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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Anna Akhmátova: Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, . . .

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912
(Rosário [ou, literalmente, Contas],
São Petersburgo, 1914)

Anna Akhmátova

Я научилась просто, мудро жить, . . .

Я научилась просто, мудро жить,
Смотреть на небо и молиться Богу,
И долго перед вечером бродить,
Чтоб утомить ненужную тревогу.

Когда шуршат в овраге лопухи
И никнет гроздь рябины желто-красной,
Слагаю я веселые стихи
О жизни тленной, тленной и прекрасной.

Я возвращаюсь. Лижет мне ладонь
Пушистый кот, мурлыкает умильней,
И яркий загорается огонь
На башенке озерной лесопильни.

Лишь изредка прорезывает тишь
Крик аиста, слетевшего на крышу.
И если в дверь мою ты постучишь,
Мне кажется, я даже не услышу.

1912 г.
(Чётки — ‘Tchiôtcki’, 1914)
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sábado, 20 de setembro de 2025

Anna Akhmátova: A mulher de Lot

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás
e transformou-se numa estátua de sal.
Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde deste filhos ao homem amado".

Ela olhou e paralisada pela dor mortal ,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.

Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.

24/2/1924

Anna Akhmátova

Лотова жена

Жена же Лотова оглянулась позади его
и стала соляным столпом.
Книга Бытия

И праведник шел за посланником Бога,
Огромный и светлый, по черной горе,
Но громко жене говорила тревога:
Не поздно, ты можешь еще посмотреть

На красные башни родного Содома,
На площадь, где пела, на двор, где пряла,
На окна пустые высокого дома,
Где милому мужу детей родила.

Взглянула и, скованы смертною болью,
Глаза ее больше смотреть не могли;
И сделалось тело прозрачною солью,
И быстрые ноги к земле приросли.

Кто женщину эту оплакивать будет,
Не меньшей ли мнится она из утрат?
Лишь сердце мое никогда не забудет
Отдавшую жизнь за единственный взгляд.

21 февраля 1924
Петербург, Казанская, 2
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Подорожник, ‘Podorójnik(Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem — poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Anna Akhmátova: Eu visitei o poeta

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio

e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!

Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.

Mas me lembrarei sempre da conversa,
do meio-dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.

Janeiro de 1914

Anna Akhmátova

Я пришла к поэту в гости...

Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня!

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.

Январь 1914
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

domingo, 11 de maio de 2025

Anna Akhmátova: À Musa

 
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[traduzido por Lauro Machado Coelho]

Quando, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: “Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?” E ela: “Sim, fui eu”.

1924

Anna Akhmátova

Муза

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.

И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: «Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?» Отвечает: «Я!».

1924 г.
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Antologia Poética: Anna Akhmátova, Seleção, Tradução do russo, Apresentação e Notas de Lauro Machado Coelho, Coleção L&PM Pocket, volume 751, 1ª edição em fevereiro de 2009 e reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ou Anna Andrêievna Gorienko, ucraniana nascida num subúrbio de Odessa, Bolshôi Fontán, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa memorialista; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; escreveu seus primeiros versos no inverno de 1905, aos dezesseis anos; participou da criação do Tsékh Poétov (Oficina dos Poetas) e do Acmeísmo movimento literário de reação ao Simbolismo [escola moscovita, da qual faziam parte os poetas Vladímir Maiakóvski e Velimír Khlébnikov, além de Aleksandr Blok], publicou seus poemas nas revistas petersburguesas Apollon e Guiperbória; suas obras: Вечер (Noite, 1912), Чётки (Rosário ou, literalmente, Contas, 1914), Белая Стая (Revoada Branca, 1917), Podorójnik (Tanchagem, ou Capim, 1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Реквием — поэма (Réquiem poemas, 1963), Бег Времени (O voo do tempo, 1965), e outros títulos, além de reedições; a poetisa, que optou por nunca sair da então União Soviética, aliás, que sempre chamou de Rússia, jamais quis emigrar, sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; nos períodos mais difíceis de sua vida social e literária, embora continuasse a produzir poemas, traduziu obras de Victor Hugo, Rabindranath Tagore e Giacomo Leopardi e “realizou trabalhos acadêmicos sobre Pushkin e Dostoiévski; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.