____________________
A memória do poeta Luís Carlos
Guimarães
O nome soa (em alto grau)
picante.
A ludibriá-lo,
o legume convoca o paladar
para o doce,
engendrado no amarelo, verde
ou vermelho —
gamas versáteis de uno e
generoso gosto.
Surpreende, a quem o aguarda,
com a estatura de fruto
e neste (aliás) se revela
no forno, na salada, no
tempero,
sem qualquer desvantagem para
a sua natureza
— pois que
(para tanto)
foi criado.
Arbusto, nada tem do
superlativo que
(por derivação)
lhe é conferido:
esses produtos são ocos
mas sem pretensões retóricas.
Ingênuos,
fazem inveja à maçã, à
laranja, ao abacate,
porque apenas se nutrem do que
não têm.
Cone
é forma que convida à mordida
— informe que
(já de nascença)
toda criança retém.
Nunca teve você ganas de
experimentar nele
o úbere da terra?
Livro de possuídos — Maria Lúcia
Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo
— SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação
musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se
em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São
Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa,
é escritora, poeta, pesquisadora e também professora universitária aposentada;
lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e
na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador
ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978),
A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica
literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia,
1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas,
2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o
fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.
















