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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Maria Lúcia Dal Farra: Pimentão

 
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A memória do poeta Luís Carlos Guimarães

O nome soa (em alto grau) picante.
A ludibriá-lo,
o legume convoca o paladar para o doce,
engendrado no amarelo, verde ou vermelho
gamas versáteis de uno e generoso gosto.
Surpreende, a quem o aguarda,
com a estatura de fruto
e neste (aliás) se revela
no forno, na salada, no tempero,
sem qualquer desvantagem para a sua natureza
pois que
(para tanto)
foi criado.

Arbusto, nada tem do superlativo que
(por derivação)
lhe é conferido:
esses produtos são ocos
mas sem pretensões retóricas.
Ingênuos,
fazem inveja à maçã, à laranja, ao abacate,
porque apenas se nutrem do que não têm.

Cone
é forma que convida à mordida
informe que
(já de nascença)
toda criança retém.

Nunca teve você ganas de experimentar nele
o úbere da terra?

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, pesquisadora e também professora universitária aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Maria Lúcia Dal Farra: Receita hermética

 
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Oh heroica berinjela,
que mares atravessas
(em sentido contrário ao dos lusíadas)
apenas para aportares à minha mesa!
Em fechada e roxa urna
(desde a Índia)
o caminho marítimo
na contramão descobriste.
E ínvias cartografias
refazes agora nas revoltas ondas do meu forno,
onde santelmo com seu fogo atua.
Cuida que à tua caravela não soçobrem!

Abri-te em duas barcaças
para que (melhor) navegasses.
Destruí, dentro de ti,
A maldição do mar imóvel
(Adamastor em culinária posto)
e, em brando atanor,
massa e sementes refogo.
Devolvida em camadas, ao ventre vazio retorna
(solve et coagula)
tua mesma natureza
tripulação de lavra própria
ostentas.

Queria-te para barcarola
e indigesta me saías.
Mas galgar mares nunca dantes navegados
resulta em insólita gesta

ou ridícula epopeia.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, pesquisadora e também professora universitária aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Figueira

 
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Ligada a Ceres, Juno, Réa, Saturno
(verdadeira encarnação de Syke)
a Baco pertence esta fruta
que na Bíblia se colhe e come
tanto quanto em Homero.

Buda conhece a luz sob a sua sombra.
Rômulo e Remo são ali paridos.
Judas se enforca no mais alto galho.

 Árvore do bem e do mal,
competes
(em bifurcadas ramas)
com a macieira,
mas só tu a tudo ajuntas.
Debaixo da axila das folhas
asilas (secreta) teus testículos 
figos que um látex porejam
a testemunhar ao mundo
o fecundo ritmo infinito.

Fruto preferido do Olimpo,
teu rebento é imortal,
embora seja a mão humana
(e não a divina)
aquela que a tua folha

(inocentemente?)
imita.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

domingo, 27 de junho de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Manga

 
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Ela está sobre a mesa
nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torná-la única:
pera, pêssego, abricô o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afagá-la com as duas mãos.

De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.

Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
(aflita)
não pode conter diante do torvelinho dos sentidos
do cataclismo que o desejo encena
no afã de conhecer-lhe o rosto!

Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(este manancial de sucos que me lambuza,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Abacaxi

 
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Parece vir da aurora de antigos reinados
este senhor dos frutos
pela própria natureza coroado.

A grossa crosta belicosa
defende contra as sedes do mundo
a polpa fibrosa e doce
clara como os lugares onde Deus
deposita sua lembrança
e sabor.
Por isso o fruto levanta orgulhoso
a arquitetura vegetal como um gêiser,
como um cálice
fome que jorra a sua brandura
de baixo para cima (para o alto)
abrindo-a em pétalas de uma flor
lindíssima e difícil
porque cavada na pureza áspera do espinho,
da serra que maltrata e cinge o ar.

Cada um dos pequenos losangos dessa malha
de cavaleiro andante
lembra um espelho onde o tempo se mirou e se ruiu
mosaicos da construção de um culto,
traje multicor de um arlequim que esconde
o buda habitante das inefáveis entranhas.

Aromas e sabores ondulantes
movimentos rumorosos nos dentes,
textura vulcânica, inumeráveis penugens
tudo se desprende dele
(contraditoriamente)
a atestar a dupla e pura natureza

de ouriçada doçura.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Baobá

 
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Eletrocutada por obscuro medo
esta árvore (paisagem da estepe)
retém nos galhos apavorante gráfico:
raios da borrasca.
Ou será antes (conforme os árabes)
o diabo
que invejando-lhe a magnificência
feroz a arranca do solo e inverte-lhe a natureza
ramos no chão, raízes no ar?
Estimo que apenas a menção desta crença
tivesse eriçado para sempre seus cabelos,
muito embora seja diversa a estética que a rege
matéria de entendimento
só de morcegos...

Ao contrário do Pequeno Príncipe
esses parentes de vampiro
querem tê-la em seu planeta.
Na barrica intumescida do tronco
cavam extensa caverna;
e debaixo das fibras
(na cabaça do lenhoso fruto)
secreto e promíscuo vínculo
andaram celebrando com a finada flor.

Com tal profissional da noite
(branca, grande, do caule pendente
plágio deles)
entretiveram sonhos de aroma:
o cheiro forte da raposa, do leite azedo,
do peixe , o odor da couve quente
tudo o que (para quem tem má vista)
o esperto estante sintetiza.

A cada um o seu próprio.
Mas onde encontrar na bela e casta musa
o Nosferatus que a seduz?

Todo amor tem sua cruz.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

domingo, 25 de abril de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Alho

 
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A túnica que me envolve a cabeça
é de cera,
faz fugir insetos,
deixa incerta minha figura
cria sortilégios e mistério.
Mas se mostro os dentes
(e só assim sou benéfico!)
assusto morcegos, capetas
e serpentes.

Povos avançados do universo
um dia me depuseram na Terra
(antes do Dilúvio)
por isso o vulto possuo de testículos,
da bolsa que
(por legítimos meios)
inventa a maravilha curática
para qualquer tipo de anseio.

Loucos? Frenéticos?
Impotentes? Enfeitiçados?
Cru ou aferventado
virtudes exalo para cada cuidado.
Vampiros me evitam,
vermes me temem,
assombrações e escorpiões se pelam 
tudo posso contra seus eflúvios!

Mágico e afrodisíaco,
transito há séculos entre hindus, árabes e egípcios.
Sendo da Sicília nado
sou (por isso mesmo) perito em maus olhados
e jamais confundido com bugalhos.

Meu forte odor
(que faz furor entre os carentes)
me afasta, afinal, das gentes.
Nem dentro de uma réstia
me entendo comigo mesmo

alheado...

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

sábado, 10 de abril de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Os comedores de batatas

 

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Ao alto
(no centro da mesa)
a lamparina espalha pelos comensais
a luz que lhes falta: tudo é carvão
vidas encardidas nas cavernas,
na escuridão. Geradas (como elas)
no negrume da terra
(no seu útero) 
as batatas as sustentam (apenas o suficiente)
para que durem e recomecem o dia trevoso
no baixo mundo
 no paciente aguardo da morte.
Tudo (ao derredor)
tem a cor do ar que respiram,
espécie de nervuras, escuro tule que recobre as paredes
 metáfora que radiografa os pulmões.
A menina de costas é
a única promessa de futuro,
muito embora ela o tenha
(à sua frente)
nas esbatidas e sumidas figuras das velhas
que a servem.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Maria Lúcia Dal Farra: Paisagem do outono

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O que a terra deixa escapar
se chama paisagem.
Em inglês se diz melhor
ao pé da letra
(equívoco de cognatos).
Mas para conhecê-la inteira
ângulos, pássaros,
seus dons ocultos
é preciso pintá-la se
(para tanto)
confluírem o movimento dos dedos
a vontade das cerdas
as tintas que
(como as palavras)
fingem se entregar ao que são
só para atraiçoarem.
Se tal pacto houver
a natureza se deixará capturar 
escapulindo.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Maria Lúcia Dal Farra: Primeiros passos

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São (de fato)
os primeiros movimentos da menina
aqueles do tateio de cores?
Se assim é, ela já nasceu bailarina 
tamanha a perícia dos toques do pincel na tela.
A difícil travessia da horta, do quintal
(enfim, das traseiras da casa)
escolhe a natureza como escala de tropeços.
No entanto
o que se vê é a alegria,
a abertura dos braços,
o receptivo dos tons,
o pulsar incessante de legumes e verduras
que ensaiam juntos a estréia 
brotando no fundo desse mundo
inaugural.

Todo o quadro é uma festa que nos acena.
Que também você seja bem-vindo!

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Maria Lúcia Dal Farra: O tecelão

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Ele e seu instrumento fazem
um só
na imensa diversidade
das coisas do mundo.
Um só o outro se perde:
manca a máquina, cala o que trabalha.
Ela é tábua para o seu pensar
é planície
onde ele se retalha e se acha
em meio à linhagem em que se conhece
tecido
marionete
aranha
parcas.

O que de um lado é apenas trilho
esboço, debuxo
irrompe do outro
completo
inteiro 
definitivo.
Nesse mapa ele se espelha
se reconhece
e
(intensamente)
Pode se amar.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Maria Lúcia Dal Farra: Uva

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Sou coletiva.
Ninguém pensa em mim senão em penca,
em ávida febre compartilhada boca a boca.

No entanto,
(místicos e ébrios o sabem)
natureza solitária guardo.
Baco, ele mesmo, está para sempre acantoado
num dos polos da cultura 
desacompanhado!
A evoé responde o eco
e (só)
sobre o altar
o cálice se suspende.

Eu sou pudica:
talvez por isso Noel
(na arca) me incluísse.
Aliás, as partes nobres se ocultam
(depois dos gregos)
com folhas da minha parreira 
eis como compenso os desatinos
com que atiço os caros afeiçoados.

Se me podam,
músculos aparento no corpo
e já se sabe por onde te reteso:
há uma cítara enlangüecida na videira.
E, então,
não canto extenso como nas manhãs morosas,

mas em hiato 
como canto agora.

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