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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Baudelaire: Um morto alegre

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[traduzido por Paulo Cesar Pimentel]

Numa terra sem vida, abandonada e dura,
quero eu mesmo cavar um buraco profundo,
onde possa esticar minha velha ossatura
para dormir tranqüilo, esquecido do mundo.

Odeio o testamento, odeio a sepultura;
a esmolar compaixão como um vil vagabundo,
antes quisera ver minha carcaça impura,
inda viva servir de pasto a um corvo imundo.

Vermes, amigos meus sem olhos, sem ouvidos,
um morto vos procura alegre e descuidado!
Filhos da podridão, asquerosos e tortos.

sem pena percorrei meus restos corrompidos,
e dizei-me se pode inda ser torturado
este corpo sem alma e mais morto que os mortos!

Baudelaire


LXXII. – Le mort joyeux

Dans une terre grasse et pleine d’escargots
Je veux creuser moi-même une fosse profonde,
Où je puisse à loisir étaler mes vieux os
Et dormir dans l’oubli comme um requin dans l’onde.
Je hais les testaments et je hais les tombeaux;
Plutôt que d’implorer une larme du monde,
Vivant, j’aimerais mieux inviter les corbeaux
À saigner tous les bouts de ma carcasse immonde.
Ô vers! noirs compagnons sans oreille et sans yeux,
Voyez venir à vous un mort libre et joyeux;
Philosophes viveurs, fils de la pourriture,
À travers ma ruine allez donc sans remords,
Et dites-moi s’il est encor quelque torture
Pour ce vieux corps sans âme et mort parmi les morts!

(Les fleurs du mal)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima, Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou Les Fleurs du Mal (Flores do Mal, poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.