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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Coppée: Maio

 
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[traduzido por Raimundo Correia]

Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.

A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.

Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes
Ouço os insetos de Maio.

Do sol ao rútilo beijo
Cerro os lábios desgostoso,
E só do lilás desejo
O úmido ramo cheiroso;

Pois em meio às suas dores,
Do lilás, minh’alma em ânsia,
Vê teus olhares nas flores,
Teu hálio na fragrância.

François Coppée

Mai

Depuis un mois, chère exilée,
Loin de mes yeux tu t’en allas,
Et j’ai vu fleurir les lilas
Avec ma peine inconsolée.

Seul, je fuis ce ciel clair et beau
Dont l’ardente effluve me trouble,
Car l’horreur de l’exil se double
De la splendeur du renouveau.

En vain j’entends contre les vitres,
Dans la chambre où je m’enfermai,
Les premiers insectes de Mai
Heurter leurs maladroits élytres;

En vain le soleil a souri;
Au printemps je ferme ma porte
Et veux seulement qu’on m’apporte
Un rameau de lilas fleuri;

Car l’amour dont mon âme est pleine
Retrouve, parmi ses douleurs,
Ton regard dans ces chères fleurs
Et dans leur parfum ton haleine.

(Les Mois — 1878)
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Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, interrompeu os estudos por razões econômicas, conseguiu serviço de funcionário público “em emprego subalterno no ministério da guerra”, trabalhou na biblioteca do Senado, foi arquivista da Comédie Française, “à noite sozinho prosseguiu seus estudos interrompidos”, tornou-se romancista, dramaturgo e poeta “popular e sentimental” do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, teve de se afastar de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864, sua primeira peça (Le Passant) foi encenada com grande sucesso no Théâtre de l'Odéon, em 1869, e seu primeiro conto em prosa, Une idylle pendant le siège (Um idílio durante o cerco), surgiu em 1875; obras publicadas: Le Reliquaire (O Relicário, coletânea de poemas, 1866), Les Intimités (As Intimidades, poesia, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant: comédie en un acte (en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (O Caderno Vermelho, poesia, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (Temporada Final, poesia, 1887), Les Paroles sincères (Palavras Sinceras, poesia, 1891) e diversos outros títulos em verso, prosa e para teatro.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

François Coppée: Ruínas do coração

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Era meu coração um palácio romano,
de mármore construído e pedrarias caras;
muito cedo as paixões invadiram-no, ignaras,
num confuso tropel de bárbaros, insano.

E tudo desabou... Nenhum rumor humano;
só mochos e reptis; flores sem viço e raras;
partidos pelo chão, porfírios e carraras,
e a encobrir o caminho o matagal profano.

Diante desse desastre eu fiquei muitos dias;
manhãs, tardes sem sol e noites sem fulgores
passaram; lá vivi horas longas, sombrias...

Mas surgiste, afinal, numa luz soberana!
E audaz, para abrigar nossos doces amores,
das ruínas do palácio ergui minha choupana.

François Coppée

Ruines du coeur

Mon coeur était jadis comme un palais romain,
Tout construit de granits choisis, de marbres rares.
Bientôt les passions, comme un flot de barbares,
L’envahirent, la hache ou la torche à la main.

Ce fut une ruine alors. Nul bruit humain.
Vipères et hiboux. Terrains de fleurs avares.
Partout gisaient, brisés, porphyres et carrares;
Et les ronces avaient effacé le chemin.

Je suis resté longtemps, seul, devant mon désastre.
Des midis sans soleil, des minuits sans un astre,
Passèrent, et j’ai, là, vécu d’horribles jours;

Mais tu parus enfin, blanche dans la lumière,
Et, bravement, afin de loger nos amours,
Des débris du palais j’ai bâti ma chaumière.

[Arrière-saison; poésies — 1887]
(Le Livre des sonnets — 1893)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 — 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

François Coppée: Para sempre

 
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[traduzido por Antônio Sales]

Murmuras: "Para sempre!" ao meu ombro inclinada.
Nossa separação virá, no entanto. É a sorte.
Um de nós, o primeiro, há de encontrar a morte,
e do chorão dormir sob a triste ramada.

Vinte vezes, do cais, já vira a marujada
ao molhe regressar o brigue de alto porte;
mas um dia se fez de rumo para o Norte,
e o Polo o sepultou sob o gelo. Mais nada.

Vinte anos ao beiral, com a primavera, o bando
de andorinhas volveu, jubiloso, chilrando;
mas o verão chegou, e eu não as vejo mais.

Juras de eterno amor teus doces lábios soltam...
Mas eu penso no adeus dos que vão e não voltam...
Por que a palavra "sempre" em boca de mortais?

François Coppée

Pour toujours

«Pour toujours!» me dis-tu, le front sur mon épaule.
Cependant nous serons séparés. C’est le sort.
L’un de nous, le premier, sera pris par la mort
Et s’en ira dormir sous l’if ou sous le saule.

Vingt fois, les vieux marins qui flânent sur le môle,
Ont vu, tout pavoisé, ce brick rentrer au port;
Puis, un jour, le navire est parti vers le Nord.
Plus rien. Il s’est perdu dans les glaces du Pôle.

Sous mon toit, quand soufflait la brise du printemps,
Les oiseaux migrateurs sont revenus, vingt ans;
Mais, cet été, le nid n’a plus ses hirondelles.

Tu me jures, maîtresse, un éternel amour;
Mais je songe aux départs qui n’ont pas de retour.
Pourquoi le mot « toujours » sur des lèvres mortelles?

(Les paroles sincères, poésies — 1909)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

François Coppée: Na tasca

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[traduzido por Raimundo Correia]

Dentro, na esconsa mesa, onde fervia
fulvo enxame de moscas sussurrantes,
num raio escasso e trêmulo do dia,
espanejando as asas faiscantes,

vi-o: bêbado estava, e inebriantes
e capitosos vinhos mais bebia,
e em tédio, como os fartos ruminantes,
a larga boca, estúpido, movia...

E eu pensativo, eu pálido, eu descrente,
aproximei-me do ébrio, com tristeza,
sem ele quase o pressentir sequer;

e vi: seu dedo, aos poucos, lentamente,
no vinho esparso, que ensopava a mesa,
ia traçando um nome de mulher...


Le cabaret

Dans le bouge qu’emplit l’essaim insupportable
Des mouches bourdonnant dans un chaud rayon d’août,
L’ivrogne, un de ceux-là qu’un désespoir absout,
Noyait au fond du vin son rêve détestable.

Stupide, il remuait la bouche avec dégoût,
Ainsi qu’un bœuf repu ruminant dans l’étable.
Près de lui le flacon, renversé sur la table,
Se dégorgeait avec les hoquets d’un égout.

Oh! qu’il est lourd, le poids des têtes accoudées
Où se heurtent sans fin les confuses idées
Avec le bruit tournant du plomb dans le grelot!

Je m’approchai de lui, pressentant quelque drame,
Et vis que dans le vin craché par le goulot
Lentement il traçait du doigt un nom de femme.

[Le Reliquaire — 1866]
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; François Édouard Joachim Coppée (1842 1908), francês e parisiense, estudou no Lycée Saint-Louis, empregou-se como funcionário público trabalhou na biblioteca do Senado e como arquivista da Comédie Française, foi romancista, dramaturgo e poeta do parnasianismo; em 1884, tendo sido eleito para a Academie Française, se afastou de suas funções públicas e passou a dedicar-se inteiramente à arte literária e à dramaturgia; seus primeiros versos impressos datam de 1864; obras publicadas: Le Reliquaire (poésie, 1866), Les Intimités (poésie, 1867), Poèmes modernes: 1867-1869 (1869), Le Passant (comédie en un acte, en vers, 1869), Deux douleurs (drame en un acte, en vers, 1870), L’Abandonnée (drame en deux actes, en vers, 1871), Le Rendez-vous (comédie en un acte, en vers, 1872), Le Cahier rouge (poésie, 1874), La Guerre de cent ans (drame en cinq actes, en vers), Madame de Maintenon (drame en cinq actes avec un prologue, en vers, 1881), Severo Torelli (drame en cinq actes, en vers, 1883), Les Jacobites (drame en cinq actes, en vers, 1885), Arrière-Saison (poésie, 1887), Les Paroles sincères (poésie, 1891), e outros títulos em verso, prosa e para teatro.