Mostrando postagens com marcador Apollinaire. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Apollinaire. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guillaumme Apollinaire: Salomé

 
____________________
[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Para que uma vez mais João Batista sorria,
Senhor, eu dançarei melhor que um serafim,
Mãe, por que estás imersa em tal melancolia,
vestida de condessa e ao lado do delfim?

Meu coração só de escutá-lo, quando eu vinha
dançar junto ao Funchal, batia angustiado.
Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha
destinada a flutuar no alto do seu cajado.

E agora, para quem farei lírios bordados?
Seu bordão refloresce às margens do Jordão.
Vieram prendê-o, ó Rei Herodes, teus soldados,
e em meu jardim lírios murcharam desde então.

Vinde, todos comigo, além, sob os quincôncios…
           Não chores mais, lindo bufão de reis;
em vez do guizo, empunha esta cabeça e dança!
Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis.

Senhor, ide na frente, e que a guarda nos siga.
Abriremos um fosso e nele a enterraremos
entre flores, e, em roda, em torno dançaremos,
dançaremos até que eu perca a minha liga,
           o rei a tabaqueira,
           a infanta o seu rosário
           e o cura o seu breviário.

Guillaumme Apollinaire

Salomé

Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les seraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin

Mon coeur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton

Et pour qui voulez-vous qu’à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et tous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L’emmenèrent se sont flétris dans mon jardin

Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
           Ne pleure pas ô joli fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N’y touchez pas son front ma mère est déjà froid

Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l’y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu’à l’heure où j’aurai perdu ma jarretière
           Le roi sa tabatière
           L’infante son rosaire
           Le curé son bréviaire

(Poème d’abord publié en 1905 avant d’être
intégré dans le recueil Alcools [1913])
___________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; precursor do surrealismo, com sua arte colecionou amigos e colaboradores, entre os quais Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau e Marcel Duchamp; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; em 1903, participou de evento artístico-literário organizado pela revista La Plume, foi cofundador da revista Le Festin d’Esope; em 1907, publicou anonimamente Les Onze Mille Verges [romance erótico]; escreveu textos para o Paris Journal, o Le Mercure de France e outros periódicos; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; suas obras: L’Hérésiarque et Cie (contos, 1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, Alcools, 1913), Os Pintores Cubistas (Peintre cubistes, méditations esthétiques, 1913), O Poeta Assassinado (coleção de contos, Le Poète Assassiné, 1916), Os Seios de Tirésias (drama surrealista, Les Mamelles de Tirésias, 1917), Caligramas (coleção de poemas, Calligrammes, 1918) e outros títulos; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pediu alistamento e participou na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, tendo sido ferido em combate; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

domingo, 21 de maio de 2023

Guillaume Apollinaire: O chapéu-mausoléu

____________________
[traduzido por José Paulo Paes]

Empoleirado
No teu chapéu
Eis aninhado
Num mausoléu

O passarinho.
Veio de um zoo
Lógico
o seu cuzinho
Ornitológico?

Lógico!
E vou-me já
Que vou mijar.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 26.02.81

Gillaume Apollinaire

Chapeau-tombeau

On a niché
Dans son tombeau
L’oiseau perché
Sur ton chapeau

Il a vécu
En Amérique
Ce petit cul
Or
Nithologique

Or
J’en ai assez
Je vais pisser

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, dramaturgo, romancista, ensaísta, tradutor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; precursor do surrealismo, com sua arte colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; obras: L’Hérésiarque et Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Apollinaire: As mulheres

 
____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

Na casa do vinicultor as mulheres costuram
Lenchen alimenta o fogão e põe água no café
Por cima — O gato se espreguiça e se aquece até
— Gertrude e seu vizinho Martin por fim casaram

O rouxinol cego tentou cantar
Mas a coruja uivando ele tremeu na gaiola
Aquele cipreste parece o papa de sacola
Sob a neve — O carteiro vem parar

Para conversar com o novo professor
— Este inverno é muito frio o vinho será melhor
— O sacristão surdo e coxo está a morrer
— A filha do velho mestre está a coser

Para a festa do padre A floresta lá
Graças ao vento cantava com voz grave de órgão
O sonho Herr Traum veio com sua irmã Frau Sorge
Kaethi você não remendou estas meias lá

— Traga o café, a manteiga e pão em fatias
A marmelada, a banha, uma jarra de leite até
— Lenchen, por favor, mais um pouco de café
— Parece que o vento diz frases latinas

— Mais um pouco de café Lenchen, por favor
— Lotte estás triste Ó coraçãozinho — Acho que ela ama
— Deus guarde — Por mim só amo a mim mesma
— Calados Agora vovó reza seu terço com fervor

— Preciso de açúcar candi Leni estou com tosse
— Pedro leva seu furão coelhos caçar
O vento a todos os pinheiros fazia dançar
Lotte o amor deixa triste — Ilse a vida é doce

A noite caía Os vinhedos de galhos retorcidos
Na escuridão se tornavam ossuários
Nevados e curvados lá jaziam sudários
E cães latiam aos passantes estremecidos

Ele morreu escutem O sino da igreja aberta
Tocava docemente a morte do sacristão
Lise precisa atiçar se apaga o fogão
Mulheres faziam o sinal-da-cruz na noite incerta

Setembro 1901 — maio 1902

Apollinaire

Les Femmes

Dans la maison du vigneron les femmes cousent
Lenchen remplis le poêle et mets l'eau du café
Dessus  Le chat s'étire après s'être chauffé
 Gertrude et son voisin Martin enfin s'épousent

Le rossignol aveugle essaya de chanter
Mais l'effraie ululant il trembla dans sa cage
Ce cyprès là-bas a l'air du pape en voyage
Sous la neige  le facteur vient de s'arrêter

Pour causer avec le nouveau maître d'école
 Cet hiver est très froid le vin sera très bon
 Le sacristain sourd et boiteux est moribond
 La fille du vieux bourgmestre brode une étole

Pour la fête du curé La forêt là-bas
Grâce au vent chantait à voix grave de grand orgue
Le songe Herr Traum survint avec sa sœur Frau Sorge
Kaethi tu n'as pas bien raccommodé ces bas

 Apporte le café le beurre et les tartines
La marmelade le saindoux un pot de lait
 Encore un peu de café Lenchen s'il te plaît
 On dirait que le vent dit des phrases latines

 Encore un peu de café Lenchen s'il te plaît
 Lotte es-tu triste O petit cœur  Je crois qu'elle aime
 Dieu garde  Pour ma part je n'aime que moi-même
 Chut A présent grand-mère dit son chapelet

 Il me faut du sucre Candi Leni je tousse
 Pierre mène son furet chasser les lapins
Le vent faisait danser en rond tous les sapins
Lotte l'amour rend triste  Ilse la vie est douce

La nuit tombait Les vignobles aux ceps tordus
Devenaient dans l'obscurité des ossuaires
En neige et repliés gisaient là des suaires
Et des chiens aboyaient aux passants morfondus

Il est mort écoutez La cloche de l'église
Sonnait tout doucement la mort du sacristain
Lise il faut attiser le poêle qui s'éteint
Les femmes se signaient dans la nuit indécise

Septembre 1901  Mai 1902.
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; obras: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

sábado, 5 de junho de 2021

Apollinaire: Noite renana

 
____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

Meu copo é cheio de um vinho que treme como chama
Escutem a canção lenta do bateleiro que chama
E conta ter visto sob a lua sete mulheres até
Torcendo os cabelos verdes e longos até o pé

Levantem cantem mais alto rodando tanto
Que eu não ouça mais do bateleiro o canto
E ponham perto de mim todas as louras fadas
De olhar imóvel e tranças dobradas

O Reno o Reno é bêbado onde a vinha se mira
Todo o ouro das noites tremendo lá se admira
A voz canta sempre até que morrerão
Estas fadas de cabelos verdes que encantam o verão

Meu copo se estilhaçou como um riso

Apollinaire

Nuit rhénane

Mon verre est plein d'un vin trembleur comme une flamme
Écoutez la chanson lente d'un batelier
Qui raconte avoir vu sous la lune sept femmes
Tordre leurs cheveux verts et longs jusqu'à leurs pieds

Debout chantez plus haut en dansant une ronde
Que je n'entende plus le chant du batelier
Et mettez près de moi toutes les filles blondes
Au regard immobile aux nattes repliées

Le Rhin le Rhin est ivre où les vignes se mirent
Tout l'or des nuits tombe en tremblant s'y refléter
La voix chante toujours à en râle-mourir
Ces fées aux cheveux verts qui incantent l'été

Mon verre s'est brisé comme un éclat de rire

[Alcools 1913]
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma — Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; obras: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Apollinaire: A cigana

____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

A cigana sabia de antemão
Nossas duas vidas presas pelas noites
Lhe dissemos adeus e então
Deste poço saiu a esperança

O amor pesado como um urso
Dançou de pé quando quisemos
O pássaro azul perdeu suas penas
E os mendigos suas novenas

A gente bem sabe que se dana
Mas a esperança de amar na caminhada
Nos faz pensar de mão dada
No que previu a cigana

Apollinaire

La tzigane

La tzigane savait d’avance
Nos deux vies barrées par les nuits
Nous lui dîmes adieu et puis
De ce puits sortit l’Espérance

L’amour lourd comme un ours privé
Dansa debout quand nous voulûmes
Et l’oiseau bleu perdit ses plumes
Et les mendiants leurs Ave

On sait très bien que l’on se damne
Mais l’espoir d’aimer en chemin
Nous fait penser main dans la main
À ce qu’a prédit la tzigane

[Alcools 1913]
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

domingo, 25 de abril de 2021

Apollinaire: Outono doente

____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

Outono doente a adorado
Morrerás quando a tempestade soprar nas roseiras
Quando tiver nevado
Nos jardins

Pobre outono
Morra em brancura e em riqueza
De neve e de frutas maduras
No fundo do céu
Gaviões flutuam
Sobre as ninfas crédulas de cabelo verde e anãs
Que nunca amaram

Nas orlas longínquas
Os cervos bramaram
E quanto amo ó estação quanto amo teus rumores
As frutas caindo sem que as colhamos
O vento e a floresta que choram
Todas as suas lágrimas no outono folha a folha
                 As folhas
                 Que pisamos
                 Um trem
                 Em que rodamos
                 A vida
                 Que passamos

Apollinaire

Automne malade

Automne malade et adoré
Tu mourras quand l’ouragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des éperviers planent
Sur les nixes nicettes aux cheveux verts et naines
Qui n’ont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que j’aime ô saison que j’aime tes rumeurs
Les fruits tombant sans qu’on les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuille à feuille
                 Les feuilles
                 Qu’on foule
                 Un train
                 Qui roule
                 La vie
                 S’écoule

[1913]
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou por todos os gêneros literários — poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Apollinaire: Crepúsculo

 
____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

À Srta. Marie Laurencin

Roçada pela sombra dos mortos
Na grama onde o dia se extenua
A arlequina se pôs nua
E no lago mira seu corpo

Um charlatão crepuscular
Gaba os números que vão dar
O céu sem cor é um deleite
De estros pálidos como leite

No palco o arlequim descorado
Primeiro saúda os espectadores
Feiticeiros vindos da Boêmia
Algumas fadas e os encantadores

Ele desprendeu uma estrela
E a maneja com o braço esticado
Enquanto que dos pés um enforcado
Os címbalos na medida martela

O cego embala um belo pixote
A corça passa com seu filhote
O anão olha de ar triste
Crescer o arlequim trismegisto *

Apollinaire

Crépuscule

À Mademoiselle Marie Laurencin

Frôlée par les ombres des morts
Sur l’herbe où le jour s’exténue
L’arlequine s’est mise nue
Et dans l’étang mire son corps

Un charlatan crépusculaire
Vante les tours que l’on va faire
Le ciel sans teinte est constellé
D’astres pâles comme du lait

Sur les tréteaux l’arlequin blème
Salue d’abord les spectateurs
Des sorciers venus de Bohême
Quelques fées et les enchanteurs

Ayant décroché une étoile
Il la manie à bras tendu
Tandis que des pieds un pendu
Sonne en mesure les cymbales

L’aveugle berce un bel enfant
La biche passe avec ses faons
Le nain regarde d’un air triste
Grandir l’arlequin trismégiste

[Alcools 1913]

* Nota do Tradutor: Trismegisto: três vezes grande.
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Apollinaire: A Ponte Mirabeau

Imagem relacionada
____________________
[traduzido por Décio Pignatari]

Escorre sob a ponte o rio Sena
           E em nossos amores
        A lembrança me acena
Vinha sempre o prazer depois da pena

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

Mãos nas mãos esperemos face a face
           Até que sob a ponte
        Dos nossos braços passe
O eterno desse olhar em nosso enlace

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

O amor se vai como água turbulenta
           Assim o amor se vai
        E como a vida é lenta
E como esta Esperança é violenta

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

Os dias passam passam as semanas
           Não voltam o passado
        Nem as paixões humanas
E o Sena flui em águas soberanas

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

(Álcoois — 1913)

Resultado de imagem para guillaume apollinaire
Apollinaire

Le Pont Mirabeau

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
            Et nos amours
       Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine

     Vienne la nuit sonne l'heure
     Les jours s'en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
            Tandis que sous
       Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse

     Vienne la nuit sonne l'heure
     Les jours s'en vont je demeure

L'amour s'en va comme cette eau courante
            L'amour s'en va
       Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente

     Vienne la nuit sonne l'heure
     Les jours s'en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
            Ni temps passé
       Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

     Vienne la nuit sonne l'heure
     Les jours s'en vont je demeure

(Alcools 1913)
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Apollinaire: Saltimbancos

____________________
[traduzido por Daniel Fresnot]

A Louis Dumur

Na planície os dançarinos
Se afastam como peregrinos
No solar dos albergues cinza
Pelas aldeias sem igreja

E as crianças vão na frente
Os outros seguem indolentes
As árvores se conformam
Quando de longe eles acenam

Eles têm pesos redondos quadrados
Tambores arcos dourados
Urso ou macaco nada selvagem
Pede dinheiro na sua passagem

(Álcoois 1913)

Apollinaire

Saltimbanques

À Louis Dumur

Dans la plaine les baladins
S'éloignent au long des jardins
Devant l'huis des auberges grises
Par les villages sans églises

Et les enfants s'en vont devant
Les autres suivent en rêvant
Chaque arbre fruitier se résigne
Quand de très loin ils lui font signe

Ils ont des poids ronds ou carrés
Des tambours des cerceaux dorés
L'ours et le singe animaux sages
Quêtent des sous sur leur passage

(Alcools  1913)
____________________
Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880  1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma  Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris  França, transitou por todos os gêneros literários  poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica  e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois  (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913),  Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.