tipo de república? Se ele se acerca da república de Cartago, na qual a revolta é constante e a liberdade hostiliza os melhores, sofrendo a justiça e a honestidade igual aviltamento, enquanto a crueldade contra os inimigos é enorme com reflexos sobre os cidadãos, então dessa também ele fugirá.

Se eu decidisse percorrer uma a uma todas as repúblicas  atuais, não acharia nenhuma que estivesse à altura para receber o sábio, ou que o sábio pudesse dela fazer parte. Já que não se pode encontrar a república de nossos sonhos, então nos invade a necessidade de descanso, porque não encontramos nenhum lugar que possa substituir a vida retirada.

Se alguém disser que navegar é ótimo, mas, em seguida, advertir que não se deve fazê-lo por águas onde são frequentes os naufrágios e nas quais as tempestades desorientam os pilotos, concluo que esse indivíduo me aconselha a não enfrentar o mar, por mais que louve a navegação.


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Sêneca  Da tranquilidade da alma precedido de Da vida retirada e seguido de Da felicidade, traduzido do latim por Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas, L&PM Editores, 1974, Porto Alegre  RS; Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.?  65 d.C.) nascido em Córdoba  Espanha, foi educado em Roma, estudou retórica ligada à filosofia e, tornando-se conhecido como advogado, foi membro do Senado romano e, depois, questor. Seus textos nos remetem aos conceitos epicuristas e às idéias estoicas. Explicam-nos as tradutoras que, o pensador, como mestre na redação de textos filosóficos, nos legou clássicos que retratam de maneira sóbria e aprofundada alguns dos principais problemas que atormentavam os filósofos daquele período do Império romano.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Epicuro: Carta sobre a Felicidade (a Meneceu)

Epicuro envia suas saudações a Meneceu
    
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.

Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal.

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não é só conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem  os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam as pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ele é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?

Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.

Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem  que vive entre bens imortais.
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Epicuro Carta sobre a Felicidade (a Meneceu), tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, Editora UNESP, 2ª reimpressão, 2002, São Paulo SP; pela Introdução Cronologia de Epicuro, desta mesma edição, ficamos sabendo que o filósofo nasceu em 341 a.C. na ilha grega de Samos embora tenha sempre ostentado a cidadania ateniense herdada do pai emigrante.Só em 323 a.C. é que o pensador transfere-se para Atenas, a capital cultural da Grécia Antiga. Após 311 funda escolas filosóficas em Cólofon costa asiática em Lâmpsaco nos Dardanelos , onde conquista seus adeptos mais ilustres (Hermarco, Colotes, Metrodoro, Pítocles e Heródoto) os quais o seguem pelo resto de sua existência. Pítocles e Heródoto, ao lado de Meneceu, são os destinatários das três conhecidas cartas que costumam ser apontadas como a súmula do pensamento epicurista. Em 306, em Atenas, instala o que viria a ser a sua mais célebre escola: uma casa ampla sua residência e de outros mestres e antigos discípulos  e um grande jardim onde, acampados em barracas, residiam os novos discípulos vindos das mais distantes regiões. Tal escola ateniense passou logo a ser  conhecida como "O Jardim de Epicuro".  O filósofo, que veio a morrer em 270 a.C., aos 72 anos de idade, deixou como seu sucessor na direção da escola o seu fiel discípulo Hermarco.