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[traduzido por Jorge Wanderley]
“Ama-me o coração por uma hora, mas
meu osso por um dia...
O esqueleto pelo menos sorri, pois
tem um amanhã:
Mas os corações dos jovens são
agora o tesouro sombrio da morte
E o verão é solitário.
Conforta a luz sozinha e o sol na
sua mágoa,
Vem como a noite pois o sol é
terrível
Como a verdade e a luz moribunda
mostra apenas a Fome do
esqueleto
Tem pela paz, por sob a carne como
a rosa de verão.
Vem através da sombra da morte como
antes por entre ramos
De juventude vieste, através da
escuridão como um portal florido
Que leva ao paraíso, longe da rua — tu, cidade
Não nascida, entrevista pelos
sem-lar, noite do pobre.
Caminhas pelas ruas onde a sombra
ameaçadora do homem,
De margens rubras marcadas pelo sol
como Caim, tem forma variável,
Elegante como o Esqueleto, agachada
como o Tigre,
Com a velha sabedoria e a
eficiência do Macaco.
O pulso que bate no coração se
transmuda em martelo
Que ressoa em Potters-Field onde
erguem um novo mundo
Desde o nosso Osso e dos dias de
urubus com mal-cheirosos restos e
clamores...
Mas tu és minha noite e minha paz.
A noite sagrada da concepção, do
repouso, da escuridão
Consoladora em que os homens se
igualam: o justo e o injusto.
O rico e o pobre; já não sendo
nações separadas,
Eles são irmãos na noite.”
Esta foi a canção que eu ouvi; mas
o Osso cala!
Quem sabe se o som era o da luz
morta chamando,
Ou se era de César rolando sobre
seu coração — aquela pedra —
Ou se era o peso de Atlas
caindo?...
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| Edith Sitwell |
Street Song
"Love my heart for an hour,
but my bone for a day
At least the skeleton smiles, for
it has a morrow:
But the hearts of the young are now
the dark treasure of Death
And summer is lonely.
Comfort the lonely light and the
sun in its sorrow,
Come like the night, for terrible
is the sun
As truth, and the dying light shows
only the skeleton's hum
For peace, under the flesh like the
summer rose.
Come through the darkness of death,
as once through the branches
Of youth you came, through the
shade like the flowering door
That leads into Paradise, far from
the street, you, the unborn
City seen by the homeless, the
night of the poor.
You walk in the city ways, where
Man's threatening shadow
Red-edged by the sun like Cain, has
a changing shape
Elegant like the Skeleton, crouched
like the Tiger,
With the age-old wisdom and aptness
of the Ape.
The pulse that beats in the heart
is changed to the hammer,
That sounds in the Potter's Field.
Where they build a new world
From’ our Bone, and the
carrion-bird days' foul droppings and
clamour —
But you are my night, and my peace —
The holy night of conception, of
rest, the consoling
Darkness when all men are equal, — the wrong and the right,
And the rich and the poor are no
longer separate nations,
They are brothers in night."
This was the song I heard; but the
Bone is silent!
Who knows if the sound was that of
the dead light calling,
Of Ceasar rolling onward his heart,
that stone,
Or the burden of Atlas falling.
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Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa
[várias poetas], edição bilíngue, Organização/ensaios de Márcia Cavendish Wanderley,
Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, Nota Introdutória de Geraldo Carneiro,
Tradução de Jorge Wanderley e Apresentação/orelhas do livro por Paulo Henriques
Britto, 2008, Editora 7Letras, Rio de Janeiro — RJ; Edith Louisa Sitwell (1887 —
1964), ou Dame Edith Sitwell, britânica de Scarborough, North Riding of Yorkshire, Inglaterra, “a mais velha dos três
Sitwells literários [ela, Osbert e Sacheverell, seus irmãos]”, pertencente à família
da aristocracia rural e patrona de artes [davam suporte financeiro a alguns artistas
privados de recursos], foi poetisa, crítica e biógrafa; suas obras: Façade (18 poemas
compostos para um espetáculo musical, 1922), Wheels [The Sitwells] (antologias,
várias edições publicadas entre 1916 e 1921), Poetry and Criticism (Poesia e Crítica,
1925), Gold Coast Customs (poemas, 1929), Alexander Pope (biografia, 1930), The
English Eccentrics (Excêntricos Ingleses, crítica, 1933), Aspects of Modern Poetry
(Aspectos da Poesia Moderna, 1934), Victoria of England (biografia, 1936), I
Live Under a Black Sun (Vivo sob um Sol Negro, romance, 1937), Street Songs (Canções
de Rua, poemas, 1942), The Poet’s Notebook (coletânea, 1943), Green Song (1944),
Song of Cold (Canção do Frio, 1945), Fanfare for Elizabeth (Fanfarra para Elizabeth,
biografia, 1946), Still Fals the Rai (Street Songs), Three Poems of the Atomic Age,
The Canticle of the Rose: Poems 1917-1949 (O Cântico da Rosa: Poemas 1917-1949,
1949), The Queens and the Hive (As Rainhas e a Colméia, crítica, 1962), Taken Care
of The Autobiography of Edit Sitwell, publicação póstuma, autobiografia, 1965);
Edith Sitwell, por sua vez, foi biografada por Rodolphe L. Megroz (The Three Sitwells:
A Biographycal and Critical Study, 1927), Cecil M. Bowra (Edith Sitwell, 1947) e
John Lehman (A Nest of Tigers: The Sitwells in Their Times, 1968); de sua
biografia, consta ter frequentado os salões de arte [e festas] de Gertrude Stein (romancista,
poetisa, dramaturga e colecionadora de arte), em Paris, ter sido laureada com doutorados
honorários das universidades de Leeds, Durham, Oxford e Sheffield, ter recebido
a comenda de Dama do Império Britânico [daí, passou a constar da lista de honra
do aniversário da rainha], ter se convertido ao catolicismo, ter sido patronesse
do poeta Dylan Thomas e “muito próxima de H. D. (Hilda Doolittle, [poeta, romancista
e memorialista]) e de Denton Welch [escritor e pintor]”.