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[traduzido por Marcos Antônio
Siscar]
(Homens
do mar)
Isto é um
renegado. Um grande contumaz:
Para fazer nada, tudo faz.
Cortou
sete mares, ou mais; bravo e poltrão,
Corsário
anfíbio, em passeio ou em ação;
Escravo,
flibusteiro, negro, branco, soldado,
Capanga;
faz de tudo um pouco, o coitado:
Macaco,
sabujo de dama... e mesmo: dama.
Profeta in partibus, vendendo a alma
por grama;
Veneno,
flautista, carrasco ou enforcado,
Médico,
eunuco; pedinte, um facão do lado...
A morte o
conhece, e já não se sente atraída...
Cuspido
pela morte, cuspido pela vida,
Ele come
homem, ouro, excremento, poeira,
Come
chumbo, ambrósia… ou nada — Aquilo que cheira.
—
— Seu
nome! — Trocar de pele lhe era fácil...
Em todas
as línguas é: Cidalísia, Inácio,
Todos los santos... Mas tal peso já não tem;
O T. F.
de forçado apagou muito bem!...
— Quem o
moveu... o amor? — Já cheirou a cueiro!
Ele
violou tudo: a forca e o carcereiro.
— Ódio? — Não. — Roubo? — Recusou o que era dado.
— Amarrou
o bode do vício? — Não é viciado:
Não... na
barriga ele tem uma messalina,
É um
temperamento... um artista de rapina.
. . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
— Não
teve misericórdia nem com o diabo.
— Tenha o
leme! — Apodreceu tudo até o cabo,
Matou
toda besta,
destratou o trato tosco...
Puro, por
haver purgado todo desgosto.
Baleares.
Le Rénégat*
(Gens de
mer)
Ça c’est
un renégat. Contumace partout:
Pour ne rien faire, ça fait tout.
Écumé de
partout et d’ailleurs; crâne et lâche,
Écumeur
amphibie1, à la course, à la tâche;
Esclave,
flibustier, nègre, blanc, ou soldat,
Bravo:
fait tout ce qui concerne tout état;
Singe,
limier de femme... ou même, au besoin, femme;
Prophète in partibus, à tant par kilo
d’âme;
Pendu,
bourreau, poison, flûtiste, médecin,
Eunuque;
ou mendiant, un coutelas en main...
La mort
le connaît bien, mais n’en a plus envie...
Recraché
par la mort, recraché par la vie,
Ça mange
de l’humain, de l’or, de l’excrément,
Du plomb,
de l’ambroisie... ou rien — Ce que ça sent. —
— Son
nom? — Il a changé de peau, comme chemise...
Dans
toutes langues c’est: Ignace ou Cydalyse2,
Todos los
santos... Mais il ne porte plus ça;
Il a bien
effacé son T. F. de forçat!...
— Qui l’a
poussé... l’amour? — Il a jeté sa gourme3!
Il a tout
violé: potence et garde-chiourme.
— La
haine? — Non. — Le vol? — Il a refusé mieux.
— Coup de
barre4du vice? — Il n’est pas vicieux;
Non...
dans le ventre il a de la fille-de-joie,
C’est un
tempérament... un artiste de proie.
. . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
— Au
diable même il n’a pas fait miséricorde.
— Hale
encore! — Il a tout pourri jusqu’à la corde,
Il a tué
toute bête,
éreinté tous les coups...
Pur, à
force d’avoir purgé tous les dégoûts.
Baléares5.
* Notas do
tradutor Marcos Antônio Siscar:
‘O poema apresenta uma sequência de autodefinições comparável à dos poemas-epitáfio em Corbière, poeta “anfíbio”. [ . . . ] [traduzido] da seção do livro chamada “Homens do mar”.1. verso 4 – “Amphibie”: segundo o dicionário Littré, o homem que professa, sucessivamente, sentimentos contrários;2. verso 16 – “Ignace”: lembra o santo; “Cydalyse”, nome utilizado por Nerval [Gérard de] lembra um nome de cortesã;3. verso 19 – “Jeter la gourme”: fazer loucuras na mocidade;4. verso 22 – “Avoir le coup de barre”: sentir-se repentinamente muito cansado;5. “Baléares”: os portos das ilhas Baleares eram ponto de passagem e de refúgio para todo tipo de aventureiro em ação no Mediterrâneo.'
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière,
edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, 1996, Editora
Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière
(1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste
francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo],
abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista;
desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia,
consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em
que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um
professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes
(Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus
poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só
tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes
maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o
nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como
um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora
do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição
de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários;
depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874
Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des
trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de
Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound
(1885 — 1972) consagrou Corbière
definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa],
mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus
jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino
Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.