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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Arnaldo Nunes: Fascinação

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Às vezes, quando escrevo e procuro a suprema
rima para encastoar o verso que componho,
em vão tento ordenar o sentido do poema
e estampar no papel o meu grandioso sonho.

Retorço a frase, o verso, a estrofe; mudo o tema,
o metro; inutilmente, enfim, em jogo ponho
todo o meu mérito de artista numa extrema
contenda que me torna abatido e tristonho.

Faltando-me o poder de, numa forma ardente,
ao papel transmitir o que minh'alma sente,
da minha tosca mesa, ao terminar-se a vela,

Ergo-me, muita vez, sem ter composto um verso,
deixando o alvo papel enrugado e disperso,
desde o princípio ao fim, cheio do nome d'Ela.

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Arnaldo de Alvernaz Rodrigues Nunes (1890  1966), fluminense de Valença, formou-se em contabilidade, foi perito-contador, professor de português e literatura, poeta e escritor; de sua bibliografia constam: Poesias (1919), Escalada (poesias, 1935), Religião da Beleza (prosa), América (1945), Sonho de Orfeu (em colaboração dom Adauto Fernandes), Basílio da Gama (1942), A Sílaba Métrica e o Tempo Musical (1946), O Ritmo Poético e a Música do Estilo (1949), e tantos outros títulos; muitos de seus escritos ficaram dispersos em jornais e revistas da época; teve publicações traduzidas para os idiomas francês, inglês, espanhol e esperanto.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Edgard Rezende: Do Soneto

Resultado de imagem para Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — de Edgard Rezende, Casa Editora Vecchi
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Quanta graça na sua forma de ouro fino, quanto brilho no requintado lavor das suas rimas diamantinas, quanta elegância na sua síntese de jóia minúscula e fidalga da mais alta aristocracia espiritual!

Foi Girard de Bourneuil, trovador francês da província de Limousin, o criador do soneto, no século XIII. Girard morreu em 1278, sem conhecer e talvez mesmo sem imaginar as glórias fadadas a esse lindo produto do seu espírito, que havia de imortalizar tantos nomes e constituir relíquias de tantas literaturas.

Coube a Petrarca fazê-lo florir na Itália, passando-se em seguida a Portugal, à Espanha, ao mundo inteiro, para voltar depois, no século XVI, triunfante, à sua pátria, à França.

Gênero preferido e cultivado por quase todos os grandes poetas, tornou-se popular e por isso mesmo a forma poética que mais tem sofrido em mãos inexperientes. Difícil, a despeito das aparências, tem comprometido muitas intenções boas, não só de principiantes, como até de poetas já feitos...

"Le venin du scorpion est dans sa queue et le merite du sonnet dans son dérnier vers" *, disse Théophile Gautier.

Além de ser o mais difícil dos gêneros poéticos 
 "dos poemas de forma fixa é o soneto o mais usado em todas as línguas e o que mais se presta a todos os gêneros literários, desde o épico até o humorístico" (Manuel do Carmo, "Consolidação das Leis do Verso", São Paulo, 1919).

"O soneto para ser belo, diz ainda o mesmo autor, deve obedecer ao modelo tradicional do paralelismo das duas rimas dos quartetos, dos dois tercetos bem destacados e do conceito no último verso, fechando o poema".

Para Banville, com muita razão, as rimas devem parecer 
 "surpresas de se encontrarem, mas contentes do seu encontro". De fato assim é: no soneto, por excelência, deve ser cuidada a rima:  espontânea, harmoniosa, sons diversos, palavras indispensáveis à inteligência da frase, e sempre que possível categoria gramatical diferente, para a mais agradável "surpresa" a que se refere Banville.

No feliz conceito de F. Loliée: "Le sonnet, quand il s'adapte exactement à une idée complete, simple et precise quand il conserve en meme temps l'unité de pensée et le mouvement lyrique, peut étre une vraie criation d'art" **.

Emperrado, porém, nas rígidas correntes clássicas, que lhe não davam a mínima liberdade, revoltou-se ele, muito conseguindo com a lógica e asseada quebra dos primitivos grilhões. Falando a respeito, diz-nos Arnaldo Nunes: "O soneto, porém, não ficou na rigidez clássica. Evoluiu, tomou elasticidade, tanto na forma como no fundo: 
 pode dispensar o fecho; adquiriu o enjambement; tornou-se lícito variar nas rimas, uma vez dispostas com uniformidade. Neste caso (da uniformidade das rimas) há exceções, às vezes boas. Mas é muito difícil não comprometer o ritmo. Isto não quer dizer que tenha ficado mais fácil. Nem mais fácil nem mais difícil. É preciso é saber fazê-lo, ser artista e poeta, tecer a redoma e ter alguma cousa para colocar dentro dela..."

Sim, o que é preciso é ser artista e poeta, pois o soneto, dí-lo Alberto de Oliveira: "... vive ainda, entraja-se um dia ou outro com certo apuro, como aldeão que aos domingos põe a sua melhor roupa de ver a Deus, mas o mais das vezes quando aparece é maltrapilho e vulgar".

Sim, repitamos, o que é preciso é ser artista e poeta; saber fazer o soneto e ter alguma cousa para colocar dentro dele...

Enquanto houver poesia, o soneto há de ser imortal!...



* "O veneno do escorpião está em sua cauda, o mérito do soneto no seu último verso".
** "O soneto, quando se encaixa com exatidão a uma idéia completa, simples e precisa, quando se mantém ao mesmo tempo a unidade de pensamento e o movimento lírico, pode ser uma verdadeira obra de arte".
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros
Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Edgard Rezende (1918  ?  ), paraense nascido em Belém, poeta, cronista, ensaísta, crítico, biógrafo e jornalista, estudioso e divulgador da poesia, escreveu e publicou diversas obras: Araçá contos e crônicas (1940, Rio de Janeiro), Os Mais Belos Sonetos Brasileiros florilégio (1ª ed., 1945; 2ª ed., 1947, Rio de Janeiro), O Brasil que os Poetas Cantam (1946, Rio de Janeiro), Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (1950, 2ª série, 1ª edição, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro RJ) etc.